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2015-12-28

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

Amigos e companheiros, estamos quase a encerrar mais um ano - 2015 - ao qual eu nunca pensei que havia de chegar, porém, assim Deus o quis e a mim só me resta dar-Lhe as mais humildes graças. Estou aqui a expressar a minha admiração pelo "Natal" do Rodrigues, igual ao do meu tempo e que muito nos toca e pelos magníficos versos do Lamas, cada vez mais elaborados e profundos. Aproveito para vos maçar com um conto de Ano Novo que escrevi em tempos e que, gostosamente, resolvi partilhar com todos vós; leitores de sofá ou não. Desculpai lá o incómodo. Bom Ano a todos.

***

O CIGARRO DA ETERNA JUVENTUDE

Mal a vermelhidão do ocaso se esbateu, aquele valhacouto infernal começou. Só se ouvia o estalar de bombinhas, o silvo estridente de gaitas e apitos, os berros esganiçados das súcias que flanavam pelas ruas e a cacofonia horrenda de canções entoadas a destempo e sem compasso por gargantas enrouquecidas:

— Morra o Velho! Viva o Novo!

Ao que logo de seguida o rumor abafado de outro grito longínquo respondia:

— Viva o Novo! Morra o Velho!

Estava prestes a findar mais um ano. Mas que terá isso de extraordinário? Perguntareis vós outros.

Para a maior parte das gentes pouco ou nada tem de especial tal acontecimento, a não ser a espantosa notícia de foguetões interplanetários. Contudo, para outros, também muitos, isso poderá fazê-los precipitar num abismo de euforias tolas e inconsequentes. Para mim significa sempre mais um ano a encurtar a distância que me separa da morte e do Infinito, desse Além misterioso que não é feito de lua nem de sol, suponho que também não será de trevas e ranger de dentes. É sempre, facto inegável, mais uma etapa vencida na caminhada para o derradeiro fim duma mocidade que passa e não se pode recuperar mais, duma vida intermédia que não é velhice mas ilusão de ser moço e realidade de ser quase velho. Igualmente para mim é também e sob outro aspecto o avanço da ciência, o espanto com as notícias de proezas sem igual, realizadas no Firmamento sem fim, onde as estrelas vão perdendo a sua poesia e o seu encanto e se nos apresentam como Novos Mundos para onde em tempos não muito distantes poderemos ir fixar residência, não misteriosamente como para esse Eterno Pais onde é suposto correr o leite e o mel, mas com realismo e como quem vai morar para o barulho de uma grande cidade ou para o descanso e paz duma imensa e inacessível montanha.

No entanto, isto de ser velho ou novo, de ser moço ou caquéctico, não depende muitas vezes do corpo mas sim do espírito que pode ser sempre jovem. O corpo é o invólucro, o disfarce, o guarda-roupa deste teatro da Vida e com que nos vamos ataviando para a representação dos diversos papéis que nos cabem na comédia, farsa ou drama da existência.

 

****

Francisco estava sentado no seu quarto, meditabundo e aborrecido, como sempre. Parecia vergado sob o peso de uma ideia fixa e contínua, maligna e aterradora. Tinha ares de velho, malgrado andar na casa dos vinte e poucos anos. Passava grande parte do seu tempo a magicar, concentrado ou distraído e pensava muito, sem ser poeta, diga-se.

Mas... em que pensava?

Lá fora continuava o estralejar das bombas e dos foguetes e a algazarra de energúmenas criaturas entrava,em flagrante contraste com a sua atitude, pelas janelas do aposento. O rapaz, remetendo-se então a um deambular atarantado, parava de vez em quando e gesticulava irritado:

— Raios! Diabos! Que me deixem, que me deixem!

E cerrava os punhos, indignado.

Num desses momentos, porém, abriu-se a porta do quarto e por ela entrava o seu amigo Cândido, sempre alegre e folgazão. O que havia a mais de tristeza num, era compensado com alegria no outro. Mal entrou atirou- lhe logo com esta proposta:

— Francisco, esta noite não vens ao baile?

