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2022-05-13

MANUEL VIEIRA - Esposende

 

Somos um enclave de poetas, caracterizadamente influenciados pelo ADN da Barrosa.

Construímos sonetos melodiosos e apareceu-me estes dias como que por encanto, os "Cantos do meu canto" do Francisco Correia, que tomei a liberdade de o mostrar aqui, como se fosse o primeiro de muitos outros que os nossos insígnes poetas poderiam ter ensejo de aqui publicar para apreciação geral.



CANTOS DO MEU CANTO

Os cantos do meu canto; sinfonia

Tocada por violino transmontano

Em pautas de oliveira, tom serrano,

Com acordes de estevas e magia.

 

Não será uma flauta agreste e fria

A louvar o meu canto ledo e ufano,

Meu canto é um sussurro lusitano

Que escorre montes, urze, melodia.

 

Meu canto é uma valsa leve e alada

Dos palácios do Norte, quando o vento

Abraça vagaroso a madrugada.

 

Meu canto é esta voz. É o lamento

Dum povo na difícil caminhada

Da vida só vivida no momento!

2022-03-23

ANTONIO GAUDENCIO - LISBOA

O nosso site, cuja ressurreição devemos aos esforços do Manel, inicia uma segunda vida de modo bastante curioso.

 O seu primeiro acto foi o ressurgir anunciado pelo nosso presidente, Manuel Vieira. Seguiram-se duas notícias cuja chegada não nos pode surpreender pois a vida também encorpora a morte. Dos dois amigos desaparecidos o que eu melhor conhecia era o Pedrosa. Entrámos os dois na Quinta, em Agosto de 1955, e de lá saímos para Nava del Rey em Julho de 1961.

Depois, em 62, as nossas vidas divergiram mas a amizade continuou e manteve-se até ao fim. Era um HOMEM. Do João Vaz, apesar de termos estado juntos na Quinta, um ou dois anos, pouco sei a não ser o que o seu irmão Davide me contava.

Depois destas infaustas novas, aparece uma voz que eu gosto imenso de "ouvir " embora isso raramente aconteça : o Ant. Manuel Rodrigues que, numa mensagem concisa, bem estruturada e escrita no seu português sempre primoroso e impecável, nos disse para onde todos caminhamos inexoravelmente.

Mas as surpresas do nosso site ainda não acabaram. Eis que nos aparece o Aventino com a promessa de um novo livro. Espero que ele não siga o conselho do amigo alentejano e não rasgue o manuscrito pois a amostra promete e o resultado final só pode ser bom. Força, Aventino e que nunca as mãos te doam!!!! 

Estas primeiras páginas são-me familiares pois, nos últimos vinte anos de profissão, tive que ir a vários Tribunais, em diferentes zonas deste País, representar a minha "patroa" como seu representante legal e, ainda, recordo o tempo que tinha que  esperar de pé, à porta das Salas de Audiência, até ser "fichado" pelo homem das chamadas.  Desses tempos tenho histórias bem interessantes mas que não vêm ao caso. Lembro-me que fui chamado, algumas vezes, ao Porto para testemunhar em julgamentos mas, certamente por acaso, fui sempre a um Tribunal que se chamava « S. João Novo » mas que, afinal, era bem velho. Fazia-me lembrar o Tribunal da Boa Hora em Lisboa.

Voltemos ao Aventino. Se o empurrão que os AARs possam dar for determinante na decisão do Aventino, então garanto que eu vou utilizar toda a força e recorrer às minhas reservas, se necessário for, para o encorajar a publicar esse livro. Mas atenção : o tempo urge e eu estou quase a chegar aos 81 e gostava de ler esse livro. Isto não é pressionar o autor pois quem cria nunca deve ser entalado nem pela pressa nem pelo tempo. Mas que gostava de o ler gostava...........

Saudações amigas para todos.

 

 

 

 

961.  

2022-03-23

Aventino Pereira - Porto

Meus Caros AAR’s:

“ainda há luz neste mar alto”. Abrunhosa, Pedro.

 

CARTA PERDIDA NO CAIS DE EMBARQUE

é o meu último romance que acabo de escrever. Agora, corrijo-o ou, como disse o Ti Manel da Fonseca, “estou rasgando”.

