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2015-04-03

Pedro Peinado Jr - Braga

Meus caros,

O melhor siginficado que podemos dar à tradição da Páscoa é não nos esquecermos de a relembrar e celebrar.

Estando nós em pleno séc. XXI, onde a palavra "liberal" parece ter cada vez mais força, já muitos da minha e da vossa geração se esquecem de pensar ou meditar, nesta época festiva/religiosa. Uns ainda vão cumprindo, outros não ligam e outros ainda sabem que à sexta não se pode comer carne.

Portanto, a verdadeira celebração que podemos ter nesta Páscoa, é estarmos juntos daqueles que nos pertencem e falarmos à mesa, nem que seja por 5 minutos, sobre a ressureição de Jesus e lembrarmos o verdadeiro significado, destes dias.

No meu caso, digo-vos que de vez em quando lá me esqueço de comer o peixe em algumas sextas, mas concerteza que não me esqueço do significado da Páscoa.

Na cidade onde vivo e vivi a maior parte destes 25 anos, é a semana mais bonita do ano. As casas brilham, as ruas ficam todas embelezadas com um cheiro puro de flores...Anda tudo de cara lavada, poucos trabalham no comércio e muitos em casa ajudam nas lides domésitcas.

Apareçam em Braga, nestes dias! E não se esqueçam, sejam malandros e que vos saiba bem o Cabrito assado com batatinhas e do pão-de-ló com queijo D.Pedro.

Boa páscoa para todos...e como dizia o outro: Voltarei em breve!

Peinado Jr.

2015-04-01

A. Martins Ribeiro. - Terras de Valdevez

A chegar do café tinha em cima da minha secretária a nossa PALMEIRA. Abri-a assim de relance e (que quereis) fiquei de boca aberta, linda que ela está; desta vez com uma colaboração muito bem concebida, bom aspecto gráfico e muito bom papel. Poderá não ser uma “Lady” sofisticada mas é, certamente, uma satisfação para a nossa alma de AARs; e é para nossa fruição que ela existe, por isso, tudo o que se disser a mais serão palavras desencontradas. Não me tendo pedido o Arsénio uma colaboração específica fiquei, no entanto, surpreendido com a publicação de um pequeno texto que em tempos inseri no FaceBook e que ele aproveitou para este número. Caro Arsénio, entendo que se trata de um trecho de pouca monta ou interesse escrito em tempos de fogoso romantismo e que já viraram saudade; só lhe agradeço a atenção e não me “roubou” nada. Parabéns a toda a equipa da Redacção.

 

Depois de ver o programa preliminar do nosso passeio a realizar em Maio só quero exprimir uma opinião; a de que fiquei muito agradado porque ele vem de encontro á sensibilidade minha e de minha mulher: embora lugares muito conhecidos são, contudo, lugares míticos e próprios para ser vistos, revistos, “trevistos” e “retrevistos”. Aliás, considero que um AAR é uma pessoa “superior”, pela sua educação, pela sua postura na vida, pela sua sensibilidade á Beleza, á Arte, á Monumentalidade, á História, ás Maravilhas naturais, a toda a Cultura: porque não, também, pelo seu gosto de bons acepipes e néctares (dádivas de Deus), cabritadas, lampreiadas, mariscadas, favadas e tudo que sirva para nos juntar á volta dum sagrado lenho em fraterna comunhão. Muito bem, caro Arsénio, pelo seu fino gosto. Magnífico! Conte, desde já, conosco, caso assim Deus o permita!

2015-03-30

Arsénio Pires - Porto

Este post do Aventino levantou-me da modorra em que bocejava frente ao computador. 

Sempre o Aventino, o saudavelmente provocador.

E aqui vou eu.


Haverá diferença entre interior e exterior?

Serão o mesmo ou haverá túneis ignorados entre eles?

Serão espelho um do outro?

Qual deles será o mais importante?

Existirá um interior e um exterior?

Interior ou exterior a quê ou a quem?

Poderíamos filosofar até ao tédio final. Nego-me a inutilidades.


Mas, como estamos em maré de citações, aqui vão duas que muito aprecio e muito me têm orientado ao longo dos dias. Ei-las:

“É por dentro das coisas que as coisas são.” (Sebastião da Gama)

“O essencial é invisível aos olhos.” (Saint Exupéry)

Vem isto a propósito do exterior com que os tais “do Seminário” foram acompanhar o que restava do seu amigo (o exterior dele?). E éramos 25… Les Misérables. 

