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2016-02-19

alexandre gonçalves - palmela

BARROSAL XIX - Carta Décima da Susana ao Pe. Alberto

Lisboa, 8 de Abril de 1972

Alberto. Não te chamo de Pe. Alberto, porque antes de seres padre eras Alberto. Citando uma ideia tua, nós somos o nome que nos designa. Podem-nos cobrir de adjectivos, que são as mais das vezes flutuantes, para não lhes chamar falsos. O nosso nome inteiro designa-nos por inteiro, até para lá da vida. Não pus querido nem saudoso, porque essas palavras foram morrendo comigo. Depois de tantas cartas por responder, fiquei a falar sozinha. Ao fazê-lo, fui acordando feridas que me infectaram a alegria de viver. Não sei se te entregam em mão esta carta, nem tão-pouco se a lerás ou se mudarás alguma coisa por isso. Ela vai cheia de mágoa, de noites sem dormir, de olheiras e decepções inconfessáveis. E de um certo azedume, que não é propriamente dirigido a ti mas resulta do nosso amor "morrido". Não tenho pruridos literários, como tu. As duas cartas que me enviaste, aliás únicas, e que não rasguei, deixaram-me ainda mais presa a ti do que os beijos que demos. Escondi-as, fechei-as como um segredo e alimentaram-me a esperança de que ias abandonar o seminário. Li-as muitas vezes, sublinhei-as e fixei expressões tuas, que de tanto  as repetir foram ficando no meu vocabulário. Cheguei a pensar que um dia tas deitaria em cara. Já desisti de tudo e até de ti. O tempo vai-nos forçando a mudar, para não parecermos idiotas. Por isso já assumi que esta carta é mesmo a última. Pois aí vai.  

Acabo de chegar de Sto. Amaro. Como todos os anos, fui passar a Páscoa aos meus pais, como tiveste a oportunidade de ver. Levei comigo a minha filha, a Patrícia, que é o único apoio da minha vida. O Zé Pedro pirou-se para Paris, onde se vai amanhando, tanto em amores como em dinheiro. Já chegámos a acordo sobre o divórcio. Como eu gostava um dia de poder falar contigo sobre o meu casamento. Um desastre completo, durante os seis anos que durou. E uma perversa desilusão de semelhante criatura. Não foi por falta de aviso e prevenção, até da tua parte, quanto ao seu carácter. De facto, tu conhecia-lo melhor do que eu. Mas quem eras tu para me dar uma opinião, depois de me teres trocado sem explicações por essa pieguice religiosa? Só de me lembrar daquela noite que precedeu a tua despedida final, até me arrepio toda.

Quando cheguei a Sto Amaro, soube logo que tu ias estar na aldeia e que celebrarias a missa da Páscoa. Lá em casa estava tudo eufórico. Fui com os meus pais, a Patrícia e a tia Estela. Vinhas todo engalanado, como se fosses um actor grego a entrar em cena. Não percebo nada de missas mas acho que fizeste boa figura, a avaliar pelos comentários lá de casa. Na homilia, deste um conceito de ressurreição que me agradou. Foi simples, curta mas muito adequada às expectativas das pessoas. "Ele fala muito bem". Para ti, Deus ou Cristo tinha morrido mas três dias depois ressuscitou. Em seguida frisaste que isso não era o mais importante, até porque tudo está envolvido em mistério. O que era imperioso era que as pessoas ressuscitassem, isto é, que fossem solidários com o mundo natural, cheio de rebentos novos, de flores variadas, de luz e de alegria. A nossa vida é mais morte do que vida. Temos de acordar, temos de mudar. E sobretudo temos de nos amar. Quem ama vive, quem não ama morre. Apeteceu-me bater palmas. Nâo o fiz mas fui com a Patrícia à sacristia. Estavas a tirar aquela farda estranha e para mim falsa. Tanta brancura a cobrir tanta malandrice, pensei. Creio que nos viste logo mas ainda demoraste um pouco até nos cumprimentar. A mim um formal aperto de mão, sem jeito, sem um mínimo de simpatia. É a sua filha, perguntaste. Outro arrepio no meu corpo. E um desejo de me ir embora. Deste um beijo nervoso à menina, depois mexeste-lhe no cabelo e perguntaste-lhe a idade. Para mim disseste a coisa mais parva que algum dia ouvi: gostei muito de a ver. Boa tarde! O que o seminário faz a estas cabeças. Desmoralizada, disse para a minha filha: anda Patrícia, temos de ir embora. A avó já está à nossa espera para almoçar.

