fale connosco


2015-03-29

AVENTINO - PORTO

15 horas. Março. Igreja de Santo António das Antas. Porto.

Dos longos silêncios se ouvia tudo. Aves sobrevoavam. Vozes surdidas surdiam sentimentos, "os meus sentimentos" repetidamente. Aqui e ali lágrimas contidas, flores, sinos vazios, o momento já não espera a morte. A um canto uns, noutro canto outros, AAR´s como se fossem saídos do Les Misérables de Victor Hugo ou das catacumbas do Fantasma da Ópera.  Triste a nossa figura em momento solene,

(e os padres, do alto da Quinta da Barrosa, "o exterior reflecte o interior"),

AAR´s de camisa aberta, os casacos e os Kispos desbotados, calças enrodilhadas, séculos de ferro de engomar sem por ali passar, sapatos conspurcados, sujos, envergonhando alguns outros que também são AAR´s e souberam estar à altura da nobreza que o momento impõe.

"O exterior reflecte o interior" e a barba por fazer, os olhos enxarcados, o cabelo desgrenhado. Triste a figura em dia de despedida.Que alma nos corre? desiludida, vazia, miserável? Como poderemos dizer que somos REDENTORISTAS, filósofos, teólogos, poetas, escritores, advogados, intelectuais elevados á categoria de imortais, se passeamos esta triste figura exterior de abandonados do desencanto?!

(Ensinaram-nos que é preciso respeitar os vivos e honrar os mortos ou qualquer outra coisa assim ou o seu contrário!) Ou não ensinaram?!

Quando a missa acabou, aportámos à porta da igreja. O sol inclinado perturbava o olhar. Ao portão havia pessoas, gente acumulada, diálogos. Um grupo destacava-se:

maltrapilhos, velhos, em cavaqueira de café como se o momento fosse de cavaqueira de café.

"Arrumadores de carros nesta hora"? alguém disse ao meu lado, surpreendido pela visão do número que compunha o lote. Não, respondeu outrem. São do Seminário. E fez-se novamente silêncio.

Quando eu morrer quero ver-vos assim, de novo. Para que vos possa dizer "queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável"?(Fernando Pessoa), Levanto-me do caixão, pego nas moedas que ali me deixaram para pagar ao barqueiro e dou-vos. Haverá sempre algum adeleiro por ali perto.

Um pouco mais de luz e eu era belo;

" um pouco mais de sol - eu era brasa". (Mário de Sá-Carneiro) 

2015-03-26

alexandre gonçalves - palmela

 

BARROSAL IV /Cartas a um Amigo que Não Vem no Vento

 

No plaino abandonado

que a morna brisa aquece,

de balas traspassado

- duas de lado a lado-,

jaz morto, e arrefece.

 

Raia-lhe a farda o sangue.

De braços estendidos,

alvo, louro, exangue,´

fita com olhar langue

e cego os céus perdidos.

 

Tão jovem!, que jovem era!

(Agora, que idade tem?)

Filho único, a mãe lhe dera

um nome e o mantivera:

"o menino de sua mãe".

                 F.Pessoa (CANCIONEIRO)

Estou sentado na confeitaria dos combatentes. É o céu do Porto, baço e triste. Uma neblina baixa e algum frio sugerem o conforto matinal de um galão e uma torrada. Cheguei cedo, muito cedo para os hábitos que pratico. Fui dos primeiros clientes a entrar. Procurei um recanto, recortado contra uma vidraça nublada. Mesmo não chovendo, eu senti a chuva a atravessar os vidros e a molhar-me a vida toda, como se eu andasse à chuva desde Vila Nova. A minha defesa, a minha gabardina, o meu chapéu de chuva é um caderno obssessivo, agora mais pequeno, que guardo no blusão. Ponho-o na mesa, como se o fosse usar. Não o usei, esperei que me servissem e fui olhando distraidamente para a manhã, que assim crescia. Pessoas que entram, que saem, que falam baixo, que não falam e apenas fazem tempo. Olhei mas não vi nada. Fiz tempo triste, como se o ar anunciasse para breve uma qualquer dor estranha e incómoda. No entanto, sobravam-me razões para gostar de estar ali, num ócio novo e lento, esperando por um encontro. No extremo oposto, alguém me procura sem me ver. E alguém me vê sem me procurar. E foi assim que esperámos sentados, cada qual com a sua distracção. A ponto de nenhum de nós ter levado telefone. Quando vou pagar, vejo pelas costas o António Pedro, que já se pirava em direcção incerta. Corro para ele, berro-lhe o nome e ele vira-se: "Ó boa, onde é que te meteste?", vociferou. Demos um abraço, rimo-nos de nós próprios e procurámos o meu carro. Ordens claras e indiscutíveis. "Em frente e logo à esquerda! Depois é só andar." Fomos rezar a um santuário de Matosinhos, junto à praia, onde é um dos devotos mais fiéis. Chegou e disse: "a dieta do costume!" A dieta foram três horas infinitas. As últimas, para o meu lado. Quando nos despedimos, o dia estava ganho, éramos contentes e nada sabíamos do futuro. Nem tempo tivemos para falar de melancolia, isto é, da neblina do Porto, mesmo quando não chove. Mas ainda me perguntou: "escreveste alguma coisa? Dormiste com a gaja?" Não escrevi, não dormi com ninguém mas ri-me até às lágrimas. A sua alegria contagiava e transformava em sol qualquer gota de chuva que assomasse nos olhos.

