fale connosco


2020-12-13

manuel vieira - esposende

O Osório ligou-me há minutos a informar que faleceu hoje o padre Faustino Ferreira, nosso ilustre companheiro em vários Encontros, um homem afável e de espírito aberto que encontrou em nós um grupo muito recetivo.
O padre Faustino viveu muitos anos no Seminário de Cristo Rei, onde foi professor de muitos de nós.
O seu funeral será na próxima terça feira, embora ainda não seja conhecida a hora.
Paz à sua alma...
2020-12-12

Adolfo Pereira - Guarda

 

(Texto da autoria do colega Vilas Boas , que vive no Brasil):

Eu pecador me confesso…

Como, no tempo da Barrosa, não resisti à tentação e o mais que houve.

 

Manda a Santa Igreja que todo o cristão se confesse uma vez por ano, ao menos. Obedeço, antes que o ano acabe, pois não o fiz no tempo pascal. Mas esta quarentena pandémica é uma quaresma sem fim. Não se sabe a quantas se anda. Para nós, já com alguma idade, o Natal não é Natal como a Páscoa já não foi Páscoa. Enfim… regressamos à idade das cavernas. Bem vamos indo, se o jimbo não faltar... E fora da caverna, temos de ter açaimo na boca, o que muito confunde estes cães brasucas, sempre muito afetivos e amigos do dono, ao ver-nos assim.

Mas se me confesso publicamente é para que vendo meus erros e suas nefastas consequências, nunca, nunquíssima, façais o mesmo nesta ou noutra vida. E também porque quero deixar alguma esperança mostrando que do mal se pode também tirar algum bem, se refletirmos um pouco.

Na alma há momentos determinantes de toda uma vida, momentos de não-retorno. Foi o que se passou comigo.

Saudosa Barrosa, ó que remanso de paz e felicidade! Os dias eram sempre sereníssimos. De dia no ameno bosque víamos o ciclo da Natureza, à noite olhávamos para as estrelas e assim nas mãos de Deus a noite era de um só sono. Tínhamos já deixado para trás o tempo dos cafunés. Bandeirantes desbravando selvas duma doce adolescência, a nossa vida decorria entre folguedos, o estudo sério e o louvor a Deus. Bem protegidos do mundo não pelos altos muros, mas antes pela muita sabedoria e não menos santidade dos nossos bons mestres. E por falar em santidade devo dizer que a devoção e a espiritualidade reinantes eram elevadas. O salão, após a Missa do Galo, estalava com os nossos gritos de alegria pelo nascimento de Jesus Cristinho e na Semana Santa naqueles intensos retiros chorava-se pela morte do Salvador. Se o meu tio Gregório nos visse ficaria edificado. Para qualquer um de nós seria inconcebível aquele ditado tão em voga aqui no Brasil, tanto na favela, como no boteco: Não há coisa mais bonita/ do que chegar à igreja e encontrar a missa dita!

Logo no meu primeiro ano, meados da década de 50, ocorreu um facto tão transcendente, embora acabasse esquecido, que poderia mesmo, sem dúvida, mudar o curso da História. O nosso colega Machado que era de S. João da Ponte (Taipas) foi agraciado com uma aparição de Nossa Senhora. Minha nossa! Vejam só! Claro que Nª Sr.ª concede esta graça a quem quer, como quer e quando quer, mas pelo histórico vê-se que escolhe sempre os inocentes, humildes e simples deste mundo. Era assim o nosso colega. Um cara bacano, nada pábulo, parecendo até por vezes um tanto mané. Mas compulsivamente irrequieto o seu nome constava sempre nas cadernetas dos vigilantes e naquelas sessões da sexta-feira à tardinha, onde o Diretor, P. Ibañez, escalpelizava as faltas cometidas durante a semana, ele era sempre sistematicamente um dos mais massacrados. Mas aceitava estas humilhações constantes com humildade e resignação. Ensinar os ignorantes e corrigir os que erram são obras de misericórdia dignas de louvor, mas o Diretor de então, demasiado bem-intencionado, exagerava, por falta de pa-ciência e essa correção fraterna já de fraterna pouco tinha. Nisto os vigilantes tinham culpas no cartório, porque detinham o poder de fazer denúncias, sem a preparação exigida. Claro que eles e os amigos nunca entravam na festa. Felizmente que o Diretor seguinte, o P. Madureira tão querido por todos, sem exceção, acabou com tais práticas. Mas continuemos.

Mal a aparição se tornou conhecida, logo interveio o Diretor, mas fê-lo com tanta falta de tato e de paciência ( que, como o nome indica, inclui a ciência ) ameaçando e aterrorizando o nosso colega que, ante tanta pressão e tanto stress e até chacota de alguns, não aguentou, acabando por recusar-se a assumir a responsabilidade e o papel de vidente, e pouco tempo depois deixou a Barrosa, levando consigo a verdade do que realmente se passou. Claro, se ele tivesse tido mais coragem e o P. Ibañez mais pa-ciência, hoje a Barrosa seria um lugar de culto e até de peregrinação e onde Deus seria mais louvado. Eu não culpo o cara por não aguentar, porque também eu sucumbi à tentação, no final do meu 3º ano, como passo a confessar.

Quer fosse por inspiração divina ou por um sábio conselho de algum dos nossos mestres sempre atentos ao nosso crescimento espiritual levei para férias um livro de Santo Afonso, nosso Pai e Fundador, cujo título, ao certo, não recordo bem, era mais ou menos Prática de amar a Jesus Cristo.

Comecei a lê-lo, claro. Só que não sei o que se passou em mim. Foi como se uma garoa densa me obnubilasse a mente, anulasse as sinapses.  Ainda aguentei umas quantas páginas. Lia as palavras, percebia o significado, já da frase vagamente captava alguma coisa. Dos parágrafos nada entendia mesmo e do seu encadeamento nem vale a pena falar. Qualquer um de vós teria dito logo uma jaculatória ou o célebre Vade retro sempre tão eficaz. Eu não, o Inimigo venceu-me. Não reagi. Pus o livro de parte. Sabia que ali naquele livro, de um dos 4 Doutores da Igreja de então, estava o caminho divino e o respetivo alimento espiritual. Sabia tudo isso, mas não resisti à tentação que me bloqueou. E cedi, estando eu na adolescência em que o nosso espírito, segundo uma comparação freudiana, é como cimento fresco onde tudo o que aí é gravado se internaliza. Tivesse eu assimilado e introjetado em mim toda essa sabedoria divina e hoje eu não seria este caipira que se vê obrigado a vender o almoço para comprar o jantar, como por cá se diz.