Claro que nem almocei. Disse a minha mãe que os quatro dias anunciados eram só dois. Tinha que regressar. Arrumei as malas à pressa, tomei um café e acelerei por essas estradas fora, a menina dormindo, eu chorando. Chegámos já passava das vinte e duas. Comeu-se alguma coisa e adormeci a miúda, com uma breve história. Bebi ainda um chá  e vim para a máquina de escrever. São duas da manhã, estou exausta e apetece morrer. Porém, não acabarei sem te dizer o pior da minha actuação. Soube pela minha mãe a data e o local do teu casamento com a santa madre igreja. Organizei-me no serviço, meti-me no carro e um pouco antes da hora estava no Porto. Disfarcei-me como pude, ninguém me reconheceu,  vi com os meus próprios olhos aquele ceremonial medonho. Havia um coro de vozes masculinas, que dramatizavam a cena. Os cânticos eram lindíssimos e eu fixei um que dava pelo título latino de "Panis Angelicus", que vi escrito num programa. Não percebi nada nem do título nem da letra cantada. Comovi-me e até me pareceu que algo de superior havia na vossa escolha, na tua escolha. Eu fiquei de fora, claro, não percebi nada  desse mundo e achei-me imbecil. E veio-me à memória uma outra páscoa de beijos, os primeiros da tua e da minha vida, conforme foi dito por ambos. Tão puros foram, tão demorados, tão doces, que ambos achámos que, se Deus era amor, então ali não podia haver pecado. No ensaio do coro tu não tiravas os olhos de mim. Cheguei a corar e a tremer e a desejar que olhasses. No fim íamos todos embora como se nada tivesse acontecido. Até ao dia do teu aniversário. Eu e a Elisa fomos visitar-te. Estavas sozinho em casa. A Elisa teve de sair.Tu propuseste um passeio. Caminhámos devagar até à ribeira da Azenha. Sentámo-nos na erva fresca e ouvimos o ruído manso das águas. Disseste que já tinhas concluído a teologia. Se quisesses, podias ordenar-te. Mas precisavas de tempo, tinhas vinte oito anos, era ainda muito cedo. Os teus superiores concordaram. Admitias a hipótese de saíres. Que não tinhas vocação. Eu ouvia-te com enlevo, com dezoito anos a suspirar, a transpirar, a transbordar. Faria tudo o que me pedisses. Não pediste nada. Tocaste-me na mão esquerda. Fizemos silêncio. Os teus dedos avançaram para os meus. Eu estremeci e olhei. Os teus olhos suplicavam-me tudo e tudo prometiam em troca. Já era inevitável. Misturámos bocas, mãos e desejos. E ali ficámos, quase imóveis, sem tempo, sem Deus, apenas respirando com algum ruído. Por fim caiu a tarde, ouviam-se grilos e tu disseste que nós éramos belos. Colei-me a ti para sempre. Tive muitos perseguidores mas nenhum respeitava o meu corpo como tu. Nunca me foi difícil resistir.

Três dias depois tinhas de regressar ao seminário. Pedi com lágrimas para não ires. Tu sorrias. Estes beijos de tão puros não podem impedir-me, dizias. Numa segunda-feira vi-te partir no autocarro. Tu partias para sempre e eu ficava para sempre por detrás de um reposteiro, ora acenando, ora chorando, ora esperando por outras férias. Dois anos depois, é verão e tu voltas a ensaiar o coro, para a festa anual de Sto. Amaro. E tudo se repete. Tu olhas, tu desejas, tu perturbas-me até à loucura. Tenho vinte anos, passei para o terceiro ano e devo ser a única virgem em toda a universidade. Porque protejo os mais belos sentimentos que atravessam toda a minha vida. Foi então que o mundo tremeu todo à minha volta. É tempo de amoras, é tempo de campo e o meu corpo  anda em sobressalto. Passo à tua porta e vejo-te sair. Pra onde vais, perguntei. Vou por aí, respondeste. Posso ir contigo?Claro que podia. O nosso passeio desta vez foi mais longo. Subimos a calçada, desviámo-nos por atalhos antigos e só parámos na ribeira dos moinhos. Bebemos água de mina e sentámo-nos à sombra dos salgueiros. Mas o calor era maior do que nós. Ou pelo menos maior do que eu. Subtilmente subi para uma rocha, deixei cair o vestido e joguei-me para o açude. Tu hesitaste e admiti que podias não ter coragem. E surpreendeste-me quando fizeste o mesmo que eu. Abraçámo-nos, beijámo-nos e caímos sem querer nos juncos, protegidos pelos amieiros. Posso algum dia esquecer este lugar, este verão, as margens desta ribeira?

