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2016-03-11

manuel vieira - esposende

Faleceu esta sexta feira o nosso antigo colega Joaquim Gomes Dias, irmão do padre António Gomes Dias e do Mário Gomes Dias. Tinha 78 anos de idade  e era natural de Avelãs de Ambom na Guarda, embora a residir na cidade de Braga onde foi professor. Entrou no seminário em 26 de Agosto de 1950 e era do curso do Fernando Rosinha e do Pina Metelo, entre outros. O seu funeral vai ser amnhã, sábado, pelas 15 horas, no lugar de Ussos, Cabaços, Tomar, terra da esposa.Paz à sua alma.

2016-02-29

Manuel Vieira - esposende

O nosso colega José Maria Pedrosa não para e partilha conosco o resultado do seu esforço durante mais de ano e meio: o Festival de Música Religiosa de Guimarães. O FMRG, da sua responsabilidade artística, deu lugar a mais dois cartazes, de responsabilidade partilhada, sobretudo o de Arte religiosa. Ficam, assim, convidados todos os antigos colegas que gostem de música a sério, para passarem pela Cidade-Berço, durante um, dois, ou mais dias, em que podem escolher a seu prazer alguma da melhor música do mundo, no clima mais adequado para um certo espírito, pelo menos ainda latente, na nossa sociedade ocidental.

Podes ler mais em " Notícias"...

2016-02-21

AVENTINO - PORTO


INÚTIL?! INÚTIL É SENTIR!


Era o AGOSTO de uma velha e longínqua aldeia, num verão quente de encantar. Sabath (e ao sétimo dia descansou),  silêncios e flores no cemitério, vozes sofridas de cantaréu que ainda hoje ecoam o meu perturbar,

(e a minha mãe, TINO, OH TINO vem p'ra dentro que esse calor mata)

encontrei-me com Óscar Wilde ao descer da ladeira, senhor WILDE está tão pálido, sim, sim, estou cansado, foi tudo por causa dos versos que não escrevi),

era ao fim da tarde, na igreja românica de um dos Caminhos de Santiago; talha dourada, querubins papudos de quem sempre tive tanto medo, e o padre:

"vamos examinar as crianças que vão fazer a sua comunhão solene".

A esse tempo eu nada sabia do ser e do querer ser (ainda hoje nada sei, felizmente. Fujo a todas as verdades e finjo-me - quando olho para o espelho nem sequer me conheço -).

Sabia o pai-nosso, o ato de contrição e a confissão; as bem aventuranças e umas outras ladaínhas que recitava de cor, botava faladura sem credo nem sentir, obediente, grato e obrigado a um deus com quem aprendi o significado do medo.

O pároco lá vem, a sotaina esvoaça, o menino triste à porta está. Sim, sim, senhor padre, assim farei. Quinze minutos a cada um já chega, a comunhão solene é em outubro e o Bispo quer que saibam tudo o que aprenderam na catequese, diz-me o pároco.

E vai-se.

Esvoaça-me agora a deusa, pé ante pé, a contra-luz da porta da igreja, a silhueta da sua nudez, formas e corpo, desejo e pecado, (perdoai-me Senhor, eu a rezar), mas ela vem e o padre vai, ela olha-me e eu envermelho, ela põe perna à frente e outra perna á frente, catequista, pudor e pecado misturam-se na igreja romãnica),(seminário de Cristo-Rei, a minha mãe, Tino, tem cuidado com o sol. Óscar Wilde, Marcel Proust, o meu Torga proibido) mas o pecado aproxima-se, blusa levemente desblusada e o que eu quero mesmo é este pecado que me consome.

Sou...diz-me ela, catequista destes meninos que vais examinar. Sou...diz-me ela ( e Pablo Milanês, "esto no puede ser no mas que una cancion/quisera fuera una declaracion de amor") Sou Yolanda, a catequista, e tu que vais fazer?

Cinquenta anos depois, aqui estou, sentado no mesmo banco da mesma igreja românica de uma das igrejas que informam os meus medos. Espero-a, olho a porta da entrada, (será que ela vem?), os meninos que vão fazer a comunhão solene já não estão ali e nem sequer os querubins continuam a sua vigília. Não sei mais o ato de contrição nem nenhuma das prédicas que a minha feliz condição de pobre me obrigou a decorar. Olho o triste vazio do passado, ao lado, a minha mãe, no cemitério, continua a dizer-me "Tino, meu filho, tem cuidado com o sol" e o meu pai, inebriado no colo de minha mãe, parece que dorme para não ter que dizer-lhe, "deixa o rapaz viver a vida.

