fale connosco


2021-01-23

José de Castro - Penafiel

É com muito gosto que aqui estou a responder (com toda a seriedade) ao questionário que o (felizmente) inconformado Aventino nos deixou, aproveitando para antecipadamente deixar um abraço de amizade a todos o AARs.

Não possso também deixar de dar os PARABÉNS aos autores dos maravilhosos textos que nos foram oferecidos pelo Aventino e pelo António Vilas Boas (este tive que o ler duas vezes...) 

Aí vai!

1. Quantos anos tens?

R:Não tantos como gostaria de ter.

2. Quantos anos viveste?

R: Todos aqueles de que me recordo.

3. Divides o mundo em santos e pecadores?

RNão!

4. Sentes-te à vontade com o sexo feminino?

R: Com o sexo feminino sinto-me muito à vontade apesar de os tempos de glória pertencerem ao passado. Com as mulheres, o caso é muito mais complicado. Normalmente sim, outras vezes estou a mais. 

5. Sentes-te em igualdade com as mulheres?

R: Isso nunca acontecerá. Só me faltava que fossem iguais a mim... Sem prejuízo da igualdade de direitos de oportunidades.

6. Se houvesse um regresso ao passado, eliminavas o Seminário da tua vida?

R. Só se elouquecesse...

7. Tens pudor ou vergonha em dizeres que foste seminarista?

R: Não tenho uma placa na testa, mas sinto-me muito honrado por o ter sido.

8. Tens um sentimento permanente de culpa?

R: Nunca sofri desse mal a não ser nos primeiros anos depois de EU ter decidido sair do Seminário. Depois de muitos entraves à minha saída, emprestaram-me um exemplar de "O meu Cristo Partido" para ler, meditar e quem sabe voltar. Não só não voltei como NUNCA MAIS O DEVOLVI pois desapareceu em minha casa talvez raptado por alguma das minhas jovens irmãs. Essa culpa acompanhou-me de facto uns bons pares de anos. Já passou!

9. Gostas de passar na Rua Visconde das Devesas em Vila Nova de Gaia?

R: Não deixo de olhar para o edifício quando por ali passo. Mais ainda, quando vou na direção da Urbanização da Barrosa pois a vista é mais abrangente.

10. Sonhas com o diabo frequentemente?

R: Em criança (antes do Seminário), vinha ter comigo e perseguia-me sob a forma de fogo. Por mais que eu corresse, apanhava-me sempre. Felizmente acordava  sem ar e verificava que lhe tinha escapado. No dia seguinte ou assim que me fosse possível, montava e fazia explodir mais uma bomba. Isso mesmo! Aprendi a montar e fazer explodir bombas, usando serrim, pólvora, rastilho e pedra esmilhada bem antes da ida para o Seminário. Felizmente ainda tenho as duas mãos e os dois olhos provavelmente graças ao meu novo rumo a partir dos 11 anos.

11. E com um caldeirão em ebulição e tu lá dentro?

R: Isso até tinha dado jeito se eu estivesse fora do caldeirão. Mesmo quente, essa água seria eficaz para combater o fogo que me atormentava

12. Consegues ir ao Bingo?

R: Quando vou ao Estádio do Bessa levar os meus netos à ginástica passo à porta do Bingo onde nunca entrei. Recordo que também se jogava no Seminário e proporcionava bons momentos aos mais novos. Não custava nada e até se ganhavam uns "guaches" ou quem sabe um estojo "Kern".

13. E persignar-te?

R:  Experimentei agora mesmo e ainda atinei...

15. Quando a tua parceira te humilha, fá-lo com referência ao teu passado de seminarista?

R: Nunca tive conhecimento de parceiras que me humilhassem.

16. Recuperaste, de alguma forma, os afectos perdidos na tua adolescência?

R: Nnca os perdi.

17. Empanturras-te em bacalhauzadas para esquecer o passado?

R: Uma boa bacalhoada, apenas tem como consequência aumentar o meu desejo pela seguinte.

18. Há palavras, frases, sons, gestos que te repugnam?

R: Sim.

19. Quais?

R: Uma em particular: "Estúpido". Vá-se lá saber porquê mas nunca a utilizo. Posso insultar um "calhau com dois olhos" ,mas nunca uso a palavra "estúpido" .

20: A Santa Madre Igreja ainda é santa, mãe e igreja?

R: Nunca a achei Santa nem Mãe.

21. Alguma vez soubeste o que era a felicidade?

R: Sim. Muitas vezes nos meus tempos de glória...É uma fogueira que precisa sempre de lenha para arder. Com o inverno o olhar sobre a felicidade é outro. Nem melhor nem pior. É diferente. A nova lenha pode ser uma boa bacalhoada ou uma lampreiada e provocar um estado de felicidade ainda que fugaz, bastando para tanto que não provoque um bloqueio intestinal. 

22.Sentes-te permanentemente só?

R: Às vezes sim. Mas SÓ às vezes.  

23. Alguma vez tiveste algum sonho?

R: Ainda os tenho. Continuarei a sonhar enquanto puder.

24. Só estás bem onde não estás?

R: Às vezes.

25: Os convívios da AAAR fazem-te alguma falta?

R: Não que me façam falta mas deles tenho boas recordações.

26. Tens campa, talhão ou jazigo reservado no cemitério?

R: Espero ser cremado.

27. Já marcaste um almoço de lampreia à bordalesa para 2021?

R: Este ano a sorte é delas.

28. Já leste a obra de René Daumal?

R: Não conheço.

29: E Margarida Rebelo Pinto?

R: Conheço mas nunca li nada dela.

30. Quantos CD´s tens de Tony Carreira?

R: Não se ouve música aqui em casa a não ser temas infantis  

31. Estás na fila para comprar o próximo CD?

R: Não se compram CDs nos tempos que correm

32. André Rieu deveria ficar surdo, mudo, maneta e quedo?

R:  Mesmo que fosse isso tudo voltaria ao "Meo Arena" para os ouvir.

