fale connosco


2020-11-29

Aventino Pereira - Porto

SOBREVIVI

                                                                                                                                                                                                                                            6                            

Aparte a comunhão solene e os preparativos para essa cerimónia, não sabia o que era aquilo a que chamavam a religião. O meu pai nunca terá entrado em igreja ou noutro templo de oração e a minha mãe tinha a sua fé em vários santos e santas mas, na prática, não praticava nada. Quando trovejava, ela agarrava-se aso brincos ou arcádias das orelhas e lá vinha uma ladainha qualquer de que eu só percebia, santa Quitéria e Santa Bárbara. Como podiam os pobres acreditar num deus? Sentia-se esse sentir da injustiça, do abandono, da crueldade que havia na miséria imposta sem alternativa de outra vida. “Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste?” (Bíblia; salmo 21 do Livro dos Salmos) nem esse grito tinha já qualquer utilidade porque tantos e tantos o gritaram, sem qualquer resultado útil. Os que, ao domingo, afluíam á igreja, não o faziam por uma vontade clara, mas pelo medo, o medo da condenação, no inferno a arder para toda a eternidade e o pároco, todas as semanas a vociferar, do altar para baixo, contra aqueles que andam arredios da nossa igreja. Fé nunca tive, pois, e acreditar, acreditava apenas na sopa da minha mãe e no dia de Páscoa quando se comia um bom anho assado no forno a lenha. O resto não existia porque a minha infância, polvilhada dos afetos de meus pais, resumia-se às leiras por onde me traquinava abaixo e ao som das águas e ao ribeiro lá no fundo.O demais, porque há sempre algo mais, era o mundo que eu pensava que poderia existir para lá dos limites dos meus olhos.

Agora, fechado na grande quinta para onde fui aprender, para padre? Repete o meu pai? Não, para o seminário, repete o meu professor, agora aqui neste universo novo, começo a ser feliz. É uma felicidade inebriada como criança que tem tudo sem se esforçar por nada: comida, estudo e lazer. Encantava-me o saber, o estudar, o responder nos exames, nos “pontos” como então se dizia, ser o primeiro ou dos melhores da pauta, e o desporto. Hóquei em campo, pelota basca, andebol, voleibol e futebol era tudo um manancial de atividades à quinta feira e ao sábado. “Mens sana in corpore sano”, ensinaram-nos este belo ensinamento que equilibra o homem.

E o meu professor a dizer-me estás cá amanhã ao meio dia para irmos. “Irmos” foi a mais bela palavra de um dos homens que amei ao longo da vida. Irmos, sem outro elemento, outro dado de que eu pudesse inferir é como a segurança de uma criança com o seu pai. Nada importa, o universo não importa, uma revolução não importa, porque, no colo do meu pai, eu sou como Fernando Pessoa in Mensagem: “cheio de Deus não temo o que virá; pois, venha o que vier, nunca será maior do que a minha alma”. Será isto verdade?

Escrevi sobre o dia sete de outubro, escrevi sobre o portão verde da entrada, sobre os portões verdes da entrada, mas não escrevi sobre a entrada, sobre a admissão. “irmos”. E lá estava eu, ao meu dia em casa do professor. Já almoçaste? perguntou-me, e a resposta ia ser sim. Os pobres não podem ter defeitos, nenhum outro defeito, já lhes basta serem pobres e carregarem essa doença como uma tinha impregnada ao seu corpo; mais do que isso é abuso, nem doença, nem fome, nem nenhuma aspiração a sair desse destino lhes era permitido, já almoçaste, repetiu e, como quem pressente o medo da verdade, senta-te aqui e almoça connosco. Connosco era ele, a mãe e o irmão vestido de preto, padre, e eu tremia de vergonha mas a comida era tão boa, comia, comia e ele a dizer, queres mais, e a mãe deles, colher cheia para o meu prato. A camioneta onde que fomos era de caixa aberta. Dois lugares à frente, um pequeníssimo compartimento logo atrás do banco da frente e uma grade. À frente, o condutor e o meu professor e eu de seguida. Atrás de mim, os porcos, vinte ou trinta, talvez, e cada curva, cada reta, cada travagem lá estavam eles a grunhir como num cantar ao desafio a ver quem grunhia mais alto. Vai que não vai lá se cagavam e eu levava como aquele fedor de que ainda hoje me continua como que a entrar pelas narinas adentro,

E o meu professor a fazer-me sinais se ia bem e eu a acenar que sim, o que pode fazer um puto de dez anos numa camioneta de porcos a caminho do seminário, julho, calor, medo e sede a dominarem-me. Já muito próximo do Porto, a camioneta desviou por uns quelhos, ruas muito estreitas, de terra batida, com buracos e pedras à mistura. Foraa mais de dez quilómetros assim, a camioneta a adornar, a merda a cheirar, os porcos a roncar e os solavancos a ameaçaram-me os vómitos e, finalmente, voltámos à estrada de asfalto. Ufa!

Hoje as crianças têm voz, fazem birra, discutem com os pais e com os outros adultos, exigem que as sapatilhas e as calças sejam do que sejam que eles querem, simplesmente porque querem. Hoje as crianças dominam, são elas quem condicionam a vida dos pais, das escolas, do Estado, como um ditador que lentamente se vai impondo até tomar o poder. Já não há limites ao poder absoluto das crianças. Há leis, decretos lei, televisões, jornais, publicidade e supermercados a imporem-lhes o que elas depois impõem aos seus pais. O próprio legislador criou até “os superiores interesses da criança”, uma treta qualquer que ninguém sabe o que significa nem mesmo aquelas meninas que não sabendo de nada fingem que fingem em institutos, associações, organizações não governamentais mergulhadas em papéis e burocracias em prole do que elas designam por crianças.

Limitei-me ao meu cantinho junto aos porcos, encolhido, em silêncio, sem nada exigir ou querer, de vez em quando os porcos fixavam-me, vinham logos mais alguns juntar-se às grades, entre mim e eles só a grade e eles fuçam, tentam cheirar, encolho-me mais e bendita a ideia, finjo-me morto. Os porcos deixaram a grade, deixaram e estou quase certo que pensaram, o tipo está morto e ainda nos acontece a mesma coisa. Finalmente chegámos. Chegámos ao matadouro. Descarregados os porcos, continuámos caminho, a cidade, muita gente e muitos automóveis e eu espantado pelo rebuliço de pessoas, pessoas e mais pessoas pelas ruas adiante em correria louca à procura de nada. É isto a cidade, conclui, numa conclusão assente no texto dos livros da instrução primária, “quem és tu, assim tão simples? E tu, quem és, afinal?. A nobreza da cidade. A Aldeia de Portugal”. Passámos uma ponte, águas lentas, douradas, lá em baixo a caminho do mar e o meu pai a dizer-me, quando passares uma ponte de ferro estás muito próximo do local. Repara bem no rio: se os barcos parados estiverem virados para montante, a maré está a vazar e se os barcos estiverem virados para o mar, a maré está a subir, o que é o mar, meu pai? e eu maravilhado a olhar para os barcos, tantos, e de tantos tamanhos, barqueiros e pessoas, pescadores e estivadores, gente simplesmente a olhar o encanto da natureza. Os barcos estavam virados para o mar.

Cheguei. Os dois portões verdes, umas escadas e o homem de preto. Sotaina, cabeção e sandálias. Deu-me um sorriso doce, de encanto, como se tivesse ficado inebriado comigo.

Os homens da minha aldeia não eram doces, nem sorriam, nem tinham cabeção nem sotaina nem vestiam de preto. Os homens da minha aldeia dividiam-se entre a moirama do campo, a fome de todos os dias e uma borracheira à prova do vinho novo lá para março e outra borracheira ainda maior à matança do porco. Os outros dias, envergonhados da casa que não tinham, da comida que não tinham e de um futuro sem futuro, não recebiam ninguém nos aidos a que chamavam casa;  muito menos de braços abertos como fui recebido. A chuva estragou toda a vinha, o sol de maio queimou a fruta e as hortas e até a brucelose tinha dizimado rebanhos a eito e muitas parelhas de bois. Aquele homem de preto especado à minha espera, a sorrir, nada tinha de humano, humanos como eu conhecia até então, seria este o deus de que ouvi falar? Mandou-me sentar, fez um silêncio e começou uma conversa de circunstância, certamente. De pois, uma folha de papel à minha frente, umas contas de multiplicar e dividir, um texto, uma redação como então se dizia para eu construir e, no fim perguntou-me:

“uma casa toda amarela, com janelas verdes, no cume de uma montanha”. Que comentários fazes a isto”?

As contas, como se dizia, eram difíceis para muitas crianças, não havia máquinas de calcular a não ser os dedos das mãos e verdadeiramente para que serviam as contas a um povo que nada tinha para calcular? Saber fazer contas nem era sinal de inteligência nem sinal de nada, era como uma cana de pesca no deserto. Qual destes elementos está a mais? A cana ou o deserto? Se saber fazer contas de nada servia, para que servia a inteligência se não para o isolamento e a tristeza?,

“Uma casa toda amarela, com janelas verdes, no cume de uma montanha”, que comentários fazes?! continua a voz doce do padre.