— O quê? Murmurou este fazendo um trejeito de indiferença. Já me deixei de flostrias e mesmo estou velho para isso.

Encostou-se à cómoda e cruzando os braços deixou pender a cabeça sobre o peito.

Cândido riu-se com a maior franqueza de alma:

— Mas, que raio de mania tu tens! Velho, tu velho? Escuta, não ouves?

Apontou para a janela e as vozes das rusgas berravam cada vez mais decididamente:

— Morra o Velho!

Francisco descruzou os braços, fez um gesto de indignação e despeito, objectando:

— Mas... esta gente terá perdido o juízo?

Saberá ela o que diz e o que quer? Se soubesse, por certo não gritaria dessa forma. Está a pedir que passe mais um ano, ansiosa e impaciente, não atingindo, por via da cegueira dos folguedos, o malefício da tão insensata petição. Depois, mais tarde, quiçá venha a lamentar esse tempo que não voltará nunca mais. Um ano passa rapidamente, Cândido, e depois seguem outro e outro; por isso eu fico triste quando ouço pedir que passe mais um ano, tão triste que me sinto velho só de pensar em tal, só em imaginar a rapidez com que amanhã, num breve amanhã, serei verdadeiramente velho e decrépito. Estou velho, crê, até já tenho alguns cabelos brancos. E sabes? Eu não acredito na juventude. Quando não se tem alegria, amor, ideais, também não adianta ser-se jovem. Todos me dizem:

—“Estás velho, Francisco!”

Que queres? E sabes porque não acredito na mocidade? Imaginei sempre a juventude como um sonho que nunca iria terminar, um sonho lindo onde somente existissem alegrias e folguedos, risonhas esperanças. Ora encarando bem o panorama da vida, esta quenos oferece? Nada mais do que tristezas! Por isso, a mim a mocidade não deixa o perfume das suas gratas recordações restando-me, apenas, a entrega ao conformismo da minha desilusão!

Tornou a fitar o soalho, emudecendo. Ambos permaneceram calados por momentos trocando, ao mesmo tempo, rápidos e desencontrados olhares. Logo de seguida, contudo, Francisco prosseguiu:

— Não, vai tu sem mim, Cândido. E para que vieste sequer, não sabias já do meu feitio?

— Mas tu vens, Francisco, tu é que vais vir comigo, insistiu ele. Tu é que tens a mania que és filósofo e vives atormentado por esses tolos pensamentos. Ora, ora, todos esses teus conceitos são casmurrices e reflexões idiotas. Se todos encarassem a Vida como tu, mal andaria o mundo. Toda a gente sabe que esta vida é breve, eu também o sei, que a juventude passa como um ai, mas que adianta torturarmo-nos, magicando nessa fuga alucinante? Enquanto somos jovens devemos aproveitar a nossa juventude e depois, sendo já mais maduros, devemos igualmente cumprir o nosso papel que esse tempo nos desti-na. Ou tu julgas que eu tenho medo de cabelos brancos, de rugas na pele, de mazelas próprias dos anos que já passaram? Nada disso! Dessa forma serei sempre um rapaz adaptado, e mesmo agradecido se o meu tempo for o mais dilatado possível. O resto são filosofias e maluquices banais. Deixa-te de partes imbecis, vem divertir-te, dançar, vem glorificar a juventude enquanto ela dura. Esta é como o dinheiro, só tem valor quando é movimentada, quando gira. Os avarentos são seres repulsivos que prejudicam a sociedade onde vivem e tu também estás a ser avaro da tua juventude, estás a guardar no arcaz da tua alma esse magnífico capital da tua mocidade que amanhã ficará irremediavelmente desvalorizado e terás, dessa forma, defraudado a sociedade e a ti mesmo. Tolo. Não vês que nem esse pecúlio podes conservar, quer o  movimentes, quer o aferrolhes?