33. Quando estás em casa está lá algum homem?

R: Sim. Pelo menos um!

34. Quando te olhas ao espelho, ainda te conheces?

R: Espero estar a ver bem.

35. O lugar do Sítio na Nazaré convida-te ao suicídio?

R: Por acaso já me imaginei a voar por ali abaixo mas como não tenho asas...

36. Las Vegas atrai-te?

R: Não me sinto atraído pelo desconhecido.

37. Quando um drogado te pede uma moedinha, perguntas-lhe, “é pra droga?! Ele responde: não, não, é pra comer”, e tu, então não dou.?

R: Mas dou-lhe de comer.

38: A televisão é a tua patroa?

R: Ainda não.

39. Quando respondes a questionários de merda costumas ser verdadeiro?

R: Não respondo a questionários de merda mesmo aos das Finanças.

40. Então por que não o és a este?          

R: Respondi com verdade porque este não foi feito por um merdas.

2021-01-21

Arsénio de Sousa Pires - Porto

Aventino, não sei se lançaste um desafio para que nós respondêssemos ao teu intressante Questionário. Louvo e agradeço esta tua iniciativa! Aqui vai a minha resposta:

QUESTIONÁRIO AO ANTIGO ALUNO REDENTORISTA

1. Quantos anos tens?

R:Tantos que já nem sei.

2. Quantos anos viveste?

R: Tão poucos que nem vale a pena somar.

3. Divides o mundo em santos e pecadores?

R: Não! Também gosto dos GNR e dos UHF.

4. Sentes-te à vontade com o sexo feminino?

R: Com as mulheres, sinto-me muito à vontade. Com o SEXO feminino, depende bastante da qualidade do sexo.

5. Sentes-te em igualdade com as mulheres?

R: Não exageremos! Viramos Bloco de Esquerda ou quê? Não queiramos fazer igual o que Deus, (ou a Natureza… para não ferir os menos gnósticos!), fez DIFERENTE. Igual, é uma coisa. Diferente, tendo os mesmos direitos e deveres, é outra bem DIFERENTE.

6. Se houvesse um regresso ao passado, eliminavas o Seminário da tua vida?

R. NÃO! Transformava-o numa Unidade de Cuidados Continuados para todos os ex-seminaristas redentoristas!

7. Tens pudor ou vergonha em dizeres que foste seminarista?

R: Pudor?! Ai, credo...! (aqui juntam-se os joelhos e inclina-se a cabeça para o lado que estiver mais à mão!)

Vergonha? Não preciso de dizer. Nota-se no olhar! Basta só confirmar. Nunca entrei e disse: ”Malta, sou ex-seminarista!”

8. Tens um sentimento permanente de culpa?

R: Se, por “culpa” tiver em conta o conceito oriundo do Direito Romano que a considera como sendo a falta de diligência no cumprimento daquilo que é exigido, por lei, a todos, não sinto culpa alguma. Agora, aquela cena de ver o “pecado” em tudo o que mexe, soltado nos famosos retiros, sobretudo, espanhóis… demorou alguns anos a ser safada cá por dentro. Hoje, não sinto culpa alguma… e tendo a não culpar ninguém pois não sou advogado nem juiz.

9. Gostas de passar na Rua Visconde das Devesas em Vila Nova de Gaia?

R: Dá-me muito jeito sobretudo quando, vindo da zona do Gaia Shopping, quero evitar a Av. da República (Gaia).

10. Sonhas com o diabo frequentemente?

R: A dormir, o meu cérebro não tem possibilidades de sonhar com realidades não existentes.

Acordado, sonho com ele frequentemente. Até porque eu já fui diabo muitas vezes.

11. E com um caldeirão em ebulição e tu lá dentro?

R: Só quando fui João Ratão. Fiquei com o rabo queimado. E, como rato queimado de rabo frio tem medo…

12. Consegues ir ao Bingo?

R: Não sei o que é isso. Suponho que é um jogo do tipo daquele que se fazia pelo Natal “Viva o Menino Jesus”! Não. Não acho graça. Até porque, quem joga perde sempre!

13. E persignar-te?

R:  Só quando vou ao bruxo de Areosa (Porto)

14. Quando te cruzas com um homem com sotaina preta na rua, manténs-te no mesmo passeio?

R: Só no filme “Diário de um Pároco de Aldeia”. Ou no “Campo de Trigo com Corvos” com Van Gogh.

15. Quando a tua parceira te humilha, fá-lo com referência ao teu passado de seminarista?

R: Por ter sido seminarista nunca fui humilhado por ninguém . Antes, muitas vezes fui exaltado nalgumas ocasiões e acções. A minha “parceira”, nunca me humilhou. Violência doméstica paga uma culpa (segundo o Direito Romano…!), não?

16. Recuperaste, de alguma forma, os afectos perdidos na tua adolescência?

R: Os afectos são como o tempo: ou o apanhas ou nunca mais o recuperas! Talvez não consiga responder a esta questão pois os afectos são distintos porque são dados por pessoas diferentes.

17. Empanturras-te em bacalhauzadas para esquecer o passado?

R: Com o nosso rei D. Carlos, direi: “Conheço todas as 200 maneiras de cozinhar bacalhau: Cozido ou assado na brasa!” Para mim, comer bem nunca foi “empanturrar-me para esquecer o passado” mas deliciar-me, comendo bem, para preparar o futuro (por tal motivo, como cada vez menor quantidade!)

18. Há palavras, frases, sons, gestos que te repugnam?

R: Repugna-me mais a ausência de palavras sons e gestos.

19. Quais?

R: O silêncio dos outros.

20: A Santa Madre Igreja ainda é santa, mãe e igreja?