E eu sorrio, rio, gargalho-me todo, agiganto-me e vou atrás da patifaria: não há casas todas amarelas, não há janelas verdes, não se podem construir casas no cume da montanha, respondi. Às vezes, a pequenez agiganta-nos, colhemos o seixo do leito do rio, colocámo-lo no centro da funda, girámos, girámos, girámos muitas vezes e zás, lá vai a pedra para o seu alvo. David e Golias enfrentam-se, o padre é grande, tem poder terreno e tem poder divino, olha-me de cima, eu fininho, tímido, branquinho de pele, num enorme casarão,

Além disso, ou a casa é toda branca e não tem janelas verdes ou, então, a casa não é toda branca, disse-lhe. Abraçou-me. Abraçou-me outra vez. Estranhei. Apertou-me. Despediu-se. Ainda hoje escrevo sobre os primeiros anos em que, eu e outros suportamos o seu gabinete, a porta fechada à chave e a nossa inocência às mãos de quem deveria estar para nos proteger.

Regressei à camioneta. O meu professor ali estava ao portão do seminário, cochichava com o padre, o padre olhava para mim, olhava para ele, sorriam-me, sorriam-me outra vez e entrei na camioneta. Porcos já não havia, mas era isso apenas o que tinha mudado. Lá continuava a merda toda, a palha toda, o cheiro que ainda hoje me cheira, o som do grunhido dos porcos a povoar os meus ouvidos. Voltámos ao matadouro municipal. A camioneta parou, o motorista foi lá dentro e trouxe um papel. Agora, certamente, voltarei ao colo dos meus pais, pensei.

Ainda não, como se houvesse o mesmo combate da Baía dos Porcos, Cuba, 1961, três dias e a derrota de uns e a vitória de outros. A camioneta chegou já noite á casa do meu professor de instrução primária. Era Verão já o sabemos e no Verão quando se diz noite, diz-se necessariamente depois das vinte e três horas. Foi isso mesmo, apeámo-nos por essa hora. Queres ficar cá em casa, disse-me ele, não, senhor professor, é melhor eu ir para casa, respondi, porque a vergonha e o medo não me deixaram dar outra resposta.

                                                                                                                                                                                                                            7

Sós os pobres reconhecem a bondade da dádiva e dos gestos dos outros. Só os pobres são agradecidos e sabem que, num instante qualquer das suas peregrinações, alguém foi capaz de lhes saciar o corpo ou de lhes saciar a alma. Os ricos são como as gaivotas dizem aos peixes na baixa mar: não me importa que morras desde que morras no meu bico;  ou de outro modo, não morras hoje porque, mais maré menos maré, hei de comer-te. O meu professor disse-me outra vez, queres ficar cá em casa?!  E eu quanto queria dizer que sim, foi quanto disse que não. Fiz-me ao caminho. Dali, do centro da Freguesia até aos meus vales, sete quilómetros, dez mil passos, uma hora de caminho, escuridão, levadas a gorgolhar, uivos dos cães, corujas e mochos no piar do seu agoiro, serra e raposas, javalis, gatas com o cio, sombras das árvores balançando-se ao vento a tolherem-me a minha própria sombra. Fui como um galgo que persegue a sua lebre. Fui, não é verdadeiramente a palavra certa. Voei como se os pés nunca tivessem pousado no chão, voei ao som das palavras do Antigo Testamento, cidade de Sodoma, não olhes para trás porque, como a mulher de Ló, me haveria de transformar numa estátua de sal. Voei, já o sabemos, mas, como num qualquer voo continental ou intercontinental, o comandante da aeronave define o plano de voo: a rota, o aeroporto de destino, as alternativas, o combustível de que dispõe. E eu? Como chegaria a casa, de noite, sete quilómetros de caminhos em noite de breu?! Havia duas rotas possíveis: a rota nascente como hoje a defino e a rota poente como também hoje a defino, pela primeira vez. Qual é que deveria escolher? Nas aldeias desse tempo, os fantasmas éramos nós próprios. Corriam mistérios, lobisomens, bruxas e almas perdidas, ressuscitados e suicidas que regressavam à aldeia um milénio ou dois depois de terem aparecido pendurados nos troncos velhos das oliveiras velhas de umas leiras carcomidas. No moinho de baixo tinha aparecido uma criança, um anjinho, vindo do céu para converter os filhos do Ramoa que, sete e oito anos de idade, já se atiravam para debaixo da pipa do verde tino a escorripichar as gotas da torneira mal apertada. Na poça das bruxas, quem por lá passasse de noite poderia ser arrebatado para um mergulho eterno na poça lamacenta. As minhas alternativas?

Hipótese I: casa do professor, ladeira do adro, adro da igreja, igreja, cemitério, carreiros pelo meio dos campos, curva do defunto, fraga, alma grande, casa.

Hipótese II: casa do professor, sorte da serra, poça das bruxas, vale da missa, torno do enforcado, capela do suplício, fonte da matança, casa.

A minha mãe chorava, os vizinhos faziam velório à porta, o meu pai, de petro max numa mão e marmeleiro na outra, ia fazer-se ao caminho. Choravam. Ninguém me perguntou nada, ninguém me censurou, foram-se embora uns e nós fomos dormir. Antes disso a minha mãe sussurrou-me “cheiras tão bem”, sem que jamais viesse a saber que as fezes dos porcos e o meu suor produziram um perfume original. Naquele momento em que cheguei, todos estávamos perante um miúdo transformado em metade humano e metade divino; metade da aldeia e a outra metade prestes a ir para um mundo desconhecido. Foi aí, nesse mesmo instante, noite, noite escura, que soube que a minha obrigação era partir: para o seminário ou para outro destino. Da minha aldeia?! Deixei de ser!

Quando o meu pai perguntou ao meu professor, “para padre?!” era a pergunta que tinha relevância. São sempre as perguntas que têm importância e não as respostas. Nos dias de hoje, o cérebro amarfanha todos os dias, limita-se á preguiça, aos dedos das teclas, a um computador estúpido ou inteligente segundo os olhos de quem o olha. O senhor tem horas?! perguntou-me uma rapariga, na rua. Sim, tenho, respondi-lhe. E continuei. O cinismo foi recíproco, obviamente nem ela queria saber nada acerca das horas do dia nem eu tinha qualquer relógio. Ela queria vender-me os seus favores e eu quis que ela se fodesse. A pergunta do meu pai “para o seminário’!” tinha outra substância, soube-o, deduzi-o eu cinco anos depois numa das aulas de desenho geométrico. O teu nome? Perguntou-me este professor? Disse-lho. O teu nome completo? Insistiu. E disse-lho. Só dois nomes? continuou? Sim, só dois nomes, o próprio e o sobre nome. Oh! Isso é muito mau! Fim de citação. Isso é muito mau, permaneceu dias e dias no som cravado no meu cérebro de adolescente. Isso é muito mau! O que quereria dizer?!

O meu pai foi cinco anos clandestino em França, alistado na Legião Estrangeira a soldo, maçon, combatente pelos Republicanos contra a Falange do ditador Franco, depois fugido para França, alinhado na “resistence” contra os nazis, capturado e repatriado para Portugal, país neutro na Segunda Guerra Mundial. Solteiro aos quarenta anos. A minha mãe era uma moça do campo, pais caseiros da Quinta da Casa Grande, dezanove anos de idade, à espera do cavaleiro vindo dos Pirinéus que, num raio da luz coada do pôr do sol, a arrebatasse como sua mulher. Nem os pais do noivo fizeram questão nem os pais da noiva questão fizeram. Ele “fez-lhe o mal” como então se dizia e, num instante, lá estavam os dois a viver juntinhos, na casa contígua à casa da minha avó paterna. O que era, anos quarento do século vinte, segunda guerra mundial no seu auge, Deus, Pátria e Família a imperar na vozinha eunuca do senhor Salazar e a proclamar “devo à Providência a felicidade de ser pobre”!  Nem uma nem outra são apanágio do ditador. Afonso Pena escreveu, de facto, que a vida se exprimia em quatro palavras, “Deus, Pátria, Família, Liberdade” e quanto ao demais nem o ditadorzinho era pobre para o quadro sociológico do país, e, dos contactos que fiz com a Providência sempre me disseram que a questão da pobreza ou da riqueza “ não são connosco, nós nem sequer temos conta bancária”.