— Juventude? Replicou Francisco, não será tudo uma falsa juventude? Creio que não passa tudo, sim, de uma falsa juventude. Ademais, já não me sinto com idade de andar entre crianças!

— Tu é que não passas de um falso velho teimoso, entendes? Tu és jovem, Francisco, e não deves amarrar a beleza da tua juventude com a cadeia de sugestões malignas. Ama, ama qualquer coisa. Amar é apanágio da gente moça e se um velho for capaz de amar, esse não será mais um velho, pois quanto maior ou menor for o seu afecto na mesma proporção será o seu grau de juventude. A alma é eternamente jovem e o coração nunca perde o viço da mocidade. Tem isso como certo. 

Agarrou-o pelo braço e puxou-o:

— Anda, não sejas bacoco. Sabes quem vai também? A Elisa, homem, é um deslumbramento de mulher; e tu não morrias pela Elisa? E que fizeste para a conquistar?

Francisco, embora pouco convencido, vestiu no entanto o sobretudo, apagou a luz e seguiu-o.

****

Bastantes pessoas enchiam já a sala de baile. Sentavam-se as damas à volta esperando que algum cavalheiro as convidasse e viam-se já alguns pares a rodopiar fogosamente  enquanto a orquestra se esmerava em ritmadas harmonias. A pouco e pouco, porém, o salão foi enchendo, animando, até ficar a abarrotar de gente. O entusiasmo e a alegria eram semelhantes a uma espécie de loucura.

Cândido não esperou sequer um momento. Deixou o companheiro com cara de bajoujo encostado a um canto e embrenhou-se no reboliço do baile. Dançou sempre, durante longos períodos, sem descansar sequer. As serpentinas enleavam os corpos e as almas, enroscando-se nas pernas, no pescoço e no peito das parelhas. Ninguém estava triste, nem velhos, nem novos, somente Francisco encostado à porta de saída, distraído e inerte, mãos enterradas nos bolsos das calças, ia observando o ambiente como sendo aquele entusiasmo e doideira da juventude um desatino e um desperdício.

Tudo seria jovem se, no meio de tanta gente moça, mostrando com exuberância e prodigalidade o caudal de uma invulgar alegria, não dançasse um velho, mas um velho que saltava, que ria, que rodopiava sem descanso. Poderia dizer-se, com toda a propriedade, que morava nele uma falsa juventude.

Ao vê-lo de chofre, Francisco remirou-o, sacou as mãos dos bolsos e atentou nos seus meneios e nos seus gestos. O raio do velho parecia feito de molas.

Fez-se um intervalo, a orquestra calou-se, os músicos foram molhar as gargantas, outros entraram na  assentaram-se simplesmente para descansar. O falatório, contudo, não cessara. Murmúrio e rumor misturados com estoiros de garrafas de champanhe. Entretanto, Cândido voltou para junto do companheiro, bateu-lhe nas costas e perguntou:

— Então, Francisco, estás melhor? Tens uma cara!

E riu-se com satisfação. Mas Francisco, apontando o velho que continuava a gesticular como um  doidivanas, inquiriu interessado:

— Sabes quem é aquele sujeito?

— Não, não sei... mas espera.

Interrogou um amigo que passava, acenando com o queixo:

— Quem é aquele tipo?

— Segundo há pouco ouvi dizer por aí, parece que lhe chamam o Dr. Neanias; ninguém sabe de onde veio nem como apareceu aqui no baile. Também afirmam que é mágico.

Ambos se benzeram esgazeando os olhos:

— O quê? Santo Nome! Cruzes, sume-te diabo!

— Vamos ter com ele, Francisco? Propôs Cândido.

E pegando-lhe no braço, ambos se dirigiram ao falado Dr. Neanias. 

