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2015-01-08

José Manuel Lamas - Navarra - Braga

             

 

                          Meninos que em Vila Nova

                          Fostes filhos da nobre Palmeira

                          Vinde aqui e prestai prova

                          Dizei-nos como foi a vossa vez primeira

 

 

       Aquele abraço

 

                                  Zé Lamas 

2015-01-02

Alexandre Gonçalves - Palmela

BARROSAL ll

 

Como um professor escrupuloso, que prepara metodicamente as aulas, trazia eu um texto mais ou menos alinhavado, para entrar como um navio em dois mil e quinze. A noite arrefeceu muito e o coraçâo ficou a flutuar no tempo, entre uma coisa velha que morre e outra nova que emerge à flor das palavras. Primeiro era um apelo a tudo quanto começa. Partir, navegar, investir contra a decadência. Depois, um resíduo melancólico, por termos de suprimir de uma só vez um calendário inteiro. Abater um ano mais à escassa contabilidade dos dias é quase uma dor inconfessável. 

É nesta ambiguidade que me saltam à vista três textos inquietos e inquietantes. A arrogância épica de que estava munido diluiu-se como poeira, soprada por esse vento nervoso recém-chegado de vila nova. Começo por saudar a coragem confessional e comovida dos seus autores. Não é a primeira vez que este esforço de catarse aflora tanto à escrita como à fala. Mas não me lembro que alguma vez tenha sido tão intenso, tão pungente e tão sincero. Cada um sabe o que poderia dizer, se a dor de o lembrar o não inibisse. De uma só vez, mataram-nos a mãe, o pai, a irmã e a prima. Abafaram-nos a consciência e os sentidos com narrativas que sucessivamente se foram revelando falsas. Ficámos sozinhos no deserto, a morrer de sede, alegando que a água das fontes era imprópria para consumo. Tudo em nome de um Deus possessivo, ciumento e pagão.

Tens dez, onze ou doze anos. Vens de extractos sociais humilhados e humilhantes. Pertences muitas vezes ao número dos que sobram ao nascer. Os escassos recursos do teu país não te incluem nos orçamentos. À sua maneira, é a tua mãe que te conjuga o verbo amar. Sendo varão, és para o teu pai um braço promissor, para a subsistência familiar.Nestas condições, que futuro te aguarda no fim dos caminhos? Agora já podes responder. O futuro tornou-se passado, mais velozmente do que pensávamos. Chegámos tarde a muitos lugares determinantes. Muitos de nós andámos a dar a Deus o que era exclusivamente nosso. E aí jogou-se a nossa vida. E para perdermos um pouco mais de tempo, inventou-se a teoria da gratidão. Deus foi bom connosco. Tirou-nos das garras da escravidão, rasgou em dois o mar vermelho e levou-nos à terra prometida. O resto dos salmos, quem os não sabe?

Comove-me a teoria da mãe. Da sua ausência. Os beijos que não foram dados. Até há quem tenha, nas suas contas pessoais, o número exacto das vezes que dois lábios pousam devagar na pele de um menino. Outros asseveram mesmo a inexistência de tais gestos. A mãe perdeu-se numa fotografia desbotada. Citando opiniões mais sabidas, talvez seja credível a tese segundo a qual será triste a condição da mulher que confiou de vez os seus favores a um pressuposto filho de Deus. E o pai, esse que entrega pessoalmente o filho, como se duma  encomenda se tratasse, junto de uns portões medonhos que, ao cerrarem os seus maxilares, como que o mastigam para sempre? Como poderá esse pai voltar a casa sem um grito, mesmo que ninguém o ouça?

