fale connosco


2014-02-21

manuel vieira - esposende

Hoje encontrei por acaso uma receita em uso numa casa senhorial de Fão, de lampreia assada no forno, que ia à mesa já na primeira metade do século passado acompanhada de arroz feito com parte da marinada, depois de coada.

Pensava eu que esta opção que hoje já se serve em vários restaurantes do Minho sobretudo com batatinhas,  era apenas uma criatividade da cozinha mais contemporânea, mas afinal já era parceira das formas tradicionais em arroz e à bordalesa.

Isto vem a propósito de um arroz de lampreia que vai correr nos pratos no primeiro sábado de Março ali pelas bandas de S.Frutuoso em Braga, onde dá ordens o nosso colega Lamas.

O mar já acalmou um bocado e o ciclóstomo deve começar a subir os rios para a desova e pretende-se abundância.

Curiosamente esta semana também provei  umas empadinhas de lampreia elaboradas pelas mãos experientes da  D.Tininha da Rita Fangueira, depois de grande insistência minha, dando-lhe como referência as empadinhas do Manuel Natário em Viana do Castelo que têm fama. E a senhora passou no teste com grande êxito, pela textura da massa de quebrar e a exuberância reconfortante do suave recheio.

O Peinado já deu atempadamente as instruções para quem estiver interessado em aumentar a mesa e reconfortar o espírito amigo.

Entretanto o nosso colega Assis já está no Brasil para mais uma temporada junto do nosso padre Henri e espera passar por lá uns 70 dias. Em Orbacém deixou cuidados para que as favas espreitem na terra bem molhada e cresçam com a Primavera para uma favada à mesa, que quer ganhar tradição.

A chuva não nos larga e também algum frio e estas condições de clima não ajudam nada nesta idade e por isso temos de arranjar formas de contrariar os efeitos nefastos da ferrugem.

2014-02-14

alexandre gonçalves - palmela

UM  NOME  PARA  FEVEREIRO

(Dia de S. Valentim)

 

Ela sorriu e acenou. Ele disse que sim e prometeu. Andavam por aí nas sombras, nas marginais, numa clandestina distracção da existência. Não assumiam, não acreditavam, nem sequer valia a pena o risco. Um a um, sucessivamente, enviavam os dias para a eternidade. Um dia era fevereiro e ela lembrou: vamos comemorar, todos o fazem. Comemorar o quê, perguntou ele. O nosso amor, disse ela. Nós amamo-nos?, quis saber ele. Nenhum deles sabia. Mesmo assim, combinaram um jantar especial. Ninguém se atrasou, contra o que era costume. O restaurante tinha luz filtrada, velas acesas, rosas vermelhas e música discreta pendurada nas paredes. Ele gostou. Ela bebeu mais que a conta. De repente levantou-se: tenho que me ir embora já! Mas estás bem?, indagou ele. Não estava. Pagaram e saíram. O ar da rua era frio e húmido. Antes chovesse a potes, para lavar e levar a vida para bem longe desta paisagem! Ela: desculpa! Não estou em modo de pegar no carro. Podes levar-me a casa? Ele podia, com certeza. Ela explica: eu não sou divorciada nem faço tenções de o ser. E hoje nem sequer me passou pela cabeça que era dia de o Luís chegar dos Estados Unidos, onde é investigador. Vem todos os meses a Portugal. Hoje é dia de ele vir.

