fale connosco


2018-10-19

Aventino Pereira - Porto

À PROCURA DE AVENTINO:

 

abro a turbulência do sentir abro a solidão a  dor de meu pai a dor de minha mãe seminário mil novecentos e sessenta e quatro magricelas alto branquelas tristeinocente

 

corredor adiante sotaina padre voz doce terno o olhar o olhar o olhar e eu indefeso um mundo novo o DOURO Ah! O Douro (o Tejo) é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia (Alberto Caeiro)

o trolley 36 um portão palmeira sinos e sons o nadao silêncio e eu a caminhar agora pelo meu novo silêncio adentro como um mendigo perdido no seu palácio

 

e ele todo sorriso afaga-me o rosto onze anos de idade só o meu pai me tinha abraçado tantas vezes e ele abraça-me, beija-me, cheirava a caldo verde beija-me a boca que interesse há em beijar uma boca com onze anos de idade muitos anos mais tarde soube que havia uns filhos da puta pedófilhos que sabiam todos a caldo verde sabiam todos a palavras doces sabiam todos a uma voz doce à voz doce do encanto dosabraços de meus pais dos meus tios das minhas tias que nunca cheiravam a caldo verde e não souberam nem eu lhes disse essa palavra pedófilos

 

e agora escrevo para o fale connosco

 

passo quase todas as semanas nessa rua vou para o tribunal lá está o portão grande um outro portão pequeno a palmeira morreu e um dia destes paro falo vou falar falar falar falar falar falar falar falar e dizer-lhes como foram dias felizes menos o caldo verde e o tal que tal qual já não está sim inferno sim no centro do infernoquentinho gostas brasas mais para o teu coizinho e bota que bota o diabo acaricia-o o diabo ri-se o diabo crava-lhe a forquilha no coiso na coisa em toda a coisa que rime com ilha

 

feios porcos e maus ettor scola

 

e eu fui um dia espigadote já dezasseteanos de idade

o meu diploma por favor disse tímido

dá cá cinco contos para pagar o diploma

afinal andaste aqui a aprender os teus pais eram miseráveis ias ser trolha

cinco contos de réis se não tens volta cá quando tiveres

diz-me um que ainda cá está anatureza é assim não mata só aqueles que deveria matar gostava tanto de te enterrar por estes dias

 

e cuspo-lhe encosto-me à sua brilhantina cresço para o baixote passa ou não passa o diploma tem cinco minutos para o passar o trolley foi dar a volta  

 

odiploma está passado há muito tempo mas tens que pagar cinco contos como os outros

 

 

 

 

 

 

 

queixo-me de si

queixo-me dos panascas

ainda ontem estive numa reunião clandestina no jardim do carregal com o bispo bispo bispo senhor dom o regressado o que seráde nós perguntei-lhe e ele seremos sempre igreja

e eu isso são chavões inócuos

 

e ele

tem razão ser igreja é ser pessoa deixar passar à frente quem precisa de ir à frente e cuidarmos ser igreja é não sermos não existirmos

ser igreja é muito mais do quenão sermos uns filhos da

 

e lá volto eu ao meu caminho,

ficha na pide “jovem humilde ex-seminarista inteligente e promissor mas indomável, indomável” duas vezes assim escrito por um pide surpresa e nenhum cuidado o futuro estava em sermos presos resistentes castigados

como quem busca o seu próprio encantamento e então sim preso por umas horas futuro assegurado na política nos bancos e seguradoras um lugar em África

 

e eu vinte e cinco de abril de mil novecentos e setenta e quatro onze horas da manhã LargoSoares dos Reis Porto multidão em fúria o povo unido jamais será vencido pides pra cadeia pides pra cadeia pides pra cadeia pides pra cadeia pides pra cadeira pides pra cadeia avenida rodrigues de freitas praça da batalha  o silêncio da minha eterna solidão.

 

Agora continuo aventino continuo solidão dos amores que perdi um dia destes não resisto à ausência não há mal nenhum nisso será o teu dia aventino a minha casa tão grande tão cheia de mim já me disse tão cheia dos meus vazios tão cheia até do vazio dos meus vazios e eu aqui continuo só.

Nem os aar’s vêm às minhas provocações filosóficas.

Nem os aar´s vêm aos repastos para que os convido.

Nem o Vieira se cansa de me dizer que não vêm nem que eu os vás buscar ao colo.

 

Os filhos também já não vêm

e aminha vizinha espreita espreita espreita

ai senhor doutor não me diga isso não me faça isso eu sou uma mulher honrada amanhã hei de vir mais cedo ficamos ai senhor doutor estou tão perdida ai senhor doutor não sei como entrar em minha casa

e eu o seminário o padre o bofe do bofe do bofe dos dentes podres da sotaina o caldo verde dele na minha boca ainda continuo a cheirar a caldo verde sinto-me couve água batata a tora a navegar à superfície do caldo e até o fio de azeite rançoso teima em me martirizar

ea vizinha

amanhã venho logo a seguir ao almoço e lá me vem à memória mais uma vez o cheiro fétido da couve galega entrançada nos dentes do pedófilo e entrançada nos dentes da minha vizinha que ai senhor doutor hoje é que tinha calhado bem.