Destes 25, pelo menos 5 (que me lembre) acompanharam o interior do nosso amigo. No hospital. Lá onde o interior se vai desfazendo e um aperto de mão, com palavras quentes prometendo próximas lampreiadas e favadas, representa o que de mais belo, sincero e importante há no mundo que se adivinha cada vez mais distante através da janela que se fecha escura logo que as visitas vão para casa… e o silêncio cai como granito. Alguns daqueles 5 Misérables (ou todos?) saiam com lágrimas a assomarem-se ao exterior borbulhando a partir do tal interior.

Eles… sem gravata preta. Sem fato ao rigor. Com o fado que canta: “Quando eu morrer, rosas brancas/ ninguém mas venha of’recer.”

Que frágeis e curtos são os nossos dias e noites.

O pó cobrirá as nossas vestes.

E o vento levantará o pó sobre as lápides do tempo.

Dos nossos tempos.

2015-03-29

AVENTINO - PORTO

15 horas. Março. Igreja de Santo António das Antas. Porto.

Dos longos silêncios se ouvia tudo. Aves sobrevoavam. Vozes surdidas surdiam sentimentos, "os meus sentimentos" repetidamente. Aqui e ali lágrimas contidas, flores, sinos vazios, o momento já não espera a morte. A um canto uns, noutro canto outros, AAR´s como se fossem saídos do Les Misérables de Victor Hugo ou das catacumbas do Fantasma da Ópera.  Triste a nossa figura em momento solene,

(e os padres, do alto da Quinta da Barrosa, "o exterior reflecte o interior"),

AAR´s de camisa aberta, os casacos e os Kispos desbotados, calças enrodilhadas, séculos de ferro de engomar sem por ali passar, sapatos conspurcados, sujos, envergonhando alguns outros que também são AAR´s e souberam estar à altura da nobreza que o momento impõe.

"O exterior reflecte o interior" e a barba por fazer, os olhos enxarcados, o cabelo desgrenhado. Triste a figura em dia de despedida.Que alma nos corre? desiludida, vazia, miserável? Como poderemos dizer que somos REDENTORISTAS, filósofos, teólogos, poetas, escritores, advogados, intelectuais elevados á categoria de imortais, se passeamos esta triste figura exterior de abandonados do desencanto?!

(Ensinaram-nos que é preciso respeitar os vivos e honrar os mortos ou qualquer outra coisa assim ou o seu contrário!) Ou não ensinaram?!

Quando a missa acabou, aportámos à porta da igreja. O sol inclinado perturbava o olhar. Ao portão havia pessoas, gente acumulada, diálogos. Um grupo destacava-se:

maltrapilhos, velhos, em cavaqueira de café como se o momento fosse de cavaqueira de café.

"Arrumadores de carros nesta hora"? alguém disse ao meu lado, surpreendido pela visão do número que compunha o lote. Não, respondeu outrem. São do Seminário. E fez-se novamente silêncio.

Quando eu morrer quero ver-vos assim, de novo. Para que vos possa dizer "queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável"?(Fernando Pessoa), Levanto-me do caixão, pego nas moedas que ali me deixaram para pagar ao barqueiro e dou-vos. Haverá sempre algum adeleiro por ali perto.

Um pouco mais de luz e eu era belo;

" um pouco mais de sol - eu era brasa". (Mário de Sá-Carneiro) 

2015-03-26

alexandre gonçalves - palmela

 

BARROSAL IV /Cartas a um Amigo que Não Vem no Vento

 

No plaino abandonado

que a morna brisa aquece,

de balas traspassado

- duas de lado a lado-,

jaz morto, e arrefece.

 

Raia-lhe a farda o sangue.

De braços estendidos,

alvo, louro, exangue,´

fita com olhar langue

e cego os céus perdidos.

 

Tão jovem!, que jovem era!

(Agora, que idade tem?)

Filho único, a mãe lhe dera

um nome e o mantivera:

"o menino de sua mãe".

                 F.Pessoa (CANCIONEIRO)

