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2015-07-31

alexandre gonçalves - palmela

 

 

BARROSAL X - Coração de Vidro

 

Sentei-me recentemente em cima do verão, numa esplanada que dá para o tempo. Faz um céu azulíssimo, um vento brando e um ruído inverosímil de águas rústicas, tropeçando em seixos e pequenas quedas. Quase me apetecia ser feliz, não fora um súbito estremecimento de ausência. Quem me dera agora ser capaz de me distrair! Apagar a lembrança dos amieiros. Recuperar a inocência distante, que precedeu os juncos e as amoras. Era um ribeiro infantil, com pequenos açudes límpidos. Era um verão imenso e triste. E o coração era absoluto. Claro que também havia Deus, mas na hora, de tão longínquo, nem a sua voz bíblica se ouvia nem o seu imenso olho policial podia chegar a este recanto do fim do mundo. Por momentos, a terra era pura. E o pecado não existia naquelas margens desabitadas. Podia assim acontecer a primeira brancura. A primeira peça de roupa caída ao chão. E a primeira vez que a luz me cegou. Havia maçãs vermelhas. Havia amoras negras. Mas tudo se esbateu e confundiu na luz matinal que emanava do corpo dela. Dos olhos dela. Dos alvíssimos dentes dela. E dos longos cabelos dela, que ondulavam ao ritmo redondo e lento do alabastro. Não foi exactamente neste lugar. Mas foi nestas águas, que muito leves eram ao nascer e agora se retraem pesadas antes de irem morrer no mar. Aqui me sento  nesta esplanada que dá para o tempo, quase perto de ser feliz, quarenta anos depois. Não fora o estremecimento de tanta ausência. Não fora o posterior salmo cinquenta. Não fora tão enganosa a atracção da ambiguidade distraída. Não fora a vida o que é, eu corria o risco de hoje ser feliz e "quotidiano". Lamentando uma dor antiga, abrindo uma janela para as águas, assim nasceu mais um intragável soneto. Não é para que o leiam nem para dele retirar qualquer moralidade. É antes e apenas para lembrar que estamos de viagem. E que os prazos são mesmo para cumpir. 

 

 

Colher a vida como um fruto breve

que dura enquanto dura o seu desejo.

Correr ainda pelo puro ensejo

de o desejo pagar o que me deve.

 

Viver como quem morre não me serve.

Eu quero amar o mundo enquanto vejo.

É tão urgente a luz como é um beijo, 

para achar um caminho que me leve.

 

Não te distraias, coração de vidro!

És um rio que tem nascente e foz, 

trepidando entre pedras constrangido.


Vai sozinho mas não corras a sós!

O dado puro de se ter nascido

É um rio a correr por entre nós.

2015-07-22

ANTÓNIO GAUDÊNCIO - LISBOA

O tempo vai de calores e convida a poucos  exercícios, sejam eles físicos ou doutra espécie.

Apesar disso, num tempo muito próximo, surgiram neste espaço dois nacos de prosa que mereceram o meu aplauso pelo prazer que a sua leitura me proporcionou. Refiro-me, obviamente, às entradas do Alexandre e do Aventino ( estou a respeitar a ordem alfabética).

Convido, por isso, esses dois «cabouqueiros» da escrita a prosseguirem  " a partir pedra " para deleite nosso e animação do site.

Mas eu vim a esta rubrica com outro fito e é dele que vou falar.

Na passada terça feira, 21, quatro jovens «maduros» ( partindo de direcções várias ) rumaram ao Concelho de Montalegre, mais concretamente a S.Vicente da Chã, para  ver, "falar" e almoçar com o nosso companheiro, Domingos Gonçalves Dias, "o músico" ( apelido amigo e carinhoso que ele não desdenha ).

O seu estado de saúde provoca-lhe limitações várias sendo uma delas  o não poder falar mas a sua lucidez intelectual está intacta e a memória funciona bem.

Feitas as saudações, começou o frenesim do Gonçalves no teclado do seu tablet : perguntava coisas, explicava algumas das nossas dúvidas e acrescentava pormenores que surgiam no decorrer daquela nossa «conversa». Primeiro estranha-se mas depois a troca de impressões começa a fluir de forma quase normal.

