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2020-11-20

assis - Orbacém

Boa noite, amigos AAARs

Paz e Bem...

P.S. - Estas 2 letras costumam colocar-se no final para acrescentarmos algo que nos passou na conversa talvez por falha dos neurónios, como acontece nas ligações eléctricas que eu costumo fazer.

No caso do momento, para que tal não aconteça, vão no início do que poderei vir a escrevenhar para que nada falte e se falhar algo que falte todo o resto...

Aos amigos escritores quero pedir, por favor, que escrevam grosso, ou em tamanho graúdo, de modo a que não forcem a faciência e sobretudo a vista dos "pitosgas" mais idosos. Nós desejamos continuar a poder ler os v ossos belos trabalhos de  escritores Palmeirescos.

Aqui deixo, antecipadamente, um BEM-HAJAM, em meu nome e no de todos aqueles que se encontram em situação semelhante. 

    Dito o post escriptum e porque o tempo de pandemia se apresenta como algo apropriado, apenas quero partilhar convosco o que me aconteceu nas duas mudanças que fiz de residência: de Gaia para a Maia e da Maia para Orbacém. Em ambas me apareceu gente a perguntar se já estava inscrito na freguesia para descontar para a compra do lugar no cemitério, para que, após a hora fatal, não deixasse problemas à família...Um momento de pausa e respondo que ainda não, mas que iria tratar disso mal pudesse. Claro que ainda não tratei nem tratarei no caso da segunda mudança, tal qual na primeira. Eu penso e quero continuar a pensar na vida, não na morte. Quero viver o dia de hoje e o de amanhã... o resto virá a seu tempo. A menos que apareça por cá um coveiro, estilo daquele que tentou o Aventino, e eu me deixe hipnotizar pela sua tentadora argumentação.

Por falar em Aventino, aqui lhe deixo a garantia de que lerei a sua autobiografia, mas a contagotas, apesar da sua advertência.

 

2020-11-16

ANTONIO ROSA GAUDENCIO - LISBOA

Sem rodeios, aqui me confesso: gosto de ler o Aventino.

Nestes primeiros capítulos da sua  "biografia ", mais que os factos e os feitos, apreciei a forma que usou para  os contar. 

Uma prosa  interessante, sinuosa, provocadora, bem conseguida e outras coisas mais  ( e puta, a senhora é ? )

levou-me a ler os primeiros capítulos de um só fôlego.

Dado que a  " entrada " foi suculenta, fico a aguardar o prato de peixe, o de carne, a sobremesa e tudo o mais com  que a  " ementa " nos  possa surpreender.

 

 

2020-11-07

Aventino Pereira - Porto

VIVER É FODIDO

No exangue triste da inutilidade, lá vou escrevendo, como se escrever pudesse adiar o fim. No jardim de minha casa, há gaios e pardais, rolas e gaivotas, pombas e pegas, putas e putas que passam na minha rua com tiques de damas da nobreza fina da minha paróquia. Há dias, uma delas, abeirou-se-me. Não sei bem o que é que ela disse, era feia, muito feia, como quase todas as que cirandam aqui pelas ruas da minha Nevogilde. Blá, blá, blá, lá continuou ela. E puta, a senhora é? questionei-a. Como é que sabe? respondeu-me.

O mundo está cheio disto, de quem vende, um preço, o pagamento, recebi, passei recibo, não importa o que vendi. Alma ou corpo, sentir ou não sentir, a dignidade ou a ausência dela. Viver hoje é fodido, tenho um jardim grande, tem árvores e relva, em frente o mar, em frente New York City, em frente uma solidão eterna do meu olhar eterno. A minha casa tem uma balaustrada, a balaustrada tem colunas, são colunas de ferro, são colunas de granito, há dias quis enforcar-me nelas, andei à volta, procurei a melhor, a própria, apropriada, a da dimensão certa para o momento certo em que o meu metro e oitenta e dois de altura fosse bastante para deixar aqueles centímetros em que o corpo baloiça da corda pendurada pelo pescoço. Não há nada como escolhermos o nosso próprio momento, não é?!

Não foi, não. Não foi. Não tinha a corda.

Agora escrevi uma autobiografia. A minha. Uma merda, obviamente.

Partilho, convosco, as primeiras páginas dessa inutilidade. não leiam, por favor, não leiam. Podereis ecoar a mesma voz de uma voz solitária.