R: Santo Ambrósio de Milão disse que a Igreja é uma “casta meretriz”.

21. Alguma vez soubeste o que era a felicidade?

R: Muitas vezes mas, depois, esqueço-me!

22.Sentes-te permanentemente só?

R: Penso que cada homem é um ser SÓ, em relação com outros seres humanos SÓS. Só assim ele se reconhece como Pessoa no meio das outras Pessoas. Muitos SÓS em SOlidariedade.   

23. Alguma vez tiveste algum sonho?

R: Acordo sempre antes do final!

24. Só estás bem onde não estás?

R: Como o António Variações e, sobretudo, com o Sto. Agostinho.

25: Os convívios da AAAR fazem-te alguma falta?

R: Quais? Já não me lembro.

26. Tens campa, talhão ou jazigo reservado no cemitério?

R: Mau! Outra vez a cena do “cubeiro” que abre covas?!

Eu sou mais pobre que Job.

27. Já marcaste um almoço de lampreia à bordalesa para 2021?

R: Só Takeaway cá em casa. E… arroz com a dita cuja.

28. Já leste a obra de René Daumal?

R: Não. O nome soa-me MAL.

29: E Margarida Rebelo Pinto?

R: “Sei Lá”! Essa senhora nunca visitou a minha biblioteca. Se cá entrasse, por certo que o meu amigo Eça exigiria mudar de estante! Como diz António Lobo Antunes: “Há escritores e há escrevedores.”

30. Quantos CD´s tens de Tony Carreira?

R: Ao certo, não sei. Mas tenho bastantes e ouço Tony Carreira com muito gosto; assim como ouço o Júlio Iglésias. Sobretudo no automóvel.  

31. Estás na fila para comprar o próximo CD?

R: Estou confinado. Mas, segundo sei, o próximo está muito longe!

32. André Rieu deveria ficar surdo, mudo, maneta e quedo?

R:  O diabo seja cego, surdo, mudo, marreco, paralítico e tudo!

33. Quando estás em casa está lá algum homem?

R: Se for em casa dum amigo, sim. Está lá um Homem…que é ele!

34. Quando te olhas ao espelho, ainda te conheces?

R: Com este confinamento, barbeio-me menos vezes.

35. O lugar do Sítio na Nazaré convida-te ao suicídio?

R: Estamos na 3ª Onda! Não vale a pena!

36. Las Vegas atrai-te?

R: Atraem-me muito mais Las Nuevas.

37. Quando um drogado te pede uma moedinha, perguntas-lhe, “é pra droga?! Ele responde: não, não, é pra comer”, e tu, então não dou.?

R: A minha mãe dizia: “Faz o bem e não olhes a quem.”

38: A televisão é a tua patroa?

R: Ligo e desligo a televisão quando quero e me apetece.

39. Quando respondes a questionários de merda costumas ser verdadeiro?

R: Quase sempre! Hoje foi excepção!

40. Então por que não o és a este?          

R: Porque este é um questionário de merda! Ehehehehehehe!

 

2021-01-20

Aventino Pereira - Porto

QUESTIONÁRIO AO ANTIGO ALUNO REDENTORISTA

 

1.            Quantos anos tens?

 

2.            Quantos anos viveste?

 

3.            Divides o mundo em santos e pecadores?

 

4.            Sentes-te à vontade com o sexo feminino?

 

5.            Sentes-te em igualdade com as mulheres?

 

6.            Se houvesse um regresso ao passado, eliminavas o Seminário da tua vida?

 

7.            Tens pudor ou vergonha em dizeres que foste seminarista?

 

8.            Tens um sentimento permanente de culpa?

 

9.            Gostas de passar na Rua Visconde das Devesas em Vila Nova de Gaia?

 

10.          Sonhas com o diabo frequentemente?

 

11.          E com um caldeirão em ebulição e tu lá dentro?

 

12.          Consegues ir ao Bingo?

 

13.          E persignar-te?

 

14.          Quando te cruzas com um homem com sotaina preta na rua, manténs-te no mesmo passeio?

 

15.          Quando a tua parceira te humilha, fá-lo com referência ao teu passado de seminarista?

 

16.          Recuperaste, de alguma forma, os afetos perdidos na tua adolescência?

 

17.          Empanturras-te em bacalhauzadas para esquecer o passado?

 

18.          Há palavras, frases, sons, gestos que te repugnam?

 

19.          Quais?

 

20.          A Santa Madre Igreja ainda é santa, mãe e igreja?

 

21.          Alguma vez soubeste o que era a felicidade?

 

22.          Sentes-te permanentemente só?

 

23.          Alguma vez tiveste algum sonho?

 

24.          Só estás bem onde não estás?

 

25.          Os convívios da AAAR fazem-te alguma falta?

 

26.          Tens campa, talhão ou jazigo reservado no cemitério?

 

27.          Já marcaste um almoço de lampreia à bordalesa para 2021?

 

28.          Já leste a obra de René Daumal?

 

29.          E Margarida Rebelo Pinto?

 

30.          Quantos CD´s tens de Tony Carreira?

 

31.          Estás na fila para comprar o próximo CD?

 

32.          André Rieu deveria ficar surdo, mudo, maneta e quedo?

 

33.          Quando estás em casa está lá algum homem?

 

34.          Quando te olhas ao espelho, ainda te conheces?

 

35.          O lugar do Sítio na Nazaré convida-te ao suicídio?

 

36.          Las Vegas atrai-te?

 

37.          Quando um drogado te pede uma moedinha, perguntas-lhe, “é pra droga?! Ele responde: não, não, é pra comer”, e tu, então não dou.?