Deixo-vos aqui as primeiras páginas, em primeira mão, porque vós fazeis parte do lugar e da matriz onde aprendi a escrita, os sentimentos e a voz que as letras contêm.

 

A campainha tocou duas vezes. Uns segundos de espera, ninguém abriu a porta. A essa mesma hora, em muitos outros locais, outras cartas entraram noutras caixas de correio, para o mesmo efeito. Diziam o dia, a hora e o local. As consequências da falta de comparência.

 

No átrio onde chegam há silêncios. Olhares cruzados, também. E ansiedade. Quem ali chega, fica à espera. Da incerteza, do adiamento, do momento de voltar a sair pela mesma porta, contar os dias para o novo dia e repetir, passo a passo, a mesma angústia com que chegou até esse instante, não era preciso passar por isto, ou talvez seja, quem se lembra da sua própria ignorância?

O momento adensava a obscuridade do lugar, ouviram-se passos, outra vez, passos, ao fundo vinha, lentamente vinha, alguém. Trazia papéis na mão, olheiras de nicotina e o passo cansado da repetição da inutilidade do seu ato. Ensaiou a pose, olhou em redor, iria dizer qualquer coisa.

Benedita estava sentada num dos bancos corridos, velho mobiliário saído das mãos dos presos. Outras, Olívia, Amélias ou apenas Marias, estavam ali, cirandando na mesma pose de espera, no limite de si, a uns minutos ou a umas horas do confronto. Mas verificada bem a coisa, não há só mulheres. Ao fundo, ao lado da janela, aparentemente serenos, ei-los. Tantos quantos elas, uns hirtos outros rodopiando à espera da hora.

 

O local não se descreve, a qualquer descrição por palavras haveria de faltar a emoção e as lágrimas que sempre afloram a quem dali vislumbra as leiras, os muros e a fonte da Quinta das Virtudes, o dourado das águas do rio,  é como se fosse o miradouro em Galafura ali na dimensão do rio a chegar à Foz, Galafura, telúricos socalcos, e a infelicidade doce do nosso olhar e da nossa pequenez, vislumbre maior de um deus que nem ao sétimo dia descansou.

                                                                               ***

(Deixei o Douro e é de novo o Douro que vejo pela vidraça deste Palácio, lá vai ele, lenta e tristemente a dez instantes de deixar de ser o Rio do Ouro. Vou com ele, navego com ele, foz, mar adentro, Atlântico, ah! o oceano! E abraçamo-nos: o Douro ao mar, e eu abraço-me a nada.

O local não se descreve, já sabemos, nem esse meu tempo infante esqueço, os pés na terra não rompas as calças só tens essas para ir à missa come o caldo depressa tens que ir surribar com o teu pai, a minha mãe a dizer-me e o caldo a não querer entrar pela boca fechada

está quente mãe, não está nada quente, não sejas malandro, anda depressa, depressa, o teu pai está à tua espera para irem, está quente mãe estou doente mãe estou cansado mãe tenho que fazer os deveres para amanhã mãe não quero ir mãe deixe-me ficar aqui mãe sou tão pequenino tão fraquinho, mãe,

e o meu pai então oh malandro vens ou queres que vá aí puxar-te pelo cachaço, já vou meu pai

e a sopa está quente mãe a broa ainda está quente.

Sou ALFREDO).

                                                                               ***

“Surribaram” outros no edifício onde estavam, presos, crianças, trabalhadores esfomeados que de manhã bem cedo se ajuntavam na porta do sol à espera de quem os contratasse para a jorna desse dia “surribaram” e criaram este edifício que se exibe belo e imponente para todos os pontos cardeais.

A funcionária veio, voltou para trás, regressou, voltou a ir, voltou a regressar. O circo vai começar, sussurrou alguém para outro alguém, ao lado. Benedita Antas de Mendonça,

a voz rouca da nicotina chamou bem alto, o braço de Benedita no ar, sou eu, e um risco de presença no papel que a funcionária tinha na mão.

