fale connosco


2015-08-23

Manuel Vieira - Esposende

Ouço falar em férias mas ainda não sei o que isso é, este ano, mas espero em breve dar uso a alguns dias de bom descanso.

Aproveitei para reler os bons textos que por aqui se publicam e insisti no "hino à vida" do Ricardo Morais, que ontem fez anos, por transparecer um pouco do modus vivendi de quem olha os ramos largos e secos da palmeira da Barrosa.

 As oportunidades da boa convivência que por vezes surgem em título de qualquer convite emitido em Palmela ou Orbacém traz à liça a listagem dos amigos que ainda temos, que preservamos mas não usamos, entendendo-se a palavra "usar" como sinónimo de partilha do tempo, das emoções, das memórias.

O Fernando Viterbo também fez ontem anos, parece.

Também hoje faz 95 anos o nosso amigo Henri Le Boursicaud que vive em Fortaleza, Brasil e tem um historial de vida dedicado aos outros, àqueles que mais sofrem.

2015-08-18

Aventino Pereira - Porto

 

QUAESTIO PRAEVIA:

Os textos que aqui escrevi, tinham dois destinatários: os demais AAR´s e eu próprio.

Os textos que aqui escrevi, vieram de duas intimidades e a essas mesmas intimidades se destinavam: à minha e à dos demais AAR´s. Somos de uma mesma água e navegamos no mesmo bote.

Acontece que, fora deste nosso mundo que eu tanto queria que só a nós AAR's pertencesse, há quem aqui, ao "Fale Connosco", venha ler os nossos textos, infiltrando-se na nossa alma e roubando-me essa liberdade de pertencer apenas a nós AAR´s. Não sabia. Queria, revelando-me, manter-me secreto e secretamente falar dos silêncios.

Assim, a fim de evitar esses terceiros intrusos neste mundo do AAR´s, tento iludir alguns dados para que "qualquer semelhança com a realidade seja apenas uma mera coincidência".

                                                                 ******

SE ALGUÉM BATER UM DIA À TUA PORTA DIZENDO QUE É UM EMISSÁRIO MEU, NÃO ACREDITES. NEM QUE SEJA EU…

ABRE A QUEM NÃO BATER À TUA PORTA.

(Fernando Pessoa)

 

Tenho uma grata memória de um certo Padre, desde a minha adolescência até adulto.

De facto, na minha adolescência ouvi ao meu pai contar que nas redondezas havia um padre, polémico, lutador, que não se vergava aos poderosos. O meu pai, era ateu e republicano, foi mercenário na Legião Estrangeira, e combatente na guerra civil de Espanha com o seu irmão mais velho contra a "Falange" do ditador Francisco Franco. Perdida a guerra, fugiram para França e ali viveram clandestinamente. O meu tio para toda a vida; o meu pai até ser repatriado ao fim de cinco anos de clandestinidade. Tenho, pois, o maior dos reconhecimentos por estes lutadores, essas vozes incómodas, a quem milhões e milhões de humanos devem, simplesmente, a existência.

Contava-me o meu pai que esse tal padre, quando foi parar a uma freguesia lá para os meus lados, foi convidado a ir almoçar todos os domingos a casa de uma senhora, rica, que tinha vários criados e muitos caseiros. Esse padre aceitou e, logo no primeiro domingo lá estava ele, convidado de honra, a sentar-se na longa mesa senhorial para o lauto repasto. Verificou, então, o padre, que os criados almoçavam num aido que havia na quinta, sem quaisquer condições de conforto, uma sopa só, uma broa de milho e vinho verde tinto. Recusou-se o padre a comer, dizendo que só aceitava a refeição, aquela e todas que fossem daí para a frente, se os criados também passassem a comer à mesma mesa com ele e com a senhora "benfeitora" em condições de verdadeira igualdade.

Para os sonhos do jovem que eu era, isto era a divindade pairando por sobre a terra.

Muitos anos mais tarde, soube-se no país que esse padre estava a ser julgado no Tribunal de S. João Novo, no Porto, em Tribunal Plenário.

Sou já estudante de Direito, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, e lá vim eu de comboio, Coimbra ao Porto, para assistir a uma das sessões do julgamento. Ao tempo, os advogados, magistrados, professores de direito e estudantes de direito tinham preferência em assistir a sessões judiciais em qualquer tribunal português e, por essa prerrogativa me convenci que haveria de realizar o meu desejo de assistir. Entrei por ali adentro exibindo, orgulhoso, o cartão de estudante da prestigiada (ao tempo) Academia de Coimbra. Reverências, vénias, salamaleques me fizeram, convencidos, certamente, que ali ia mais um Pide, um bufo, ou um puto convertido ao Deus, Pátria e Família.