Houve um silêncio de pedra.  Ele é António, professor desiludido, comunista falhado. Mas é um homem calmo. Encostou o carro e perguntou: ele é o pai da tua filha? Sim, era o pai da Vanessa, e se ainda vinha a casa era só por causa dela. Vocês não se amam? Não, nunca se amaram, nem sequer para fazer a menina. Então, ia concluir o António, não vai haver problema. Divorcias-te e podemos andar à vontade. Nem pensar, arrematou ela, cheia de convicções. Que era mulher cara. Que bem podia ser paga pelo dito. Preciso muito do dinheiro dele, disse. Já parados junto à casa dela, António, com azedume, pôs uma última questão: Rosário, vocês também comemoravam o amor que nós viemos comemorar? Ele é um homem ocupado, esclareceu ela. Nunca se distraiu com tais banalidades. O que é o amor para ti, Rosário? Não sei. Um amigo meu diz que é uma troca de líquidos. Repete lá isso!, exigiu o António. Isso mesmo que tu ouviste, uma troca de líquidos e fluidos.

Ela vai olhando para o terceiro andar. Como não vê nenhuma luz acesa, está um pouco mais calma. Por fim, ela desfere com alguma ironia: e o sr. professor, que gosta tanto de fazer perguntas, e tem resposta para tudo, sabe realmente o que é o amor? Por acaso até sei,respondeu o António, pelo menos neste momento. Amor é ver-te sair imediatamente do meu carro. Quando chegares ao teu quarto, acendes a luz, levantas o estor e acenas-me, como é teu hábito. Só arrancarei daqui depois desse ritual. O amor é não voltar a ver-te.     

2014-02-13

Assis - Folgosa

Amigos:

Saúde e boa disposição !

Desaparecido, mas atento às intervenções aqui havidas - as musas  do Vez e do Cávado incluidas - apareço hoje para vos dizer que o tempo por terras de Orbacém se apresenta nada, nada seco e o terreno empapado, pouco propício, pois, para a sementeira das favas. Mas que haverá, como nos passados anos, FAVADA na data apropriada, ela haverá, ainda que tenhamos de comprar, ou roubar, as favas aos vizinhos. Como não posso esperar que o São Pedro se compadeça da gente, vou pôr pernas a caminho já no próximo dia 16 para me encontrar com o amigo sol. Vou tentar, na outra margem do grande mar, conversar com ele e convencê-lo a vir a aquecer esta terra ensopada. O estrume, enterrado, enriquece já o humus de que brotarão um dia gulosas favas mal se faça sentir o seu calor. - Espero por lá passar dois belos meses, mesmo que o calor de Pirambu e Vila Velha seja um tanto traiçoeiro. Porém, no calor das pessoas, sobretudo do nosso amigo Henri Le Boursicaud, encontrarei a frescura suficiente para superar essa dificuldade. Voltarei, ainda de lá, para vos dar novidades. O meu abraço fraterno.   

2014-02-02

José Manuel Lamas - Navarra - Braga

Martins Ribeiro " o Marquês "

O que você foi publicar

Por causa disso talvez

Acabemos os dois a cantar.

 

P'ra cantar há que haver rima

E aí tenho que prestar provas

Fazemos dupla em Ponte de Lima

E animamos as Feiras Novas.

 

Mas cantar pode não ser boa ideia

Acho mesmo que não adianta

P'ra isso falta-me veia

P'ra cantar não tenho garganta.

 

         Aquele abraço

                              Zé Lamas.

2014-02-02

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

CANTARES AO DESAFIO

 

 

Estou aqui hoje, neste domingo frio que provem do alto da serra da Peneda e que dá para encolher um santo, e verificando que o nosso site anda um bocado parado - se calhar também por via do frio - resolvi aquecer as mãos teclando um pouco nesta máquina científica. Assim e depois de ler a última postagem do nosso Vieira, sempre cheia de conceitos da mais alta arte culinária e reportando-me ainda á tão saborosa “foda” que nos foi servida pela Cidália na sua Pousada do Sossego em Barroças e Taias, trago aqui á baila a sequência da versalhada que dela resultou, iniciada pelo grande versejador, nosso amigo Lamas. Como estamos no Minho onde os cantares ao desafio são uma prática muito utilizada em feiras e romarias, acompanhadas pelo inconfundível som da concertina, isso vem mesmo a propósito; só que, não tendo concertina nem sequer uma reles gaita, vai mesmo e só com a simples transcrição da versaria. O repto começou pelo primeiro cantador - vou chamar-lhe assim - o grande poeta Lamas que logo no dia do repasto me enviou para o mail pessoal  o seguinte relambório que foi mostrado a alguns dos comensais:

 -Bom dia amigo Ribeiro. Que hoje seja um óptimo dia de festa junto desses companheiros que puderam acompanhá-lo. Eu gostaria de participar mas bem sabe o amigo que não me é possível. Esta era para o Peinado mas pensei melhor e resolvi dedicá-la a todos.