 

38.          A televisão é a tua patroa?

 

39.          Quando respondes a questionários de merda costumas ser verdadeiro?

 

40.          Então por que não o és a este?

2021-01-07

António Vias Boas - Minas Gerais-Brasil

Minas Gerais, Dia de Reis de 2021

A RESILIÊNCIA segundo Mário Quintana

 

Minha nossa! Tô já bem arrependido da confissão que fiz. Devia guardá-la para mim. Têm razão. Desenxabida, desgarrada, muito mal articulada e aos soluços. Superficial. Aliás, todas as confissões, se sinceras, são assim. Dado o seu subjetivismo não interessam a ninguém. Muita parra...

Mas eu não deixo cair a peteca ao chão. Quero reabilitar-me, contribuindo para a felicidade de alguém. Por isso, como hoje em dia se fala muito em resiliência e mesmo que a Coronavac chegue a todos, os psis continuarão a falar do controle das emoções etc. a dizer essas coisas de que eles tanto gostam e que às vezes até são úteis, pelo menos vão entretendo o pessoal, tá?

Vou portanto deixar dicas para a resiliência. Gostaria de usar algum poema de Omar Kayan ou sufi, só que a minha casa aqui em Minas Gerais é uma floresta de livros, quando quero algum, nunca o encontro. Escolho outro. Tratando-se de poesia, isso não tem grande mal porque, atentando bem, os grandes poetas dizem quase todos o mesmo. Vocabulário, técnica, construção e estilo etc. mudam evidentemente, a essência não. Refiro-me só aos grandes, claro. Mário Quintana, a quem recorro para abordar o tema desta crónica e que conheci em Porto Alegre no início dos anos 90 ainda bem lúcido como sempre, dizia que a grande poesia não é aquela que serve para embalar, mas sim para abalar. Admitia ele pois 2 níveis de palavra poética, mas esclareça-se.

a) - O texto para embalar é dual.

1 - O grau inferior é o hipnótico: bem escrito, bom ritmo, musicalidade. Palavras lindas. Mas inútil, nele só há vacuidade, nada diz. A ilusão pura das palavras funciona como armadilha, hipnotiza. É fogo-de-artifício, que até pode durar algum tempo, arte do efémero, mis-en-cene, trompe-l`oeil. Resumindo: é falso. Porque a verdade não é uma relação lógica. Quem a determina é a vida. Verdadeiro só é aquilo que está de acordo com os interesses profundos e autênticos do homem e da vida e os defende, segundo a corrente do Pragmatismo, hoje em dia.

2 - No grau superior tá o texto encantatório: relativamente raro. Requer um elevado teor de pureza e inocência, de quem vê o mundo pela primeira vez. Nele existe o ser e o amar, o viver e o morrer. Chamar-lhe infantil é errado. Toca simplesmente no arquétipo da criança que há em todo o ser humano. E abala também.

b) - O texto para abalar é o que só os grandes conseguem: profundidade. O que o meu professor de Filosofia disse textualmente numa aula: Quando se põe os pés no continente do ser, os passos ressoam na eternidade. Nunca esqueci. Por vezes com palavras simples e quase banais, só que de repente dão-nos uma cutucada, um murro na alma que nos deixa boquifechados de espanto. Sacodem-nos. Isto é: descem ao abismo, que é o nosso inconsciente e tocam nesses arquétipos que são os alicerces da vida ou da alma levantando essas tempestades de tensão dentro de nós. Sacudindo assim a consciência adormecida, tocando na raiz do nosso ser, chamam-nos para nós mesmos.

Acrescento ainda um 3º nível, o Mestre Quintana já não se importa. Assim descrito pela sabedoria índia americana: quando ao sopro humano se junta o sopro de algum deus, o texto daí resultante é profundo e sagrado.

Há quem momentaneamente toque no sagrado. Mas quando o sopro é quase todo de algum deus nós, humanos, damos muito pouco valor a este tipo de texto, aliás raríssimo, por 2 motivos:

— Os deuses não seguem os nossos critérios estéticos.

— Nós, raramente, temos capacidade para reconhecer nele a profundidade e o divino.

Esta a conclusão a que cheguei da leitura de alguns deles.

Enfim, a poesia é um objeto como um par de sapatos ou uma garrafa de vinho, só compramos o que nos serve. E temos garrafas a 2 ou 3€ e um Barca Velha de 300€. No supermercado da vida e da arte também é assim, né?

Mas passemos ao poema de Mário Quintana. Li-o numa revista, achei-o foda e aprendi-o logo de cor. Ei-lo:

Poema do contra

 

A todos aqueles que estão aí

atravancando o meu caminho

Eles passarão

Eu passarinho

Parece simples, quase sapeca, né? Nada mais falso! Nele perpassa a essência do pensamento ocidental e oriental, Psicanálise, Religião, Neurociência e Física Quântica etc. Impossível pedir mais perfeição. Mas analisemos, sinteticamente. O meu objetivo é uma crónica, não um ensaio.

Poema do contra  O título é a porta de entrada, síntese das 4 sínteses que são os versos do poema. Que significa?

Partindo de J. Fichet, embora a descontinuidade quântica do muito em voga T. Kuhn mereça reflexão, vemos que 3 são as forças que regulam a dialética, o movimento e o evoluir da vida e do cosmos. As religiões consideraram-nas sagradas, são as célebres trindades. Há quem pergunte: sendo Deus um só, porque há nele 3 pessoas distintas, porque é uma tríade?

O título situa-nos na negação. Sendo as 3 forças iguais, sem as quais nada existiria, a negação surge aparentemente como o motor da dialética, de qualquer evoluir ou transformação que implique um salto qualitativo. Ela pode ter diversos nomes: Feminino, neutro (na eletricidade e no átomo), descontinuidade quântica, crise (na Psicologia e Epistemologia), filosofia do não, não-ser, negação do não-ser etc.

