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2014-12-22

Ismael Malhadas Vigário - Braga

Diálogo com o Menino Jesus:

 

O menino está a rir e a estrela cintila no seu dedinho, vem com o pé à boquinha e ri, ri de tanta alegria. A vaquinha com o bafo quentinho arrosa a cara do menino. A virgem estende a mão a segurar o menino para não cair do bercinho (que o S. José não teve tempo de o arranjar devido a tantas tarefas para sobreviver) é cedinho para ires para a brincadeira. Os teus amigos, bem,  estão lá fora e são todos traquinas como tu, (que isto de seres o Menino Jesus não quer dizer que sejas muito diferente, também queres desobedecer, fugir do berço, ir às perdizes, ou às moças, assim que cresças e te tornes mais espigadote). Calma – disse o S. José (que foi primeiro homem e só depois S. José, por mérito dele ou por ter ajudado a criar o Menino Jesus nos primeiros anos, que, depois até o incomodou, que não percebia nada daquele rapaz que tinha conhecido pequenino; viu-o num bercinho, fugiu com ele num burrinho etc…) Sossega, aí, deitadinho nas palhinhas e na manjedoura a olhar o bafo quentinho do burrinho e da vaquinha (que lá fora está muito frio e podes não sobreviver e isso, para nós, é um grande transtorno, pois já demos tanto de nós para tu nasceres e, agora, não deites tudo a perder).

Mas o menino nasceu com tanta energia, (e querem-no ali molinho e quentinho a olhar e a contar as estrelas que lhe entram pela cabana, não tem nenhuma piada) está-se sempre a mexer e não cabe em si de tanta vontade de ir dar um recado a outros meninos que o conheceram noutras lides, que ele nem percebe bem; tem vontade de dar umas voltas por lugarejos e ruelas à procura de companhia, ou de cumprir uma qualquer missão – levar meninos para o Pai, que ninguém compreende e, isso, vai ser o seu desastre, por ninguém se querer incomodar e, apenas, querer estar sentado numa qualquer esquina, num tasco a jogar a bisca, a jogar playstation, a correr, a tropeçar e a jogar à bola com fúria. O que eu quero, mesmo, diz o Menino Jesus, é ir lá para fora para a brincadeira, pois estão lá fora todos os meninos desvalidos e os outros, que me parece que se convencem que precisam menos, mas estão tão ufanos e orgulhosos de si mesmos, parecem-me uns ceguetas e preciso de lhes abrir os olhos e mostrar-lhes o mundo e verem-no melhor, que isto de só olharem para o seu umbigo é uma grande maçada, para não dizer coisas piores, viverem isolados em palácios e só conviverem com os amigos da sua igualha, discutirem as suas ideias e estarem sempre de acordo uns com os outros, e dizerem-se tão amigos uns dos outros que até assusta, são muito idiotas e narcisistas e, isto, não pode levar a bom porto, vai desembocar nalgum tsunami lunar que não sei quem é que se vai salvar.

O Menino Jesus vai e sai da cabana à vista de seu pai e diz-lhes: se quiserem venham comigo que há muito a fazer, isto de estarmos aqui nesta moleza a lamentarmo-nos com o frio e a aturar a vaquinha e a mulinha não é saudável, nem física nem moralmente: há gente que espera lá fora por ajuda, vamos contra a miséria e a acomodação – precisam emprego, evitar que andem a furtar, que outros são mais impacientes e assaltam, roubam e magoam. Isto de não terem nada para se aquecer, nada para comer e terem de andar sempre a pedir é terrível!... Há gente que se sente incomodada por ver tanta gente a estender a mão.