Mas a voz da delação é a mais rápida das vozes que correm no silêncio dos traidores. E, assim foi. Quando cheguei à sala três do Tribunal onde tantas vezes, anos depois, ali entrei em exercício da profissão, pejava-se o ar de fatos cinzentos, gravatas pretas, "corvos" enchiam, completamente, a sala.

Saiba Vossa Excelência que a sala de audiências está completa; não pode entrar, encorpou-se-me um militar à minha frente, arma empunhada, pose de herói e sentir de cobarde.

Entrei na mesma, irrompendo por entre o silêncio hipócrita dos PIDES que fingiam servir um Estado. Nem sequer me sentei. O que eu queria era estar de pé, olhar de pé, desafiar o olhar cinzento das pessoas cinzentas, dos móveis cinzentos, dos juízes cinzentos, do procurador cinzento, dos funcionários cinzentos, de um país podre que julgava alguém que lutava pela dignidade do próximo. O que eu queria era ter a oportunidade de lhes chamar um desses nomes que o pudor de hoje não me deixa revelar. Começa por F e não termina, porque a dimensão da indignidade de então faz-me prolongar o eco e a raiva com que então me movi.

O Padre estava sentado mas enchia a sala e a minha vaidade. Um servo ao serviço do Homem, tinha um ror de medíocres a interpretar o seu pensamento.

A sessão está suspensa, disse o juiz que presidia, vozinha de eunuco envergonhado.

Nada mais.

Regressei a Coimbra. Cinquenta escudos de comboio. Altifalante: "Coimbra B. Vai partir dentro de momentos a composição estacionada na linha 5 com destino a Coimbra".

Academia de Coimbra. Faculdade de Direito. Comunas a tomar conta da coisa.

Imoralidade da estória: entre os fascistas do Tribunal de São João Novo e a comunistada da Academia de Coimbra a diferença era, apenas, no tom do cinzento.

2015-08-03

Ricardo Humberto Morais - Bragança

HINO À VIDA
Com o envelhecimento da Palmeira e dos abrigados à sua sombra houve sinais de esclerose senil em tentativas de convívios que frustraram por falta de participantes. Temos de aceitar que quer a Palmeira quer os sócios poderão estar já fora do prazo de validade, como tudo o que é vivo. Não há como evitar.

 A idade leva-nos a empobrecer os contactos sociais.  Cada amigo que deixamos de ver é uma morte antecipada. É uma tendência que temos de combater, quer na associação quer no dia-a-dia com os nossos parentes e vizinhos. Soou o alarme, rumámos, de perto e de longe, a Orbacém.

Os meus três quartos de século e algumas dificuldades de orientação e condução fizeram-me pensar três vezes. Só me perdi na chegada, procurei ajuda e no regresso tudo correu melhor. Haverá uma última vez para ver amigos, não quis que fosse esta. A minha surdez e a animação de todos permitiram captar pouco do que se dizia à minha volta. Não faz mal. Lembrei-me do barulho ao almoço no refeitório da Barrosa aos domingos e quintas.

Em Orbacém as mesas estavam mais surtidas e assim convinha que fosse. Foi a amizade e não os copos e petiscos que nos puseram a caminho. Estes temo-los em casa ou no espaço comercial ao lado. Amigos é que nem sempre. Não é só sob a Palmeira que se guerreiam as polares pulsões de vida e de morte, eros e tanatos, criativas umas, negativas e destrutivas outras. Foi esta luta a história do homem e assim será o futuro.

Quer na natureza quer nos humanos a evolução deu-se e segue aproveitando as alterações ambientais, funcionais e genéticas favoráveis ao indivíduo e à espécie. Os pequenos prazeres nas relações de procriação são o isco a que poucos resistem e nos leva a trabalhos com filhos, e netos e para isso temos ferramentas próprias. Os pequenos prazeres na alimentação e bebidas vão no mesmo sentido e para isso servem o paladar e o olfato.

Exageros à parte, a nossa vida social passa-se muito à volta de uma mesa com pão, vinho e iguarias, em família ou noutros espaços. E isso acontece pelos menos desde a última ceia no monte das oliveiras, de que as missas atuais são uma estilização. Ab initio non fuit sic. A ausência dos pequenos prazeres e o corte nos contactos sociais são o ganha- pão de psiquiatras, psicólogos, farmácias e hospitais.