Aprofundemos um pouco. Temos a afirmação, o eu puro, o projeto, o ser etc. Só que no seio do eu está o não-eu, tudo o que eu não sou ou possa vir a ser, as limitações, as oposições, as forças contrárias a mim. É a negação. Quanto maior for a afirmação, mais forte será o oposição, as forças adversas. É fácil ver que só haverá superação, um salto qualitativo, evolução tanto pessoal como coletiva quando essa negação, oposição, não-ser for negada. Isto é: negando nós a negação é que se dá o salto para uma nova afirmação, já de um nível superior. A negação é o motor. Cristo textualmente disse que o homem tem de negar-se a si mesmo e que veio trazer a guerra e não a paz. Entramos portanto na chamada guerra santa, morte do eu.

Não me quero alongar nisto.

F. Pessoa fala daqueles que tomam a pousada como casa. Casa é o definitivo, o último. A pousada é só para algum tempo, isto é, nunca pensemos que as nossas verdades são as verdades, servem por algum tempo talvez, mas temos de procurar outras verdades mais verdadeiras, superiores sabendo que também essas terão de ser abandonadas em busca de outras. O novo implica a destruição do anterior, do velho. O evoluir, o movimento da vida exige a destruição do conhecido, crenças, religiões e muitas outras verdades velhas e pontos de vista etc. Em quem se julgar cheio, completo, nada mais entra. Só o esvaziamento cria espaço para o novo e o criativo. Daí a importância radical da dúvida, do pôr em causa, da pergunta, do contestar e das situações-limite que nos sacodem, destruindo as nossas certezas e obrigando a um reconstruir de novo o nosso novo mundo.

Sem a negação, portanto, não se sai do mesmo, do repetitivo. Sem um não o novo não poderá nunca existir. Há pois, ou deverá haver, um movimento incessante entre o Saber – Não saber – Saber, já outro. Nietzsche disse não haver nenhuma grande verdade que primeiro não tenha provocado risos.

 

Todos aqueles que estão aí atravancando  O nível externo e o interno são indistintos, porque o externo condiciona o que somos. Crenças, ideias, tradição, religião, política, educação, cultura, família… Tudo isto nos aprisiona e impede o caminhar. Interpretamos o que achamos ser o real a partir do nosso condicionamento, dos nossos óculos psicológicos. Por isso limpá-los e até mudar de lentes é bom, né?

Quando numa ida a Portugal, entre alguns objetos de F. Pessoa, me deparei com os seus óculos, senti uma certa emoção porque com eles, por detrás do nosso mundo, ele consegui ver um outro mundo e saber ainda que por detrás desse outro novo mundo mais outros mundos haverá.

Alguém dos muito poucos que puderam vasculhar na célebre arca de Pessoa confidenciou ter encontrado um bilhete de elétrico onde Pessoa escrevera mais ou menos isto: Se até Deus é múltiplo, como é que eu posso ser um só? Desenvolver esta questão ajuda-nos na resiliência. Freud assinala 3 eus na estrutura psicológica. Mas no Oriente há muito que era conhecida a assim chamada doutrina dos muitos. Isto é: nós não somos uma individualidade, mas sim uma multiplicidade. Muitos eus, contraditórios até, dentro de nós. Por isso hoje queremos uma coisa, amanhã já não, amamos e desamamos etc. etc. São nós energéticos, tipo cancro, cada um deles quer mandar em nós, alimentam-se da nossa energia psíquica, são portanto inimigos da alma, têm aprisionados em si bocados de consciência nossa. Segundo Freud o nosso inconsciente (do qual nada sabemos… ) é de 80% de nós. Cada defeito nosso, pensamento, obsessão, fantasias, emoções, complexos, desejos, medos, manias etc. etc... são eus. Não nascemos com eles, fomo-los agregando ao longo da vida. Somos constituídos portanto por diferentes entidades. Libertar-se, regressar à unidade, ao nosso ser puro é a tarefa, recuperar os bocados de consciência que estão aprisionados nos diversos eus. Ou em expressão psicanalítica: tornar consciente o nosso inconsciente. É um trabalho psicológico, a morte dos inimigos. Cristo no Pistis Sofia, manuscrito que chegou até nós, enumera uma longa lista destes elementos a eliminar.

Vou citar um caso pessoal. No final duma aula, não sei se sobre o infra-eu de Freud ou a sombra junguiana, um jovem acercou-se a mim dizendo que dentro dele sentia um grande desejo de matar, matar… Queria o meu parecer. Eu disse-lhe que o que ele sentia não era mau, até podia ser bom, mas que começasse primeiro por si, por examinar-se a si próprio, procurar compreender-se e que fosse matando nele tudo o que achasse de mau. Ele percebeu. Propus-lhe a sabedoria socrática, que é o conhece-te a ti próprio, o autoconhecimento do nosso microcosmos e que é o motor da mudança. Mário Quintana disse: Primeiro viver, depois morrer. Viver morrendo, devagar. Mas o texto mais extraordinário que li é da sabedoria índia: Levantar-se de manhã, abrir a janela e ante um sol radioso exclamar: Está um dia bom para eu morrer. Veja-se também o elevado grau da religião egípcia: o julgamento do morto no Além. Num prato da balança era posto o seu coração e no outro, uma pena. O coração tinha de pesar menos para que o defunto pudesse continuar viajem, nada de negativo podia haver nele.

 

O meu caminho  O símbolo é evidente. Muito se disse do caminho e da ciência do caminho. A autorrealização ocupa o topo da pirâmide de Maslow.

Mas o caminho é individual, nunca coletivo. Para Jung é a individuação, o regresso ao Self, a aventura da vida que é ir da multiplicidade à unidade.

Segundo a Bíblia fomos expulsos do Paraíso. Mas uma porta tanto é de saída como de entrada. Quem descobrir a porta por onde se saiu poderá voltar a entrar. Também, segundo o mito, no fundo da caixa de Pandora ficou a Esperança.