Os meus passos seriam de gigante. Não teria de andar, como agora, sempre a consultar mapas e a interpretar os sinais de trânsito para me orientar um pouco na vida sem me esbarrar ou andar em círculo, que é o que me acontece, ou cair em qualquer buraco.

Minha nossa! O que eu fiz! Nas aulas de Latim tínhamos traduzido aquele célebre texto de Stº Agostinho em que ele ouviu aquela voz Pega no livro e lê! Ele leu e os seus erros acabaram e foi Doutor da Igreja. Eu, com o livro aberto, não li e os meus erros começaram. Minha nossa! Troquei a sabedoria divina do nosso Stº Pai e Fundador por veneno. Pois daí a nada atirei-me à Morgadinha dos Canaviais e de seguida As Pupilas do Sr. Reitor, puro veneno. Direis vós: Não, cadê o mal? Se J. Dinis é todo inocência, leveza e idílio, cadê o mal? Nada mais falso, é que com vinagre não se caçam moscas. Platão, sem dúvida, o teria logo expulso da Cidade, pelo mal que dele advém. Está para os nossos avós como as telenovelas de hoje, até era publicado em folhetins. Apenas leva à ilusão, ao adormecimento e prisão da consciência impedindo-a de crescer, tal como as sereias quiseram fazer com Ulisses.

Enfim, troquei um Dr. da Igreja por um reles J. Dinis. Que brutidade! Como a minha tia Vicenta dizia Quem não tem cabeça não precisa de chapéu! É bem certo. Só que os meus erros não acabaram aqui.

É que, interrogado mais tarde sobre o que achara do livro, fui pego de surpresa, com tal cutucada. E mais uma vez cedi à tentação, menti, não confessei a verdade. E assim perdi uma outra oportunidade de regressar ao bom caminho. Que respondi eu? Ocorreu-me dizer que o livro era engraçado, mas num ápice vi que chamar engraçado seria um pouco ofensivo para um Dr. da Igreja. Optei então por um termo mais abrangente, disse que o livro era “interessante”. O que não me serviu de nada. Fui severamente repreendido, pois a resposta que eu deveria ter dado era “ É verdadeiro!”. Safei-me, mas não gostei nada. Hoje sei que foi a maior, a melhor e quase única lição sobre arte, ciência e vida que me foi transmitida.

Isto porque num bate-papo com a minha tia Vicenta, que muito privou com o nosso Agostinho da Silva aquando da longa estadia dele aqui no Brasil, falando-lhe eu desta cena, ela logo me fez ver toda a sua profundidade. É que tudo se reduz à verdade. Daí que, não parece, mas arte, deus, homem, mundo, ética são praticamente a mesma coisa. Perante a verdade não pode haver gostos, interesses, opiniões, religiões etc. Ela é a casa do ser e qualquer criação tem de partir dela, no sentido heideggeriano de desocultar, ir ao ser das coisas. E também de remeter para ela. Se o poeta é um fingidor, na aceção de Pessoa, o seu fingir é apenas para tornar mais verdadeira a verdade, tal como o cientista vai ao real para dele extrair ou revelar a verdade nela escondida. A criação é uma epifania, também a vida o é. O sentido do ser e o amor é a verdade. O absoluto que nos é dado. A minha tia mais uma vez tinha razão.

Neste momento acho que o nosso Santo Pai e Fundador deve estar a rir-se de mim naquele seu costumeiro ar de bondade bonacheirona e um pouco sapeca até. Pois ele sabe que da sua obra nem tudo está perdido em mim. As Glórias de Maria que nos eram dadas em colheradas à noite juntamente com a sopa e às vezes Ceregumil ou óleo de fígado de bacalhau, naquela extraordinária pedagogia de alimentar simultaneamente a alma e o corpo, ficaram gravadas profundamente em mim, nesse arquétipo da alma. Ela, como divina que é e como mãe que não nos abandona nunca, vai-nos guiando pelos mares nunca dantes navegados do inconsciente. Tem razão o nosso Santo Pai e Fundador: De Maria nunquam satis. Umas vezes Estrela dos Navegantes, outras Caçadora a matar os animais selvagens acoutados nas selvas mais profundas no nosso interior, Senhora da Procura é caminho dos que querem o caminho, luz dos que querem luz. Vida dos que precisam de vida e Morte dos que precisam de morte, tem mais que mil formas. Virgem, mulher e mãe, perante Ela cesse tudo na Terra e nos Infernos, pois as nossas eternas mulheres entre as mulheres (M. Torga) não passam de meras e pobres sombras suas.

Que supino néscio eu fui, minha nossa! Pôxa vida! A ignorância servir-me-á de desculpa? Lembro-me agora que o meu tio Gregória falava de mudança de paradigma, da psicologia do desenvolvimento de Erikson e de crises de crescimento. Dizia ele até que um homem nunca pode ter os pés sempre bem assentes na terra, porque, nesse caso, nunca poderia tirar as calças. E ele sabia o que dizia, era um homem de muito basto saber. Enfim… Seriam crises de crescimento todos os meus erros? Que seja o Senhor a julgar-me. Rogai apenas por mim, leitores caríssimos.

Entrando agora nos finalmentes, sabei que o Atlântico por muito grande que seja não me separa de vós, estais presentes muito no meu coração.

Que a Senhora da Aparecida tome em braços o seu Jesus Cristinho, que é todo amor e carinho e nos abençoem ambos. Que encurtem esta quaresma e nos protejam destes Covides peçonhentos.

E vós sede felizes. Recebei um abração deste cavernícola

Villas-Boas

PS 1. Como a receita para o Covid que o Bolsonaro vem defendendo é uma patacoada, e por poder vir a ser-vos útil, enquanto uma vacina futurante não chegar, aqui deixo uma receita já centenária de um xamã guarani: Um copo de cachaça em jejum com 3 figos secos (sic). O amigo que ma deu não sabe se atua contra o Corona, mas garante que lhe tem matado toda a bicharada peganhenta. Nunca a apliquei. Mas para o síndrome da caverna, sim, posso garantir: quando me ataca dou-lhe logo uma cutucada com um cálice do nosso Porto que o afasta por bastante tempo, se não for uma zurrapa. Este remédio era o usual do nosso Teixeira de Pascoais, só que ele acompanhava o Porto com pão-de-ló de Margaride.

