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2011-02-01

manuel vieira - esposende

Também já declamei para mim de forma repetida este poema perfurante do Aventino, dei-lhe velocidades e jeitos diferentes e expressões faciais que percebiam alguma loucura de improviso.

Claro que depois sorri em sorriso introspectivo e voltei a repetir sem voltar a sorrir.A coisa é tremenda, mas decerto bate certo.

A anomalia emocional do Ismael sobre a récita não teve a ver com o poema mas porventura com o tom sensitivo do  declamador e brotou. Claro! Aquele rebento tocou-lhe a alma safada de uma penúria de jeitos de sentir diferente e calou-lhe os gotejos que tombavam e que imaginava secos.

Vá lá! Diz ao Aventino que as mães sussuraram lágrimas de amor nas batidas da despedida e o folhelho das almofadas absorveu os gestos das emoções saudosas do filho seminarista em noites mal dormidas de incertezas.

Foi essa força matriarca que nos deu homens, foi esse desfraldar de emoções que nos esculpiu emotivos e nos fez poetas... como seríamos sem a força erosiva desses ventos!

2011-01-31

Ismael Malhadas Vigário - Braga

Caros amigos,

Primeiro de tudo, um pedido de desculpas pelos meus erros ortográficos. Um e-mail não é como as cartas que antigamente escrevia. Antes grafava com a mão e a mão seguia o pensamento e a mão só escrevia depois de autorizada, agora é uma revisão rápida e é logo um clic. O Arsénio desculpou-se em tempos que não tinha algumas teclas. Penso que tenho tudo, mas depois de ler outras vezes, reparo que não posso emendar Lefèbvre, Fóios e tantas outas palavras mal escritas, mas sei que as pronunciei bem para mim mesmo. Temos os destinatários e eles são superiores aos emissores no acto da escrita.

O poema do Aventino comoveu-me. Senti-me arrepiado com as palavras e os sentidos tão diversos que o poeta polixamente estampou na página expendida de estrofes.

Aqui na minha escola costumamos fazer um festival de poesia. E um dia um filho meu que agora já tem quinze anos declamou um poema em público e fez-me descompor em choro e, ainda agora me comove , quando me remonto a um ponto daquela memória que selou em mim algo de alegre e triste que as palavras nos desconjuntam e locomovem da realidade.

Portanto, Aventino, já sabes que tens um enorme efeito em mim. Não vou comentar o teu poema, pois vou obedecer ao mestre Arsénio: os poemas não se comentam. Talvez, vivem-se. Senão fico como referi, atrás, com o poema do meu filho - perdemos a postura e os outros acham que não podemos extravasar a emoção, sermos sujeitos do poema que alguém escreve e que, sem sabermos, também nos é endereçado.

Não será isto também a relidade? Ou é só falarmos de economia, economia... finanças, dívida... crise , diis te perdent - como diziam os latinos.

Façamos poesia, se for esse o nosso modo de sermos nós próprios, bebamos o vinho em companhia, pois pode ser o acto poético por excelência, quando nos apraz a companhia e o nosso ego se reforça e a espenrança é um rio para lá das nuvens, de outros universos e mundos, os da imaginação e que fazem parte de nós, como o frio que bate na pele ou o olhar do outro que me acarinha ou me fustiga.

 

2011-01-30

aventino aventino - Porto

Também eu já escrevi poemas de amor. Também eu já fui de perguntas e de certezas. Versos e rimas de amor, acreditando que sim, que o que escrevia era isso de que nunca nos ensinaram o que era isso. Também eu nunca falei à minha mãe: "amo-a, minha doce mãe" mas o que queria hoje era um silêncio, um beijo, a sua angústia de ter dado um filho para o seminário. Hoje ela já não me ouve; hoje as nossas mães já não nos ouvem; vós continuais na esquerda e na direita, na fé e na ausência dela, num cabrito ou num vinho ácido a aliviar a nossa carência.

Hoje não quero viver.

Nem sorrir ou sonhar.