Adeus! Não espero resposta tua. Prega lá a tua ressurreição! Perde-te nesses mistério! Mas não te queixes nunca de que não foste amado! Mais, o meu corpo foi humilhado mas o coração não morreu. Eu vivo ainda. Se passares por Lisboa, procura-me. Não é difícil encontrares-me! S.

2016-02-11

manuel vieira - esposende

Disse o Alexandre que "Palmela não é terra de chuva" como se o arado de S.Pedro não volteasse nas núvens enegrecidas deste país e oscilasse ao aperceber-se do castelo lá no alto da mouraria do sítio, de onde se avistam terrenos férteis da rua do Agricultor.

Quis Deus imperioso que neste país de costumes brandos as moçoilas carnavalescas se aviassem de proteções leves mas compridinhas a tapar as carnes que estuporam as mentes ansiosas e toca de abrir as torneiras, afugentando dessa forma os mosquitos.

E do Carnaval à Páscoa vai um instante.

A revista Palmeira vai sair na aproximação daquela festa, ainda com largas tradições neste país e a equipa já está a alinhabar os papéis, faltando agora os textos de enriquecidos  conteúdos, por vezes tão díspares mas com a qualidade a que nos habituaram.

Já divulgámos na nossa página do Facebook (grupo fechado aberto apenas aos AAAR's) o propósito de apresentar nesta Páscoa mais um número da nossa Palmeira (vai ser o nº39) e os interessados devem contactar o Arsénio até ao dia 2 de Março.

Curiosamente na página referida que está identificada por "Palmeira" têm aparecido novos colegas, uns de gerações mais novas e outros entrados na década de 50.

2016-02-04

José Manuel Lamas - Navarra - Braga

 

 

                         Começo por junto de vós me desculpar

                Pelo que vou dizer - vos neste momento

                Porque não vos queria alarmar

                Nem tão pouco ser agourento

 

                Se notais cabelos brancos nos vossos espelhos

                E não conseguis viver sem maleita

                Isso quer dizer que estais a ficar velhos

                Meus amigos o vosso fim já vos espreita

 

                É então hora de andar p'rà frente

                Não é olhando p'ra trás que se vê a saída

                É festejar convivendo intensamente

                Para que a vida possa ser bem vivida

 

              

            Aquele abraço

                                   Zé Lamas 

2016-01-23

alexandre gonçalves - palmela

BARROSAL XVIII - Silêncio e Solidão

 

Palmela não é terra de chuva. Mas hoje choveu o dia todo. Choveu uma água triste, obsessiva e mole. Nem tanta que impedisse uma saída, nem tão sóbria que não molhasse. Encostei os olhos à janela, para a ver de perto e provar o húmido frio do vidro. E em jeito de adolescente que aguarda um convite improvável, escrevi um S na superfície embaciada. E perguntei-me a razão do gesto. Quem me respondeu foi uma rola, que desceu de um cedro alto e pousou no muro, rente ao meu olhar. Depois abri a janela e ela voou. E o espaço pareceu-me subitamente desolado. A chuva esvazia os lugares. Torna as pessoas ausentes. Faz recuar o verão e convoca sentimentos perdidos. Rostos de outros tempos chegam molhados à memória. O telefone já não se ouve. As cartas já não se escrevem. Os carros imobilizam-se à porta, sem urgências nem utilidade. E um piano anónimo interpreta esta paisagem parada, envolta num manto opaco de neblina. E sinto que esta chuva, impelida por um fenómeno de osmose, alastra já por caminhos antigos. Reconheço-a em Vila Nova, quer olhando para Soares dos Reis, quer sentindo-a na pele em direcção ao bosque, quer vertendo desejos para poente. Retiro-me e sento-me à mesa da escrita, para salvar o dia.