 

 

 

 

Desde há cinquenta anos não mais beijos nem abraços estendo a mão hirta longa para ganhar distância desde há cinquenta anos não mais um beijo de homem ou de mulher nem encostar-me o rosto besuntar-me o rosto colar-me o rosto creme base rímel protetor solar mulheriodá cá um beijinho aventino sinto o cheiro arrepio fujo passo para o outro passeio desculpe tenho que lhe estender a mão porque tenho febre estou constipado tenho gripe varicela sarampo febre amarela cor de rosa tifoide malária febre da carraça e da cachaçafebre da febre e de qualquer merda que nesse instante me vem à cabeça acreditam pois claro porque eu nunca fui capaz de lhes dizer que quando me tocam ainda me vem a panela do caldo verde de há tantas décadas vem-me toda inteira por cima todos os dentes podres de todas as bocas de todo o mundo a couve esfarripada a batata a tora e até o fio de azeite e o panelão enorme cai-me todo em cima no meu corpinho de criança.

 

E eu, aventino, sentado na soleira da porta onde o meu pai me abraçava, aqui continuo à procura do menino Aventino.

 

emoutubro de 2018 (dc) algures entre o vento e a sombra.

2018-10-12

alexandre Gonçalves - subtis

S M S

Obrigado, Aventino! São leitores como tu e palavras como as tuas, e incisivos textos como os teus, que estimulam a subversão da vida quotidiana e a aventura de uma escrita que denuncie a imperfeição do mundo. Quisera ser cúmplice dessa nitidez, dessa consciência militante que não só resiste à lei da gravidade, como rasga ranhuras de fuga nos muros que cercam a vida. Quisera...mas há redes subtis por toda a parte, que nos enredam pelos flancos, sem darmos por isso. Viver é perigoso, como sugeres. E"a vida sem viver é mais segura"(O"Neil).

Um forte abraço! 

2018-10-12

Aventino - PORTO

O QUE NOS SERIA A VIDA?

O que nos seria a vida sem a poesia!!! O que seríamos nós sem ESTE divino soneto do nosso Alexandre.

No exato momento em que o li, reli e reli, fechei o computador; dei uns violentos pontapés em três processos judiciais que tinha para articular nesta tarde desta sexta feira, disse á minha secretária que dissesse aos três constituintes que estavam marcados para consulta, que lhes dissesse que morri; e fui-me embora.

Como fui de uma vida inútil?! Como me prostitui em prol da defesa dos interesses dos outros?! Como suportei uma vida sem ter vida?  

"AGORA NUNCA É TARDE".(Pedro Barroso)

AGORA NUNCA É TARDE PARA EXORCIZAR A CULPA DE UMA VIDA NÃO VIVIDA.

Agora vou-me embora, vou voar para os braços das palavras, para os braços da poesia.

OBRIGADO ALEXANDRE, "agora nunca é tarde para acordar"


2018-10-12

Alexandre Gonçalves - Palmela

 

C O N TO  D E  V E R Ã O

 

Sentado agora em cima de setembro,

apenas lembro a tua estranha ausência:

o verão escondeu-nos a violência

que incertas circunstâncias tinham dentro.

 

Nesses dias, nós éramos o centro

do esplendor do mundo em evidência:

demos ao mar o fogo da inocência,

 para entrarmos sozinhos em novembro.

 

Pouco nos foi o amor e distraído.

Retirámos do corpo a lentidão,

sem que nenhum silêncio fosse ouvido.

 

Seria apenas de água esse verão?

Ou antes um rumor desconhecido?

Ou terá sido pura distracção?

 

Setembro, 2018

 

 


 

2018-10-02

Aventino - PORTO

 

 

 

Belo é o GRITO do GAUDÊNCIO. Belo serão os gritos de todos os que nesse dia eterno em que estaremos en Valle de Los Caídos a gritar, a gritar, a gritar, a gritar, "ME CAGO EN TI, FRANCO, ME CAGO EN TI, ME CAGO EN TI, ME CAGO EN TI, ME CAGO EN TI PORCO FASCISTA, ME CAGO EN TI, FRANCO.

Belo é também o soneto do ALEXANDRE (no antepenúltimo verso apaga o verbo "é") como bela é a vida dançada ao som da poesia (também pode ser ao som de um excelente cozido à portuguesa.)

VALLE DE LOS CAÍDOS

Por razões de saúde, alojei-me em Madrid, a primeira vez, em 1982. Regressei à cidade muitas e muitas outras vezes por essas mesmas razões de saúde e, finda essa razão, porque já amava a cidade. Nesses tempos, muitos, dos que algumas das vezes comigo ali estavam, quiseram ir a San Lorenzo de El Escorial com a confessada intenção na Abadia da Santa Cruz do Valle de Los Caídos. A todos disse sempre, si, si, claro! usted quieres, usted tienes. E FUI. Quarenta/cinquenta quilómetros de estrada, conduzindo, e, cuño, aqui estás!

No vienes tambien?! No entrás, tu?! No! No! me cago en Franco.

E assim estou: Nunca, nunca entrei na Abadia da Santa Cruz do Valle de Los Caídos. Ficava fora, à espera, cravado no murmúrio dos fétidos orgasmos dos visitantes. Entrarei agora, nesse dia de glória que aí virá para, fisica e emocialmente, cravar-lhe a minha escarradela de ódio.

AVENTINO. Em setembro de 2018 (dc)

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