Vindo de França, o meu pai era um herói. Falava um pouco de francês, tinha os ideais republicanos e era um combatente. A somar a estas virtudes outras virtudes se juntavam: “deveria querer assentar”, e “traz muitos francos, de certeza” comentavam as mulheres na sua avidez feminina de que “não importa como conseguiste o dinheiro”; o que importa é que o tenhas”. A minha mãe rondou-lhe a casa, ele rondou a casa dela e naqueles dias em que o corpo da mulher exige e o do homem já há muito deseja, fez-lhe o mal. O meu pai “fez-lhe o mal”. Ainda que ao tempo, considerando a idade de minha mãe, o crime de estupro estivesse já afastado, sobrava a honra de um homem assumir pelos atos que, certamente, não “pensou bem que vai realizar”. Na verdade, em muitas destas circunstâncias, a honra era o disfarce da cobardia, como quase sempre, aliás. O pai da rapariga esperava o rapaz, ao anoitecer, e encostava-lhe a caçadeira ao gorgomilo, “oh meu filho da puta, ou casas já com ela ou enfio-te os sete cartuchos pelos tomates adentro” e de manhã lá estava ele a anunciar aos pais que ia casar com a Maria da Quinta da Casa Grande. Nunca me constou que o meu avô fosse caçador ou tivesse alguma arma nem o ego de meu pai seria capaz de admitir que alguma vez teve um simples dedo apontado ao pescoço. Fosse como fosse, certo é que os meus pais “amancebaram-se”, sem se casarem, civil ou religiosamente. Ele quarenta anos, ela dezanove, desde então até às suas mortes. E solteiros foram até muitos anos após o nascimento do filho mais novo.

Nesse tempo, os filhos de pais casados levavam o sobre nome de ambos e o nome com que os pais ou os padrinhos decidissem batizá-los. Os outros, os filhos de pais solteiros, eram apenas filhos da mãe. O pai era incógnito. E era essa palavra que constava no bilhete de identidade no lugar do nome do pai. Filho ilegítimo para efeitos civis, filho de pai incógnito para efeitos de identidade. Quando o meu pai perguntou “para padre” sabia que, na verdade, levantava muitas outras questões. A vida em pecado aos olhos da Igreja, a vida concubina com uma mulher era uma vida em pecado. A sua ausência total da igreja da freguesia onde nunca teria posto os pés, as relações de inimizade com o pároco, o seu ideal maçon, o seu charme de um afrancesado.

“Para o Seminário” já sabemos esta resposta do meu professor de instrução primária. E essa resposta apaziguou-o porque ela continha a resposta para outras muitas perguntas que o meu pai já não fez. Este diálogo entre dois homens da minha vida, interpretei-o logo como deveria interpretar. E foi esse diálogo que me moldou a vontade de ir, porque, afinal, o meu destino não era definitivo. Foi também esse diálogo que me deixou manter a liberdade. Se não tinha fé nem crença alguma, também nunca as ganhei. O deus de que tantas e tantas vezes me falaram, a esse deus que me endeusaram, apenas tinha medo: o inferno, o pecado, o seu poder de tudo ver e tudo poder, essas fantasias tornaram-se ladainhas e de ladainhas passaram ao ridículo e do ridículo à minha indiferença. A tudo o que me ensinaram eu disse que sim, quando era para dizer que sim e disse que não quando era para dizer que não. Sem qualquer remorso ou medo de vir a arder eternamente no forno dos infernos. E hoje?! O que gostava de ser hoje? Crente, claramente. E hoje, a estes dias passados, sou crente?! Ou apenas descrente de qualquer crença?! Os escritores, quem se alcandora a essa hipótese de alguém, “olha, olha, aquele é o escritor”, quem ascende a essa grandeza, quem se questiona sobre a perenidade da escrita, quem se refletiu nas águas do Rio do Ouro e perguntou: acredito? fez, com certeza, um longo e longo peregrinar bem antes da pergunta, bem depois de qualquer resposta que, porventura, algures, num ponto infinito do planeta, pudesse ter obtido. Não sabemos!

No regaço do meu pai, eu e ele perscrutávamo-nos  “questa nobile domanda” e ele desatava a parlare,  o pai do meu pai, di Roma, certo! Quirinale, Palatino, Aventino, “solo es romano sette seculi di Roma, e o meu pai a dizer, não são sete séculos de Roma mas “sette generazioni di Roma” e encantado pelo vibrato da sua voz o que eu queria era mesmo alimentar este discurso.  De que país somos? Nunca lhe perguntei; nesta exata objetividade, obviamente.

                                                                                                                                                                                                                                            9

O meu portão verde, os meus portões verdes onde entrei ainda continuam verdes. Subo a rua, mala de cartão castanho e o irmão auxiliar, alto, magro e seco como os lobisomens das noites de minha aldeia, os olhos azuis, azuis como os piratas que o meu pai me inventou, os olhos são azuis meu filho, lançam chamas cospem fogo, riem, gritam sons e risos que atravessam a tua alma e a alma de todos, é assim mesmo meu pai? não, não meu filho, são fantasias, são pensamentos fantasmas do teu pai e o que são fantasmas, meu pai? Os primeiros dias são todos de encanto, como em todas as circunstâncias da vida. Os primeiros dias trazem-nos uns olhos novos, um universo novo, um refúgio doce para quem tem a alma da serenidade. Os meus primeiros dias foram o meu nada, o mesmo nada a que a minha mãe se referia, em que pensas meu filho?  O que eu gostava mesmo era não pensar, o que eu gostava mesmo nesse tempo em que a voz de minha mãe se encostava ao meu rosto e soletrava todas as letras de todas as suas palavras. Como eram belos esses dias em que ela me tocava! E se em todos os tempos das minhas décadas em que degustei Marcel Proust em “ a recherche du temps perdu” não fui mesmo como Proust foi na sua vida, foi apenas porque nem a sorte nem a desgraça me brindou com casa, escadas, criadas e papel para escrever. Na casa de meus pais, chamando casa aos sítios onde as pessoas dormem, ou aos lugares imaginados pela mediocridade do pensamento de alguns, uma barraca, uma tenda, um espólio debaixo de uma ponte, como o “centro da vida familiar e doméstica”, sim, sim, isso mesmo, debaixo de uma ponte, no juízo decisório dos tribunais, essa coisa é uma casa. Na casa dos meus pais, não faltava nada. Filhos, muitos, tias, muitas, tios, muitos e até ciganos e o “cu podre”, um vadio corta montes que, nos ciclos frios do inverno, ali aportavam para que o meu pai os deixasse dormir por umas noites aconchegados ao quente de uma família, de um caldo de legumes, de uma lareira de brasas crepitantes durante toda noite. O meu pai escondia os chouriços e os salpicões, os presuntos e as cebolas, os pimentos curtidos, as azeitonas, o azeite e até algumas alfaias para que a ciganada não se tentasse na ingratidão e malvadeza contra quem lhes cuidou da fome e lhes cuidou do frio. Quando eles partiam, lá voltava ele, escadote acima a pendurar os chouriços e os presuntos, as cebolas e até as uvas passas que sobejaram da pirataria dos gaipos que eu e os meus irmãos, perfeitas que foram as vindimas, nos apressámos a gamar à vizinhança. Quando o meu pai morreu, não mais ciganos nem vadios aportaram à casa velha da minha aldeia velha do resto dos meus sonhos velhos para uma noite pernoita no colchão de folhelho que o meu pai lhes preparava. Como se o pio das corujas lhes tivesse anunciado que a barca com que o meu pai haveria de passar além, já zarpara do cais.

Os meus primeiros dias no seminário foram todos de encanto, já sabemos. Quem não se inebria com uns lençóis brancos e lavados, um por cima e outro por baixo numa cama larga, firme e cheirosa como jamais tinha conhecido? Os primeiros dias são sempre de encanto disse-me um dos meus tios maçon regressado de Orléans nesses tempos em que cultura ainda era tudo aquilo que nos resta depois de esquecermos tudo aquilo que aprendemos, quero ser escritor, meu tio; sim, podes ser tudo desde que não esqueças que tudo é encanto até ao instante em que tu decides que deixa de o ser, respondeu-me

E ali estou eu dia sete de outubro deitado na cama de uma das cem camas do dormitório. Apaga-se a luz, faz-se escuridão, há uma lanterna aqui, outra lanterna ali e os vultos cirandam  negros, esvoaçam negros por entre as filas de todas as camas. São os perfeitos nas rotinas da fiscalização. A primeira noite só o corpo exausto me obrigou a dormir. O que é a primeira noite nem os noivos a sabem descrever, tomados de todo na ansiedade do seu desempenho na noite de núpcias. Nem as noivas, essas noivas dessas décadas de que falo, alguma vez dela falaram: ou a pureza do seu corpo as obrigara à ignorância ou o desgaste da roda que já levavam, as obrigara à contenção.