Ao contrário do que tinham imaginado, este recebeu-os com a mesma imperturbável e comunicativa alegria. Sem mais delongas ou cerimónias, Cândido quis saber:

— Diga-me, caro amigo: a que atribui essa invulgar e aparente boa disposição, esse viço e esse vigor numa idade que, normalmente, já não permite tais bravatas, raras mesmo em plena juventude?

O velho riu ainda mais, com um rir escarninho e cínico. Virou-se para distribuir um dos seus muitos galanteios a uma linda moça que lhe tocara com a fímbria do vestido e depois continuou:

— Estão os meus amigos a insinuar, porventura, que eu sou velho? Eu, velho? Quem pode afirmar que eu sou velho? É a primeira que ouço! Olhe... velho é este seu companheiro!

E apontou Francisco que, instintivamente, recuou uns quantos passos, amedrontado. Porém e tomando subitamente uma atitude mais séria, prosseguiu:

— Sabem, o segredo da minha juventude é muito simples. Conheci, quando era jovem como vós, um certo velho assim alegre como eu sou hoje. Ele era mágico e fez-me mágico a mim também.

— Então você sempre é mágico? Inquiriram os dois em uníssono.

Imperturbável, retorquiu:

— Sim, aprendi com ele certas habilidades, mas a mais sublime magia que consegui fixar na memória, a maior de todas as suas artes mágicas era a de fazer com que uma pessoa nunca envelhecesse.

— Pois você é capaz....ia dizer Francisco:

Não o deixou terminar:

— Claro que sim, meu rapaz.

E dando-lhe uma palmadinha em cima do joelho encostou-se para trás na cadeira, rindo de novo escarninhamente por entre baforadas de fumo:

— Olhe; eu sei muito bem qual é o seu mal! Mas vou dar-lhe um remédio, descanse. No entanto e antes de mais nada, devo dizer-lhe o seguinte: para se ser sempre jovem e possuir a alegria da juventude basta não pensar nunca no futuro, rir nas horas menos boas, embora isso nos custe, mentindo mesmo à nossa consciência e fingindo perante quantos nos rodeiam um riso de felicidade, um riso contínuo e franco, rindo sempre e criando a sugestão de que tudo o que acontece não passa da peripécia de um romance ou de uma peça de teatro, divertir-se nas horas de  alegria, esquecer as preocupações como sendo ninharias escusadas e amar, amar sempre alguma coisa, possuir um ideal que devemos procurar continuamente atingir. Porque tudo é uma questão de ânimo. A juventude não é atributo do corpo mas sim do espírito e do coração. O amor é próprio da mocidade, as ilusões, a loucura, a ousadia e o sonho só nas almas jovens se encontram em toda a sua pujança e plenitude e nelas encontram guarida. Em contrapartida, todo o velho que tiver ainda ilusões, amar e for louco, esse não será velho, vos afirmo. Dos velhos só fazem parte as recordações, sinal de que já viveram bastante. 

Estavam os dois pasmados deste arrazoar do velho e suposto mágico que, entretanto, e torcendo-se de lado para tirar do bolso do colete um amarrotado maço de tabaco, extraiu dele um único cigarro. Era um cigarro um tanto amarelecido o que demonstrava ser já um cigarro antigo. Após este gesto, o Dr. Neanias tomou novamente o fio do seu discurso:

— Bem... já que foram meus amigos e bons companheiros, eu vou oferecer este cigarro àquele que mais dele está a precisar. Esperei muito tempo por este momento de o poder entregar à pessoa certa; não tenho qualquer dúvida de que a encontrei e é bem real aqui na minha frente.

E apontou Francisco que olhava, curioso.

— Isto foi-me legado pelo Mestre de quem vos falei. Deu-me um maço inteiro deles e com sorte para você ainda me restava este. Os outros fizeram tantos jovens quantos era o seu número porque, segundo Ele me disse, possuíam o condão de deixar eternamente jovem todo aquele que fumasse algum deles ao soar a última badalada da meia noite de S. Silvestre, na condição, porém, de cumprir os conselhos que há pouco lhes enumerei.