Veio-me outra vez à boca o nome de Germano. Só o nome. O que ele teria para contar. A gestão que terá feito das oportunidades. Como era antes de vir. Como foi durante. Como veio a ser depois. Nada. Um desconhecido. Será que nós encaixamos na tal acusação do "ímpio" Voltaire, segundo a qual nos juntamos sem nos conhecermos e morremos sem nos chorarmos? Ora acontece que esta espécie está em acelerado processo de extinção. Uns, porque o autocrático Altíssimo os retirou arbitrariamente do convívio humano. Outros, porque se enfadaram da mediocridade oferecida. Outros ainda, porque nem sequer vieram ver o que isto era. Uns e outros fizeram muita falta à Palmeira, porque de todos é legítimo esperar que têm vidas dignas de atenção. Muitos foram gloriosos nos seus percursos. Há uma palavra final que nos pode trazer conforto e luz. E tem de haver, por parte dos que vão ficando para fecharem a porta, uma lágrima silenciosa de gratidão. No último dia, abre-se a porta do silêncio. Para sempre. Nem o vento dirá um sinal da sua presença. A solidão será maior, antecipando em cada partida uma dor obscura, para aqueles que dizem adeus. Permito-me deixar uma sugestão, que é também uma urgência. Era bom que trocássemos impressões sobre a biografia que foi sendo escrita em actos e afectos, em em escolhas e consequências. Cada um sabe de si muito mais do que os outros podem imaginar. Não para dizer tudo mas tão só a ideia mais justa e mais significativa, que se possa deixar em herança. Oportunamente arriscarei o meu nome para uma exposição tolerável do meu percurso. Não convém esquecer que as palavras ditas são filhas do vento. As escritas colam-se para sempre à pedra que as recebe.

 

2016-01-21

manuel vieira - esposende

Estes dias o Martins Ribeiro celebrou o seu 83º aniversário e sei que muitos nossos colegas lhe manifestaram  satisfação com um abraço festivo.

Choveu nesse dia, não tão copiosamente como há 3 anos, quando  juntamos um grupo de 17  e almoçamos com ele no Alto da Prova, em Ponte da Barca. Preparamos esse almoço sem que ele soubesse e coube-me o papel de o convidar no dia anterior para almoçarmos juntos, mais o Assis, o que ele acolheu muito bem e só ficou zangado com a D.Conceição por não querer juntar-se a nós , sabedora que estava da situação, alegando que era um alomoço de homens e assim estaríamos mais à vontade.

O Martins Ribeiro só se apercebeu da "tramoia" à entrada do restaurante, quando encontra surpreendentemente um grupo grande de velhos amigos da Quinta que lhe endereçam os parabéns com um abraço presencial.

Eram os 80 anos de vida do nosso amigo Martins Ribeiro, o nosso decano como o intitulava o saudoso Peinado. que lá por cima sorrirá por esta minha lembrança. Recordo que nesse dia o Aventino foi a Lisboa e veio para estar presente no almoço do Martins Ribeiro e sabendo nós que não é o super homem, mostrou como é um homem super para quem a amizade tem um super valor.

Criou-se recentemente uma página no Facebook para um grupo fechado com o nome "palmeira" e o que lá se publica só pode ser lido pelos membros do grupo. É mais um "chat" de conversas que completa este site com a possibilidade de se publicar fotos, sempre com o acesso restrito. Já temos cerca de 40 membros com uma percentagem grande de colegas mais jovens que se sabiam andar por aquela rede social, criando-se assim uma nova ligação.

Alguns dos últimos textos aqui publicados mostram como também o "vento que leva" nos traz a referência principesca da partida de alguém que já só o vento nos sopra. É bom ler emoções que estremecem os menos sensíveis até, e sentir no cultivo das palavras como é bom ser amigo e ter amigos também.

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