Yolanda vem, "si he de morir quiero que sea contigo", senta-se ao meu lado, banco forrado a veludo grenã, altar de São Martinho.

(São dez minutos para cada um que vai comungar. Tens relógio? pergunta-me ela. Não, não tenho! E ela desabotoa o pulso, rasga a nudez do braço, e deixa-mo naquele lugar onde o pecado não mora ao lado. Abro as pernas, o relógio cai, o braço dela procura-o)

"por eso a veces se que necessito tu mano, tu mano, eternamente tu mano"

e o padre aparece, a mão dela pelas minhas coxas abaixo, eu abro as pernas, olho, mão de mulher ali, o que será, e o bofetão do padre pela minha cara adentro.

E assim fui firmando a vida, abrindo as coxas em qualquer igreja ou catedral à espera de um relógio que nunca tive nem usei. Continuo em busca de Yolanda e do encanto da voz doce de minha mãe "Tino, tem cuidado com o sol"

Conseguirei? 

Não quero conseguir!

 

2016-02-20

AVENTINO - PORTO

DO NOSSO TEMPO DE EUNUCOS

Fomos púberes assexuados, castigados de medo, aterrorizados com a sina de ficarmos cegos, "pecaste contigo próprio"?

Mulheres?! Oh maçã de Adão, pecado e morte num inferno inventado com fogo e eternidade. Agora o que nos vem são apenas as memórias do desejo perdido, de um corpo esbelto e quente de uma mulher que nos disse,vem, vem, que eu quero-te, menino imberbe.

Agora é tarde; nem meninos somos nem há já aquela mulher que povoou o nosso pecado. Morremos todos. Nem os nossos corpos têm plenitude, nem queremos mais nada que não seja o não querer nada. O nosso Rio de Águas Bravas aproxima-se da foz e inicia já o ritual da licença para abraçar o mar.

Mas, meu triste AA´R continua a sonhar.

2016-02-19

alexandre gonçalves - palmela

BARROSAL XIX - Carta Décima da Susana ao Pe. Alberto

Lisboa, 8 de Abril de 1972

Alberto. Não te chamo de Pe. Alberto, porque antes de seres padre eras Alberto. Citando uma ideia tua, nós somos o nome que nos designa. Podem-nos cobrir de adjectivos, que são as mais das vezes flutuantes, para não lhes chamar falsos. O nosso nome inteiro designa-nos por inteiro, até para lá da vida. Não pus querido nem saudoso, porque essas palavras foram morrendo comigo. Depois de tantas cartas por responder, fiquei a falar sozinha. Ao fazê-lo, fui acordando feridas que me infectaram a alegria de viver. Não sei se te entregam em mão esta carta, nem tão-pouco se a lerás ou se mudarás alguma coisa por isso. Ela vai cheia de mágoa, de noites sem dormir, de olheiras e decepções inconfessáveis. E de um certo azedume, que não é propriamente dirigido a ti mas resulta do nosso amor "morrido". Não tenho pruridos literários, como tu. As duas cartas que me enviaste, aliás únicas, e que não rasguei, deixaram-me ainda mais presa a ti do que os beijos que demos. Escondi-as, fechei-as como um segredo e alimentaram-me a esperança de que ias abandonar o seminário. Li-as muitas vezes, sublinhei-as e fixei expressões tuas, que de tanto  as repetir foram ficando no meu vocabulário. Cheguei a pensar que um dia tas deitaria em cara. Já desisti de tudo e até de ti. O tempo vai-nos forçando a mudar, para não parecermos idiotas. Por isso já assumi que esta carta é mesmo a última. Pois aí vai.  

Acabo de chegar de Sto. Amaro. Como todos os anos, fui passar a Páscoa aos meus pais, como tiveste a oportunidade de ver. Levei comigo a minha filha, a Patrícia, que é o único apoio da minha vida. O Zé Pedro pirou-se para Paris, onde se vai amanhando, tanto em amores como em dinheiro. Já chegámos a acordo sobre o divórcio. Como eu gostava um dia de poder falar contigo sobre o meu casamento. Um desastre completo, durante os seis anos que durou. E uma perversa desilusão de semelhante criatura. Não foi por falta de aviso e prevenção, até da tua parte, quanto ao seu carácter. De facto, tu conhecia-lo melhor do que eu. Mas quem eras tu para me dar uma opinião, depois de me teres trocado sem explicações por essa pieguice religiosa? Só de me lembrar daquela noite que precedeu a tua despedida final, até me arrepio toda.