Dito isto, estendeu o cigarro ao estupefacto rapaz:

— Amigo, tem esta soberana ocasião, não a deixe fugir. O que me preocupa é duvidar de se você compreenderá o significado do valor desta oferta e a importância do privilégio que lhe é concedido; vou acreditar que sim!

Tomando uma atitude séria e transcendente, prosseguiu:

— Creia que lhe dou toda a minha riqueza, toda esta alegria e juventude de espírito, tal como o Mestre, quando me entregou o maço de cigarros, me avisou:- “tens aí toda a fortuna da tua vida até á morte. Por isso te garanto tudo o que afirmei e to ofereço. Mas guarda sempre um cigarro para ti, nem que seja um só. Se os deres ou esbanjares, darás tudo o que possuis e outros não haverá mais.” Ora eu já estou cansado desta alegria e desta juventude pois creiam, amigos, tudo cansa nesta vida, até a própria felicidade e, se bem que devemos morrer contentes e joviais de espírito é, no entanto, bom que morramos. Vim a este baile para ver se encontrava alguém a quem pudesse dar o último dos meus cigarros mágicos e quando o vi entendi logo que me viria procurar, pois o meu amigo reunia todas as condições para receber essa dádiva; não me enganei. Acredite que lho ofereço com toda a generosidade e com todo o prazer. Pegue!

E estendeu-lho uma vez mais.

Francisco, incrédulo e desconfiado, não fosse o velho ser um tolo, hesitava em aceitar. No entanto, os seus olhares cruzaram-se com os de Cândido e do Dr. Neanias, notando neles uma velada aprovação e uma sinceridade de tal natureza que não poderia ser falsa ou irreal. O mágico velho, percebendo a desconfiança  do jovem, insistiu:

Não tenha medo, fume e não deixará de me dar razão. Adeus, amigos, foi um prazer!

E sem dar sequer aos dois moços tempo de reagir às sua palavras, o mágico Dr. Neanias, desconhecido e misterioso, soltando grandes gargalhadas, perdeu-se no meio da multidão dos dançarinos. Cândido ia correr atrás dele quando Francisco o agarrou pela ponta do casaco:

— Tens aí lume? Meteu a mão no bolso e, apressadamente, ao cair mesmo nos braços de uma elegante dama, estendeu-lhe uma caixa de fósforos:

— Já são poucos mas podes ficar com eles todos.

Rodopiavam os circunstantes e falavam, berrando algumas vezes. Os músicos da orquestra que tocavam instrumentos de sopro suavam em bica por via de acentuado calor. Cada vez a folia era mais intensa. De repente, porém, tudo se calou. Nesse momento, lá fora, na torre de uma igreja, soou então, sonora e esperada, a primeira badalada da meia noite. Francisco, perplexo, olhou ainda uma vez mais para o cigarro mas, maquinalmente, levou-o aos lábios que lhe tremiam. Outra badalada e outra, vibrante, compassada. Tremendo sempre, abriu a caixa, riscou um fósforo, disposto a acender o cigarro; mas bailava-lhe nos lábios agitados e o fósforo apagou-se. Quinta, sexta, oitava, décima badalada. No auge do nervosismo riscou outro lume e, na precisa altura em que batia a derradeira pancada daquela passagem de ano, o rapaz tirou a primeira fumaça. Ouviu-se um imenso clamor, estoiros de garrafas, fúria na música. As luzes pareciam mais esplendentes. Francisco, olhando para as filigranas serpeantes

e suaves do fumo, sentiu-se misteriosamente arrebatado pela força de uma alegria que, até esse momento, nunca tinha experimentado. Esquecera tudo e, lançando-se por entre os pares dançantes ao encontro do seu amigo Cândido, exclamava:

— A verdadeira juventude nunca morre, ri-se nas barbas do tempo.

Seguidamente, pegou numa taça de champanhe e, levantando-a, gritou com decisão:

— Que morra o Velho.... e Viva o Novo!