Depois, esses que tudo têm, queixam-se dos pobres e desempregados e acham que a culpa é deles que não querem trabalhar, senão que emigrem, deixem o país às moscas para uns quantos, para poucos, cá ficarem. Mas que em breve estes espertinhos vão pagar a sua maldadezinha, que, como são uns finórios medricas, não vão cá ficar sozinhos, quando chegarem os terroristas, porque são poucos e andam a construir ancoradouros privados no Douro, ou casas à beira mar ou no cimo dos montes …

Tenho de ir à vida, diz o Menino Jesus: Tenho de dar a ceia a muito pobrezinho, arranjar muitos cobertores para aquecer tanta gente com frio. Esta noite é noite feliz e não quero ninguém com fome e com frio, quer na alma quer no corpo, pois estou tão alegre como um cabritinho dos mais brincalhões que andam por aí a saltar pelas encostas aos trambolhões, em brincos de fazer inveja a um qualquer dromedário. Hoje quero que tudo esteja conforme, tudo a postos com ou sem talheres, mas com muita comidinha na mesa e casaca quentinha para o coração aquecer, pois pode haver alguém a ficar triste de tanto frio e desanimar a mente de tanto sofrimento, que hoje é noite de luz, de muita luz, aqui e em um qualquer luar, onde houver um qualquer ser humano, não importa o credo ou o seu pecado, que hoje é dia de paz, de amor e de fraternidade e, enquanto houver uma estrelinha com pouca luz, vamos acendê-la e levá-la  a qualquer lugar.