2020-11-07

Aventino Pereira - Porto

                               1

 

Dizem que as autobiografias percorrem o íntimo da vaidade ou são como Narciso mergulhado na sua própria imagem refletida no lago.  Narciso debruça-se, inclina-se um pouco, um pouco mais ainda e vê-se. As águas trazem-nos sempre todas as suas belezas, o som do caminhar para os braços do mar ou o reflexo da luz com que a elas nos entregamos. Narciso encanta-se no próprio encanto de só gostar de si.  Outros dizem que as autobiografias são como quem se deita no divã do psiquiatra e, de sessão em sessão, lá vai exorcizando demónios, paixões e segredos.

Uns e outros estarão certos como certo é que todo o ego e a sua representação são lugares de absoluta desconfiança e todo o silêncio como toda a palavra são discutíveis. Para quem crê, um sopro divino, do nada nos fez assim; para quem não crê, de onde viemos não tem qualquer importância.  “nasci, vivi e morri; depois de morrer, não me lembro de mais nada” (Vergílio Ferreira).

Houve tempos, ainda tenho tempos em que resvalo para um palco. Construo o cenário, reduzo a luminosidade até à penumbra, aqueço a voz, espero, fecho os olhos, espero, momento certo, agora, ação, ação, digo-me, digo-me e persona contra persona, questiono essa questão: onde estou?!

Não sei a resposta, nunca encontrei a resposta; nunca encontrei respostas para nada; felizmente. E se há futuros de que tenho medo, aí está um deles, esse de um dia qualquer, nos passeios que faço em frente a este meu mar que me bordeja, um dia qualquer encontrar uma resposta que me apazigue. Não quero paz; quero apenas a inquietude de a procurar. E aqui estou eu sem saber por onde começar. Afinal, quem sabe onde está o princípio, por onde se começa quando se começa? Poderia, é claro, partir do vale da minha aldeia onde devo ter nascido,

não me lembro.  Ou poderia partir deste exato momento em que me inicio uma outra partida. Todos os dias são isso, não é? Começar a acabar, começar e nunca acabar: “em breve estarei morto, finalmente, apesar de tudo” (Samuel Beckett). E agora que evoco Beckett, já não sei se esperei alguma vez por alguma coisa ou se foram coisas que me fizeram esperas e me dominaram os dias. Estarei, também eu, sempre à espera para dar a impressão que existo? O que pensas, meu filho, é a voz de minha mãe que intervém, ficas tão calado, diz-me ela. É, ficar calado foi-me um desígnio, a minha indefinição.

Se ao menos houvesse uma definição para os humanos, haveria quadros e números, regras e esquadros, bitolas e mapas, mesas de café onde os de um metro e oitenta e dois de altura e oitenta e cinco quilos de peso, para este lado, os com menos de setenta quilos para a esquerda, faz favor; para os outros, para os outros já não temos lugar. Se me lembrasse e aqui pudesse contar, fui aumentando desde o zero até aos três quilos e quatrocentos gramas. Depois o tempo fez parar as balanças, não havia balanças, não havia moedas para meter nas balanças e tudo se concentra e define no Rua do Corpo da Guarda na cidade do Porto, unidade de recrutamento militar, DRM. Uma balança decimal, um varão para medir a altura e o enfermeiro a apalpar-me os coisos para apurar se eu era invertido, como se dizia a esse tempo. “Apurado”, gritou o sargento. “Podes sair”. Tinha dezoito anos e ao meu lado, raquíticos, enfezados e esfomeados, estrábicos e analfabetos. “Apurado”, continuava o sargento. Guiné ou Angola, guerra, guerra do Ultramar esperava-nos; infantaria, tiros e tiros, matar ou morrer e Fernando Pessoa ali ao lado,

“para meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça!” (Álvaro de Campos),

e Beckett a insistir comigo “estamos desgraçadamente atados pelo destino cruel”.