Desabafando um pouco a minha parte, direi que um dia, em setembro, passou e parou na minha aldeia uma carreira cancerosa. Na curva que precedia a paragem, o motor gaguejou e botou fumo, como se estivesse a arder. Depois o condutor e o revisor, que vinham do fim do mundo, foram afogar-se na taberna. No regresso, o motorista solicita o volante. O revisor pega na manivela e põe aquela cousa toda a tossir e a tremer. A minha mala de cartão castanho é presa num gradeamento, no cimo do "telhado" da camioneta. A estrada é a subir e o motor ronca  em aflitivo desespero. Não me lembro nem de um beijo nem de nenhum abraço. Houve uns vagos apertos de mão, que eu nem sabia como se faziam. Ninguém chorou e eu mem sabia se devia ou não fazê-lo. Daqui a cinco anos, alguém se esconderá, por detrás de um reposteiro, chorando a minha despedida. Mas hoje está tudo tranquilo neste recanto da terra. E eu fujo para o primeiro banco disponível e nem por segundos olho para trás. Ao fim do dia, vejo, pela primeira vez, um comboio, que era  mais negro que a cozinha lá de casa. A tarde escurece e pouco depois a noite uniformiza de negro as margens da linha.Tenho medo. A meu favor só existe a possibilidade verbal de fazer perguntas, para saber onde mudo de comboio e onde é a estação de vila nova. Ainda me lembro do ranger sinistro dos portões. E entro para sempre no mistério selado destes muros, de cujas sombras ainda hoje me dói a memória. 


2014-12-31

Aventino - PORTO

QUERO VOLTAR PARA OS BRAÇOS DA MINHA MÃE

Do que falais vós se não da perda dos braços das vossas mães?. Do que falais vós se não de um dia tenebroso da nossa infância em que nos mataram o amor? Não são traumas?!Não?! Então porque, tantos e tantos anos que já foram e, aqui estais vós recordando aquele dia como se estivesse lavrado numa tela ou firme numa rocha inquebrável? 

Esconjurai pois a nossa memória. Deixai-nos viver, partir, morrer, navegar sem esse passado que me persegue e anoitece todas as minhas noites. Já fiz de tudo para perder esse maldito sentir: terapia individual, terapia de grupo, cemitério todas as semanas, depois todos os meses; visitei todos os locais que me lembram esse dia. Chorei, revoltei-me, apaziguei-me. Fui crente, depois ateu, depois novamente crente e agora não sei sequer o que sou. Fiz teatro, disse poesia à mãe, escrevi prosa, fiz versos e de nada, de nada me valeu. Tudo, tudo me regressa a sete de outubro de 1964 de uma era que dizem ser de Cristo.

E agora aqui estou, continuamente em desprezo por esse dia que me trouxe toda a angústia que carrego hoje. Mas quanto mais fujo dele mais ele me persegue. Não lanço a culpa a ninguém nem a nenhuma circunstância da vida terrena e, como repetidamente afirmo, "gracias à la vida que me há dado tanto". Vivo em gratidão a um Seminário que me acolheu menino e que, á excepção de um tipo que por lá andava e anda, era de gente honrada, generosa e nobre que criaram estes homens de qualidade que hoje somos e andamos por esses cantos do mundo deixando a nossa marca de grandeza. Mas por favor e piedade, dêem-me a primeira vez do CASTRO, as recordações do CASTRO, a cabeça limpa do CASTRO. Se isso vier... terei paz. 

2014-12-31

manuel vieira - esposende

A primeira vez do Castro... quem diria.

A viagem atribulada em camioneta de Entre-os-Rios até ao Porto, de lágrimas cheias na despedida da mãe e no percurso sinuoso a gerar os enjoos acelerados pelos fumos do "gasol", as boas tripas à moda do Porto cheirosas dos cominhos, na Rua Cimo de Vila junto ao cinema do S.João, a entrada pelo portão da Quinta e o braço protetor do seu "anjo".

O beijo do pai, não o primeiro mas talvez o segundo, a encobrir a despedida materna da manhã na aldeia distante, hoje ali tão perto, já no desassossego curioso de saudade  nas paredes altas daquele casarão que lhe traçava a vida.

A primeira vez do Castro ... quem diria.

A vida não foi foda como alguns pensaram e não deixou traumas. Deixou marcas de uma viagem, pormenores de um percurso que nunca foram conversados à mesa, lembrados hoje junto à janela que esconde o frio e mostra as luzinhas de uma época de saudade.

Quem recordou traumas? Talvez só saudades das mãos suaves da mãe chorosa naquela manhã longa do terceiro dia de Outubro de uma viagem tenebrosa.

Claro que as paredes eram altas e os muros da fronteira deixaram distâncias, mas cada um tem a sua primeira vez ao galgar o já velho portão ferroso que testemunhou traumas...