Noite adentro nos lençóis novos como o príncipe em sonhos no seu dossel até ao primeiro som das seis horas e quarenta e sete minutos, laus tibi Christe, laus tibi Christe, laus tibi Christe, voz alta e firme e as mãos a baterem palmas, palmas e mais palmas, por entre as filas do dormitório dos sonhos das cem crianças. Era a hora, era a hora que me transportou até à leitura do Evangelho que tanto me tinha impressionado no dia da minha comunhão solene. “vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do Homem chegará” (São Mateus, Evangelista). Laus tibi Christe, continua o perfeito batendo palmas. E levantávamo-nos. Casas de banho, lavar os dentes, lavar a cara e vestir. O dia vai começar, os dias nos seminários só começavam quando começavam as orações da manhã, a missa, a comunhão lá íamos nós em fila e as mãos em reza fingida ou sentida, em reza ao Altíssimo. Quem era o Altíssimo? Era a pergunta que martelara a minha cabeça durante todo o primeiro ano, enquanto caminhava, passo a passo em direção ao altar, na filinha, mãos em prece, para abrir a boca, esticar a língua, “Corpus Christi!” Amen. Seguia-se o primeiro almoço, como eles diziam, em silêncio, “todos em silêncio” “agradeçamos a Deus por este novo dia”, “Amen”, respondia-me eu sempre a todas as orações ladainhas sem saber o que rezava. Amen era como a senha que o sentinela grita para o camarada da guarita, “Amen” representava-me a descida à terra, o momento em que a porta do compreensível se fecha toda ao divino, era o momento em que eu deixava de estar obrigado a acreditar. Estamos todos em movimento, da capela para o refeitório, são oito horas e seguimos como se levitássemos; nem um só ruído perturbava o momento. Sentados que estamos, não se pode falar. Vem a cafeteira com leite e café misturados, a sêmea e uma peça de fruta da época. Não há restrições para as quantidades, cada um serve-se do que quiser, mas se se serviu, tem que comer. Não havia restos nenhuns que pudessem ser devolvidos à cozinha mas se não havia limites á abundância, também não padecíamos de gula. Não havia gordos no Seminário e abundavam até muitos de nós, esqueléticos, a quem a comida não passava da boca para baixo, tal eram os nós de angústia e saudade, cravados nas nossas gargantas de desamor e da falta da ternura de nossos pais. Os padres estavam vigilantes, também eles tinham cruzado esse mesmo caminhar, estavam atentos à nossa palidez, ao nosso isolamento do convívio com os outros, ao desinteresse no desporto e à diminuição do desempenho escolar. E lá tinham a sua receita: de um dia para o outro, sem qualquer anunciação, os nossos pais, vinham visitar-nos. E tudo melhorava. Por mim, fui criado a pão e a maçãs. Leite não tomava mas não dei a conhecer essa minha alergia durante os dois primeiros anos. Os pobres também não têm direito a ter defeitos, já lhes basta ser pobres, já lhes chega a censura social à pobreza, como se fosse uma escolha, um caminho que cada um seguiu, livremente: para pobre ou para rico. Não podia queixar-me, tinha medo,

senhor padre eu não tomo leite, dê-me só café, como poderia ter feito este pedido sem que ficasse registado no crivo dos que não têm vocação para o sacerdócio? A vocação não se media por um sentimento intimo, por uma força interior, por uma voz que nos impelisse a responder à chamada: “vem e segue-me”. Media-se pelo negativo dos dias, pelo não intervir contra a ordem da Congregação, por não pensar fora do pensamento, por ir indo e indo, guiados humildemente como servos, aqui estou ao dispor de vossa excelência, atento, venerando e obrigado, como era o palavreado das cartas e ofícios dos funcionários do Estado Novo, dirigidos aos superiores hierárquicos. Nos tribunais continua a pender os adjetivos da subserviência, meritíssimo, venerando e colendo, e sobretudo a pedir-se justiça, como se em algum tempo da história os tribunais tivessem existido para cumprir a justiça ou como se em algum tempo uns homens e mulheres colocados na cadeira de quem escreve despachos e sentenças estivesse ali para cumprir essa palavra. O que importa é a forma, o que está no processo, que sejam praticados corretamente os atos formais dos autos, desde a primeira folha até à última folha. O Homem?! O Homem é o fim da linha do processo?

                                                                                                                                                                                                                            10

A vocação para a vida religiosa era como o virar da página, página a página, ano a ano. Nem os muito inteligentes chegavam ao destino nem os burros saíam dos primeiros anos do internato. A diferença incomoda sempre como num bosque de eucaliptos não medram flores nem borboletas e esse viver amando a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, criou-nos a forma, o caminho, o triste andar como o trilho de todos, igual aos outros, nem de mais nem de menos. Vocação terá sido certamente a palavra que disseram de mim sem que me tivessem perguntado qual era a minha vocação. Nem hoje mesmo eu sei o caminho de vida que gostava de ter percorrido. Sabemos com um maior grau de certeza sobre o que não queremos, como se todos fôssemos Bartleby, o célebre personagem, escrivão, de Melville, repetirmos sempre “eu preferiria não o fazer, “eu preferiria não o fazer” e, sabendo o que não queria, deixei-me ir, ir e ir e ir para onde as marés me levaram porque focado estava apenas no que, verdadeiramente, não queria. Talvez seja mesmo o fruto da condição do pobre, não ter leme nem comando, não ter destino nem horizonte, deixar-se ir por onde o levam o furacão e a brisa, os alísios e a tempestade. A meio da manhã, três ou quatro vezes durante o ano, convivia com a morte. Enevoavam-se-me os olhos, tinha desequilíbrio, tonturas e dores de cabeça e, meia hora depois disto começar, vomitava. Fazia-o sempre em silêncio, escondido dos outros para que ninguém soubesse o que me acontecia. Não fui à enfermaria onde lá estava sempre disponível e com a bondade que era todo bondade o enfermeiro, quereria saber tudo, ouvia-nos, abria-nos os olhos para apurar do seu grau de amarelo, a boca, examinava os dentes e o peso e perguntava sempre se tínhamos saudades dos pais e dos irmãos. Não fui à enfermaria, nunca contei a ninguém destas minhas convulsões, tinha medo, medo que os padres soubessem e sabendo-o, doentes não queremos cá; sem mais nem menos, depois dos catorze anos, não voltaram a acontecer.

Regresso agora às férias de Verão. Quatro meses com os meus pais, de dez de junho até ao dia sete de outubro, dia de regresso ao internato. Quando regressava a casa, jã não era a minha casa, os meus irmãos saíram, as crianças da minha meninice já não eram crianças e a escola primária tinham agora outras iguais ao que eu fora, tristes como eu fora. Eu já não moro aqui, repetia muitas vezes para me confortar com a ausência dos afetos de que precisava. A primeira semana ainda era novidade, os meus pais estavam felizes e mimavam-me como quem pretende viver os dias que não viveu. Pediam-me que lhes contasse como era a vida lá longe onde eu vivia, o que estudava, os meus companheiros quem eram e de onde eram, novidades que eu não tinha, não sabia contar. De religião, nunca me questionaram, o meu pai porque não queria saber, a minha mãe porque não queria contrariar o meu pai. Eles bem sabiam que eu não estava internado para ser padre; eu é que não sabia. Passada que era a primeira semana de férias, já não havia novidades e vinha-me o tédio e a ausência. Eu era o meu próprio ausente. Caminhava só, ia para o rio sozinho, rebolava-me pelos campos abaixo sem mais ninguém, e, sentado na soleira da porta, meditava. Quatro meses assim, numa aldeia vazia de gente, vazia de esperança e cheia de aerogramas e militares mortos em combate nas Províncias Ultramarinas. O vestuário das pessoas da minha aldeia só tinha uma cor, porque de luto um dia, de luto toda a vida. Não se vivia, proclamava o meu pai para acicatar o “Botas” como ele chamava ao Presidente do Conselho. Ao domingo ia á missa, não por fé, que essa nunca tive mas para ver pessoas, ver raparigas ao longe e fingir que não me podia interessar por elas. A igreja abarrotava, ladainhas em latim e mais latim, homens à frente na igreja românica e mulheres atrás escondidas no xaile preto com que tapavam as suas cabeças. À semana, também ia à missa, não por uma qualquer razão positiva, a missa tinha meia dúzia de velhas, sempre as mesmas que entoavam sons que acabam sempre com o mesmo palrar: “ámen”. Se ia à missa nesses tempos da semana era apenas por duas razões objetivas: a primeira, para sair de casa e a segunda para que o padre da paróquia escrevesse aos padres do seminário que o menino era tão bem comportado que até ia quase sempre à missa em louvor de nosso senhor jesus cristo e eu dizia ámen a tudo, juntava a mãos em oração ao divino mas, verdade, verdade, o meu pensamento voava para longe da nave da igreja, para a poesia, para os braços de Yolanda, para as pernas da Palmira que eu lhe tinha espreitado. Pecado? Nunca pequei porque só peca quem sabe o que é o pecado e mesmo quando o confessor nos interrogava “pecaste contigo próprio “ e insistia “pecaste contigo próprio” e “brincaste contigo” respondi-lhe sempre: não, não, nunca. Brinco é com os meus amigos, fingindo que não percebia o alcance da pergunta no confessionário. Quando botei corpo e não mais podia fingir que não entendia a pergunta, lancei mesmo a provocação: “o senhor padre está perguntar-me se bato à punheta”? E tudo morreu ali. Nem mais me foi perguntado o que fazia com o meu corpo nem eu tive necessidade de mentir.