A minha mãe tinha os olhos verdes. Com o sol, os olhos continuavam verdes mas mais verdes, porque são verdes? Para termos esperança, respondeu-me, e dela só sei falar de amor ou nem isso, porque da mãe tudo o que poderemos descrever é sempre mentira, como criança aconchegada na praia a esvaziar o mar para a gruta que escavou na areia. Da minha mãe só posso falar com os poemas que escrevo, para a ter viva, eternamente viva e, eu continuar a acreditar que a eternidade não é o sempre mas a ausência do tempo. “O tempo envelhece depressa” é o título de um romance de António Tabucchi. Ainda antes de Tabucchi ter escrito esse romance, muito antes, senti que o tempo lá ia indo embora, quarenta anos de idade, outubro e uma festa. Convidei amigos, família, inimigos e outros que não sei classificar. Há circunstâncias em que a hipocrisia é virtude, em que a hipocrisia apazigua os campos de batalha. E esse dia em que fiz quarenta anos, “hipocrizei-me”, inventei palavras belas sobre a amizade e o desejo de comemorar, organizei um almoço e ali os tive todos: o sangue, os afins, e outros. Depois desse dia em que  fiz quarenta anos, abriu-se-me uma nova página. O tempo começou a envelhecer depressa e se, muitas vezes, a morte era-me uma impossibilidade, uma distância, a sorte dos outros, passou a aproximar-se também para mim. Para os sessenta faltavam apenas vinte, e, como quem passou a ponte para a outra margem, terei entrado na segunda metade da vida, antes do fim. Angústia e tristeza fizeram-me companhia durante um ano; quase.

                                                                                                                                                                                                                                            2

Nasci num tempo em que nascer não era conveniente. Conveniente é apenas uma palavra doce porque, na verdade, nem as mães nem os pais queriam os filhos. Não havia forma de os evitar, contracetivos era pecado, planeamento familiar nada se sabia, os filhos eram aqueles que Deus der, um deus, porventura, cruel e injusto para o destino que se adivinhava. O que as mulheres pediam  “Deus lhe dê uma hora pequenina”

para a parturiente, claro, mas no silêncio da sua intimidade, era bem melhor que a criança não viesse.

Nas cidades, eram longas as filas para o pão, eram longas as filas para o arroz, para o bacalhau, para um qualquer alimento que amainasse a fome dos corpos esfomeados pós segunda guerra mundial.

“Acabou o pão” grita o padeiro,

continua longa a fila de quem não conseguiu comprar um molete ou uma regueifa. Desanca a polícia, cassetete pelo corpo abaixo daqueles que não se desmobilizam da fila, esperançosos numa nova fornada e dois pães no saco para levar para casa. Desanca a polícia outra vez, pontapés, murros e cassetete de novo contra os desesperados que fogem. E assim se morreu ou assim se viveu nesses anos em que nasci. Se lá estive? Nessas filas infindáveis do racionamento de alimentos? Perguntam-me isso, é?

Não sei responder. Foi tanto o que ouvi contar que, muitas vezes, tudo era tão, tão real, que era como se eu tivesse nascido uma década ou década e meia antes e ali estivesse, agarrado à mão de meu pai, à espera que chegasse a nossa vez para um quartilho de azeite, talvez.

Os banquetes provocam algazarra, grandes convívios, brincadeiras, amizades e, mais copo menos copo, o desbragar da nossa timidez. A fome provoca o contrário, certamente, como se houvesse uma ordem divina ou uma ordem terrena que nos obrigasse a poupar energias, sorrisos e conversas, como se houvesse o corpo e o corpo recusasse a alegria, como se a própria fome fosse pessoa ou objeto e entrando-nos pelo corpo adentro provocasse uma reação biológica a favor da tristeza. Não há rostos alegres em corpos mirrados, como as aves não voam na tempestade. Cresci assim, a primeira imagem de que me tenho, magrinho, pálido, sem sorriso e sem exigências. Caminhava no meio de meu pai e de minha mãe, silenciosamente caminhávamos pela estrada adiante, olhando os campos, as casas, as árvores, os ribeiros e uns cães vadios que se nos abeiravam em busca de quem os adotasse. É esta a imagem que, decorridas estas décadas, me persegue de dia em pensamento e de noite em pesadelo: o meu pai larga a minha mão, a minha mãe larga a minha mão, afastam-se, afastam-se, cada vez mais longe e mais longe, desfazendo-se a sua imagem no horizonte. Acordo; tenho acordado até hoje, todas as noites, certamente até a um dia em que todos os sonhos e pesadelos deixarão de se repetir. Acordo e antes de acordar, a mão de meus pais desaparece.