 

Eles passarão  Não só o que atravanca passará, como tudo passa. Recorde-se o rio de Heráclito ou a vida como um rio do Marquês de Santilhana. Heráclito diz-nos ser impossível tomar banho 2 vezes no mesmo rio, daí dever-se-ia concluir que também nós nunca, nunquíssima, deveríamos cometer o mesmo erro 2 vezes, o que não acontece. Repetimo-lo.

Mas ver este verso pelo prisma da transitoriedade é um pouco redutor. Trata-se aqui da impermanência, que abarca um vasto conhecimento humano desde a Filosofia, Física Quântica etc. até à Neurociência que já descobriu que se alterarmos os circuitos neuronais interpretamos o mundo tanto interior como exterior de outra maneira.

A impermanência é a única coisa permanente, que não passa. Aquilo a que chamamos realidade e pensamos que existe, não é o real e talvez não exista. Vemos o mundo assim, mas a Física Q. demonstra que ele não é nada assim. A chamada Física do Impossível é possível e verdadeira. As coisas existentes fora de nós não têm uma realidade fixa, objetiva, definitiva… e como num filme permanente tudo passa, podem ser mera ilusão nossa. As nossas leis do universo ao nível atómico e subatómico não funcionam e a separação sujeito-objeto é uma noção já considerada falsa como o comprovou Heisenberg no Princípio das Incertezas. Enfim, talvez só o Ser exista, tal como em Matemática todos os números são apenas uma soma do 1. Tudo veio também do big bang e quando os mundos se contraírem tudo regressará a ele, donde partiu. Talvez seja de meditar na hipótese oriental de que o mundo é um sonho de Deus, só quando nós despertarmos é que o sonho acaba para nós. Entretanto estamos neste palco representando o nosso papel, cena após cena, com os outros intervenientes, tão atores como nós. Não nos identifiquemos com as cenas, ir representando e deixar que tudo passe sem lhe acrescentarmos a dimensão mental que é quem cria os problemas…

 

Eu passarinho  Símbolo claro de libertação, da ascensão, da leveza alcançada, embora não definitiva. Estado de consciência superior que permite passar sobre os obstáculos sem se enredar. Aqui ultrapassa-se a negação, os nossos eus que atravancam, nos roubam, aprisionam e saqueiam. Por isso mesmo os pássaros têm asas como os anjos e caminham livremente pelo céu.

 

Exemplo prático de resiliência. Estava eu no Xica da Silva tomando um café preto bem forte e apeteceu-me escrevinhar. Saco duma folha de papel, concentro-me e lanço umas 3 palavras, ao calhas. Quero prosseguir. Escavo, bem escavo, mas nada sai. Minha nossa! Parece que encalhei. Nisto o garçom, vendo o meu ar descoroçoado, socorre-me logo:

— Vai uma cachacinha, Sr. Villas-Boas?

Este garçom, carafuz e já um pouco anoso, é um psicólogo nato. Basta-lhe um olhar e vem logo com o remédio certo. As garçonetes são mais chibantes, né?, mas menos eficientes. Mas esta cachaça mineira, diga-se, faz milagres, mais que a água-benta. No verão eu prefiro garapa. Ainda há chácaras que fabricam esta cachaça com receitas de fazendeiros da época colonial. Aceitei, só que o remédio não sortiu efeito. Esgaravatei, escarafunchei e nada. Fiz umas caramonas, mais umas garatujas e nada. Encravei, estava mesmo sem sopro. Razão têm e muita aqueles que falam da angústia do escrevedor ante a brancura duma folha de papel, sem nada.

Contudo eu não sou homem de deixar cair a peteca. Alguns dias depois fazia frio. Garoava até. Mas eu tinha-me agasalhado bem, ao almoço, com cerca de meia garrafa dum Pinot Noir de 2016 acompanhando um mingau que estava divinal, e goiabas de sobremesa. Decidi voltar ao trabalho. Sentei-me confortavelmente, fechei os olhos, concentrei-me, relaxei. Revi a cena do Xica da Silva. Após, procurei entrar um pouco no meu inconsciente. Ver no ecrã da mente as emoções, os pensamentos, os desejos, os delírios, as forças contraditórias, o passado repetitivo, as obsessões, as compulsões… que iam sucessivamente desfilando. Procurei compreender a origem de todo esse filme que, contínuo, deslizava. A observar simplesmente e deixar que passasse…

Isto durou um tempo e mais meio tempo.

Depois aumentou o silêncio em mim, tinha descido a um nível mais profundo. O coração latia, mas não era eu, era já o coração, o centro do mundo. Comecei a vibrar com o universo. Estava integrado na alma do mundo. Sentia a aspiração de todos os seres à felicidade e à paz, tal como eu. O fluir da vida, a inter-relação entre a terra, água, sol e ar. Senti a interconexão de todos os seres vivos e inanimados.. Em todos eles via o meu rosto e no meu rosto, não sei como, o rosto deles todos. Tudo me envolveu, homens, animais, plantas, o sol, o respirar das florestas e das nuvens, os rios e mares, a Natureza inteira, a harmonia de todas as coisas, a música inaudita das estrelas e dos céus.

Isto durou um tempo.

Subitamente senti-me afundar num estranho silêncio. E foi então que eu vi…

Vi a Grande Mãe, aquela a quem todos os deuses e demónios adoram. Nua, coberta apenas pela sua cabeleira longa até aos pés. Dos seios brotavam fontes, rios e os mares. Sob os pés moviam-se os sóis e as estrelas de todos os mundos. Da sua cabeleira brotavam as messes, os trigais, os frutos e todo o alimento. O seu olhar continha todos os seres da terra, da água, do ar e os que habitam ainda no fogo e na pedra, de todas as galáxias. Suas mãos tudo abraçavam. Detinha nelas a energia contida em todos os átomos. Ela cantava e chorava estranhamente em simultâneo. Do seu canto nasciam universos, galáxias, mundos seres… Do seu choro saíam os buracos negros, a noite do nada, o caos, o choque das galáxias e a destruição de todos os mundos que iam ruindo assim um após outro, de regresso ao vazio de onde tudo saiu…

Isto durou: nada. Já não existia tempo aqui. Estava-se na eternidade do agora.