1º. cantador:

  • Perguntaram-vos se íeis ao banquete.
  • Como resposta devíeis ter dito não.
  • Porque ela pode levar-vos ao tapete
  • Essa que se diz foda de Monção.

 

Não perdeu pela resposta que logo chegado a casa lhe retruquei da seguinte forma:

Amigo Lamas:

Estou a chegar e só agora respondo á sua amável mensagem que li para todos em voz alta. A coisa correu lindamente e pareceu estar tudo muito bom. Teve direito a fotografias e tudo.

Comemos todos que nem burros mas logo arranjaram pretexto para marcar uma lampreiada, pelos vistos, aí no seu reduto. 


2º. cantador - Eu

 

  • A "foda" mostrou ter boas coxas, 
  • Só que p'ra desilusão
  • As "marretas" estavam chochas
  • E só olhavam p´ro chão.

 

Tendo falado em coxas e percebendo que o Lamas poderia não entender, tentei explicar-lhe a razão:


Amigo Lamas:

estou para lhe dizer que esta das coxas não fui eu que a  inventei: quando veio o alguidar para a mesa ouvi a cozinheira a exclamar para os comensais: " ... digam lá se esta "foda" não tem uma belas coxas!"

E, reparando bem, até tinha mesmo; com os joelhos um bocado esfolados, mas eram lindas. Ninguém tinha dado por ela mas a moça nesse aspecto tinha bem mais prática que nós. 


2º. cantador:

 

  • Quando eu falei nas coxinhas
  • Não foi uma coisa á toa:
  • As palavras não são minhas
  • Quem as disse foi a patroa.

 

Vai daí, o Lamas não se ficou e contrapôs, espicaçado:


E depois, eu é que sou o poeta. Amigo Ribeiro, depois desta sua apresentação dos factos, só me ocorre dizer que essa cozinheira, já confeccionou grandes cozinhados.

1º. cantador

 

  • Eu quero lá saber
  • Que a coxa tenha o joelho esfolado
  • Se sempre ouvi dizer
  • Que isso é coisa que se afasta p'ró lado.

 

Ia dar o assunto por encerrado mas o Lamas, dali a dias, insistiu:


Meu caro amigo, Martins Ribeiro.

A tal 2ª de Monção, continua tecendo apelos à inspiração; e a prova de que assim é, aí está.


    1º. Cantador

 

  •    Que apartar p'ró lado ouvi dizer   
  •     Foi o que atrás deixei dito
  •     Mas referia-me às da mulher
  •     E não às do cabrito.

 

Perante a insistência não pude deixar de responder:


Caro Lamas:

Era escusado ter esclarecido que eu já sabia disso: mas há uma diferença:


2º. Cantador

 

  • Já é sabido esse formato
  • Disso ninguém reclama:
  • Só que umas apartam-se no prato
  • E outras abrem-se na cama. 
E para encerrar a cantoria agora meto mais esta:
2º. cantador
  • Com a “foda” estes sujeitos, 
  • Mesmo co’a barriga cheia
  • Não ficaram satisfeitos
  • E logo arranjaram uma lampreia.

 

E pronto. Agora termino mesmo e mando o recado  ao magnífico Peinado para o informar de que, não havendo um terramoto, pode contar connosco na grande lampreiada do dia um de Março.

Co’um raio, também gosto ... e muito!




 

 

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