PS 2. Olhai agora para o Menininho de Belém. Não O vedes confinado e refugiado numa caverna? Eia, sus, trogloditas! Corações ao alto! Sejamos, portanto, coraçudos e muito amorudos e aguentemos firme este “solitário andar entre as gentes” que, segundo o sábio Camões, é uma marca do amor e avivemos esse fogo interior “que arde sem se ver”, que é o nosso Sol da meia-noite.

E mais não digo.

Muita saúde. Que este estranho viver de açaimo/máscara não apague o nosso riso nem o sorriso. Saibamos que tudo quanto possa acontecer fora, nunca, nunquíssima, será superior à nossa alma.

Um santo e feliz natal são os votos deste cavernícola do fim do mundo

Villas-Boas

2020-11-29

Aventino Pereira - Porto

SOBREVIVI

                                                                                                                                                                                                                                            6                            

Aparte a comunhão solene e os preparativos para essa cerimónia, não sabia o que era aquilo a que chamavam a religião. O meu pai nunca terá entrado em igreja ou noutro templo de oração e a minha mãe tinha a sua fé em vários santos e santas mas, na prática, não praticava nada. Quando trovejava, ela agarrava-se aso brincos ou arcádias das orelhas e lá vinha uma ladainha qualquer de que eu só percebia, santa Quitéria e Santa Bárbara. Como podiam os pobres acreditar num deus? Sentia-se esse sentir da injustiça, do abandono, da crueldade que havia na miséria imposta sem alternativa de outra vida. “Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste?” (Bíblia; salmo 21 do Livro dos Salmos) nem esse grito tinha já qualquer utilidade porque tantos e tantos o gritaram, sem qualquer resultado útil. Os que, ao domingo, afluíam á igreja, não o faziam por uma vontade clara, mas pelo medo, o medo da condenação, no inferno a arder para toda a eternidade e o pároco, todas as semanas a vociferar, do altar para baixo, contra aqueles que andam arredios da nossa igreja. Fé nunca tive, pois, e acreditar, acreditava apenas na sopa da minha mãe e no dia de Páscoa quando se comia um bom anho assado no forno a lenha. O resto não existia porque a minha infância, polvilhada dos afetos de meus pais, resumia-se às leiras por onde me traquinava abaixo e ao som das águas e ao ribeiro lá no fundo.O demais, porque há sempre algo mais, era o mundo que eu pensava que poderia existir para lá dos limites dos meus olhos.

Agora, fechado na grande quinta para onde fui aprender, para padre? Repete o meu pai? Não, para o seminário, repete o meu professor, agora aqui neste universo novo, começo a ser feliz. É uma felicidade inebriada como criança que tem tudo sem se esforçar por nada: comida, estudo e lazer. Encantava-me o saber, o estudar, o responder nos exames, nos “pontos” como então se dizia, ser o primeiro ou dos melhores da pauta, e o desporto. Hóquei em campo, pelota basca, andebol, voleibol e futebol era tudo um manancial de atividades à quinta feira e ao sábado. “Mens sana in corpore sano”, ensinaram-nos este belo ensinamento que equilibra o homem.

E o meu professor a dizer-me estás cá amanhã ao meio dia para irmos. “Irmos” foi a mais bela palavra de um dos homens que amei ao longo da vida. Irmos, sem outro elemento, outro dado de que eu pudesse inferir é como a segurança de uma criança com o seu pai. Nada importa, o universo não importa, uma revolução não importa, porque, no colo do meu pai, eu sou como Fernando Pessoa in Mensagem: “cheio de Deus não temo o que virá; pois, venha o que vier, nunca será maior do que a minha alma”. Será isto verdade?

Escrevi sobre o dia sete de outubro, escrevi sobre o portão verde da entrada, sobre os portões verdes da entrada, mas não escrevi sobre a entrada, sobre a admissão. “irmos”. E lá estava eu, ao meu dia em casa do professor. Já almoçaste? perguntou-me, e a resposta ia ser sim. Os pobres não podem ter defeitos, nenhum outro defeito, já lhes basta serem pobres e carregarem essa doença como uma tinha impregnada ao seu corpo; mais do que isso é abuso, nem doença, nem fome, nem nenhuma aspiração a sair desse destino lhes era permitido, já almoçaste, repetiu e, como quem pressente o medo da verdade, senta-te aqui e almoça connosco. Connosco era ele, a mãe e o irmão vestido de preto, padre, e eu tremia de vergonha mas a comida era tão boa, comia, comia e ele a dizer, queres mais, e a mãe deles, colher cheia para o meu prato. A camioneta onde que fomos era de caixa aberta. Dois lugares à frente, um pequeníssimo compartimento logo atrás do banco da frente e uma grade. À frente, o condutor e o meu professor e eu de seguida. Atrás de mim, os porcos, vinte ou trinta, talvez, e cada curva, cada reta, cada travagem lá estavam eles a grunhir como num cantar ao desafio a ver quem grunhia mais alto. Vai que não vai lá se cagavam e eu levava como aquele fedor de que ainda hoje me continua como que a entrar pelas narinas adentro,

E o meu professor a fazer-me sinais se ia bem e eu a acenar que sim, o que pode fazer um puto de dez anos numa camioneta de porcos a caminho do seminário, julho, calor, medo e sede a dominarem-me. Já muito próximo do Porto, a camioneta desviou por uns quelhos, ruas muito estreitas, de terra batida, com buracos e pedras à mistura. Foraa mais de dez quilómetros assim, a camioneta a adornar, a merda a cheirar, os porcos a roncar e os solavancos a ameaçaram-me os vómitos e, finalmente, voltámos à estrada de asfalto. Ufa!

Hoje as crianças têm voz, fazem birra, discutem com os pais e com os outros adultos, exigem que as sapatilhas e as calças sejam do que sejam que eles querem, simplesmente porque querem. Hoje as crianças dominam, são elas quem condicionam a vida dos pais, das escolas, do Estado, como um ditador que lentamente se vai impondo até tomar o poder. Já não há limites ao poder absoluto das crianças. Há leis, decretos lei, televisões, jornais, publicidade e supermercados a imporem-lhes o que elas depois impõem aos seus pais. O próprio legislador criou até “os superiores interesses da criança”, uma treta qualquer que ninguém sabe o que significa nem mesmo aquelas meninas que não sabendo de nada fingem que fingem em institutos, associações, organizações não governamentais mergulhadas em papéis e burocracias em prole do que elas designam por crianças.