Nem comer ou respirar.

 

Hoje não quero, pronto.

Não quero sofrer nem ser.

Quero o nada que sou.

Guerra ou paz?!

tanto me faz!

Hoje não voo.

Hoje não vou.

 

Passa dia, passa.

Depressa, depressa,

estou com pressa.

Hoje rasgo o calendário,

Rasgo o diário,

Rasgo-me.

Há o tiro e a forca,

comprimidos e ácidos, sim.

Mas hoje não me mato (ainda)

vou fazer qualquer coisa por mim

e esperar amanhã,

que seja já.

                                            ***

Também eu já escrevi poemas de amor para esta mulher. E continuo à espera. À espera da voz dela, sibilina e terna a dizer-me: " apesar do seminário, vem, vem; quero-te".

 

2011-01-28

Arsénio Pires - Porto

Caro Ismael:

Eu penso que em toda a mentira há um fundo de verdade.

Foi por isso que certa mulher, já quase no fim da vida, confessou ao seu marido:

- Menti-te sempre! Mesmo quando te dizia a verdade!

Assim sendo, posso afirmar-te:

- Na segunda-feira, sou do BE. Na terça-feira, sou do PCP. Na quarta-feira, sou do PS. Na quinta-feira, sou do PSD. Na sexta-feira, sou do CDS. E, no fim-de-semana, passo os dias a vomitar!

 

Isto a propósito do tal texto gaulês.

2011-01-27

Ismael Malhadas Vigário - Braga

Nem de direita nem de esquerda. Isto não é possível. Mas é, pois a verdade pode estar em dois ou mais lados. A verdade não se resume a uma classificaçaõ dicotómica. Essa divisão é apenas uma possível classificação académica. As classificações dos objectos respondem a determinados interesses do sujeito. Henri Lebvre, pensador francês, dizia que havia mais pontos de contacto entre a esquerda e a direita que divergências. E, neste ponto, acho que, hoje, estes dois conceitos ou dois esquemas de "arrumar" a realidade político-ideológica é, cada vez mais vazio e mais gasto.

O ser humano é incapaz de se calar, de guardar silêncio, de escutar, de receber a palavra do outro e dar-lhe um tempo de maturidade, para depois a poder oferecer ao outro com uma mais-valia. As palavras vão e vêm e algumas são tão recorrentes que as esvasiamos pelo facto de com elas pronunciarmos as mesmas ou quase mesmas ideias a que a elas andam associadas.

Neste ponto, agrada-me a palavra dos poetas, a sua figuração, porque recriam novos sentidos e deleitam o leitor pela sua força estética, pela enorme abertura que manifestam e pela oferta de um mundo, quase sempre novo e estimulador para a confiança do homem. Viva o Alexandre, o Fernando Echevarría e  o Bernardino dos Fóis e todos aqueles que, beberam dos nossos valores e palmilharam os campos da Barrosa, que riram e suaram nos jogos, nas pequenas tertúlias e que continuam a viver connosco.

Esquerda e direita.

Ninguém devia acreditar nestes conceitos, porque redutores e, em geral, portadores de coisa nenhuma. Até aqui, neste sítio, já houve vezes que nos desentendemos. Porque é mais importante tudo aquilo que nos une, que nos aproxima e nos identifica e, esta realidade redutora, necessariamente que pouco tem a ver connosco. Viva o Aventino, grande amigo, que me ofereceu o seu livro e que me deliciei a lê-lo, porque falou de uma realidade recriada pelas virtualidades da palavra e sentidos sempre novos que sabe atribuir às palavras e com elas sabe dar esperança ao leitor.

O desencanto pela política começa a ser já um tormento. E essas duas arrumações já fizeram grandes estragos. Imagination au pouvoir, diziam os revolucionários do Maio de 68.

Com isto, Arsénio, ponho tudo mesmo saco e bem atado, tal caixa de Pandora!...

Um abraço pra todos.

Ismael Vigário

 

 

 

 

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