A nível social o Homem tem ainda um grande caminho pela frente na melhoria da vida em família, comunidades e povos. Olhando para trás foi tudo mais negro. As pulsões negativas ainda mexem em todos nós e uns minutos de meditação introspetiva, tarefa que já todos praticámos noutros tempos, poderá ajudar. Num conflito interpessoal os psicólogos recomendam contar até dez antes de responder a algum tipo de ofensa. Peço ajuda a todos para coligirmos hinos e poemas de amor para próximos encontros, de preferência inspirados por um bom vinho português.


VIVA A VIDA

2015-08-01

Aventino - PORTO

MARAVILHOSA A VIDA NUM SONETO. MARAVILHOSA A VIDA NUM SONETO. MARAVILHOSA A VIDA NUM SONETO. MARAVILHOSA A VIDA NUM SONETO. MARAVILHOSA A VIDA NUM SONETO. MARAVILHOSA A VIDA NUM SONETO. MARAVILHOSA A VIDA NUM SONETO. MARAVILHOSO O TEU SONETO. MARAVILHOSO O TEU SONETO. MARAVILHOSO O TEU SONETO. MARAVILHOSO O TEU SONETO. MARAVILHOSO ALEXANDRE. MARAVILHOSO ALEXANDRE. MARAVILHOSO ALEXANDRE. MARAVILHOSO ALEXANDRE. MARAVILHOSO ALEXANDRE. "ACHAR UM CAMINHO QUE ME LEVE" "ACHAR UM CAMINHO QUE ME LEVE" "ACHAR UM CAMINHO QUE ME LEVE" "ACHAR UM CAMINHO QUE ME LEVE" Obrigado, nosso querido ALEXANDRE. Salvaste-me o dia.
2015-07-31

alexandre gonçalves - palmela

 

 

BARROSAL X - Coração de Vidro

 

Sentei-me recentemente em cima do verão, numa esplanada que dá para o tempo. Faz um céu azulíssimo, um vento brando e um ruído inverosímil de águas rústicas, tropeçando em seixos e pequenas quedas. Quase me apetecia ser feliz, não fora um súbito estremecimento de ausência. Quem me dera agora ser capaz de me distrair! Apagar a lembrança dos amieiros. Recuperar a inocência distante, que precedeu os juncos e as amoras. Era um ribeiro infantil, com pequenos açudes límpidos. Era um verão imenso e triste. E o coração era absoluto. Claro que também havia Deus, mas na hora, de tão longínquo, nem a sua voz bíblica se ouvia nem o seu imenso olho policial podia chegar a este recanto do fim do mundo. Por momentos, a terra era pura. E o pecado não existia naquelas margens desabitadas. Podia assim acontecer a primeira brancura. A primeira peça de roupa caída ao chão. E a primeira vez que a luz me cegou. Havia maçãs vermelhas. Havia amoras negras. Mas tudo se esbateu e confundiu na luz matinal que emanava do corpo dela. Dos olhos dela. Dos alvíssimos dentes dela. E dos longos cabelos dela, que ondulavam ao ritmo redondo e lento do alabastro. Não foi exactamente neste lugar. Mas foi nestas águas, que muito leves eram ao nascer e agora se retraem pesadas antes de irem morrer no mar. Aqui me sento  nesta esplanada que dá para o tempo, quase perto de ser feliz, quarenta anos depois. Não fora o estremecimento de tanta ausência. Não fora o posterior salmo cinquenta. Não fora tão enganosa a atracção da ambiguidade distraída. Não fora a vida o que é, eu corria o risco de hoje ser feliz e "quotidiano". Lamentando uma dor antiga, abrindo uma janela para as águas, assim nasceu mais um intragável soneto. Não é para que o leiam nem para dele retirar qualquer moralidade. É antes e apenas para lembrar que estamos de viagem. E que os prazos são mesmo para cumpir. 

 

 

Colher a vida como um fruto breve

que dura enquanto dura o seu desejo.

Correr ainda pelo puro ensejo

de o desejo pagar o que me deve.

 

Viver como quem morre não me serve.

Eu quero amar o mundo enquanto vejo.

É tão urgente a luz como é um beijo, 

para achar um caminho que me leve.

 

Não te distraias, coração de vidro!

És um rio que tem nascente e foz, 

trepidando entre pedras constrangido.


Vai sozinho mas não corras a sós!

O dado puro de se ter nascido

É um rio a correr por entre nós.

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