Limitei-me ao meu cantinho junto aos porcos, encolhido, em silêncio, sem nada exigir ou querer, de vez em quando os porcos fixavam-me, vinham logos mais alguns juntar-se às grades, entre mim e eles só a grade e eles fuçam, tentam cheirar, encolho-me mais e bendita a ideia, finjo-me morto. Os porcos deixaram a grade, deixaram e estou quase certo que pensaram, o tipo está morto e ainda nos acontece a mesma coisa. Finalmente chegámos. Chegámos ao matadouro. Descarregados os porcos, continuámos caminho, a cidade, muita gente e muitos automóveis e eu espantado pelo rebuliço de pessoas, pessoas e mais pessoas pelas ruas adiante em correria louca à procura de nada. É isto a cidade, conclui, numa conclusão assente no texto dos livros da instrução primária, “quem és tu, assim tão simples? E tu, quem és, afinal?. A nobreza da cidade. A Aldeia de Portugal”. Passámos uma ponte, águas lentas, douradas, lá em baixo a caminho do mar e o meu pai a dizer-me, quando passares uma ponte de ferro estás muito próximo do local. Repara bem no rio: se os barcos parados estiverem virados para montante, a maré está a vazar e se os barcos estiverem virados para o mar, a maré está a subir, o que é o mar, meu pai? e eu maravilhado a olhar para os barcos, tantos, e de tantos tamanhos, barqueiros e pessoas, pescadores e estivadores, gente simplesmente a olhar o encanto da natureza. Os barcos estavam virados para o mar.

Cheguei. Os dois portões verdes, umas escadas e o homem de preto. Sotaina, cabeção e sandálias. Deu-me um sorriso doce, de encanto, como se tivesse ficado inebriado comigo.

Os homens da minha aldeia não eram doces, nem sorriam, nem tinham cabeção nem sotaina nem vestiam de preto. Os homens da minha aldeia dividiam-se entre a moirama do campo, a fome de todos os dias e uma borracheira à prova do vinho novo lá para março e outra borracheira ainda maior à matança do porco. Os outros dias, envergonhados da casa que não tinham, da comida que não tinham e de um futuro sem futuro, não recebiam ninguém nos aidos a que chamavam casa;  muito menos de braços abertos como fui recebido. A chuva estragou toda a vinha, o sol de maio queimou a fruta e as hortas e até a brucelose tinha dizimado rebanhos a eito e muitas parelhas de bois. Aquele homem de preto especado à minha espera, a sorrir, nada tinha de humano, humanos como eu conhecia até então, seria este o deus de que ouvi falar? Mandou-me sentar, fez um silêncio e começou uma conversa de circunstância, certamente. De pois, uma folha de papel à minha frente, umas contas de multiplicar e dividir, um texto, uma redação como então se dizia para eu construir e, no fim perguntou-me:

“uma casa toda amarela, com janelas verdes, no cume de uma montanha”. Que comentários fazes a isto”?

As contas, como se dizia, eram difíceis para muitas crianças, não havia máquinas de calcular a não ser os dedos das mãos e verdadeiramente para que serviam as contas a um povo que nada tinha para calcular? Saber fazer contas nem era sinal de inteligência nem sinal de nada, era como uma cana de pesca no deserto. Qual destes elementos está a mais? A cana ou o deserto? Se saber fazer contas de nada servia, para que servia a inteligência se não para o isolamento e a tristeza?,

“Uma casa toda amarela, com janelas verdes, no cume de uma montanha”, que comentários fazes?! continua a voz doce do padre.

E eu sorrio, rio, gargalho-me todo, agiganto-me e vou atrás da patifaria: não há casas todas amarelas, não há janelas verdes, não se podem construir casas no cume da montanha, respondi. Às vezes, a pequenez agiganta-nos, colhemos o seixo do leito do rio, colocámo-lo no centro da funda, girámos, girámos, girámos muitas vezes e zás, lá vai a pedra para o seu alvo. David e Golias enfrentam-se, o padre é grande, tem poder terreno e tem poder divino, olha-me de cima, eu fininho, tímido, branquinho de pele, num enorme casarão,

Além disso, ou a casa é toda branca e não tem janelas verdes ou, então, a casa não é toda branca, disse-lhe. Abraçou-me. Abraçou-me outra vez. Estranhei. Apertou-me. Despediu-se. Ainda hoje escrevo sobre os primeiros anos em que, eu e outros suportamos o seu gabinete, a porta fechada à chave e a nossa inocência às mãos de quem deveria estar para nos proteger.

Regressei à camioneta. O meu professor ali estava ao portão do seminário, cochichava com o padre, o padre olhava para mim, olhava para ele, sorriam-me, sorriam-me outra vez e entrei na camioneta. Porcos já não havia, mas era isso apenas o que tinha mudado. Lá continuava a merda toda, a palha toda, o cheiro que ainda hoje me cheira, o som do grunhido dos porcos a povoar os meus ouvidos. Voltámos ao matadouro municipal. A camioneta parou, o motorista foi lá dentro e trouxe um papel. Agora, certamente, voltarei ao colo dos meus pais, pensei.

Ainda não, como se houvesse o mesmo combate da Baía dos Porcos, Cuba, 1961, três dias e a derrota de uns e a vitória de outros. A camioneta chegou já noite á casa do meu professor de instrução primária. Era Verão já o sabemos e no Verão quando se diz noite, diz-se necessariamente depois das vinte e três horas. Foi isso mesmo, apeámo-nos por essa hora. Queres ficar cá em casa, disse-me ele, não, senhor professor, é melhor eu ir para casa, respondi, porque a vergonha e o medo não me deixaram dar outra resposta.