Na aldeia onde nasci, nada mudou nos primeiros dez anos em que por lá fiquei. As estações do ano eram bem identificáveis já toda a meteorologia o confirma, os invernos eram gelados e os verões subiam aos quarenta graus de temperatura. Não tínhamos, ninguém tinha meios ou outros poderes para modificar os ciclos dos dias, o frio ou o calor, a chuva ou a seca, os ribeiros a transbordar e as colheitas a perderem-se todas às mãos do granizo, da seca ou do fogo que devorou o pinhal com trinta anos de plantio. A morte era um normal ciclo da vida, as árvores secavam, os ribeiros secavam, as ovelhas tinham morrido de peeira ou de diarreia, os frangos iam para a panela e os porcos em novembro ou pelo Carnaval gritavam às mãos do matador que lhes espetava o facalhão pelas goelas adentro. A morte era como no poema de Luis Goes “é vida a própria morte, quando se crê no futuro” e se, nesses tempos não havia tempo para sorrisos, a dor da morte era eterna. Ficava-se de luto para sempre, vestia-se de luto para sempre e uma singela gargalhada estava proibida a todas as viúvas. Apesar de tudo, vivíamos uma alegria interior e uma leveza de alma, que só existe quando não se tem ambições nem qualquer meio para mudar o curso da vida. Nada tínhamos e nada queríamos ter porque, nesse tempo, tudo nos era proibido (ainda).

A minha mãe dizia que eu era o filho bom. Os meus irmãos também eram bons, os filhos são sempre muito bons, mas o testinho da panela, como ela dizia, era o melhor de todos, silencioso, terno e sem apetite para comer. Quando já tinha algum entendimento, perguntei-lhe porque é que ela dizia isso. Porque nunca queres comer, respondia-me e sorria. Nunca soube se havia ironia nesta resposta ou se, na verdade, ela era a resposta certa e objetiva que também ajuda às razões do coração. Não ter fome, era uma virtude terrena em tempos de miséria e uma virtude divina em contraponto com a gula, um dos célebres pecados capitais inventados pelo Cristianismo.

Foi nesse estado da minha infância que, pela primeira vez, pensei que poderia não haver só terra, que poderia pairar qualquer coisa por cima que desse outra hipótese de vida, outra qualquer coisa que não sabia explicar. Observava o vale inteiro da porta de minha casa, o ribeiro ao fundo, a igreja e a sua torre ao longe e deixava-me perder a olhar para o céu. Viria dali, viria essa necessidade de encontrar mais do que aquilo próprio que eu via, palpava, sabia o nome? É claro que não podia perguntar, nem todas as perguntas eram legítimas, nem todo o atrevimento de uma criança levava ao sorriso. Guardei a dúvida sentida só para mim, como que na esperança que a viesse a esquecer, pensamentos tontos, infantis

Dir-me-iam?

Ou, sim, sim, pensas bem, um Deus que a todos nos vê e a todos protege! Poderia ser a voz de minha mãe

Ou

São coisas dos padres, esquece, seria, certamente, a resposta de meu pai.

E nesta dupla versão do possível, ficaria com mais dúvidas, tentado a ir pela bondade de minha mãe, mas inclinado a ceder ao pragmatismo de meu pai. Esqueci, pois, adiei, combati esse pensamento, tive medo que fosse verdade, medo do escuro, medo do sibilar do vento, medo da noite, medo dessa divindade que eu tinha criado. Quando me tornei adulto, nunca consegui voltar à pureza que houve na minha dúvida: há ou não há um deus? Sempre que, por qualquer razão sem razão objetiva, se me aflorava este pensamento, fugia dele, queria fugir dele porque fosse qual fosse a resposta nenhuma delas me era conveniente. Se sim, se o homem era mais do que aquilo que estava à vista de todos, então que imenso medo eu tinha dessa hipótese. Se não, se tudo se conjuga em “és pó e em pó te hás de tornar”, morria-se-me o sonho e todas as equações que fui fazendo desse instante em que, criança, me fui perdendo ao olhar o céu.

                                                                                                                                                                                                                                            3

Para padre?! Pergunta o meu pai.

Não, não, diz-lhe o meu professor de instrução primária.

Os meus amores também foram homens. Sei-o hoje, amadurecidos os dias da vida, sei-o hoje pelo que fica, pela réstia da pureza que fica, pela identidade de caráter, de dignidade e de valores intrínsecos bem mais ao varão que a outros seres vivos.

Para o seminário, concluiu o meu professor. Ainda hoje somos os mesmos. Tu e o senhor. Eu sou o tu, ele é o senhor. Falamos, conversamos, almoçamos duas vezes por ano, pelo menos. Que felicidade esta! Ao meio dia lá está ele à minha espera, ansioso que seja, ansioso que venha, ansioso que eu não falte. Ele já marcou o restaurante, ele não me deixa pagar, ele não me deixa falar em sentimentos. A bondade não se exprime, não veja a tua mão esquerda o que faz a direita, a bondade é o mais gratuito e inocente dos valores da humanidade. De uma mulher não se extrai bondade na exata razão de que de uma oliveira não se extrai resina?