Os sentidos de quem estava no átrio do Palácio ficaram alerta como se fossem cães, orelhas arrebitadas, caçadeira, tiro, som, sinal de perigo, perturbação ou invasão do território,

mais cedo ou mais tarde ela também vai chamar por mim, pensavam todos nesse local e ela lá chamou, Ernesto Vilas-Boas e Ernesto levantou o braço, presente,

e um outro risco de presença no papel. Depois ouviu-se o nome de cinco outras e mais cinco dedos empinados, Alfredo, dois Manuéis, um Vitor, um Fernando e um Camelo. O risinho da funcionária quando disse Jorge Camelo aliviou o ambiente e o próprio Jorge Camelo rodou à volta de si próprio qual campeão que agradece os aplausos. Mas tudo foi como uma florzinha de cheiro, tão depressa passou o Camelo por aquele deserto, tão mais depressa se instalou o sentir triste que também preside aos velórios. Agora ainda não era o agora, ela voltou as costas, perdeu-se pelo corredor adentro, papéis na mão, regressaria?

 

                                                                                              ***

(Foi o que pensei nesse ténue instante em que ela se escapuliu e nos virou as costas. A tradição falava do medo destes lugares, como um mundo secreto ou um labirinto onde se entra e se pode morrer, transformarmo-nos num monstro ou ter o resto dos dias à volta da saída, do fim, do clímax como um planeta condenado escravo a servir o seu astro, sem o qual não existe e com o qual não quer continuar a existir. Confuso?! Sim, confuso como o palco onde estamos.

Lembro-me bem desse tempo, criança, o colo do meu avô, porto seguro para onde a minha memória tantas vezes voa como se fosse um bando de pássaros em busca do sol ou de alimento. E o meu avô orgulhoso de nunca ter entrado num destes locais, local onde apenas se discute três dos valores da humanidade, como ele dizia: a honra, a propriedade e o amor. Se aqui evoco esta memória é porque me apazigua e enternece nesta hora em que tudo espero não esperando nada.

Olho as mulheres que estão em meu redor, esforço-me por adivinhar as suas profissões, o seu pensamento e o sentir deste instante e interrogo-me se não estamos todas como o condenado: se puder ser que não seja, mas se for, que seja já. E a funcionária demora, sou a noiva pontual junto ao altar, de costas voltadas para os convidados ou sou a noiva que não deu sinais, não vem, sinto-me agora essa noiva, vestida, maquilhada, pronta a sair de casa sem saber se, na verdade, quero sair de casa.

Quando me chamar para entrar, que farei eu?! Levanto-me, caminho corredor adiante e àquele que me perguntar se sim, se quero, se não há qualquer hipótese de voltar atrás, uma nova tentativa, o que respondo?! E se eu responder que sim e ele responder que não, o meu sim não valeu de nada. Mais uns meses ou mais uns anos, tudo ficará igual, hibernado, como cobra em letargia, inexistente, por mais umas quantas estações. E se eu responder não e ele responder sim, tudo fica parecido com igual, revelei a minha indecisão é certo mas continuo como a cobra hibernada. E agora, de que estado conjugal sou, a quem pertenço, sou livre ou estou presa a ele? Sinistro este momento em que mais minuto menos minuto alguém me vai perguntar o mesmo que um outro, há cinco anos, me perguntou: pensou bem no ato que vai realizar?

(Sou Benedita; Dita, entre a família)

 Ernesto desviou-se um pouco de junto da janela. Não mostrava sinais de ansiedade ou nervosismo. Nem de ternura ou ódio. Nem de interesse por nada do que ali se realizava. Quem o olhasse atentamente diria que estava ali por um outro assunto qualquer, que estava ali por estar ou porque, na verdade, não tinha mais nada para fazer nessa manhã. Foi sempre assim? Foi. Ernesto era segurança, firmeza, impenetrabilidade até na própria tragédia. Aos olhos de uns entendidos, o seu carácter advinha-lhe das dificuldades e da pobreza por que passou e, aos olhos de outros também entendidos, exatamente o contrário: ele era o resultado de uma vida lauta e faustosa até à sua maioridade.

Mas na verdade, quem se aproximava da razão?! Ora tímido, ora exuberante, cortês ou distante, nele tanto se conjugava a aridez de uma vida dura, como o charme altivo do aburguesamento. E era nesse estado indefinido com que ele aguardava ou, talvez, num laivo imprevisto a que alguns chamavam de genialidade, Ernesto Vilas-Boas estava pronto a esperar e também estava pronto a dentro de cinco ou dez minutos ir-se embora, simplesmente. Veremos.

                                                     ***

Há letras cravadas na frontaria do edifício. Formam duas palavras. Em latim. Só uma dessas palavras estará certa, era o imediato pensamento que aflorava a quem por ali passava.