2020-11-20

assis - Orbacém

Boa noite, amigos AAARs

Paz e Bem...

P.S. - Estas 2 letras costumam colocar-se no final para acrescentarmos algo que nos passou na conversa talvez por falha dos neurónios, como acontece nas ligações eléctricas que eu costumo fazer.

No caso do momento, para que tal não aconteça, vão no início do que poderei vir a escrevenhar para que nada falte e se falhar algo que falte todo o resto...

Aos amigos escritores quero pedir, por favor, que escrevam grosso, ou em tamanho graúdo, de modo a que não forcem a faciência e sobretudo a vista dos "pitosgas" mais idosos. Nós desejamos continuar a poder ler os v ossos belos trabalhos de  escritores Palmeirescos.

Aqui deixo, antecipadamente, um BEM-HAJAM, em meu nome e no de todos aqueles que se encontram em situação semelhante. 

    Dito o post escriptum e porque o tempo de pandemia se apresenta como algo apropriado, apenas quero partilhar convosco o que me aconteceu nas duas mudanças que fiz de residência: de Gaia para a Maia e da Maia para Orbacém. Em ambas me apareceu gente a perguntar se já estava inscrito na freguesia para descontar para a compra do lugar no cemitério, para que, após a hora fatal, não deixasse problemas à família...Um momento de pausa e respondo que ainda não, mas que iria tratar disso mal pudesse. Claro que ainda não tratei nem tratarei no caso da segunda mudança, tal qual na primeira. Eu penso e quero continuar a pensar na vida, não na morte. Quero viver o dia de hoje e o de amanhã... o resto virá a seu tempo. A menos que apareça por cá um coveiro, estilo daquele que tentou o Aventino, e eu me deixe hipnotizar pela sua tentadora argumentação.

Por falar em Aventino, aqui lhe deixo a garantia de que lerei a sua autobiografia, mas a contagotas, apesar da sua advertência.

 

2020-11-16

ANTONIO ROSA GAUDENCIO - LISBOA

Sem rodeios, aqui me confesso: gosto de ler o Aventino.

Nestes primeiros capítulos da sua  "biografia ", mais que os factos e os feitos, apreciei a forma que usou para  os contar. 

Uma prosa  interessante, sinuosa, provocadora, bem conseguida e outras coisas mais  ( e puta, a senhora é ? )

levou-me a ler os primeiros capítulos de um só fôlego.

Dado que a  " entrada " foi suculenta, fico a aguardar o prato de peixe, o de carne, a sobremesa e tudo o mais com  que a  " ementa " nos  possa surpreender.

 

 

2020-11-07

Aventino Pereira - Porto

VIVER É FODIDO

No exangue triste da inutilidade, lá vou escrevendo, como se escrever pudesse adiar o fim. No jardim de minha casa, há gaios e pardais, rolas e gaivotas, pombas e pegas, putas e putas que passam na minha rua com tiques de damas da nobreza fina da minha paróquia. Há dias, uma delas, abeirou-se-me. Não sei bem o que é que ela disse, era feia, muito feia, como quase todas as que cirandam aqui pelas ruas da minha Nevogilde. Blá, blá, blá, lá continuou ela. E puta, a senhora é? questionei-a. Como é que sabe? respondeu-me.

O mundo está cheio disto, de quem vende, um preço, o pagamento, recebi, passei recibo, não importa o que vendi. Alma ou corpo, sentir ou não sentir, a dignidade ou a ausência dela. Viver hoje é fodido, tenho um jardim grande, tem árvores e relva, em frente o mar, em frente New York City, em frente uma solidão eterna do meu olhar eterno. A minha casa tem uma balaustrada, a balaustrada tem colunas, são colunas de ferro, são colunas de granito, há dias quis enforcar-me nelas, andei à volta, procurei a melhor, a própria, apropriada, a da dimensão certa para o momento certo em que o meu metro e oitenta e dois de altura fosse bastante para deixar aqueles centímetros em que o corpo baloiça da corda pendurada pelo pescoço. Não há nada como escolhermos o nosso próprio momento, não é?!

Não foi, não. Não foi. Não tinha a corda.

Agora escrevi uma autobiografia. A minha. Uma merda, obviamente.

Partilho, convosco, as primeiras páginas dessa inutilidade. não leiam, por favor, não leiam. Podereis ecoar a mesma voz de uma voz solitária.

2020-11-07

Aventino Pereira - Porto

                               1

 

Dizem que as autobiografias percorrem o íntimo da vaidade ou são como Narciso mergulhado na sua própria imagem refletida no lago.  Narciso debruça-se, inclina-se um pouco, um pouco mais ainda e vê-se. As águas trazem-nos sempre todas as suas belezas, o som do caminhar para os braços do mar ou o reflexo da luz com que a elas nos entregamos. Narciso encanta-se no próprio encanto de só gostar de si.  Outros dizem que as autobiografias são como quem se deita no divã do psiquiatra e, de sessão em sessão, lá vai exorcizando demónios, paixões e segredos.

Uns e outros estarão certos como certo é que todo o ego e a sua representação são lugares de absoluta desconfiança e todo o silêncio como toda a palavra são discutíveis. Para quem crê, um sopro divino, do nada nos fez assim; para quem não crê, de onde viemos não tem qualquer importância.  “nasci, vivi e morri; depois de morrer, não me lembro de mais nada” (Vergílio Ferreira).

Houve tempos, ainda tenho tempos em que resvalo para um palco. Construo o cenário, reduzo a luminosidade até à penumbra, aqueço a voz, espero, fecho os olhos, espero, momento certo, agora, ação, ação, digo-me, digo-me e persona contra persona, questiono essa questão: onde estou?!

Não sei a resposta, nunca encontrei a resposta; nunca encontrei respostas para nada; felizmente. E se há futuros de que tenho medo, aí está um deles, esse de um dia qualquer, nos passeios que faço em frente a este meu mar que me bordeja, um dia qualquer encontrar uma resposta que me apazigue. Não quero paz; quero apenas a inquietude de a procurar. E aqui estou eu sem saber por onde começar. Afinal, quem sabe onde está o princípio, por onde se começa quando se começa? Poderia, é claro, partir do vale da minha aldeia onde devo ter nascido,

não me lembro.  Ou poderia partir deste exato momento em que me inicio uma outra partida. Todos os dias são isso, não é? Começar a acabar, começar e nunca acabar: “em breve estarei morto, finalmente, apesar de tudo” (Samuel Beckett). E agora que evoco Beckett, já não sei se esperei alguma vez por alguma coisa ou se foram coisas que me fizeram esperas e me dominaram os dias. Estarei, também eu, sempre à espera para dar a impressão que existo? O que pensas, meu filho, é a voz de minha mãe que intervém, ficas tão calado, diz-me ela. É, ficar calado foi-me um desígnio, a minha indefinição.

Se ao menos houvesse uma definição para os humanos, haveria quadros e números, regras e esquadros, bitolas e mapas, mesas de café onde os de um metro e oitenta e dois de altura e oitenta e cinco quilos de peso, para este lado, os com menos de setenta quilos para a esquerda, faz favor; para os outros, para os outros já não temos lugar. Se me lembrasse e aqui pudesse contar, fui aumentando desde o zero até aos três quilos e quatrocentos gramas. Depois o tempo fez parar as balanças, não havia balanças, não havia moedas para meter nas balanças e tudo se concentra e define no Rua do Corpo da Guarda na cidade do Porto, unidade de recrutamento militar, DRM. Uma balança decimal, um varão para medir a altura e o enfermeiro a apalpar-me os coisos para apurar se eu era invertido, como se dizia a esse tempo. “Apurado”, gritou o sargento. “Podes sair”. Tinha dezoito anos e ao meu lado, raquíticos, enfezados e esfomeados, estrábicos e analfabetos. “Apurado”, continuava o sargento. Guiné ou Angola, guerra, guerra do Ultramar esperava-nos; infantaria, tiros e tiros, matar ou morrer e Fernando Pessoa ali ao lado,

“para meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça!” (Álvaro de Campos),

e Beckett a insistir comigo “estamos desgraçadamente atados pelo destino cruel”.