A minha aldeia povoava-se de oliveiras, videiras, castanheiros e nogueiras. Das oliveiras tinha medo, hoje tenho encanto, antes, preconceito. Das oliveiras, ainda vejo os caseiros pendurados pelo pescoço num exercício de suicídio com que a miséria os marcou: o ano agrícola foi impiedoso e a honra e dois garrafões de verde tinto carrascão lá levaram o homem a pendurar-se pelo pescoço. De mulheres, a história nada reza, mulher não tinha que ter essa honra, mulher não se mata por enforcamento.

Mulher aqui não entra, disse o meu professor, no exato instante em que o meu pai ali estava especado à porta da escola onde aprendi o que os doutores nunca aprenderam. Mulher não entra, gritou ele, à filha do senhorio desse imóvel podre onde vinte e três crianças estarreciam por afetos; apenas por afetos. Mulher não entra, é como se ouvisse agora Adão, zangado, irado, á porta de uma qualquer estação de viagem, em luta pela expulsão da mulher do Paraíso.

E nas férias de verão dos meus quinze anos, o pároco disse-me para eu examinar os putos que iriam comungar pela primeira vez, numa comunhão solene, em outubro, no dia do padroeiro, um santo inventado para dar divindade à aldeia mas que ele, santo, ainda hoje juraria que nunca lá passou nem quer passar. Dizem que a igreja é uma das mais belas igrejas do barroco, se não mesmo a mais bela de todas, mas para os meus olhos de então e para os meus olhos de hoje, ela continua feia, cheia de anjos, querubins e serafins papudos com uma pila minúscula encolhida e ar de quem está bem mais para, quero-me ir embora daqui do que propriamente para louvarem deuses e sua virgem santíssima.

O pároco repetiu, vais examinar estas crianças; quinze minutos para cada um, pai nosso, a ave maria, o credo, o ato de contrição e uma bem aventurança pelo menos ou um dos dez mandamentos, continua o padre,

E eu a olhar os papudos, o sacrário e as hóstias que lá estariam, doces, crocantes como tantas vezes tive o seu sabor na sacristia e o padre, percebeste? sim claro, claro que sim,

Qualquer ladainha que eles soubessem já bastava, seriam trolhas, pedreiros, emigrantes para França e para a Alemanha, mancebos incorporados nos navios “Vera Cruz” ou Niassa” para combaterem em terras do Ultramar Português e “matar o maior número possível de rebeldes”

Percebeste?! Repete o padre.

E lá vem ela, escadaria abaixo, o átrio da igreja, salto alto, saia curta minissaia, je t’aime moi non plus. Jane Birkin e Serge Gainsbourg a troar na minha cabeça, anos sessenta, revolution culturelle, e o padre, percebeste? sim padre percebi, e ela entra na igreja e agora Pablo Milanês,

“Esto no puede ser no mas que una cancion

Quisiera fuera una declaracion de amor

Romântica sin reparar en formas tales

Que ponga freno a lo que siento ahora a raudales

Te amo

Te amo

Eternamente te amo”

Vem devagarinho, ondula-se e os papudos na igreja, como que olham, sorriem, vigiam a ela e ao padre, parece que estão desconfiados ou já viram mais do que queriam ver. O padre foi-se embora. Parece.

Sou a catequista, disse-me. A mão, era um tempo em que a mulher dava-nos a mão, ao de leve, timidamente, como quem pede licença para cumprimentar o seu senhor. Deu-me a mão, Yolanda era Yolanda foi tanto tempo foi pela minha memória adentro, encontrei-a na cidade, na minha cidade e nada, nada, nada, nada. Quando digo nada é o absoluto, não me reconheceu, já não era a minha Yolanda já não era a catequista na igreja românica da minha aldeia onde a conheci.

Dez minutos, continua-me a voz do pároco, dez minutos para cada um dos que vão fazer a comunhão solene e eu não tinha relógio, nunca usei relógio, objeto inútil, os pelos do pulso cortados, avariou, atrasou, perdi-o, roubaram-mo, objeto inútil, sim, que importa um relógio? E ela, Yolanda, do seu  pulso alvo, retira o seu relógio para podermos controlar o tempo. Nas minhas coxas ali ela o deixa, não está bem, disse ela, mexe-lhe, mexe-me, o mostrador tem que estar para cima, e a mão dela nas minhas coxas, e o relógio nas minhas coxas, e as minhas coxas nas mãos dela e os querubins, serafins, santos e santas, papudos e rabudos de toda a igreja, olham-me, reprovam-me, condenam-me e Pablo Milanês a cantar-me, “isto no puede ser no mas que una cancion de amor/quisiera fuera una declaracion de amor,

As minhas coxas abrem, as pernas abrem, o relógio cai, desaparece, onde está, onde está, Yolanda debruça-se, as mamas a roçarem no meu peito, a boca próxima da minha carcela, as mãos por entre as minhas coxas à procura do relógio e o padre arremessa-me com um grande bofetão. Porco, em surdina no meu ouvido de adolescente.