Ao mesmo tempo e olhando para a porta, pareceu-lhe ver sair um velhinho de longas barbas brancas, curvado e apoiado num cajado.

O certo é que, dali em diante, ao Dr. Neanias nunca mais ninguém o viu.

****

Arcos, Janeiro de 1959

 

 

 

 

2015-12-28

José Manuel Lamas - Navarra - Braga

 

 

 

                           Vou pensar melhor o que digo

                 E o modo como o tenho dito

                 Porque um nosso bom amigo

                 Já me chamou poeta maldito 

2015-12-28

José Manuel Lamas - Navarra - Braga

 

 

 

                                  

                          Neste  mundo que é tão desigual

                  Que se rege pela lei da mentira e do engano

                  Podemos contemplar o céu pelo natal

                  Mas vivemos no inferno todo o ano

 

                  São os governantes falsos amigos

                  A enganar pessoas distraídas

                  Que ocupadas a admirar os seus umbigos

                  Nem dão conta do roubo que é feito às suas vidas

 

                  E até o papa falando à sua gente

                  Divulgou ao mundo em geral

                  Que o inferno não é quente

                  Nem o céu é coisa real 

 

                  Então sou tomado por sentimento tão profundo

                  Que me provoca arrepios à flor da pele

                  Porque quanto mais conheço deste mundo

                  Mais me apetece fugir dele

                        

                            

              Aquele abraço

                                        Zé Lamas

 

                        

                        

                       

                          

 

 

2015-12-24

António Manuel Rodrigues - Coimbra

António M Rodrigues – Coimbra

 

Caros confrades,

         No meu Natal de criança não havia Pai Natal nem árvores com prendas. Era o Menino Jesus que vinha e construíamos-Lhe dois presépios: um na igreja e o outro no largo principal da aldeia. Ambos numa estrutura de ramos de sobreiro com cortiça virgem, um tablado e um tecto.

         O musgo para o tablado e as heras para cobertura, nós, os da catequese, encarregávamo-nos de arranjá-los. As figuras eram as de sempre: a Sagrada Família, o burrinho e a vaquinha para aquecerem o Menino, umas ovelhitas e o seu pastor, os reis magos não podiam faltar e não me recordo de outros elementos significativos. Estes adereços sóbrios e austeros compunham a nobreza destes nossos presépios.

         Na minha casa de então não havia chaminé nem recuperador de calor. Era o lar com o bueiro na telha vã, as cadeias, a lenha, as brasas, a cinza e nós aconchegados por tudo isto.

Antes de nos deitarmos, deixávamos os sapatinhos perto do brasio que restava e, de manhã, minha mãe aguardava que fôssemos nós os primeiros a levantarmo-nos e, deslumbrados, contemplar as prendas bem simples que o Menino Jesus nos havia deixado.

         Como normalmente não havia missa do galo: o padre de minha freguesia tinha a seu cargo pelo menos mais duas paróquias e  ambas mais populosas, só durante a manhã, após a Missa de Natal, íamos falando de, e mostrando as lembranças que o Menino Jesus nos deixara no sapatinho.

Havia regular coincidência entre o deslumbre e o valor das prendas de cada um e a importância ou as posses dos respectivos pais.

A isto respondeu-me minha mãe que o Menino Jesus gostava de todos por igual mas éramos muitos os meninos à espera dos presentes, Ele era pequenino e como nós ficávamos quase no fim da aldeia, quando chegava a nossa casa já trazia pouco para dar e disso deixava o que podia e, depois, ainda seguia para outras aldeias.

         A resposta tinha a sua lógica e durante uns tempos bastou-me mas, naturalmente, ficou-me cá uma pequena suspeita e um olhar desconfiado para tal facto vindo ele de Quem vinha.

         Numa bela noite de consoada o sono não veio tão cedo quanto devia e fiquei-me ao calor das brasas.