                                                                                                                                                                                                                            7

Sós os pobres reconhecem a bondade da dádiva e dos gestos dos outros. Só os pobres são agradecidos e sabem que, num instante qualquer das suas peregrinações, alguém foi capaz de lhes saciar o corpo ou de lhes saciar a alma. Os ricos são como as gaivotas dizem aos peixes na baixa mar: não me importa que morras desde que morras no meu bico;  ou de outro modo, não morras hoje porque, mais maré menos maré, hei de comer-te. O meu professor disse-me outra vez, queres ficar cá em casa?!  E eu quanto queria dizer que sim, foi quanto disse que não. Fiz-me ao caminho. Dali, do centro da Freguesia até aos meus vales, sete quilómetros, dez mil passos, uma hora de caminho, escuridão, levadas a gorgolhar, uivos dos cães, corujas e mochos no piar do seu agoiro, serra e raposas, javalis, gatas com o cio, sombras das árvores balançando-se ao vento a tolherem-me a minha própria sombra. Fui como um galgo que persegue a sua lebre. Fui, não é verdadeiramente a palavra certa. Voei como se os pés nunca tivessem pousado no chão, voei ao som das palavras do Antigo Testamento, cidade de Sodoma, não olhes para trás porque, como a mulher de Ló, me haveria de transformar numa estátua de sal. Voei, já o sabemos, mas, como num qualquer voo continental ou intercontinental, o comandante da aeronave define o plano de voo: a rota, o aeroporto de destino, as alternativas, o combustível de que dispõe. E eu? Como chegaria a casa, de noite, sete quilómetros de caminhos em noite de breu?! Havia duas rotas possíveis: a rota nascente como hoje a defino e a rota poente como também hoje a defino, pela primeira vez. Qual é que deveria escolher? Nas aldeias desse tempo, os fantasmas éramos nós próprios. Corriam mistérios, lobisomens, bruxas e almas perdidas, ressuscitados e suicidas que regressavam à aldeia um milénio ou dois depois de terem aparecido pendurados nos troncos velhos das oliveiras velhas de umas leiras carcomidas. No moinho de baixo tinha aparecido uma criança, um anjinho, vindo do céu para converter os filhos do Ramoa que, sete e oito anos de idade, já se atiravam para debaixo da pipa do verde tino a escorripichar as gotas da torneira mal apertada. Na poça das bruxas, quem por lá passasse de noite poderia ser arrebatado para um mergulho eterno na poça lamacenta. As minhas alternativas?

Hipótese I: casa do professor, ladeira do adro, adro da igreja, igreja, cemitério, carreiros pelo meio dos campos, curva do defunto, fraga, alma grande, casa.

Hipótese II: casa do professor, sorte da serra, poça das bruxas, vale da missa, torno do enforcado, capela do suplício, fonte da matança, casa.

A minha mãe chorava, os vizinhos faziam velório à porta, o meu pai, de petro max numa mão e marmeleiro na outra, ia fazer-se ao caminho. Choravam. Ninguém me perguntou nada, ninguém me censurou, foram-se embora uns e nós fomos dormir. Antes disso a minha mãe sussurrou-me “cheiras tão bem”, sem que jamais viesse a saber que as fezes dos porcos e o meu suor produziram um perfume original. Naquele momento em que cheguei, todos estávamos perante um miúdo transformado em metade humano e metade divino; metade da aldeia e a outra metade prestes a ir para um mundo desconhecido. Foi aí, nesse mesmo instante, noite, noite escura, que soube que a minha obrigação era partir: para o seminário ou para outro destino. Da minha aldeia?! Deixei de ser!

Quando o meu pai perguntou ao meu professor, “para padre?!” era a pergunta que tinha relevância. São sempre as perguntas que têm importância e não as respostas. Nos dias de hoje, o cérebro amarfanha todos os dias, limita-se á preguiça, aos dedos das teclas, a um computador estúpido ou inteligente segundo os olhos de quem o olha. O senhor tem horas?! perguntou-me uma rapariga, na rua. Sim, tenho, respondi-lhe. E continuei. O cinismo foi recíproco, obviamente nem ela queria saber nada acerca das horas do dia nem eu tinha qualquer relógio. Ela queria vender-me os seus favores e eu quis que ela se fodesse. A pergunta do meu pai “para o seminário’!” tinha outra substância, soube-o, deduzi-o eu cinco anos depois numa das aulas de desenho geométrico. O teu nome? Perguntou-me este professor? Disse-lho. O teu nome completo? Insistiu. E disse-lho. Só dois nomes? continuou? Sim, só dois nomes, o próprio e o sobre nome. Oh! Isso é muito mau! Fim de citação. Isso é muito mau, permaneceu dias e dias no som cravado no meu cérebro de adolescente. Isso é muito mau! O que quereria dizer?!

O meu pai foi cinco anos clandestino em França, alistado na Legião Estrangeira a soldo, maçon, combatente pelos Republicanos contra a Falange do ditador Franco, depois fugido para França, alinhado na “resistence” contra os nazis, capturado e repatriado para Portugal, país neutro na Segunda Guerra Mundial. Solteiro aos quarenta anos. A minha mãe era uma moça do campo, pais caseiros da Quinta da Casa Grande, dezanove anos de idade, à espera do cavaleiro vindo dos Pirinéus que, num raio da luz coada do pôr do sol, a arrebatasse como sua mulher. Nem os pais do noivo fizeram questão nem os pais da noiva questão fizeram. Ele “fez-lhe o mal” como então se dizia e, num instante, lá estavam os dois a viver juntinhos, na casa contígua à casa da minha avó paterna. O que era, anos quarento do século vinte, segunda guerra mundial no seu auge, Deus, Pátria e Família a imperar na vozinha eunuca do senhor Salazar e a proclamar “devo à Providência a felicidade de ser pobre”!  Nem uma nem outra são apanágio do ditador. Afonso Pena escreveu, de facto, que a vida se exprimia em quatro palavras, “Deus, Pátria, Família, Liberdade” e quanto ao demais nem o ditadorzinho era pobre para o quadro sociológico do país, e, dos contactos que fiz com a Providência sempre me disseram que a questão da pobreza ou da riqueza “ não são connosco, nós nem sequer temos conta bancária”.

Vindo de França, o meu pai era um herói. Falava um pouco de francês, tinha os ideais republicanos e era um combatente. A somar a estas virtudes outras virtudes se juntavam: “deveria querer assentar”, e “traz muitos francos, de certeza” comentavam as mulheres na sua avidez feminina de que “não importa como conseguiste o dinheiro”; o que importa é que o tenhas”. A minha mãe rondou-lhe a casa, ele rondou a casa dela e naqueles dias em que o corpo da mulher exige e o do homem já há muito deseja, fez-lhe o mal. O meu pai “fez-lhe o mal”. Ainda que ao tempo, considerando a idade de minha mãe, o crime de estupro estivesse já afastado, sobrava a honra de um homem assumir pelos atos que, certamente, não “pensou bem que vai realizar”. Na verdade, em muitas destas circunstâncias, a honra era o disfarce da cobardia, como quase sempre, aliás. O pai da rapariga esperava o rapaz, ao anoitecer, e encostava-lhe a caçadeira ao gorgomilo, “oh meu filho da puta, ou casas já com ela ou enfio-te os sete cartuchos pelos tomates adentro” e de manhã lá estava ele a anunciar aos pais que ia casar com a Maria da Quinta da Casa Grande. Nunca me constou que o meu avô fosse caçador ou tivesse alguma arma nem o ego de meu pai seria capaz de admitir que alguma vez teve um simples dedo apontado ao pescoço. Fosse como fosse, certo é que os meus pais “amancebaram-se”, sem se casarem, civil ou religiosamente. Ele quarenta anos, ela dezanove, desde então até às suas mortes. E solteiros foram até muitos anos após o nascimento do filho mais novo.