Vou depressa e já não volto para cama das palhinhas e mandem a vaquinha e a mulinha bugiar, melhor, que vão pastar para as colinas solarengas e cheias de muita ervinha que aqui no estábulo já ruminaram tempo que chegue. Bem vejo que, pelo olhar, estão sequiosas de outros ares e já prestaram bem um bom favor, quem dera que os humanos fossem assim tão generosos, que isto de os humanos chamarem animais à vaca e à mulinha e se acharem superiores, é bom de ver que não é um juízo de muito boa fé. Servem-se destes seres tão generosos, serviçais e amigos e depois lançam-lhe o epíteto de animais, que sabemos bem o que isso quer dizer na sua pobre cabeça de ideias de arrumação estranha. Vou já a correr, torna o Menino Jesus, sinto-me já forte e vou a correr sem parar por esta ladeira a abaixo e vou ajudar os pobres, dar carinho aos infelizes, justiça aos espoliados, meter na linha os espertinhos, que estão sempre a passar a perna aos humildes, com leis, e legitimações que a maioria não percebe, que isto de alguns serem pobres é uma grande trapalhada – Menino Jesus. Como tu dizes e pensas bem, só há pobres porque há alguns muito ricos que tiram demais a alguns e não são justos. Somos todos iguais, o sol é igual para todos, embora alguns construam casas com mais janelas e com orientação para a luz, a chuva cai para todos, mas alguns apanham mais com ela em cima, nem um guarda-chuva chinês arranjam, porque cinco euros é muito dinheiro para quem precisa de fazer as suas limitadas escolhas, que primeiro está comer e beber e aquecer-se, depois pode encostar-se a uma varanda, ou entrar num Centro Comercial, já não digo sentar-se numa mesa e comprar uma roupinha quentinha que isso custa uma nota preta para “um humilde animal”. É verdade que alguns dos pobres e remediados chegam a ricos, não é Menino Jesus, mas isso é uma raridade, agora, cada vez a transição está mais difícil e está-se tanto tempo neste patamar que passa a ser já um estádio ou um modo definitivo de vida, já não há sonho que venha, alimento que venha. Os pobres que chegam a ricos, esquecem logo as suas origens, pois, do mal todos se esquecem e recalcam de tal modo a dor que nem querem lembrar-se. Pobre homem, pobre cidadão que de humilde sobe a ufano triunfalista: que “eu consegui por mérito próprio e não devo nada a ninguém” – como se alguém se arvore no direito de prescindir dos outros para crescer e triunfar. Corações de pedra!.. Como é possível aprender com gente desta índole, diz o Menino Jesus – olhem-me de frente, olhos nos olhos, frente a frente, cara a cara que os vossos palácios não são apenas vossos, e que os outros não têm nada a ver com esses espaços tão luxuosos e tão elegantes? Esses palácios têm que estar abertos para toda a gente gozar dessa beleza e luxo. Vá, vamos lá, pensem nesta sugestão. E não pensem que me vou cansar de anunciar esta verdade. Só há pobres porque os ricos querem e só continuamos pobres, enquanto os pobres continuamos a aceitar a nossa situação de humilhação. Ninguém pode viver feliz, enquanto houver um homem humilhado. A humilhação dos pobres é o grito que clama da Terra ao Céu por justiça. Então, dizem alguns, pobres sempre houve. Não, cala-te, ó insensato. Pobre, verdadeiramente, és tu, pobre és apenas tu que te convences dessas ideias e as apregoas aos sete ventos. Essa afirmação é dum homem sem esperança, um homem isolado em si mesmo. Então não dizemos que nenhum homem é uma ilha? Tu és uma ilha? Vives sozinho? És auto-suficiente? Não dependes de tantos serviços que outros fazem? Cala-te, mil vezes, cala-te, estou farto de te ouvir, mas não penses que, mesmo sendo um ser humano teimoso e idiota, como és de facto, vou desistir de te querer convencer que mudes do teu triste e desgraçado caminho. Por causa das tuas ideias antigas é que o mundo é assim: egoísta, egocêntrico, mistificado, ludibriado e diabólico. Porque esse freguês, o diabinho, só espalha cizânia em todo o lado por onde passa, tem cá um fermento de levedar a massa para onde ele deseja: para o abismo. Afasta-te desse ser abjecto, não vás nas pinturas das suas belas palavras, são bonitas por fora, mas venenosas e com um enorme verrina por dentro. Desafia-o para a luta e verás que não passa de um medricas. Não vês os gajos do dinheiro, mesmo parentes a zangarem-se todos, recorrem ao insulto, à mordacidade, à inveja e maledicência para salvarem a face. Mas que face? Há gente que tem mil caras e, olha que isto não é só na ficção, na ação virtual. A realidade supera a ficção e muito mais. Nem te conto o que tenho visto depois que deixei o berço e comecei a intrometer-me por esses lugarejos, a ouvir nas esquinas, nos cafés e pastelarias. Porque deixei de fazer muita fé nos jornais. Aqui também paira a mentira. Dizem apenas que viram e ouviram, mas não dizem onde e em que circunstâncias. E a mentira deles tem muita força, porque engrossa muito idiota, que, por comodismo, escusa-se a pensar e a dialogar com outras mentes e cita o que ouviu, mas já não se lembra onde. Encontra-te, homem, encontra o teu ponto arquimédico, senão nem os anjos te salvam. Porque os anjos também andam transfigurados, a verdade travestida e não sei que hermenêutica arranjar para desfazer este deus Hermes, deus da mentira e dos ladrões e que se sabe disfarçar tão bem que ninguém, digo, quem não pensa, como tu, Menino Jesus, que não se engane e seja enganado. Temos de fazer uma suspensão do juízo senão ficamos todos loucos e só a Tua bondade e inteligência nos pode salvar. Não sei se não tens que renascer de novo, também não sei em que moldes. Que na cama de palhinhas, na manjedoura, não parece convencer muito mundo. Uma dada altura, falaste que não vinhas trazer a paz, mas a espada. Disseste tantas metáforas e usaste tantas alegorias que a gente ficou muito confusa e a Babel continua, porque o homem continua a não quer aprender a renovar-se, gosta de ser velho por dentro e por fora, tem enormes resistências para ser menino, um menino criativo e bom.

 

Autor: Ismael Malhadas Vigário

 

21.12.2014

2014-12-22

ANTÓNIO GAUDÊNCIO - LISBOA

Meus caros AAR

As nossas recordações da Quinta transportam-nos para aqueles natais irrepetíveis que nós vivíamos com encanto, sonho, ingenuidade e poesia. Crescemos, deixámos de sonhar,  a nossa inocência evaporou-se e o espírito natalício já não corresponde ao da nossa infância. Mas todos os anos há Natal e não sou eu que vou mudar o mundo mas gostava de tentar.