A minha mãe tinha os olhos verdes. Com o sol, os olhos continuavam verdes mas mais verdes, porque são verdes? Para termos esperança, respondeu-me, e dela só sei falar de amor ou nem isso, porque da mãe tudo o que poderemos descrever é sempre mentira, como criança aconchegada na praia a esvaziar o mar para a gruta que escavou na areia. Da minha mãe só posso falar com os poemas que escrevo, para a ter viva, eternamente viva e, eu continuar a acreditar que a eternidade não é o sempre mas a ausência do tempo. “O tempo envelhece depressa” é o título de um romance de António Tabucchi. Ainda antes de Tabucchi ter escrito esse romance, muito antes, senti que o tempo lá ia indo embora, quarenta anos de idade, outubro e uma festa. Convidei amigos, família, inimigos e outros que não sei classificar. Há circunstâncias em que a hipocrisia é virtude, em que a hipocrisia apazigua os campos de batalha. E esse dia em que fiz quarenta anos, “hipocrizei-me”, inventei palavras belas sobre a amizade e o desejo de comemorar, organizei um almoço e ali os tive todos: o sangue, os afins, e outros. Depois desse dia em que  fiz quarenta anos, abriu-se-me uma nova página. O tempo começou a envelhecer depressa e se, muitas vezes, a morte era-me uma impossibilidade, uma distância, a sorte dos outros, passou a aproximar-se também para mim. Para os sessenta faltavam apenas vinte, e, como quem passou a ponte para a outra margem, terei entrado na segunda metade da vida, antes do fim. Angústia e tristeza fizeram-me companhia durante um ano; quase.

                                                                                                                                                                                                                                            2

Nasci num tempo em que nascer não era conveniente. Conveniente é apenas uma palavra doce porque, na verdade, nem as mães nem os pais queriam os filhos. Não havia forma de os evitar, contracetivos era pecado, planeamento familiar nada se sabia, os filhos eram aqueles que Deus der, um deus, porventura, cruel e injusto para o destino que se adivinhava. O que as mulheres pediam  “Deus lhe dê uma hora pequenina”

para a parturiente, claro, mas no silêncio da sua intimidade, era bem melhor que a criança não viesse.

Nas cidades, eram longas as filas para o pão, eram longas as filas para o arroz, para o bacalhau, para um qualquer alimento que amainasse a fome dos corpos esfomeados pós segunda guerra mundial.

“Acabou o pão” grita o padeiro,

continua longa a fila de quem não conseguiu comprar um molete ou uma regueifa. Desanca a polícia, cassetete pelo corpo abaixo daqueles que não se desmobilizam da fila, esperançosos numa nova fornada e dois pães no saco para levar para casa. Desanca a polícia outra vez, pontapés, murros e cassetete de novo contra os desesperados que fogem. E assim se morreu ou assim se viveu nesses anos em que nasci. Se lá estive? Nessas filas infindáveis do racionamento de alimentos? Perguntam-me isso, é?

Não sei responder. Foi tanto o que ouvi contar que, muitas vezes, tudo era tão, tão real, que era como se eu tivesse nascido uma década ou década e meia antes e ali estivesse, agarrado à mão de meu pai, à espera que chegasse a nossa vez para um quartilho de azeite, talvez.

Os banquetes provocam algazarra, grandes convívios, brincadeiras, amizades e, mais copo menos copo, o desbragar da nossa timidez. A fome provoca o contrário, certamente, como se houvesse uma ordem divina ou uma ordem terrena que nos obrigasse a poupar energias, sorrisos e conversas, como se houvesse o corpo e o corpo recusasse a alegria, como se a própria fome fosse pessoa ou objeto e entrando-nos pelo corpo adentro provocasse uma reação biológica a favor da tristeza. Não há rostos alegres em corpos mirrados, como as aves não voam na tempestade. Cresci assim, a primeira imagem de que me tenho, magrinho, pálido, sem sorriso e sem exigências. Caminhava no meio de meu pai e de minha mãe, silenciosamente caminhávamos pela estrada adiante, olhando os campos, as casas, as árvores, os ribeiros e uns cães vadios que se nos abeiravam em busca de quem os adotasse. É esta a imagem que, decorridas estas décadas, me persegue de dia em pensamento e de noite em pesadelo: o meu pai larga a minha mão, a minha mãe larga a minha mão, afastam-se, afastam-se, cada vez mais longe e mais longe, desfazendo-se a sua imagem no horizonte. Acordo; tenho acordado até hoje, todas as noites, certamente até a um dia em que todos os sonhos e pesadelos deixarão de se repetir. Acordo e antes de acordar, a mão de meus pais desaparece.

Na aldeia onde nasci, nada mudou nos primeiros dez anos em que por lá fiquei. As estações do ano eram bem identificáveis já toda a meteorologia o confirma, os invernos eram gelados e os verões subiam aos quarenta graus de temperatura. Não tínhamos, ninguém tinha meios ou outros poderes para modificar os ciclos dos dias, o frio ou o calor, a chuva ou a seca, os ribeiros a transbordar e as colheitas a perderem-se todas às mãos do granizo, da seca ou do fogo que devorou o pinhal com trinta anos de plantio. A morte era um normal ciclo da vida, as árvores secavam, os ribeiros secavam, as ovelhas tinham morrido de peeira ou de diarreia, os frangos iam para a panela e os porcos em novembro ou pelo Carnaval gritavam às mãos do matador que lhes espetava o facalhão pelas goelas adentro. A morte era como no poema de Luis Goes “é vida a própria morte, quando se crê no futuro” e se, nesses tempos não havia tempo para sorrisos, a dor da morte era eterna. Ficava-se de luto para sempre, vestia-se de luto para sempre e uma singela gargalhada estava proibida a todas as viúvas. Apesar de tudo, vivíamos uma alegria interior e uma leveza de alma, que só existe quando não se tem ambições nem qualquer meio para mudar o curso da vida. Nada tínhamos e nada queríamos ter porque, nesse tempo, tudo nos era proibido (ainda).

A minha mãe dizia que eu era o filho bom. Os meus irmãos também eram bons, os filhos são sempre muito bons, mas o testinho da panela, como ela dizia, era o melhor de todos, silencioso, terno e sem apetite para comer. Quando já tinha algum entendimento, perguntei-lhe porque é que ela dizia isso. Porque nunca queres comer, respondia-me e sorria. Nunca soube se havia ironia nesta resposta ou se, na verdade, ela era a resposta certa e objetiva que também ajuda às razões do coração. Não ter fome, era uma virtude terrena em tempos de miséria e uma virtude divina em contraponto com a gula, um dos célebres pecados capitais inventados pelo Cristianismo.

Foi nesse estado da minha infância que, pela primeira vez, pensei que poderia não haver só terra, que poderia pairar qualquer coisa por cima que desse outra hipótese de vida, outra qualquer coisa que não sabia explicar. Observava o vale inteiro da porta de minha casa, o ribeiro ao fundo, a igreja e a sua torre ao longe e deixava-me perder a olhar para o céu. Viria dali, viria essa necessidade de encontrar mais do que aquilo próprio que eu via, palpava, sabia o nome? É claro que não podia perguntar, nem todas as perguntas eram legítimas, nem todo o atrevimento de uma criança levava ao sorriso. Guardei a dúvida sentida só para mim, como que na esperança que a viesse a esquecer, pensamentos tontos, infantis

Dir-me-iam?

Ou, sim, sim, pensas bem, um Deus que a todos nos vê e a todos protege! Poderia ser a voz de minha mãe

Ou

São coisas dos padres, esquece, seria, certamente, a resposta de meu pai.

E nesta dupla versão do possível, ficaria com mais dúvidas, tentado a ir pela bondade de minha mãe, mas inclinado a ceder ao pragmatismo de meu pai. Esqueci, pois, adiei, combati esse pensamento, tive medo que fosse verdade, medo do escuro, medo do sibilar do vento, medo da noite, medo dessa divindade que eu tinha criado. Quando me tornei adulto, nunca consegui voltar à pureza que houve na minha dúvida: há ou não há um deus? Sempre que, por qualquer razão sem razão objetiva, se me aflorava este pensamento, fugia dele, queria fugir dele porque fosse qual fosse a resposta nenhuma delas me era conveniente. Se sim, se o homem era mais do que aquilo que estava à vista de todos, então que imenso medo eu tinha dessa hipótese. Se não, se tudo se conjuga em “és pó e em pó te hás de tornar”, morria-se-me o sonho e todas as equações que fui fazendo desse instante em que, criança, me fui perdendo ao olhar o céu.

                                                                                                                                                                                                                                            3

Para padre?! Pergunta o meu pai.

Não, não, diz-lhe o meu professor de instrução primária.

Os meus amores também foram homens. Sei-o hoje, amadurecidos os dias da vida, sei-o hoje pelo que fica, pela réstia da pureza que fica, pela identidade de caráter, de dignidade e de valores intrínsecos bem mais ao varão que a outros seres vivos.

Para o seminário, concluiu o meu professor. Ainda hoje somos os mesmos. Tu e o senhor. Eu sou o tu, ele é o senhor. Falamos, conversamos, almoçamos duas vezes por ano, pelo menos. Que felicidade esta! Ao meio dia lá está ele à minha espera, ansioso que seja, ansioso que venha, ansioso que eu não falte. Ele já marcou o restaurante, ele não me deixa pagar, ele não me deixa falar em sentimentos. A bondade não se exprime, não veja a tua mão esquerda o que faz a direita, a bondade é o mais gratuito e inocente dos valores da humanidade. De uma mulher não se extrai bondade na exata razão de que de uma oliveira não se extrai resina?