Nesse tempo, os filhos de pais casados levavam o sobre nome de ambos e o nome com que os pais ou os padrinhos decidissem batizá-los. Os outros, os filhos de pais solteiros, eram apenas filhos da mãe. O pai era incógnito. E era essa palavra que constava no bilhete de identidade no lugar do nome do pai. Filho ilegítimo para efeitos civis, filho de pai incógnito para efeitos de identidade. Quando o meu pai perguntou “para padre” sabia que, na verdade, levantava muitas outras questões. A vida em pecado aos olhos da Igreja, a vida concubina com uma mulher era uma vida em pecado. A sua ausência total da igreja da freguesia onde nunca teria posto os pés, as relações de inimizade com o pároco, o seu ideal maçon, o seu charme de um afrancesado.

“Para o Seminário” já sabemos esta resposta do meu professor de instrução primária. E essa resposta apaziguou-o porque ela continha a resposta para outras muitas perguntas que o meu pai já não fez. Este diálogo entre dois homens da minha vida, interpretei-o logo como deveria interpretar. E foi esse diálogo que me moldou a vontade de ir, porque, afinal, o meu destino não era definitivo. Foi também esse diálogo que me deixou manter a liberdade. Se não tinha fé nem crença alguma, também nunca as ganhei. O deus de que tantas e tantas vezes me falaram, a esse deus que me endeusaram, apenas tinha medo: o inferno, o pecado, o seu poder de tudo ver e tudo poder, essas fantasias tornaram-se ladainhas e de ladainhas passaram ao ridículo e do ridículo à minha indiferença. A tudo o que me ensinaram eu disse que sim, quando era para dizer que sim e disse que não quando era para dizer que não. Sem qualquer remorso ou medo de vir a arder eternamente no forno dos infernos. E hoje?! O que gostava de ser hoje? Crente, claramente. E hoje, a estes dias passados, sou crente?! Ou apenas descrente de qualquer crença?! Os escritores, quem se alcandora a essa hipótese de alguém, “olha, olha, aquele é o escritor”, quem ascende a essa grandeza, quem se questiona sobre a perenidade da escrita, quem se refletiu nas águas do Rio do Ouro e perguntou: acredito? fez, com certeza, um longo e longo peregrinar bem antes da pergunta, bem depois de qualquer resposta que, porventura, algures, num ponto infinito do planeta, pudesse ter obtido. Não sabemos!

No regaço do meu pai, eu e ele perscrutávamo-nos  “questa nobile domanda” e ele desatava a parlare,  o pai do meu pai, di Roma, certo! Quirinale, Palatino, Aventino, “solo es romano sette seculi di Roma, e o meu pai a dizer, não são sete séculos de Roma mas “sette generazioni di Roma” e encantado pelo vibrato da sua voz o que eu queria era mesmo alimentar este discurso.  De que país somos? Nunca lhe perguntei; nesta exata objetividade, obviamente.

                                                                                                                                                                                                                                            9

O meu portão verde, os meus portões verdes onde entrei ainda continuam verdes. Subo a rua, mala de cartão castanho e o irmão auxiliar, alto, magro e seco como os lobisomens das noites de minha aldeia, os olhos azuis, azuis como os piratas que o meu pai me inventou, os olhos são azuis meu filho, lançam chamas cospem fogo, riem, gritam sons e risos que atravessam a tua alma e a alma de todos, é assim mesmo meu pai? não, não meu filho, são fantasias, são pensamentos fantasmas do teu pai e o que são fantasmas, meu pai? Os primeiros dias são todos de encanto, como em todas as circunstâncias da vida. Os primeiros dias trazem-nos uns olhos novos, um universo novo, um refúgio doce para quem tem a alma da serenidade. Os meus primeiros dias foram o meu nada, o mesmo nada a que a minha mãe se referia, em que pensas meu filho?  O que eu gostava mesmo era não pensar, o que eu gostava mesmo nesse tempo em que a voz de minha mãe se encostava ao meu rosto e soletrava todas as letras de todas as suas palavras. Como eram belos esses dias em que ela me tocava! E se em todos os tempos das minhas décadas em que degustei Marcel Proust em “ a recherche du temps perdu” não fui mesmo como Proust foi na sua vida, foi apenas porque nem a sorte nem a desgraça me brindou com casa, escadas, criadas e papel para escrever. Na casa de meus pais, chamando casa aos sítios onde as pessoas dormem, ou aos lugares imaginados pela mediocridade do pensamento de alguns, uma barraca, uma tenda, um espólio debaixo de uma ponte, como o “centro da vida familiar e doméstica”, sim, sim, isso mesmo, debaixo de uma ponte, no juízo decisório dos tribunais, essa coisa é uma casa. Na casa dos meus pais, não faltava nada. Filhos, muitos, tias, muitas, tios, muitos e até ciganos e o “cu podre”, um vadio corta montes que, nos ciclos frios do inverno, ali aportavam para que o meu pai os deixasse dormir por umas noites aconchegados ao quente de uma família, de um caldo de legumes, de uma lareira de brasas crepitantes durante toda noite. O meu pai escondia os chouriços e os salpicões, os presuntos e as cebolas, os pimentos curtidos, as azeitonas, o azeite e até algumas alfaias para que a ciganada não se tentasse na ingratidão e malvadeza contra quem lhes cuidou da fome e lhes cuidou do frio. Quando eles partiam, lá voltava ele, escadote acima a pendurar os chouriços e os presuntos, as cebolas e até as uvas passas que sobejaram da pirataria dos gaipos que eu e os meus irmãos, perfeitas que foram as vindimas, nos apressámos a gamar à vizinhança. Quando o meu pai morreu, não mais ciganos nem vadios aportaram à casa velha da minha aldeia velha do resto dos meus sonhos velhos para uma noite pernoita no colchão de folhelho que o meu pai lhes preparava. Como se o pio das corujas lhes tivesse anunciado que a barca com que o meu pai haveria de passar além, já zarpara do cais.