Para todos os "meninos" que passaram pela Quinta desejo um NATAL FELIZ e que o NOVO ANO, que se avizinha, vos traga paz, amizade, alegria, tranquilidade e saúde.

Para todos um abraço grande e amigo

2014-12-21

Delfim Pinto - Almada

Boa noite e Boas Festas.

Delfim Nascimento

 

 

 

2014-12-21

Assis - Folgosa

NATAL =  FRATERNIDADE

APROVEITO O DIA DE HOJE, O MAIS PEQUENO DO ANO, PARA VOS ENVIAR, AMIGOS ASOCIADOS DE APALMEIRA, A VÓS E AOS VOSSOS FAMILIARES, A MAIOR e menor (?) DAS MENSAGENS:

SEDE FELIZES NESTA ÉPOCA NATALÍCIA E EM TODOS OS DIAS DE 2015.

Beijos e Abraços Fraternos

F. Assis    



2014-12-20

Ismael Malhadas Vigário - Braga

Poema virgem:

E o frio das palavras magoa fundo

em mim o desejo de não as sentir,

mas vai até ao fundo de mim

e transtornam-me o ser

e deixo de ser eu

para ser a dor em mim

sinal das marcas das tuas palavras em mim.

 

Queria viver a usufruir o ser

e sentir completamente

o que vai fundo em meu desejo

 de me sentir em ti.

(Dou comigo a não querer ouvir-te

e as palavras são a minha ferramenta

desde a manhã ao entardecer .

 Como desgostar das tuas palavras

que para mim diriges?

És um novo Cupido!...

A política, a economia... Não, isso é apenas prosa,  ponto.

Não quero ouvir as palavras

que impedem de ver

 e sentir a verdade , (aletheia, diziam os antigos gregos)

que desde cedo tanto desejo

e quero sentir, Aesthetica,

sentir o espírito no corpo, como sensação única,

ser individual, existencial, pessoa.

E os dias são maravilhosos  porque sensuais

desde a cor das folhas das árvores,

o chão que toco e me segura, pedestal de mim próprio

e desloco-me  até onde me conduz a minha imaginação.

Eu sou a minha imaginação, mais que as coisas em que habito.

II

Adoro estes dias de outono ao entardecer,

são frios e a luz embeleza as árvores

que da sombra se destila das colinas de nuvens até  às chamas crepusculares.

Vou e sigo as ruas de passeios empedrados

e históricos de tão gastos pelos mares de gente a passar

e são luz e contraluz que me choca o olhar

faço o caminho em contramão de ilusão

alojo o sonho

mesmo que haja mais nuvens de fogo

a enrolarem-se no mar.

Atiro-me em frente do meu caminho e que vejo?

 Relâmpagos a saírem do mar

 desfazem-se  em centelhas na duna

eis uma torrente a inundar-me de mar.

As ondas enrolam-se em ternuras de mãos

e são auréolas em regaços de águas matinais

És mulher

és onda

és nuvem

e os cabelos são carícias em rochas

envoltas em madeixas frondosas a escorrerem tardes outonais

 gaivotas fugidias de voos picados no mar

recolhem a presa tão desejada

mulher ou sonho?

 Brinquedos anelados seguram dedos finos

e as mãos são frescas e lustrosas,

conduzem veados das dunas até ao mar

enrolam-se na areia fina de brilho estelar,

e as tuas ideias fluem em mim

 luz anosa de exausto serviço natural…

e as tuas faces de rosas doiradas ao amanhecer-

recendem em centelhas  a incandescer as fontes,

 e ondulam jorros de luz a quebrar ao céu.

Mulher!...

Vens donairosa de ternura à planura do corpo

guias em brisa  ao romper da alva

levitas na minha mente como suave asa

 desejo ser mais que um corpo sensual

madrugada perene na planura do teu corpo

vitória da luz sobre a treva…

és deusa ou és mulher?!...

Autor: Ismael Malhadas Vigário

 

19/12/2014

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