E agora, Yolanda, que fizemos nós da nossa vida? Nem eu nem tu somos personagens de uma qualquer malvadez e, não o sendo, estamos condenados a não ser personagens de nada.  Procurei-te pelos caminhos da nossa inexistência, ninguém fala de nós, tu, porque nem sequer sabes que eu alguma vez existi e eu, porque, na verdade, os meus dias começaram hoje mesmo, neste dia do século vinte e um da era de Cristo em que escrevo. Procurei-te pelos lados possíveis em que procurei o amor. O amor de uma mulher que fosse como a perfeição de minha mãe? Ou o amor de uma mulher que fosse o contrário da perfeição de minha mãe? Não cheguei lá, a esse discernimento de Freud, em que o homem se situa sempre entre a morte do pai imaginada e a morte do pai, mesmo, fisicamente morto, morto, pronto. Há sempre uns ventos que me levam à bondade da minha inocência e agora é tarde, é tão tarde, para aprender que o  mundo está cheio de filhos da puta. Quando escrevo isto, escrevo o que quis escrever. Amanhã, há de dar-me a saudade do colo e dos encantos que tive. Amanhã, quando a conveniência me dominar, poderei escrever, certamente, que, afinal, o diabo nunca esteve no Éden. Que o diabo nunca se quis encontrar com Eva, tal e qual o diabo nunca se quis encontrar com o Bloco de Esquerda.

                                                                                                                                                                                                                            4

“Para o seminário”, continuava o professor à conversa com o meu pai. Era outubro, no seu fim, e o sol encobria-se já por detrás da torre da igreja, da minha igreja matriz dessa minha aldeia, terceira classe da instrução primária, nove anos de idade em véspera de os fazer, e o destino ali marcado nas palavras singelas do meu professor, “para o seminário”. E ali continuaram, o meu pai sem disfarçar a tristeza e o professor gesticulava, insistia, é preciso fazer alguma coisa pelas crianças inteligentes e lá regressamos a casa, o meu pai calado em todo o caminho e eu pouco importado com as discussões filosóficas com que eles se terão entretido nessa tarde. A minha mãe chorava, o meu pai chorava, não quero comer nada, mulher e nesse momento soube que nada seria igual daí para a frente. No dia seguinte, os meus colegas da escola já me trataram como haveriam de me tratar até ao fim da nossa instrução primária. E depois, continuaram, também, até aos dias de hoje, tímidos e reverentes para comporem a minha solidão. O pior destino nesse tempo para uma criança era a sua própria natureza, ser diferente, ter já um caminho traçado que não passasse pelo moço das obras, pela emigração a salto, fronteira a fronteira, Chaves, Verin em Espanha e Hendaya ou Irun já em França em direção a um qualquer vidonville que me enterrasse na lama miserável que foram esses locais aqui mesmo a duas horas de voo deste nosso paízinho. Ser diferente era não ser, não ter lugar ali, caminhar, sair, não ter destino a não ser o destino de ir, largar para onde não tivéssemos passado, família, alcunhas ou clichés já indestrutíveis.