Os meus primeiros dias no seminário foram todos de encanto, já sabemos. Quem não se inebria com uns lençóis brancos e lavados, um por cima e outro por baixo numa cama larga, firme e cheirosa como jamais tinha conhecido? Os primeiros dias são sempre de encanto disse-me um dos meus tios maçon regressado de Orléans nesses tempos em que cultura ainda era tudo aquilo que nos resta depois de esquecermos tudo aquilo que aprendemos, quero ser escritor, meu tio; sim, podes ser tudo desde que não esqueças que tudo é encanto até ao instante em que tu decides que deixa de o ser, respondeu-me

E ali estou eu dia sete de outubro deitado na cama de uma das cem camas do dormitório. Apaga-se a luz, faz-se escuridão, há uma lanterna aqui, outra lanterna ali e os vultos cirandam  negros, esvoaçam negros por entre as filas de todas as camas. São os perfeitos nas rotinas da fiscalização. A primeira noite só o corpo exausto me obrigou a dormir. O que é a primeira noite nem os noivos a sabem descrever, tomados de todo na ansiedade do seu desempenho na noite de núpcias. Nem as noivas, essas noivas dessas décadas de que falo, alguma vez dela falaram: ou a pureza do seu corpo as obrigara à ignorância ou o desgaste da roda que já levavam, as obrigara à contenção.

Noite adentro nos lençóis novos como o príncipe em sonhos no seu dossel até ao primeiro som das seis horas e quarenta e sete minutos, laus tibi Christe, laus tibi Christe, laus tibi Christe, voz alta e firme e as mãos a baterem palmas, palmas e mais palmas, por entre as filas do dormitório dos sonhos das cem crianças. Era a hora, era a hora que me transportou até à leitura do Evangelho que tanto me tinha impressionado no dia da minha comunhão solene. “vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do Homem chegará” (São Mateus, Evangelista). Laus tibi Christe, continua o perfeito batendo palmas. E levantávamo-nos. Casas de banho, lavar os dentes, lavar a cara e vestir. O dia vai começar, os dias nos seminários só começavam quando começavam as orações da manhã, a missa, a comunhão lá íamos nós em fila e as mãos em reza fingida ou sentida, em reza ao Altíssimo. Quem era o Altíssimo? Era a pergunta que martelara a minha cabeça durante todo o primeiro ano, enquanto caminhava, passo a passo em direção ao altar, na filinha, mãos em prece, para abrir a boca, esticar a língua, “Corpus Christi!” Amen. Seguia-se o primeiro almoço, como eles diziam, em silêncio, “todos em silêncio” “agradeçamos a Deus por este novo dia”, “Amen”, respondia-me eu sempre a todas as orações ladainhas sem saber o que rezava. Amen era como a senha que o sentinela grita para o camarada da guarita, “Amen” representava-me a descida à terra, o momento em que a porta do compreensível se fecha toda ao divino, era o momento em que eu deixava de estar obrigado a acreditar. Estamos todos em movimento, da capela para o refeitório, são oito horas e seguimos como se levitássemos; nem um só ruído perturbava o momento. Sentados que estamos, não se pode falar. Vem a cafeteira com leite e café misturados, a sêmea e uma peça de fruta da época. Não há restrições para as quantidades, cada um serve-se do que quiser, mas se se serviu, tem que comer. Não havia restos nenhuns que pudessem ser devolvidos à cozinha mas se não havia limites á abundância, também não padecíamos de gula. Não havia gordos no Seminário e abundavam até muitos de nós, esqueléticos, a quem a comida não passava da boca para baixo, tal eram os nós de angústia e saudade, cravados nas nossas gargantas de desamor e da falta da ternura de nossos pais. Os padres estavam vigilantes, também eles tinham cruzado esse mesmo caminhar, estavam atentos à nossa palidez, ao nosso isolamento do convívio com os outros, ao desinteresse no desporto e à diminuição do desempenho escolar. E lá tinham a sua receita: de um dia para o outro, sem qualquer anunciação, os nossos pais, vinham visitar-nos. E tudo melhorava. Por mim, fui criado a pão e a maçãs. Leite não tomava mas não dei a conhecer essa minha alergia durante os dois primeiros anos. Os pobres também não têm direito a ter defeitos, já lhes basta ser pobres, já lhes chega a censura social à pobreza, como se fosse uma escolha, um caminho que cada um seguiu, livremente: para pobre ou para rico. Não podia queixar-me, tinha medo,

senhor padre eu não tomo leite, dê-me só café, como poderia ter feito este pedido sem que ficasse registado no crivo dos que não têm vocação para o sacerdócio? A vocação não se media por um sentimento intimo, por uma força interior, por uma voz que nos impelisse a responder à chamada: “vem e segue-me”. Media-se pelo negativo dos dias, pelo não intervir contra a ordem da Congregação, por não pensar fora do pensamento, por ir indo e indo, guiados humildemente como servos, aqui estou ao dispor de vossa excelência, atento, venerando e obrigado, como era o palavreado das cartas e ofícios dos funcionários do Estado Novo, dirigidos aos superiores hierárquicos. Nos tribunais continua a pender os adjetivos da subserviência, meritíssimo, venerando e colendo, e sobretudo a pedir-se justiça, como se em algum tempo da história os tribunais tivessem existido para cumprir a justiça ou como se em algum tempo uns homens e mulheres colocados na cadeira de quem escreve despachos e sentenças estivesse ali para cumprir essa palavra. O que importa é a forma, o que está no processo, que sejam praticados corretamente os atos formais dos autos, desde a primeira folha até à última folha. O Homem?! O Homem é o fim da linha do processo?

                                                                                                                                                                                                                            10

A vocação para a vida religiosa era como o virar da página, página a página, ano a ano. Nem os muito inteligentes chegavam ao destino nem os burros saíam dos primeiros anos do internato. A diferença incomoda sempre como num bosque de eucaliptos não medram flores nem borboletas e esse viver amando a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, criou-nos a forma, o caminho, o triste andar como o trilho de todos, igual aos outros, nem de mais nem de menos. Vocação terá sido certamente a palavra que disseram de mim sem que me tivessem perguntado qual era a minha vocação. Nem hoje mesmo eu sei o caminho de vida que gostava de ter percorrido. Sabemos com um maior grau de certeza sobre o que não queremos, como se todos fôssemos Bartleby, o célebre personagem, escrivão, de Melville, repetirmos sempre “eu preferiria não o fazer, “eu preferiria não o fazer” e, sabendo o que não queria, deixei-me ir, ir e ir e ir para onde as marés me levaram porque focado estava apenas no que, verdadeiramente, não queria. Talvez seja mesmo o fruto da condição do pobre, não ter leme nem comando, não ter destino nem horizonte, deixar-se ir por onde o levam o furacão e a brisa, os alísios e a tempestade. A meio da manhã, três ou quatro vezes durante o ano, convivia com a morte. Enevoavam-se-me os olhos, tinha desequilíbrio, tonturas e dores de cabeça e, meia hora depois disto começar, vomitava. Fazia-o sempre em silêncio, escondido dos outros para que ninguém soubesse o que me acontecia. Não fui à enfermaria onde lá estava sempre disponível e com a bondade que era todo bondade o enfermeiro, quereria saber tudo, ouvia-nos, abria-nos os olhos para apurar do seu grau de amarelo, a boca, examinava os dentes e o peso e perguntava sempre se tínhamos saudades dos pais e dos irmãos. Não fui à enfermaria, nunca contei a ninguém destas minhas convulsões, tinha medo, medo que os padres soubessem e sabendo-o, doentes não queremos cá; sem mais nem menos, depois dos catorze anos, não voltaram a acontecer.