2014-12-30

Castro - Penafiel

TRAUMAS? A minha primeira vez...

Seria cedo porque a minha mãe estava na cama. Ou então era cedo para ver o dia nascido sabendo o seu unico menino não estaria por ali a asneirar. A minha mãe estava a chorar quando me abraçou e beijou não sei quantas vezes e eu também comecei a chorar. Foi a segunda vez que a vi chorar. A primeira vez foi por causa de uma dor de dentes que a torturava.

O meu pai estava ali ao meu lado. Seria Outubro de 1968 e nesse dia o meu pai certamente muito a custo, fez questão de viajar de camioneta para me acompanhar até ao Porto. De motorizada seria bem mais fácil, mas o dia era especial. Também para ele seria um dia inesquecível. Morreu, sem que tivessemos partilhado as nossas emoções desse dia. Sem eu ter sabido, o que ele recordava desse dia.

Por volta das nove horas apanhamos na Torre (junto ao hotel), a camioneta que seria do "Almeida e Filhos", "Alpendurada" ou "Escamarão".

Poucos Km tínhamos percorrido instalados nos nossos lugares. O meu pai à janela e eu do lado do corredor. Ele não gostava de andar de camioneta. Estavamos sentados do lado direito.

Sem que alguém pudesse compreender o que estava a acontecer, o meu pai levantou-se até que as pernas mais não dessem e, inclinado para trás, em completo desiquilíbrio, começou aos gritos sem nexo. Berrava exactamente como eu já o tinha ouvido a berrar aos coelhos para que não se mexessem, quando os encontrava na cama.

Mas não estavamos à caça. Não havia coelhos. E nunca se tinha vomitado todo enquanto lhes berrava. Tombou para o lado e desmaiou.

E eu? Chorava. E a camioneta? Continuava. Havia um horário a cumprir e de qualquer forma, não havia "INEM" ou telemóveis a não ser os dos filmes do "Santo".

Em Penafiel se decidiria o que fazer.

- "Para onde vais com o teu pai"?

- "Vou para o seminário".

Entretanto o meu pai com umas bofetadas voltou a ele. "Quer sair? - Não! Vou levar o meu filho ao seminário a Vila Nova de Gaia. Já estou bem"... e eu, chorava.

Depois ajudado, limpou a camisa e o fato. Eu calei-me e a viagem continuou. Não me lembro de termos falado na viagem.

Quando pela primeira vez na vida vi o Porto tudo foi novidade. Tantas casas e tantos carros... Muito mais que em Penafiel onde já tinha ido por diversas vezes.

Mas nem tudo foi mau nessa viagem. Também recordo com o mesmo pormenor o nosso almoço. Não sei onde, mas foi numa pequena tasquinha que presumo seja ali bem perto do Teatro S. João. AS MELHORES TRIPAS DA MINHA VIDA. Nunca tinha comido coisa assim tão boa e como o meu pai pouco comeu... mais pude comer eu.

Depois de almoçar e com o meu pai recomposto fomos de táxi para a Rua das Devesas.

Ali chegados, despedi-me do meu pai que me beijou emocionado. Eu... chorava. Penso que foi o segundo beijo que dele recebi. Muitos mais vieram nos anos que se seguiram mas esse tenho quase a certeza que foi o segundo. O primeiro foi na minha comunhão solene e eu não chorei.

O meu pai saiu para uma viagem de regresso, certamente mais que penosa. Um dos prefeitos, apresentou-me o que viria a ser o meu "anjo". Pode não ter sido o melhor "anjo"do seminário mas foi o meu e por isso ainda hoje lhe estou grato. O nosso colega ALBINO COELHO LOPES. Mora hoje na Rua da Formiga nº 69 da freguesia de Campanhã.

TRAUMAS? Esta foi a minha primeira vez. TRAUMAS? Quem os não terá?

Mas, a vida continuou sem muito espaço para lamber feridas. Ainda bem que no meu percurso de vida tenho esta história para contar, pois sem essa primeira vez, provavelmente nunca teria ido estudar.

Ao Seminário devo sem qualquer trauma, no mínimo um MUITO OBRIGADO!

Para vós (em particular para as mentes mais perversas...) um GRANDE ABRAÇO E UM BOM 2015.

 

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