A minha criança não tinha nove anos, ainda, pálido de pele, magrinho e esguio como quem anuncia a sua própria morte. O meu professor disse ao meu pai que nunca tinha tido um aluno tão brilhante, (foi mesmo esta a palavra), sem que eu, a esse tempo soubesse a dimensão de tal desígnio. E quando aqui falo de diferença, a diferença positiva é, porventura, a que mais isola, colocando-nos o estigma de intocável. Ainda hoje, décadas de inexistência infeliz, eles, os meus companheiros meninos que fomos na escola, ainda hoje, se furtam, se esquivam ao meu olhar, ao meu cumprimento, fogem, desviam-se, avermelham-se e tratam-me por você. Ser pobre era o maior dos defeitos e até a mendicidade era proibida. Abundavam os letreiros pelas vilas e sedes e de freguesia “proibida a mendicidade”, “proibida a mendicidade” e dizia-se até que a cadeia estava à espera dos pobres, apanhados que fossem estender a mão à caridade, como então se dizia. Só os países pobres querem proibir a mendicidade, como a sua própria negação, a negação de que são pobres. O senhor Salazar calçava botas, toda a vida em todas as circunstâncias, o senhor Salazar queria mostrar ao mundo aquilo que nem ele próprio era: a ausência da miséria. É que a hipocrisia é a virtude  de quem varre para debaixo do tapete, de quem só limpa onde passa a procissão. A minha mãe, as mulheres de então não se calçavam. Para quê? Para quê?, pés que eram para a lavoura e para o monte, para as pocilgas e para a cozinha, pés que encarnavam a liberdade dessas mulheres. Sapato, não! Ouve-se muito anos depois aquando de “Gabriela, Cravo e Canela”. Sapato, não, só ao domingo à hora da missa. As mulheres acolhiam-se uns metros antes da igreja, sentavam-se e sapato num pé sapato no outro até ao fim da missa. Depois da missa, era ver quem corria mais depressa a descalçar-se e voltar a dar a liberdade àqueles pés.

Este que aqui escreve não é certamente o mesmo que nesses tempos, anos sessenta, entre o douro e o minho, esmiolha-se em não pensar, esmiolha-se em não querer. O que quis sempre foi esse não querer ser outro, não querer ser diferente, não pensar, nem ir mais além deste meu corpo pequenino, frágil e branquelas como já sabemos,  a minha mãe, não penses tanto e o meu pai, deixa-o pensar e eu a achar que tudo já me era desgraçadamente tarde.

Agora que tenho já séculos de idade, o que resta ? Os meus pais lá residem numa campa pobre do cemitério do fundo da minha paróquia. Morreram, morreram-me, moribundos que estiveram tanto tempo e tanto de dor, tristeza, angústia e perda de que me fui preparando. Estaremos preparados para a perda dos nossos amores? Certamente que sim, certamente que não, ali os tenho agora lado a lado em lápide e fotografia como se a morte fosse o nosso último encanto. Escrevo-lhes, poemas, sonetos e líricas infantis como me sinto sempre, infantil, criança ainda, menino de bermudas e soquetes nos braços deles.

                Lá vou eu, dia sete de outubro, estação de comboio da linha do douro e o meu pai a chorar, a minha mãe de taleiga á cabeça e a mala, os sapatos, o fato, e um bilhete para a estação de São Bento. Depois o trólei 36 ou 33, Vila Nova de Gaia, um portão verde e outro portão verde. O silêncio.

É nesse instante em que o meu pai e a minha choram, acenam, acenam até o comboio se perder na curva, foi nesse instante em que as minhas irmãs morreram, os meus irmãos morreram, os meus tios morreram e até eu próprio, criança, ali morri. Jamais voltei á beleza dos sonhos que sonhava especado no horizonte longo que via de minha casa. Jamais voltei á pureza que a liberdade traz no convívio com aqueles de meu sangue. Quando vinha de férias, eu era outro, meio humano e meio extra terreste, á beira de quem já nem eu nem os outros tínhamos liberdade para sermos o que éramos, verdadeiramente. Ninguém me falava e eu já não falava com ninguém. Fugiam de mim e até as minhas irmãs me estendiam a mão para me cumprimentar.

Os portões fecharam-se. Vens para o primeiro ano? perguntou-me o Diretor.    

O enxoval foi-me marcado com o número setenta e seis para que não houvesse confusão com as cuecas, as meias, camisas e o enxoval dos companheiros. Lá ia na mala, aquelas malas de cartão castanho e umas ripas de madeira a arrematar e dar segurança à mala. Quando a abri, por cima da cama do dormitório geral, a roupa tão bem arrumada pela minha mãe e um bilhetinho: “somos pobres, não temos posses para mandar mais nada”. Rasguei-o. Não era preciso dar essa informação ao diretor. Nem as malas nem os enxovais dos outros que nesse mesmo dia começavam o mesmo destino eram melhores do que o meu; talvez.