A minha aldeia povoava-se de oliveiras, videiras, castanheiros e nogueiras. Das oliveiras tinha medo, hoje tenho encanto, antes, preconceito. Das oliveiras, ainda vejo os caseiros pendurados pelo pescoço num exercício de suicídio com que a miséria os marcou: o ano agrícola foi impiedoso e a honra e dois garrafões de verde tinto carrascão lá levaram o homem a pendurar-se pelo pescoço. De mulheres, a história nada reza, mulher não tinha que ter essa honra, mulher não se mata por enforcamento.

Mulher aqui não entra, disse o meu professor, no exato instante em que o meu pai ali estava especado à porta da escola onde aprendi o que os doutores nunca aprenderam. Mulher não entra, gritou ele, à filha do senhorio desse imóvel podre onde vinte e três crianças estarreciam por afetos; apenas por afetos. Mulher não entra, é como se ouvisse agora Adão, zangado, irado, á porta de uma qualquer estação de viagem, em luta pela expulsão da mulher do Paraíso.

E nas férias de verão dos meus quinze anos, o pároco disse-me para eu examinar os putos que iriam comungar pela primeira vez, numa comunhão solene, em outubro, no dia do padroeiro, um santo inventado para dar divindade à aldeia mas que ele, santo, ainda hoje juraria que nunca lá passou nem quer passar. Dizem que a igreja é uma das mais belas igrejas do barroco, se não mesmo a mais bela de todas, mas para os meus olhos de então e para os meus olhos de hoje, ela continua feia, cheia de anjos, querubins e serafins papudos com uma pila minúscula encolhida e ar de quem está bem mais para, quero-me ir embora daqui do que propriamente para louvarem deuses e sua virgem santíssima.

O pároco repetiu, vais examinar estas crianças; quinze minutos para cada um, pai nosso, a ave maria, o credo, o ato de contrição e uma bem aventurança pelo menos ou um dos dez mandamentos, continua o padre,

E eu a olhar os papudos, o sacrário e as hóstias que lá estariam, doces, crocantes como tantas vezes tive o seu sabor na sacristia e o padre, percebeste? sim claro, claro que sim,

Qualquer ladainha que eles soubessem já bastava, seriam trolhas, pedreiros, emigrantes para França e para a Alemanha, mancebos incorporados nos navios “Vera Cruz” ou Niassa” para combaterem em terras do Ultramar Português e “matar o maior número possível de rebeldes”

Percebeste?! Repete o padre.

E lá vem ela, escadaria abaixo, o átrio da igreja, salto alto, saia curta minissaia, je t’aime moi non plus. Jane Birkin e Serge Gainsbourg a troar na minha cabeça, anos sessenta, revolution culturelle, e o padre, percebeste? sim padre percebi, e ela entra na igreja e agora Pablo Milanês,

“Esto no puede ser no mas que una cancion

Quisiera fuera una declaracion de amor

Romântica sin reparar en formas tales

Que ponga freno a lo que siento ahora a raudales

Te amo

Te amo

Eternamente te amo”

Vem devagarinho, ondula-se e os papudos na igreja, como que olham, sorriem, vigiam a ela e ao padre, parece que estão desconfiados ou já viram mais do que queriam ver. O padre foi-se embora. Parece.

Sou a catequista, disse-me. A mão, era um tempo em que a mulher dava-nos a mão, ao de leve, timidamente, como quem pede licença para cumprimentar o seu senhor. Deu-me a mão, Yolanda era Yolanda foi tanto tempo foi pela minha memória adentro, encontrei-a na cidade, na minha cidade e nada, nada, nada, nada. Quando digo nada é o absoluto, não me reconheceu, já não era a minha Yolanda já não era a catequista na igreja românica da minha aldeia onde a conheci.

Dez minutos, continua-me a voz do pároco, dez minutos para cada um dos que vão fazer a comunhão solene e eu não tinha relógio, nunca usei relógio, objeto inútil, os pelos do pulso cortados, avariou, atrasou, perdi-o, roubaram-mo, objeto inútil, sim, que importa um relógio? E ela, Yolanda, do seu  pulso alvo, retira o seu relógio para podermos controlar o tempo. Nas minhas coxas ali ela o deixa, não está bem, disse ela, mexe-lhe, mexe-me, o mostrador tem que estar para cima, e a mão dela nas minhas coxas, e o relógio nas minhas coxas, e as minhas coxas nas mãos dela e os querubins, serafins, santos e santas, papudos e rabudos de toda a igreja, olham-me, reprovam-me, condenam-me e Pablo Milanês a cantar-me, “isto no puede ser no mas que una cancion de amor/quisiera fuera una declaracion de amor,

As minhas coxas abrem, as pernas abrem, o relógio cai, desaparece, onde está, onde está, Yolanda debruça-se, as mamas a roçarem no meu peito, a boca próxima da minha carcela, as mãos por entre as minhas coxas à procura do relógio e o padre arremessa-me com um grande bofetão. Porco, em surdina no meu ouvido de adolescente.

E agora, Yolanda, que fizemos nós da nossa vida? Nem eu nem tu somos personagens de uma qualquer malvadez e, não o sendo, estamos condenados a não ser personagens de nada.  Procurei-te pelos caminhos da nossa inexistência, ninguém fala de nós, tu, porque nem sequer sabes que eu alguma vez existi e eu, porque, na verdade, os meus dias começaram hoje mesmo, neste dia do século vinte e um da era de Cristo em que escrevo. Procurei-te pelos lados possíveis em que procurei o amor. O amor de uma mulher que fosse como a perfeição de minha mãe? Ou o amor de uma mulher que fosse o contrário da perfeição de minha mãe? Não cheguei lá, a esse discernimento de Freud, em que o homem se situa sempre entre a morte do pai imaginada e a morte do pai, mesmo, fisicamente morto, morto, pronto. Há sempre uns ventos que me levam à bondade da minha inocência e agora é tarde, é tão tarde, para aprender que o  mundo está cheio de filhos da puta. Quando escrevo isto, escrevo o que quis escrever. Amanhã, há de dar-me a saudade do colo e dos encantos que tive. Amanhã, quando a conveniência me dominar, poderei escrever, certamente, que, afinal, o diabo nunca esteve no Éden. Que o diabo nunca se quis encontrar com Eva, tal e qual o diabo nunca se quis encontrar com o Bloco de Esquerda.

                                                                                                                                                                                                                            4

“Para o seminário”, continuava o professor à conversa com o meu pai. Era outubro, no seu fim, e o sol encobria-se já por detrás da torre da igreja, da minha igreja matriz dessa minha aldeia, terceira classe da instrução primária, nove anos de idade em véspera de os fazer, e o destino ali marcado nas palavras singelas do meu professor, “para o seminário”. E ali continuaram, o meu pai sem disfarçar a tristeza e o professor gesticulava, insistia, é preciso fazer alguma coisa pelas crianças inteligentes e lá regressamos a casa, o meu pai calado em todo o caminho e eu pouco importado com as discussões filosóficas com que eles se terão entretido nessa tarde. A minha mãe chorava, o meu pai chorava, não quero comer nada, mulher e nesse momento soube que nada seria igual daí para a frente. No dia seguinte, os meus colegas da escola já me trataram como haveriam de me tratar até ao fim da nossa instrução primária. E depois, continuaram, também, até aos dias de hoje, tímidos e reverentes para comporem a minha solidão. O pior destino nesse tempo para uma criança era a sua própria natureza, ser diferente, ter já um caminho traçado que não passasse pelo moço das obras, pela emigração a salto, fronteira a fronteira, Chaves, Verin em Espanha e Hendaya ou Irun já em França em direção a um qualquer vidonville que me enterrasse na lama miserável que foram esses locais aqui mesmo a duas horas de voo deste nosso paízinho. Ser diferente era não ser, não ter lugar ali, caminhar, sair, não ter destino a não ser o destino de ir, largar para onde não tivéssemos passado, família, alcunhas ou clichés já indestrutíveis.