Do António Pedro falarei, por imperativo de consciência. Evitarei os elogios, porque ele não os suportava. Em cada elogio, há uma infidelidade à mais pura amizade da terra. Evitarei também qualquer forma de avaliação, porquanto rejeito liminarmente qualquer papel de juiz. Dele direi três coisas, extraídas dos actos da sua vida, por me ter sido possível conviver com ele nos últimos cinco anos. Primeiro, a alegria. A breve história referida mostra como ele bebia e comia a vida, como um banquete maravilhoso, abundante mas breve. Essa atitude dava-lhe o sentido da urgência, da festa, do encontro. Não era para fazer volume. Era para obrigar a matéria a pagar o imposto que deve à elevação espiritual, que resulta de alguns, muitos, todos se possível, se encontrarem num ritual de amizade.                                               Em segundo lugar, a condição terrena. Nada do que é humano lhe era estranho. A transcendência pode esperar pela eternidade. O António Pedro não tinha tempo para isso. Cada dia tinha um sabor de último. Não o percas, diz ele. Agarra-o sem complexos ou falsas moralidades. Ninguém te vai perguntar por onde andaste ou por que chegaste atrasado. A questão é outra: que fazes tu da vida enquanto duras? Andas de pé, de cabeça erguida, ou vais a Fátima de joelhos, a cumprir uma promessa de suborno? Trabalha, meu filho, acredita na terra, se queres provar um pouco de alegria.                                                                                         Por fim, a bondade, a dádiva, o tempo disponível e o que for preciso, para nos sentarmos à mesa. A mesa é a solidariedade, os outros, amigos e inimigos. E não se precisa de um mandamento de caridade oficial, para distribuir gestos, sorrisos, verdades quotidianas, que até podem ser pequenas mas têm de ser frontais.

  Quem é o António Pedro? É o amigo que deixou de vir no vento. Já não volta à confeitaria. Nem a este site. Não voltará a Matosinhos. Mas ele dura enquanto durarem as práticas que fazem da vida um lugar apetecível. Ele arrefeceu, porque duas balas o atravessaram: a argila da matéria corpórea e a solidão astral que governa o universo. Os céus perdidos é a tristeza ontológica de não termos pai, um Deus atento que à hora da morte nos disponibilizase qualquer continuidqade, que não fosse fabricada pelo homem. Não temos pai mas temos a grandeza de sermos "o menino da sua mãe". Isto é, a vida é a condição do amor. Trazemos uma criança no fundo do coração, Alguém disse que somos todos meninos enquanto tivermos mãe. Talvez fosse mais justo afirmar que somos meninos enquanto formos capazes de amar, de  acreditar, de inventar gestos, palavras novas, um olhar novo por sobre a fragilidade insustentável da vida.

Meu bom amigo, tão jovem, em rigor que idade tens agora? Tens a eterna juventude de esperares num recanto de confeitaria um improvável encontro,  num céu nublado e triste, a escorrer melancolia numa vidraça.

2015-03-19

Pedro Peinado Júnior - Braga

Boa noite a todos,

Antes demais, quero agradecer-vos, umas vez mais e em nome da minha família, todas as vossas palavras e todos os vossos gestos que tiveram connosco.

Serve o presente, para lhes enviar o meu comentário para a vossa próxima palmeira tal como foi falado.

Então aqui vai em baixo o texto:

 

Felizes somos todos aqueles que te lembramos...

Tantas cartas rompemos e dominó jogamos. Rimos e choramos sem nunca nos zangarmos. Juntos, fomos sonhando e muitas coisas celebrando. Inseparáveis e inquebráveis! Amor, amor cego! Passamos a fronteira e ousamos descobrir, o que agora são lembranças. Foi tão bom e inesquecível, mas com toda a certeza que, um dia destes "doutor"...voltaremos. Pedro Peinado Jr -"Netão"

 

 

Quanto a vocês todos, resta-me mandar-vos um grande abraço e dizer-lhes: Voltarei, em breve! 

Pedro Peinado Jr

 

 

2015-03-18

ANTÓNIO GAUDÊNCIO - LISBOA

Não me é fácil falar do Peinado porque a tristeza e o sentimento de perda de um amigo "tão amigo" não me ajudam nem me parecem bons conselheiros para escrever seja o que for com a dignidade e  a grandeza que ele merece.