Seguiu-se um estupendo almoço onde a saborosa e tenra carne barrosã nos foi servida em forma de «posta». A qualidade do repasto foi impecável mas, talvez por causa da animação da conversa ou da proverbial fartura da mesa transmontana, não conseguimos levar as «postas» ao fim.

Mais um pouco de conversa e, aos poucos, entendemos que era tempo de dar o merecido repouso ao Gonçalves pois, para ele, foi  um dia excitante, fora da rotina normal .

Feitas as despedidas, o Morais regressou a Trás-os-Montes e o Diamantino e o Assis fizeram o favor de me deixar em Campanhã de onde baixei até à moirama.

Um último apontamento : para o caso de alguém se "perder" pelo Concelho de Montalegre e quiser visitar o Gonçalves, pode procurá-lo no único Lar que existe no lugar de S.Vicente da Chã.  


2015-07-21

AVENTINO - PORTO

MORRE LENTAMENTE QUEM NÃO VIAJA (Pablo Neruda)

 

Vá, vá lá, ruma ao aeroporto. Sim, ao fim da tarde, sexta-feira, partidas, o écran a anunciar-te os destinos. É só. Um deles e duas horas de voo. Sim, sim, é esse. Low-cost, 90 ou 100 euros e se regressares são apenas quatro ou cinco dias depois.

Já estás, já?. Os assentos têm plásticos, não reclinam e o espaço para as tuas gâmbias é curto. Que importa? Ao teu lado alguém grita, alguém tresanda a suor e, cuidado, que há marmitas mesmo por cima da tua cabeça. Podem derramar-te os restos do caldo verde, da sopa de agrião ou da feijoada. Que importa?

Tripulação! Portas em automático, diz o comandante. Motores a toda a potência e a aeronave a rodar pela pista, mais velocidade, mais velocidade e...zás, estás no ar. CARPE DIEM.

Duas horas depois, não mais que duas horas depois, "senhores passageiros iniciamos a descida, apertem os cintos, por favor e tenham atenção às indicações de cabine". Chegaste. Espera-te o automóvel alugado à operadora mesmo em frente ao terminal, carta de condução, cartão de crédito para a caução já te pediram e agora estás ao volante de um utilitário para percorreres 200 ou 300 quilómetros por um dos mais belos destinos da Europa.

Pela costa ou pelo interior?, é a tua primeira dúvida. Para o interior tens Avignon e o seu Palais des Papes, a Catedral, a ponte e toda a história de um dos lugares património da humanidade que muito nos toca sobre os interesses e os conflitos da Igreja de Roma. Ah! e o Festival D'Avignon com teatro, dança, música e artes plásticas durante um mês. Sim, sim, exatamente em julho. CARPE DIEM.

A seguir, tão próximo, como se não houvesse nem longe nem distância, Aix-en-Provence e Paul Cèzanne a abordar-te em tantos lugares como se tu e ele ali se tivessem cruzado e vivido os dias de uma eternidade possível. Também aqui em julho hás-de perder-te no maravilhoso Festival de Arte Lírica com ópera, concertos de orquestra, coros e intérpretes a solo. CARPE DIEM.

Pelo litoral?! É pelo litoral que vais?! Cassis, Bandol, Lavandou?! Isso, isso, fica por aí, Lavandou. Praias pequeninas, água quente, o mar e a montanha e o murmúrio da tua memória como única e solitária companhia. Como tudo pode ser tão simples e belo... O que importa é o momento, hás-de dizer.CARPE DIEM.

Depois, dali, quartel general em Lavandou, passeia, lentamente, para melhor namorares a felicidade. Serpenteia a costa para um lado ou para o outro. Cannes, Saint-Tropez e os iates a deslumbrarem-te o encanto. Sentado no bar azul em frente à marina de Saint-Tropez, não sonhes em partir. Tudo te é bastante neste instante. Un champagne, s'il vous plait. Non, non, pas de flut. Une bouteille. Bebe-a toda, todinha, gole a gole, até olhares o fundo da garrafa e sentires que tu e ela estão ambos felizes: ela por se livrar do peso do líquido; tu por te livrares do peso do mundo. CARPE DIEM

E, se porventura, achares que ainda é cedo para não pedires mais nada á vida, por que não Nice, Monte Carlo e até San Remo? Mas volta, regressa rápido. Tens Saint-Paul-de-Vence para abraçar.Não regresses mais. Fica aí. Reserva um cantinho no cemitério da Ville mas recusa-te a morrer. Para que jamais alguém possa cantar-te:

"Coube-te a vida em sorte,

homem mortal e é seguro.