         Às tantas levanto-me e, inesperadamente, vou à sala da nossa casa onde encontrei minha mãe e uma tia distribuindo as prendas.

         No dia seguinte, lá estavam elas nos sapatinhos. Não disse nada às minhas irmãs mais novas mas nunca mais imaginei o Menino Jesus a descer pelas cadeias do nosso lar, deixar os presentes, trepar as cadeias enfarruscado, sair pelo bueiro e seguir para outras casas ou aldeias. A volta deixou de ser tão grande!

         Foi embora quase todo o encanto e magia sobre o Natal e o Menino Jesus mas alguma coisa restou e, em Fé, sobretudo durante o seminário, tentei reconstruir o que pude e alguma coisa consegui mas os estragos cá ficaram e afloravam. A frieza da razão e do raciocínio impuseram-se-me, reconhecendo embora que a Fé e a razão pertenciam a planos diferentes e, em princípio, não se cruzavam nem tinham de interferir um no outro.

         Foi um apaziguamento que também durou pouco. Foram chegando ao meu conhecimento, assim como ao de todos nós, factos passados que com base na Fé, indevidamente, interferiram demasiado na razão e no saber científico que também não tem de justificar a existência de Deus.

         Incapaz de me reconhecer ateu ou apóstata (ou vice-versa) fui-me reconstruindo e vou repetir a minha síntese, já aflorada num outro escrito e em que nada há de original: Acredito num Deus único. Acredito e aguardo a utopia do encontro de todos os crentes aceitando-se mutuamente e, com sinceridade, procurando diversamente Esse Deus.

         Em boa parte está reconstruído o escaqueirado Natal da minha infância e, com Menino ou sem Ele, a sucessão de Natais e velhos anos; a celebração renovada de Um e outros, simbólica e facilmente os reconheço representados por/nesse Menino que antes e depois de dois mil e quinze nos vai repetindo um e renovando o outro.

         Tudo de bom para todos, muita saúde, muita felicidade ou uma santa resignação e aquele abraço que, “sendo de papel, não é menos afectuoso ou caloroso do que o físico. É apenas diferente porque diferido no tempo e no espaço, mediado num outro suporte mas sempre leal e sincero.

23 de Dezembro de 2015

2015-12-20

Manuel Vieira - Esposende

O Natal já se ouve ...

O Martins Ribeiro abriu já as "hostilidades" com o seu conto natalício escrito na sua adolescente passagem pela Barrosa, em prosa agradável.Vai daí o Lamas puxou pela inspiração poética e dedilhou uns versos curtos.

É tempo de desenhar mensagens que substituem os velhos postais coloridos, saudosos até ...

Ontem recebi a mensagem habitual nesta quadra, do nosso colega Fernando Echevarria :

"Votos de felizes festas natalícias para ti e para os teus. E, através de ti, para todos os amigos da PALMEIRA. Os abraços, agora, com a minha idade,já só escritos. Mesmo assim, aí vão muito calorosos."
Mesmo onde se percebe alguma distância ela não existe. Não passamos indiferentes uns aos outros. Entre tantos lembramo-nos de cada um, mesmo dos que partem.
Também já remeti a minha mensagem tradicional a cada um, usando a ferramenta mais rápida e mais barata, o e-mail, correndo sempre o risco de alguma falha por ser massivo ou endereço não atualizado. Mas faço questão de chegar a todos com este simples gesto, pese alguma falha, sentindo como é agradável essa "viagem mensageira".

Lembro como era importante este tempo de Natal quando era um menino estudado da Barrosa, no regresso aos pais e aos irmãos, três meses passados misturados com algum choro de saudades inquietantes.
Eu sei que os cenários se alteraram e no presépio da vida já mexem outras figurinhas que tanto nos dizem.

Mas persistem ainda outras que nos alimentam a alma.

Para os meus amigos ofereço Votos de um Natal muito Feliz e um Ano Novo com muita saúde, mesmo muita saúde.

 

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