Regresso agora às férias de Verão. Quatro meses com os meus pais, de dez de junho até ao dia sete de outubro, dia de regresso ao internato. Quando regressava a casa, jã não era a minha casa, os meus irmãos saíram, as crianças da minha meninice já não eram crianças e a escola primária tinham agora outras iguais ao que eu fora, tristes como eu fora. Eu já não moro aqui, repetia muitas vezes para me confortar com a ausência dos afetos de que precisava. A primeira semana ainda era novidade, os meus pais estavam felizes e mimavam-me como quem pretende viver os dias que não viveu. Pediam-me que lhes contasse como era a vida lá longe onde eu vivia, o que estudava, os meus companheiros quem eram e de onde eram, novidades que eu não tinha, não sabia contar. De religião, nunca me questionaram, o meu pai porque não queria saber, a minha mãe porque não queria contrariar o meu pai. Eles bem sabiam que eu não estava internado para ser padre; eu é que não sabia. Passada que era a primeira semana de férias, já não havia novidades e vinha-me o tédio e a ausência. Eu era o meu próprio ausente. Caminhava só, ia para o rio sozinho, rebolava-me pelos campos abaixo sem mais ninguém, e, sentado na soleira da porta, meditava. Quatro meses assim, numa aldeia vazia de gente, vazia de esperança e cheia de aerogramas e militares mortos em combate nas Províncias Ultramarinas. O vestuário das pessoas da minha aldeia só tinha uma cor, porque de luto um dia, de luto toda a vida. Não se vivia, proclamava o meu pai para acicatar o “Botas” como ele chamava ao Presidente do Conselho. Ao domingo ia á missa, não por fé, que essa nunca tive mas para ver pessoas, ver raparigas ao longe e fingir que não me podia interessar por elas. A igreja abarrotava, ladainhas em latim e mais latim, homens à frente na igreja românica e mulheres atrás escondidas no xaile preto com que tapavam as suas cabeças. À semana, também ia à missa, não por uma qualquer razão positiva, a missa tinha meia dúzia de velhas, sempre as mesmas que entoavam sons que acabam sempre com o mesmo palrar: “ámen”. Se ia à missa nesses tempos da semana era apenas por duas razões objetivas: a primeira, para sair de casa e a segunda para que o padre da paróquia escrevesse aos padres do seminário que o menino era tão bem comportado que até ia quase sempre à missa em louvor de nosso senhor jesus cristo e eu dizia ámen a tudo, juntava a mãos em oração ao divino mas, verdade, verdade, o meu pensamento voava para longe da nave da igreja, para a poesia, para os braços de Yolanda, para as pernas da Palmira que eu lhe tinha espreitado. Pecado? Nunca pequei porque só peca quem sabe o que é o pecado e mesmo quando o confessor nos interrogava “pecaste contigo próprio “ e insistia “pecaste contigo próprio” e “brincaste contigo” respondi-lhe sempre: não, não, nunca. Brinco é com os meus amigos, fingindo que não percebia o alcance da pergunta no confessionário. Quando botei corpo e não mais podia fingir que não entendia a pergunta, lancei mesmo a provocação: “o senhor padre está perguntar-me se bato à punheta”? E tudo morreu ali. Nem mais me foi perguntado o que fazia com o meu corpo nem eu tive necessidade de mentir.

2020-11-20

assis - Orbacém

Boa noite, amigos AAARs

Paz e Bem...

P.S. - Estas 2 letras costumam colocar-se no final para acrescentarmos algo que nos passou na conversa talvez por falha dos neurónios, como acontece nas ligações eléctricas que eu costumo fazer.

No caso do momento, para que tal não aconteça, vão no início do que poderei vir a escrevenhar para que nada falte e se falhar algo que falte todo o resto...

Aos amigos escritores quero pedir, por favor, que escrevam grosso, ou em tamanho graúdo, de modo a que não forcem a faciência e sobretudo a vista dos "pitosgas" mais idosos. Nós desejamos continuar a poder ler os v ossos belos trabalhos de  escritores Palmeirescos.

Aqui deixo, antecipadamente, um BEM-HAJAM, em meu nome e no de todos aqueles que se encontram em situação semelhante. 

    Dito o post escriptum e porque o tempo de pandemia se apresenta como algo apropriado, apenas quero partilhar convosco o que me aconteceu nas duas mudanças que fiz de residência: de Gaia para a Maia e da Maia para Orbacém. Em ambas me apareceu gente a perguntar se já estava inscrito na freguesia para descontar para a compra do lugar no cemitério, para que, após a hora fatal, não deixasse problemas à família...Um momento de pausa e respondo que ainda não, mas que iria tratar disso mal pudesse. Claro que ainda não tratei nem tratarei no caso da segunda mudança, tal qual na primeira. Eu penso e quero continuar a pensar na vida, não na morte. Quero viver o dia de hoje e o de amanhã... o resto virá a seu tempo. A menos que apareça por cá um coveiro, estilo daquele que tentou o Aventino, e eu me deixe hipnotizar pela sua tentadora argumentação.

Por falar em Aventino, aqui lhe deixo a garantia de que lerei a sua autobiografia, mas a contagotas, apesar da sua advertência.

 

2020-11-16

ANTONIO ROSA GAUDENCIO - LISBOA

Sem rodeios, aqui me confesso: gosto de ler o Aventino.

Nestes primeiros capítulos da sua  "biografia ", mais que os factos e os feitos, apreciei a forma que usou para  os contar. 

Uma prosa  interessante, sinuosa, provocadora, bem conseguida e outras coisas mais  ( e puta, a senhora é ? )

levou-me a ler os primeiros capítulos de um só fôlego.

Dado que a  " entrada " foi suculenta, fico a aguardar o prato de peixe, o de carne, a sobremesa e tudo o mais com  que a  " ementa " nos  possa surpreender.

 

 

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