Que é vida a própria morte,

quando se crê no futuro"

(Luis Goes) 

2015-07-13

Alexandre Gonçales - Palmela

BARROSAL IX- Extremos São os Dias do Verão

 

O retrato da senhora Marta, que o Aventino colheu nas paisagens do minho, veio criar desassossego no conventual silêncio que pratico, entre cedros e melancolia. No seu ritmo quebrado, nas sóbrias mas atentas aparições de escrita, assumiu decisivamente o exercício da perturbação. Reconheço publicamente esse mérito, alimentado por uma escrita severa, onde não falta nem humor nem ironia. É nobre e desejável essa atitude perturbadora. Para dormir já sobra o imenso futuro que nos está reservado. Enquanto houver um pouco de luz no horizonte, não é legítimo desembaraçarmo-nos da cidade, da sabedoria serena, da noção relativa do mundo.

A senhora Marta poderá vigiar desde o terraço quem chega quem parte, nesse movimento sazonal destes dias oníricos. Ela integra a "fingida felicidade" destes lugares de passagem, onde o autor a foi escrevendo até dar este retrato. "A senhora Marta tinha uns olhos de fome, um corpo seco e uma bengala a segurá-la pela calçada abaixo", sintetiza o Aventino. A literatura tem este poder: retira as pessoas do espaço concreto e transforma-as em personagens. O salto foi enorme. O mundo está cheio de Martas tristes, que se moldam nas paisagens que habitamos. A "felicidade"geral conta com elas. Um dia são abatidas pelo desprezo, pelo tempo, pela solidão. Como árvores municipais, que se abatem para melhor fluidez do trânsito. Há-de vir um agosto qualquer, cheio de chuva e neblina. A senhora Marta já não ensinará a ninguém que está um dia maravilhoso. Isso vai doer.

Deu-me conforto esta leitura. E a perturção que lhe cabe remete para o sentido das coisas que moram perto. Uma casa vazia, onde em tempos se via luz, que se vê do terraço. Ei-la agora cheia de sombras, cheia de sons antigos. Morta até à raiz. O meu amigo António tem uma vivenda sazonal rente ao mar. Em tempos, proporcionou alegrias e festas, deixando para sempre na pele esse aroma flutuante e marítimo, que arrepia só de o lembrar. Hoje a casa está branca, está bela e apetece. Mas a vida mudou bruscamente, no verão passado. A casa agora não tem quorum. António sofre. Pede um guarda-costas que o proteja de tanta ausência. Chega inquieto, abre as portadas e estremece. Em frente, no outro lado da rua, duas vivendas de luxo morrem devagarinho. De há uns três, quatro anos para cá, nunca mais ninguém foi visto às janelas a sacudir lençóis, a pendurar roupa feminina de verão, a chegar das praias. Moravam ali casais jovens,  cheios de promessas e futuro. Chegavam amigos, acendiam canções de época, eram felizes e belos. Com sorte, não era difícil surpreendê-los, de janelas escancaradas, soltando roupas e hormonas pela rua abaixo. O António era quase feliz, só de os ver. Agora, quando abre as portadas, fica estarrecido da solidão das coisas. As rosas e as plantas do jardim secaram. As janelas fecharam mortalmente os olhos. A cor das paredes já não aguenta o iodo que sobe do mar. Lá dentro mora escuridão e frio. Que terá acontecido? Ninguém lhe deu uma explicação. Mas António julga-se no direito de a obter, porque a pouca ideia de felicidade que o habita incluía a rua e aquelas duas casas em frente, às vezes escancaradas de alegria.