E tudo cessou depois. Muito lentamente voltei a mim, até abrir os olhos. Pus novamente a máscara, regressando ao palco da vida para continuar a representar os papéis que me são atribuídos. Mas vinha mais leve, mais determinado, mais confiante na vida, vibrava num ritmo mais elevado.

Então voltei à folha de papel em branco. E venci a lei da entropia, os bloqueios inconscientes, escrevi. O texto fluía. Mas omito-o, para não distrair os leitores com comparações desnecessárias, e não meter ruído na comunicação, pois o poema do Mestre Quintana oferece vários campos e níveis de reflexão. Não é preciso que eu introduza outro.

Foi assim como venci a negação, a oposição, as forças contraditórias, a inércia. Neguei a negação.

Concluindo: chegamos cedo ao mundo e tarde de mais ao amor. O grande poema já iniciado é a Vida.

E por aqui me quedo.

Agora vamos todos invocar, tá?, a Iemanjá, Senhora das águas da vida, e a Oxalá, o Senhor da bondade e misericórdia, para que nos abençoem e tomem em suas mãos este ano de 2021 que agora começa. E para vós, mais que um abração, recebei um xi-coração grande deste cavernícolo do fim de um mundo e um pouco do calor que neste hemisfério agora faz.

Villas-Boas

 

2020-12-27

Aventino Pereira - Porto

SOBREVIVI 

CONTINUAÇÃO                                                                                                                                                                                                             11

A minha aldeia não mais foi a minha aldeia, já o disse. As pessoas, as poucas pessoas morujavam nos campos de lavoura de sol a sol e quando caía a noite, cansados de uma vida de nada, dormiam até antes do nascer do sol. A freima repetia-se, infinitamente repetia porque a natureza não mete férias, o gado quer penso e água, o porco queria a lavagem e a vinha dá-lhe o míldio e leva-a toda. Por vergonha, fingiam que guardavam o domingo, como dia de louvor e obediência ao Criador, mas na verdade, já nem o corpo sabia outro modo que não a moirama, nem a labuta do campo lhes tinha passado a dispensa. Ninguém falava comigo. Quando escrevo ninguém era exatamente em todos os sentidos. Pessoas não via e quando, porventura, se cruzavam comigo, ao longo do caminho por onde eu fosse ou viesse da missa, botavam os olhos para o chão, bom dia menino, bom dia, retorquia-lhes e zás, passo apressado, olhos no chão porque eu era certamente um outro ente que não um simples mortal como o resto dos da minha aldeia. Para uns, eu era o padreco, para outros eu já tinha estudos, andava limpinho, não dizia caralhadas, tinham vergonha.

Restavam-me os dias em que o correio tinha deixado os aerogramas dos soldados e as cartas de França e do Brasil dos emigrados, deixados na venda do lugar onde cada um procurava notícias dos seus parentes. Lá vinham elas, mulheres quase sempre, com a felicidade metida no bolso do avental. Senhora Maria, chamavam à minha porta, o seu filho está cá? recebi correio do meu filho do Ultramar. E sentadas a meu lado, no banco de pedra onde eu sonhava o mundo, ouviam-me tolhidas pelas lágrimas e pela dor de quem tem a morte sempre a rondar. Pausadamente, lia-lhas, criando vírgulas onde não havia vírgulas, pontos finais onde estava um gatafunho qualquer. Meus queridos pais, muito estimo que ao receberem esta minha carta estejam de feliz saúde que…. O início e o fim eram sempre o mesmo. Lá no meio, quando a notícia não interessava, eu inventava-a, mentia, criava um acontecimento feliz, “hoje fomos todos dar um passeio até um rio que passa aqui e é muito bonito. Faz-me lembrar o ribeiro da nossa aldeia e a propósito como estão as videiras, e as oliveiras? e as mães continuavam a chorar, inebriadas com as mentirolas que, instantaneamente, lhes inventava. As cartas dos namoros tinham que ter outro cenário. A noiva já não chamava pela minha mãe, trupava à porta com os nós dos dedos, a minha mãe vinha ver quem era e elas sorriam-lhe, rasgado sorriso do enamoramento que haveriam de encontrar escrito no escrito que queriam ouvir. A minha mãe chamava-me, filho, está aqui uma menina, e eu já sabia para o que era. Fazíamo-lo um pouco acima de minha casa, saídos do caminho, por baixo de uma velha oliveira onde eu “sestei” tantas vezes no verão e era a única oliveira daquelas leiras onde ninguém, até então, se teria enforcado. Dali ouvia-se o som das águas do ribeiro pra os braços do mar, o chilrear dos pássaros, a brisa e o vento a bulir com as árvores, o som que só o som tem e elas aninhadas por sob os ramos da oliveira, extasiavam-se com as minhas mentiras. “Minha adorada e bela noiva”, era uma das minhas frases que lhes faziam estalar as lágrimas. “Como eu queria tanto acelerar o tempo e partir já para os teus doces braços”, era outra das minhas invenções, e elas, está mesmo isso aí escrito? sim, sim, assim mesmo, e quando a coisa já era mais adiantada e a namorada pensava em casamento, que mal havia em deixá-la sonhar? “Estarei à tua espera no altar da nossa igreja para te tornar minha mulher, logo, logo que regresse ao nosso Portugal”, rematava eu. O meu sucesso era tal, que também me encarregavam de dar a resposta. Ponha aí também coisas bonitas, como ele me manda, ponha. E eu escrevia: “vivo todos os dias mergulhada na beleza do teu olhar”, funcionava muito bem, “sou tua e serei sempre tua como a terra é do sol”, poético, não é, e só outra mais, “vem, meu adorado noivo, vem muito rapidamente, para vivermos felizes para sempre”, era a mentira kitsch com que terminava. Foram os meus anos da adolescência em favor de quem não sabia escrever nem sabia ler, mentindo às almas, para não mentir ao corpo, num tempo e num lugar onde não havia cães, não havia gatos, nem mancos ou deficientes, nem ladrões nem malandros. Afinal, não havia nada. Nada, daquilo que pode dar outra imaginação à vida.