E aqui estou eu no silêncio de uma vida solitária a escrever o que fui. Será isto o que fui? O que senti? Não estou certo de que nesse tempo em que a vida rodopiava toda à volta de uma sêmea, uma rodela de salpicão ou uma fornada de   broa, não estou certo que a minha memória e os sentimentos que dela trago, não estou certo que possa ser fiel a essa minha identidade. Não sabia quem era, não sabia quem era nesse tempo longínquo da minha infância e não estou certo que saiba exatamente quem sou neste dia de hoje do século vinte e um. Só a minimal “intelligence” consegue definir-se, só quem não se conhece consegue, de facto, definir-se. Perguntas-me quem sou eu? Estou como tu, meu querido inquieto.; estou como tu, naquele cruzamento de uma estrada desconhecida onde todos os sinais são stop. Se me perguntares a quem amei, a minha resposta é muito fácil. Se me perguntares a quem não amei, já é difícil. Se me perguntares se sei o que é amor, a resposta também é muito fácil: não. Só eu próprio sei falar de amor, só cada um de nós sabe falar desse altar onde, degrau a degrau, acendemos as velas quando são de acender. O que é o amor senão e apenas uma hipótese? uma hipótese numa simbiose improvável? Complicado?  sim, complicado. Agora ouço o meu pai a perguntar-me, gostas dela, e eu e o meu silêncio e o meu pai, pensa, amanhã falamos e amanhã, amanhã não veio, não mais falámos, gostas dela? Quantos casaram já com quem não queriam casar? Certamente ninguém, se a vontade fosse essa certeza matemática de que eu e o meu amigo Newton temos discutido tanto. Já não há amores científicos, diz-me Newton, tem cuidado, diz-me e eu, Newton, estou só há tanto tempo, preciso de um lar, não faças isso, diz-me Newton, a descoberta do universo está na observação e mergulhei nesse miserável infinito com que eu sobrevivi tantos anos de caverna. Dessa caverna, a culpa, soletra-me Platão, lê, lê e encontrarás a resposta, A caverna, lê, e se eu lesse, o que seremos nós depois de Platão? o que seremos? Um estado impuro, puro ou além da nossa existência e isso eu não quero ser, sentir, existir. Às vezes descarto-me, quem sabe o que é isto, descarto-me, expressão maior que se enquadra naquilo que todos nós queremos, verdadeiramente: não sermos responsáveis, descarto-me, como se deixasse as espinhas das sardinhas para um outro comensal. Às vezes evado-me, estou além, estou aquém. Portugal está pleno de def’s,       

Desligo. Foi assim nesse dia sete de outubro. Desliguei-me. Sentado no banco da carruagem, o revisor falou-me: o teu pai disse-me para te avisar quando chegássemos a São Bento. E as árvores a andarem para trás, e o comboio a parar aqui, a parar ali, estação e mais estação e pouca terra, pouca terra, pouca terra e as faúlhas do carvão a entrarem-me pelos olhos adentro, não esfregues, diz-me o revisor, eu bufo, diz, bufou-me nos olhos como o meu pai me fazia, abre os olhos, abre bem os olhos e os ciscos saiam e com eles o alívio. Assim fui todo o caminho da Linha do Douro, observando a novidade da primeira vez. Sem lágrimas, sem sentir, sem entender, então, que esta viagem era, interiormente, uma viagem sem regresso. Invadia-me a apatia, a contemplação fria e sem sentimentos como barca à deriva nas águas mansas do leito de um rio triste.

Quando cheguei a São Bento, o comboio não podia prosseguir mais. Ouve-se o altifalante, o comboio que deu entrada na linha três é proveniente de Barca de Alva com destino a esta estação. São Bento, diz-me o revisor. É aqui meu menino e o troley fica em frente da saída. A mala carreguei-a no ombro, era tão pesada para o meu corpinho frágil e esguio, desço os degraus da locomotiva, altíssimos para as minhas pernas, alguém disse atrás de mim, despacha-te oh moço, mas logo outro se sobrepõe, deixem a criança, e uma mulher aborda-me, barra-me o caminho, eu levo-lhe a mala e o meu pai não fales com ninguém, não confies em ninguém, agarra bem a mala, troley carro em frente 36 ou 38, pergunta ao cobrador onde deves sair. Portão verde, outro portão verde, dia sete de outubro, clausura.                                                                                                                                    

2020-11-01

Arsénio de Sousa Pires - Porto

CANTAR DE AMIGA

 

Ai flores, ai flores da verde espiga,

se sabedes novas da minha amiga?

Ai Deus, e u é?

 

Ai flores, ai flores da verde ramada,

se sabedes novas da minha amada?

Ai Deus, e u é?

 

Ai flores, ai flores da verde roseira,

se sabedes novas da minha Palmeira?

Ai Deus, e u é?

 

Vós me perguntais pela vossa amiga

e eu vos digo que já não é viva!

Ai Deus e u é?

Ai Deus e u é?

Ai Deus e u é?

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