Longos são e áridos os dias de ausência. O mundo é feito de relações quebradas. A vida laboral, se bem que iniba a imaginaçao e a mobilidade, tem o mérito de adiar a consciência. Criam-se hábitos, repetem-se os dias em cópias sucessivas, ganha-se dinheiro e reproduzem-se em série as ideias gerais. Tudo é previsivel. A funcionalidade está acima de qualquer suspeita. Nos intervalos pensa-se nas férias do próximo ano. O ritmo tem que ser electrónico, para garantir o emprego e os respectivos proventos. O verão chega de pressa mas em chegando as férias, tudo pára. Não havendo dinheiro, os lugares comuns rebentam pelas costuras e recebem os corpos exaustos. E os dias são longos porque os afectos são curtos. Agora há tempo para aceder à consciência. Talvez se descubra que o amor, que era tão abundante, se afogue numa pequena onda branca de circunstânia. Talvez apeteça gritar uma dor secreta que aflorou à boca. Talvez apeteça regressar a casa, ao trabalho e à morte. Tudo isto me foi dito pela Mónica, num verão distante, quando no aeroporto nos despedimos para sempre, por entre lágimas e feridas expostas. "O nosso amor é impossível", disse ela convictamente. "Porque extremos são os dias do verão", concordei.

2015-07-08

AVENTINO - PORTO

A SENHORA MARTA: No Minho, as mulheres têm um outro poder. Advém-lhes de uma compleição física marcada pelos Celtas, pelos povos da Cantábria ou por outros que, transportados em águas de mar e de rios, deixaram por esse território a sua marca milenar. Não se sabe exactamente se foi assim; o que se sabe é da força de carácter destas mulheres, do amanho do campo e da luta para o sustento dos filhos, sob uma lei imposta lá em casa que, afinal, só os mentirosos é que não admitem que a mulher manda neles. A SENHORA MARTA não tinha homem. Diz-se mesmo que nunca teve homem sem se saber se foram eles que foram arredios ou se foi ela quem impôs a si própria o império da castidade. A SENHORA MARTA tinha muito pouco: duas casas e dois campos que o "meu paizinho que Deus tem me deixou". O resto era tudo o culto à terra. Criava galinhas e coelhos, semeava batatas e milho, cuidava da vinha e tinha um inquilino que há muitos anos não lhe pagava a renda. Do terraço da sua casa, a senhora Marta vigiava a minha casa, sabia os fins-de-semana em que eu ia, as horas a que me levantava e se as peras e os damascos do meu quintal iam ser abundantes quando chegasse o dia da colheita. A SENHORA MARTA não se sabe o que é que ela comia, os ovos dava-os, as galinhas "veio um bicho de noite e sangrou-as todas" como ela dizia, e o milho, as batatas e até a vinha, outros vizinhos colhiam quando havia para colher. A SENHORA MARTA tinha uns olhos de fome, um corpo seco e uma bengala a segurá-la corcovada pela calçada abaixo. De vez em quando, levava-lhe uma posta de bacalhau, um naco de boa carne bovina e uma garrafa de vinho verde duma das Cooperativas conhecidas do Minho. Nunca vi, nem isso me constou, mas tenho a convicção que o embrulhinho bem feito com que eu embelezava a oferta, ia tal e qual e assim para o caixote do lixo que a Junta de Freguesia tinha colocado mesmo ao lado da casa dela. "Muito obrigada, menino", dizia-me ela nuns olhos, ao mesmo tempo agradecidos e sarcásticos como quem espera o virar de costas para, zumba, caixote do lixo com isto. Quando o Apoio Social da Freguesia começou a levar-lhe a comida, continuou ela muito agradecida. Recebia as senhoras com o almeiro, conversava com elas, mas todas sabiam que a senhora Marta era a mesma senhora Marta de sempre. Consta até pela localidade que a Junta de Freguesia colocou um caixote do lixo bem maior junto á sua casa para que ela continuasse a deitar ao lixo aquilo que lhe davam para a sua alimentação. Em Agosto víamo-nos todos os dias. Ela perscrutava os meus passos, a luz acesa, a janela aberta, o portão a abrir, gente a entrar em minha casa. Em Agosto o Minho é imprevisível, ou melhor, já se sabe que há nevoeiros, nortada, chuva e, de vez em quando, um ou outro dia de sol intenso. Diz-se até, por essas bandas, que o Verão vem ali passar o Inverno. Num desses dias de chuva de meados de Agosto eu disse à senhora Marta, "isto é que está um dia feio". "Feio, menino?!" "Está um dia maravilhoso", respondeu-me. E lá continuou no seu vagaroso caminhar "que esta gente das cidades não passam de uns pategos" Vem aí Agosto e, num constante repetir, lá voltarei aos mesmos lugares e aos mesmos dias de uma fingida felicidade. Mas, quando vier a chuva, já não terei a senhora Marta a chamar-me menino nem a dizer-me "está um dia maravilhoso".

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