Conhecemo-nos e tornámo-nos logo amigos nos idos de 1955. Em 1958, por alguma razão ( ou sem razão alguma ), o Peinado foi "expulso" da Quinta e essa separação fez com que só nos tornássemos a reencontrar 50 anos depois. Mas os anos que seguiram o reencontro foram muito fecundos, agradáveis, gratificantes e compensadores. 

Não vou falar das qualidades do Peinado pois elas eram tão bem conhecidas e seria fastidioso enunciá-las. Foi um homem que sorveu  a vida na sua plenitude e nunca teve vergonha de o fazer. Foi amigo do seu amigo. Foi um homem frontal que nunca deixou de dizer o que lhe ía na alma.

Todos ficámos mais pobres mas sobreviveremos com a recordação de um companheiro que marcou, nos últimos anos, a vida dos seus amigos e a da AAAR.

Finalizo com dois pequenos apontamentos:

  • Realço e agradeço o trabalho incansável do Diamantino na recolha e difusão de informações sobre o estado de saúde do Peinado sobretudo nas últimas semanas;
  • E quero partilhar a minha dor com a família do Peinado e, em especial com a Dª Mimi, pois, se nós perdemos um amigo, ela perdeu o marido, o companheiro de toda uma vida.

Sendo a perda tão recente, imagino que o nosso Peinado ainda está aqui ao meu lado e para me despedir dele nada melhor que dizer-lhe:

ATÉ BREVE , COMPANHEIRO.

 

  •    
2015-03-18

manuel vieira - esposende

O nosso Peinado pressentia, por razões várias,  que não iria ter vida longa e melhor seria viver intensamente o que lhe restava para consentir aquele destino. Era um amigo bom  e sincero e numa das últimas conversas inquiria-me sobre as opiniões diferentes que podemos ter sem interferir  na amizade franca.

Ao lado da sua cama falámos cerca de uma hora, intervalando com bátegas de sono lento. Despertava-o com um toque na sua mão e pedia-me desculpa. Perguntava-me sobre a lampreia e dava-lhe estímulo à conversa lembrando-lhe que tinha de arribar para experimentarmos umas amostras culinárias com tradição no Alto Minho. A conversa mexia com ele e despertava-o e o tema cumpria o seu fim.

Falei-lhe do seu neto Pedro Jr e das suas mensagens no Fale Connosco . Ele falou-me de  afetos com um sorriso largo.

Também o José de Castro na visita que lhe fez  lhe leu os escritos do Pedro Jr., o hino do clube do seu coração, as palavras de incentivo e coragem na doença.

Apetece-me falar dos seus últimos dias, talvez por serem uma mostra da onda de preocupação e solidariedade que ele sentiu enquanto esteve consciente. Mas estaria aqui a escrever sobre esperança ou a perda dela em momentos tantos.

Ultimamente nos Cuidados Intensivos o Diamantino conseguiu estar com ele e desprender num abraço as angústias acumuladas de tanto silêncio e ouvir baixinho um repetido “obrigado”.

Nas conversas quase diárias que tinha com o Diamantino percebi  bem quanto este nosso colega sofreu, pelas correrias para o Hospital de Santo António, pelas chamadas para a esposa do Peinado para saber mais notícias, pela difusão sobre o estado clínico pelos colegas, pela amargura das  notícias mais duras, pelos silêncios nas nossas conversas a pensar no pior.

Quando me disse que tinha de conseguir entrar nos Cuidados Intensivos para o ver disse-lhe, “vai por nós Diamantino”.

E é ao Diamantino que eu quero agradecer, que todos devemos agradecer, pela sua persistência e dedicação, pelo cumprimento da missão que traçou para si junto do amigo comum a quem dedicou tanto tempo. A amizade é assim e por vezes tem esta dureza.

Em dias muito  bons o Diamantino ligava-me e perguntava: sabes quem tenho aqui ao meu lado? Eu respondia-lhe sem dúvidas: “o Peinado”.  Estavam na cidade tripeira e em minutos conversávamos os três.

Foi assim que eu soube do internamento do Peinado quando o Diamantino, a seu lado, me ligou e disse que estavam a saborear umas moelinhas  no 8º andar. Só depois me disse que estavam no 8º piso do Hospital de Santo António sem prever tão triste fim.

Falar, falar do Peinado alivia-me o espírito … e estaria aqui muito tempo a lembrar tempos.

Uma palavra especial para o Delfim pelas emoções que traçou no seu escrito e um abraço sincero de força.

O António Peinado juntou-nos ontem pertinho do seu estádio, lembrou-nos como a vida tem de ser vivida e por vezes repensada, juntou-nos à sua volta, levou-nos a tomar um cafezinho  no “Velasquez” dos outros seus amigos diários  e partiu na paz dos deuses …

 

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