A minha criança não tinha nove anos, ainda, pálido de pele, magrinho e esguio como quem anuncia a sua própria morte. O meu professor disse ao meu pai que nunca tinha tido um aluno tão brilhante, (foi mesmo esta a palavra), sem que eu, a esse tempo soubesse a dimensão de tal desígnio. E quando aqui falo de diferença, a diferença positiva é, porventura, a que mais isola, colocando-nos o estigma de intocável. Ainda hoje, décadas de inexistência infeliz, eles, os meus companheiros meninos que fomos na escola, ainda hoje, se furtam, se esquivam ao meu olhar, ao meu cumprimento, fogem, desviam-se, avermelham-se e tratam-me por você. Ser pobre era o maior dos defeitos e até a mendicidade era proibida. Abundavam os letreiros pelas vilas e sedes e de freguesia “proibida a mendicidade”, “proibida a mendicidade” e dizia-se até que a cadeia estava à espera dos pobres, apanhados que fossem estender a mão à caridade, como então se dizia. Só os países pobres querem proibir a mendicidade, como a sua própria negação, a negação de que são pobres. O senhor Salazar calçava botas, toda a vida em todas as circunstâncias, o senhor Salazar queria mostrar ao mundo aquilo que nem ele próprio era: a ausência da miséria. É que a hipocrisia é a virtude  de quem varre para debaixo do tapete, de quem só limpa onde passa a procissão. A minha mãe, as mulheres de então não se calçavam. Para quê? Para quê?, pés que eram para a lavoura e para o monte, para as pocilgas e para a cozinha, pés que encarnavam a liberdade dessas mulheres. Sapato, não! Ouve-se muito anos depois aquando de “Gabriela, Cravo e Canela”. Sapato, não, só ao domingo à hora da missa. As mulheres acolhiam-se uns metros antes da igreja, sentavam-se e sapato num pé sapato no outro até ao fim da missa. Depois da missa, era ver quem corria mais depressa a descalçar-se e voltar a dar a liberdade àqueles pés.

Este que aqui escreve não é certamente o mesmo que nesses tempos, anos sessenta, entre o douro e o minho, esmiolha-se em não pensar, esmiolha-se em não querer. O que quis sempre foi esse não querer ser outro, não querer ser diferente, não pensar, nem ir mais além deste meu corpo pequenino, frágil e branquelas como já sabemos,  a minha mãe, não penses tanto e o meu pai, deixa-o pensar e eu a achar que tudo já me era desgraçadamente tarde.

Agora que tenho já séculos de idade, o que resta ? Os meus pais lá residem numa campa pobre do cemitério do fundo da minha paróquia. Morreram, morreram-me, moribundos que estiveram tanto tempo e tanto de dor, tristeza, angústia e perda de que me fui preparando. Estaremos preparados para a perda dos nossos amores? Certamente que sim, certamente que não, ali os tenho agora lado a lado em lápide e fotografia como se a morte fosse o nosso último encanto. Escrevo-lhes, poemas, sonetos e líricas infantis como me sinto sempre, infantil, criança ainda, menino de bermudas e soquetes nos braços deles.

                Lá vou eu, dia sete de outubro, estação de comboio da linha do douro e o meu pai a chorar, a minha mãe de taleiga á cabeça e a mala, os sapatos, o fato, e um bilhete para a estação de São Bento. Depois o trólei 36 ou 33, Vila Nova de Gaia, um portão verde e outro portão verde. O silêncio.

É nesse instante em que o meu pai e a minha choram, acenam, acenam até o comboio se perder na curva, foi nesse instante em que as minhas irmãs morreram, os meus irmãos morreram, os meus tios morreram e até eu próprio, criança, ali morri. Jamais voltei á beleza dos sonhos que sonhava especado no horizonte longo que via de minha casa. Jamais voltei á pureza que a liberdade traz no convívio com aqueles de meu sangue. Quando vinha de férias, eu era outro, meio humano e meio extra terreste, á beira de quem já nem eu nem os outros tínhamos liberdade para sermos o que éramos, verdadeiramente. Ninguém me falava e eu já não falava com ninguém. Fugiam de mim e até as minhas irmãs me estendiam a mão para me cumprimentar.

Os portões fecharam-se. Vens para o primeiro ano? perguntou-me o Diretor.    

O enxoval foi-me marcado com o número setenta e seis para que não houvesse confusão com as cuecas, as meias, camisas e o enxoval dos companheiros. Lá ia na mala, aquelas malas de cartão castanho e umas ripas de madeira a arrematar e dar segurança à mala. Quando a abri, por cima da cama do dormitório geral, a roupa tão bem arrumada pela minha mãe e um bilhetinho: “somos pobres, não temos posses para mandar mais nada”. Rasguei-o. Não era preciso dar essa informação ao diretor. Nem as malas nem os enxovais dos outros que nesse mesmo dia começavam o mesmo destino eram melhores do que o meu; talvez.

E aqui estou eu no silêncio de uma vida solitária a escrever o que fui. Será isto o que fui? O que senti? Não estou certo de que nesse tempo em que a vida rodopiava toda à volta de uma sêmea, uma rodela de salpicão ou uma fornada de   broa, não estou certo que a minha memória e os sentimentos que dela trago, não estou certo que possa ser fiel a essa minha identidade. Não sabia quem era, não sabia quem era nesse tempo longínquo da minha infância e não estou certo que saiba exatamente quem sou neste dia de hoje do século vinte e um. Só a minimal “intelligence” consegue definir-se, só quem não se conhece consegue, de facto, definir-se. Perguntas-me quem sou eu? Estou como tu, meu querido inquieto.; estou como tu, naquele cruzamento de uma estrada desconhecida onde todos os sinais são stop. Se me perguntares a quem amei, a minha resposta é muito fácil. Se me perguntares a quem não amei, já é difícil. Se me perguntares se sei o que é amor, a resposta também é muito fácil: não. Só eu próprio sei falar de amor, só cada um de nós sabe falar desse altar onde, degrau a degrau, acendemos as velas quando são de acender. O que é o amor senão e apenas uma hipótese? uma hipótese numa simbiose improvável? Complicado?  sim, complicado. Agora ouço o meu pai a perguntar-me, gostas dela, e eu e o meu silêncio e o meu pai, pensa, amanhã falamos e amanhã, amanhã não veio, não mais falámos, gostas dela? Quantos casaram já com quem não queriam casar? Certamente ninguém, se a vontade fosse essa certeza matemática de que eu e o meu amigo Newton temos discutido tanto. Já não há amores científicos, diz-me Newton, tem cuidado, diz-me e eu, Newton, estou só há tanto tempo, preciso de um lar, não faças isso, diz-me Newton, a descoberta do universo está na observação e mergulhei nesse miserável infinito com que eu sobrevivi tantos anos de caverna. Dessa caverna, a culpa, soletra-me Platão, lê, lê e encontrarás a resposta, A caverna, lê, e se eu lesse, o que seremos nós depois de Platão? o que seremos? Um estado impuro, puro ou além da nossa existência e isso eu não quero ser, sentir, existir. Às vezes descarto-me, quem sabe o que é isto, descarto-me, expressão maior que se enquadra naquilo que todos nós queremos, verdadeiramente: não sermos responsáveis, descarto-me, como se deixasse as espinhas das sardinhas para um outro comensal. Às vezes evado-me, estou além, estou aquém. Portugal está pleno de def’s,       

Desligo. Foi assim nesse dia sete de outubro. Desliguei-me. Sentado no banco da carruagem, o revisor falou-me: o teu pai disse-me para te avisar quando chegássemos a São Bento. E as árvores a andarem para trás, e o comboio a parar aqui, a parar ali, estação e mais estação e pouca terra, pouca terra, pouca terra e as faúlhas do carvão a entrarem-me pelos olhos adentro, não esfregues, diz-me o revisor, eu bufo, diz, bufou-me nos olhos como o meu pai me fazia, abre os olhos, abre bem os olhos e os ciscos saiam e com eles o alívio. Assim fui todo o caminho da Linha do Douro, observando a novidade da primeira vez. Sem lágrimas, sem sentir, sem entender, então, que esta viagem era, interiormente, uma viagem sem regresso. Invadia-me a apatia, a contemplação fria e sem sentimentos como barca à deriva nas águas mansas do leito de um rio triste.

Quando cheguei a São Bento, o comboio não podia prosseguir mais. Ouve-se o altifalante, o comboio que deu entrada na linha três é proveniente de Barca de Alva com destino a esta estação. São Bento, diz-me o revisor. É aqui meu menino e o troley fica em frente da saída. A mala carreguei-a no ombro, era tão pesada para o meu corpinho frágil e esguio, desço os degraus da locomotiva, altíssimos para as minhas pernas, alguém disse atrás de mim, despacha-te oh moço, mas logo outro se sobrepõe, deixem a criança, e uma mulher aborda-me, barra-me o caminho, eu levo-lhe a mala e o meu pai não fales com ninguém, não confies em ninguém, agarra bem a mala, troley carro em frente 36 ou 38, pergunta ao cobrador onde deves sair. Portão verde, outro portão verde, dia sete de outubro, clausura.                                                                                                                                    

Quer partilhar alguma informação connosco? Este é o seu espaço...
Deixe-nos aqui a sua mensagem e ela será publicada!

.: Valide os dados assinalados : mal formatados ou vazios.

Nome: *
E-mail: * Localidade: *
Comentário:
Enviar

Os campos assinalados com * são de preenchimento obrigatório.

Copyright © Associação dos Antigos Alunos Redentoristas
Powered by Neweb Concept
Visitante nº