Estou sentado na confeitaria dos combatentes. É o céu do Porto, baço e triste. Uma neblina baixa e algum frio sugerem o conforto matinal de um galão e uma torrada. Cheguei cedo, muito cedo para os hábitos que pratico. Fui dos primeiros clientes a entrar. Procurei um recanto, recortado contra uma vidraça nublada. Mesmo não chovendo, eu senti a chuva a atravessar os vidros e a molhar-me a vida toda, como se eu andasse à chuva desde Vila Nova. A minha defesa, a minha gabardina, o meu chapéu de chuva é um caderno obssessivo, agora mais pequeno, que guardo no blusão. Ponho-o na mesa, como se o fosse usar. Não o usei, esperei que me servissem e fui olhando distraidamente para a manhã, que assim crescia. Pessoas que entram, que saem, que falam baixo, que não falam e apenas fazem tempo. Olhei mas não vi nada. Fiz tempo triste, como se o ar anunciasse para breve uma qualquer dor estranha e incómoda. No entanto, sobravam-me razões para gostar de estar ali, num ócio novo e lento, esperando por um encontro. No extremo oposto, alguém me procura sem me ver. E alguém me vê sem me procurar. E foi assim que esperámos sentados, cada qual com a sua distracção. A ponto de nenhum de nós ter levado telefone. Quando vou pagar, vejo pelas costas o António Pedro, que já se pirava em direcção incerta. Corro para ele, berro-lhe o nome e ele vira-se: "Ó boa, onde é que te meteste?", vociferou. Demos um abraço, rimo-nos de nós próprios e procurámos o meu carro. Ordens claras e indiscutíveis. "Em frente e logo à esquerda! Depois é só andar." Fomos rezar a um santuário de Matosinhos, junto à praia, onde é um dos devotos mais fiéis. Chegou e disse: "a dieta do costume!" A dieta foram três horas infinitas. As últimas, para o meu lado. Quando nos despedimos, o dia estava ganho, éramos contentes e nada sabíamos do futuro. Nem tempo tivemos para falar de melancolia, isto é, da neblina do Porto, mesmo quando não chove. Mas ainda me perguntou: "escreveste alguma coisa? Dormiste com a gaja?" Não escrevi, não dormi com ninguém mas ri-me até às lágrimas. A sua alegria contagiava e transformava em sol qualquer gota de chuva que assomasse nos olhos.

Do António Pedro falarei, por imperativo de consciência. Evitarei os elogios, porque ele não os suportava. Em cada elogio, há uma infidelidade à mais pura amizade da terra. Evitarei também qualquer forma de avaliação, porquanto rejeito liminarmente qualquer papel de juiz. Dele direi três coisas, extraídas dos actos da sua vida, por me ter sido possível conviver com ele nos últimos cinco anos. Primeiro, a alegria. A breve história referida mostra como ele bebia e comia a vida, como um banquete maravilhoso, abundante mas breve. Essa atitude dava-lhe o sentido da urgência, da festa, do encontro. Não era para fazer volume. Era para obrigar a matéria a pagar o imposto que deve à elevação espiritual, que resulta de alguns, muitos, todos se possível, se encontrarem num ritual de amizade.                                               Em segundo lugar, a condição terrena. Nada do que é humano lhe era estranho. A transcendência pode esperar pela eternidade. O António Pedro não tinha tempo para isso. Cada dia tinha um sabor de último. Não o percas, diz ele. Agarra-o sem complexos ou falsas moralidades. Ninguém te vai perguntar por onde andaste ou por que chegaste atrasado. A questão é outra: que fazes tu da vida enquanto duras? Andas de pé, de cabeça erguida, ou vais a Fátima de joelhos, a cumprir uma promessa de suborno? Trabalha, meu filho, acredita na terra, se queres provar um pouco de alegria.                                                                                         Por fim, a bondade, a dádiva, o tempo disponível e o que for preciso, para nos sentarmos à mesa. A mesa é a solidariedade, os outros, amigos e inimigos. E não se precisa de um mandamento de caridade oficial, para distribuir gestos, sorrisos, verdades quotidianas, que até podem ser pequenas mas têm de ser frontais.

  Quem é o António Pedro? É o amigo que deixou de vir no vento. Já não volta à confeitaria. Nem a este site. Não voltará a Matosinhos. Mas ele dura enquanto durarem as práticas que fazem da vida um lugar apetecível. Ele arrefeceu, porque duas balas o atravessaram: a argila da matéria corpórea e a solidão astral que governa o universo. Os céus perdidos é a tristeza ontológica de não termos pai, um Deus atento que à hora da morte nos disponibilizase qualquer continuidqade, que não fosse fabricada pelo homem. Não temos pai mas temos a grandeza de sermos "o menino da sua mãe". Isto é, a vida é a condição do amor. Trazemos uma criança no fundo do coração, Alguém disse que somos todos meninos enquanto tivermos mãe. Talvez fosse mais justo afirmar que somos meninos enquanto formos capazes de amar, de  acreditar, de inventar gestos, palavras novas, um olhar novo por sobre a fragilidade insustentável da vida.

Meu bom amigo, tão jovem, em rigor que idade tens agora? Tens a eterna juventude de esperares num recanto de confeitaria um improvável encontro,  num céu nublado e triste, a escorrer melancolia numa vidraça.

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