À frente, uma estátua em granito português. Feminina, proporções de corpo, coxas, peito e cabeça roubados à perfeição de uma deusa imaginada, grega ou romana?  Será Têmis, Dice ou Iustitia?. Havia quem parava ali e se deslumbrava com o imaginário possível daquele granito mulher sem venda nos olhos, para ver, sentir e existir, como se a chamada justiça dos homens não fosse construída e decidida por medíocres iguais aos outros medíocres ou por grandes iguais aos outros grandes.

Lá dentro, nos passos perdidos, a mulher com nicotina continuou com os dedos amarelos e os lábios amarelos. Chupava cigarros, exalava o fumo, papéis numa mão, esferográfica na outra, o seu vestuário sujo, cabelo sujo, ânimo de serviço público sem qualquer ânimo. Não chamava ninguém, olhava para um lado, olhava para o outro, atarantava-se, simplesmente, por nada estar a acontecer.  Um homem abordou-a

sim, senhor doutor, ele ainda não veio, não disse nada, também não costuma dizer, aparece à hora que lhe apetece, é sempre culpa do trânsito, é o que ele costuma dizer, e depois nós vemos-lhe o cabelo molhado, a camisa desapertada, a gravata enrodilhada e o nó a fingir que é nó. Nós os funcionários é que sofremos as consequências, senhor doutor, as pessoas estão à espera e começam a ralhar connosco e nós sem culpa nenhuma, estou farta disto, fartinha. Mas há pior, há sim senhor, há ali uma que vem quando lhe apetece e ainda começa a mandar vir com as partes quando alguém faz algum reparo. Esquece-se que são pessoas, está a perceber?

Esquece-se de quem lhes garante o emprego, não acha, senhor doutor?! Se as pessoas não viessem pra aqui, estas miúdas e estes miúdos que andam pra aí armados em doutores, tinham que ir bulir pra outro lado, isso é que era bom!

E, de repente, papéis na mão, parece que ia voltar à secretaria, voltou para trás,

só mais uma coisa, senhor doutor. Eu fui casada três anos, mas ao fim, pimba, quis ver-me livre dele. Era, numa palavra, um morcão, um tropeço, chegava a casa, sentava-se no sofá,

a cerveja?! bem geladinha oh mulher?! Dizia-me,com uma vozinha meiga para eu ir na conversa dele e depois de lha abrir, copo limpinho, guardanapo e uns croquetes que eu lhe punha sempre num prato, ficava outra vez no seu estado vegetal: mudo; a sujar a carpete e o sofá todo. Depois, quando se levantava, tudo ficava no chão para que aqui a moira fosse levantar, claro. Foi isto esse tempo todo. Ao domingo, era a bola, e umas cervejas com os amigos, sexta à noite e sábado ia pras bilharadas. Dizia-me ele, é claro! E eu sempre acreditei. Fui uma burra.

Vou fumar um cigarrito e ver se o “menino” já veio, rematou.

2022-03-14

2022-03-14

António Manuel Rodrigues. - Coimbra

Um a um vamos entrando no silêncio definitivo e também a nossa associação vai ficando entorpecida, apática, dormente.

Longo silêncio tem sido o meu e, portanto, não estou censurando nada nem ninguém.

Quero apenas recordar o Pedrosa, um distinto aluno do 5º ou 6º ano quando, em 1959, cheguei ao nosso Seminário de Cristo Rei. Uma evocação sentida em relação ao João Vaz de quem não guardo um conhecimento directo mas há o elo comum da nosssa associação. Porque hoje se completa mais um aniversário do seu falecimento, lembro o nosso amigo Peinado que muito acarinhou a nosssa associação e a muitos nos distinguiu com uma amizade especial.

Aos familiares de todos eles desejo que, com saúde, possam continuar a recordá-los.

2022-02-06

manuel Vieira - Esposende

Soube hoje que faleceu esta semana João Augusto Antunes Vaz, natural do Soito,Sabugal e irmão do Davide Vqz, já falecido também.
Teria cerca de 82 anos e foi do curso do padre Faustino, do padre Alves e do Viterbo também. Foi professor em Gaia e também Prefeito no meu tempo. Vivia para os lados de Corroios.
Paz à sua alma.
 
Gosto
 
 
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