Quando botei corpo, o meu corpo já não me deixava a serenidade para enganar as noivas com belas palavras. O meu corpo tinha medo das mulheres, como os gatos nos roubos furtivos, uma pata a fanar a sardinha e a outra pata pronta para se pisgar. Quando o meu corpo já pedia, elas continuaram a descer a ladeira, bater à porta e esperar que a bondade e a malícia de minha mãe me piscasse o olho para que eu lhes lesse as cartas que, cada vez mais, vinham de onde os soldados portugueses matavam turras e de onde operários portugueses moiravam de trabalho e apodreciam no bidonville de Champigny-sur-Marne.

As mães não olham, mas veem; as mães não escutam nem bisbilhoteiam mas tudo ouvem mesmo o que jamais produziu algum som. Dizem que a “fémina” é dotada de mais um sentido que o resto da humanidade, chamando a esse resto da humanidade, o homem. Dizem também que os sentidos femininos partem da conclusão para a premissa, do que querem que seja, para o facto que constroem, como quem vê uma mulher a esgueirar-se da porta de uma automóvel á meia noite de um dia de inverno com chuva e conclui que foi á missa das vésperas ou como quem  vê um chaparro num monte do Alentejo e diz-nos logo que se o monte está ali e o chaparro também, é porque essa mesma mulher ali se vem deitar a essa mesma noite em que alguém a viu a sair de um cabriolet numa noite de inverno. “Toma cuidado com o homem de um só livro”, diz-nos São Tomás de Aquino mas o que é certo é que a História esqueceu-se de considerar a mulher, na sua perfídia e também no resto, sendo esse resto àquilo tudo que não sabemos. Pode alguém conhecer uma mulher? “Sim; outra mulher”, ter-nos-ia dito São Tomás de Aquino se no século treze da era de Cristo a mulher já fosse tida como mulher. O que importa é que a minha mãe espreitava-nos, sem que eu jamais soubesse se era apenas curiosidade pelo filme que tinha à sua frente ou se era receio que o seu filho, ali mesmo, diante dos seus olhos, a trocasse por outra, por outra mulher, a quem nunca as mães reconhecem a pureza para receberem tamanha dádiva.

A velha oliveira lá nos acolhia, eu encostado de um lado do seu tronco e a ansiosa noiva do outro lado do mesmo tronco. E continuávamos ambos a fingir: eu que lia o que vinha nas cartas e ela que estava muito interessada no jovem que a viria resgatar ao mundo da desesperança para a fazer bela e rica por terras de além mar ou além Europa. Mas quando a minha voz engrossara, a barba cobrira a cara e o corpo mostrava as formas de um corpore sano, os olhares delas eram bem mais atentos do que os ouvidos. Como que se lhes ouvisse o pensamento, como se em todo o risinho delas viesse toda a astúcia feminina, já tinham percebido que o padreco mais dois ou três anos bem lhes poderia dar um futuro de abundância.

Lembrava-me então das aulas de biologia e de ciências naturais: olhem para a selva e quem é o mais belo: o macho ou a fêmea? E porquê? Porque, na selva o que importa não são os genes delas, o que importa são os genes deles, são eles quem garante a continuação da espécie, e ali estava eu relembrando estas lições como se, de repente elas me tivessem tornado adulto. Eu vou fazer os votos, sabes, entregar-me-ei ao sacerdócio, repetia-lhes, mentindo a mim e mentindo a todo o desejo que me assolava a serenidade. Maldita oliveira, bendita oliveira ali continua como se não houvesse tempo que por ela passasse, visito-a e encosto-me outra vez ao seu tronco, refastelo-me em dias quentes e conversamos, como se me perguntasse como foram todos estes anos que passaram e eu como se lhe quisesse responder. O rapazito que aqui leu cartas e aerogramas, morreu e as raparigas que se encantaram com palavras inventadas também morreram, somos outros, uns sem memória e outros sem quererem recordar. Só tu, oliveira, continuas igual, não envelheceste,

Nós, oliveiras não envelhecemos; quando nos cansamos, morremos diretamente como se obedecêssemos a uma ordem imposta pela natureza. Num instante renegamos a seiva, a água, a luz do sol, o poente e o nascente e preparamo-nos para a morte. No dia seguinte já não somos oliveiras, cansadas que estamos da vida como quem claudica nas suas peregrinações. Depois, mirramos, secamos, serviremos de lenha para a lareira, para aquecer o forno ou para móveis para as cozinhas. Aqui continuo à tua espera, diz-me a oliveira, quem sabe se um dia também te cansas e morres nos meus ramos. Quem sabe se o meu destino oliveira é mesmo ser oliveira como as de cima, da leira de cima, acolher no meu ato de vida, a morte enforcada no ramo mais forte do seu caule. E depois? E depois esperar-te, para morremos juntos, como juntos temos vivido.

                                                                                                                                                                                            

Quer partilhar alguma informação connosco? Este é o seu espaço...
Deixe-nos aqui a sua mensagem e ela será publicada!

.: Valide os dados assinalados : mal formatados ou vazios.

Nome: *
E-mail: * Localidade: *
Comentário:
Enviar

Os campos assinalados com * são de preenchimento obrigatório.

Copyright © Associação dos Antigos Alunos Redentoristas
Powered by Neweb Concept
Visitante nº