Quando cheguei a Sto Amaro, soube logo que tu ias estar na aldeia e que celebrarias a missa da Páscoa. Lá em casa estava tudo eufórico. Fui com os meus pais, a Patrícia e a tia Estela. Vinhas todo engalanado, como se fosses um actor grego a entrar em cena. Não percebo nada de missas mas acho que fizeste boa figura, a avaliar pelos comentários lá de casa. Na homilia, deste um conceito de ressurreição que me agradou. Foi simples, curta mas muito adequada às expectativas das pessoas. "Ele fala muito bem". Para ti, Deus ou Cristo tinha morrido mas três dias depois ressuscitou. Em seguida frisaste que isso não era o mais importante, até porque tudo está envolvido em mistério. O que era imperioso era que as pessoas ressuscitassem, isto é, que fossem solidários com o mundo natural, cheio de rebentos novos, de flores variadas, de luz e de alegria. A nossa vida é mais morte do que vida. Temos de acordar, temos de mudar. E sobretudo temos de nos amar. Quem ama vive, quem não ama morre. Apeteceu-me bater palmas. Nâo o fiz mas fui com a Patrícia à sacristia. Estavas a tirar aquela farda estranha e para mim falsa. Tanta brancura a cobrir tanta malandrice, pensei. Creio que nos viste logo mas ainda demoraste um pouco até nos cumprimentar. A mim um formal aperto de mão, sem jeito, sem um mínimo de simpatia. É a sua filha, perguntaste. Outro arrepio no meu corpo. E um desejo de me ir embora. Deste um beijo nervoso à menina, depois mexeste-lhe no cabelo e perguntaste-lhe a idade. Para mim disseste a coisa mais parva que algum dia ouvi: gostei muito de a ver. Boa tarde! O que o seminário faz a estas cabeças. Desmoralizada, disse para a minha filha: anda Patrícia, temos de ir embora. A avó já está à nossa espera para almoçar.

Claro que nem almocei. Disse a minha mãe que os quatro dias anunciados eram só dois. Tinha que regressar. Arrumei as malas à pressa, tomei um café e acelerei por essas estradas fora, a menina dormindo, eu chorando. Chegámos já passava das vinte e duas. Comeu-se alguma coisa e adormeci a miúda, com uma breve história. Bebi ainda um chá  e vim para a máquina de escrever. São duas da manhã, estou exausta e apetece morrer. Porém, não acabarei sem te dizer o pior da minha actuação. Soube pela minha mãe a data e o local do teu casamento com a santa madre igreja. Organizei-me no serviço, meti-me no carro e um pouco antes da hora estava no Porto. Disfarcei-me como pude, ninguém me reconheceu,  vi com os meus próprios olhos aquele ceremonial medonho. Havia um coro de vozes masculinas, que dramatizavam a cena. Os cânticos eram lindíssimos e eu fixei um que dava pelo título latino de "Panis Angelicus", que vi escrito num programa. Não percebi nada nem do título nem da letra cantada. Comovi-me e até me pareceu que algo de superior havia na vossa escolha, na tua escolha. Eu fiquei de fora, claro, não percebi nada  desse mundo e achei-me imbecil. E veio-me à memória uma outra páscoa de beijos, os primeiros da tua e da minha vida, conforme foi dito por ambos. Tão puros foram, tão demorados, tão doces, que ambos achámos que, se Deus era amor, então ali não podia haver pecado. No ensaio do coro tu não tiravas os olhos de mim. Cheguei a corar e a tremer e a desejar que olhasses. No fim íamos todos embora como se nada tivesse acontecido. Até ao dia do teu aniversário. Eu e a Elisa fomos visitar-te. Estavas sozinho em casa. A Elisa teve de sair.Tu propuseste um passeio. Caminhámos devagar até à ribeira da Azenha. Sentámo-nos na erva fresca e ouvimos o ruído manso das águas. Disseste que já tinhas concluído a teologia. Se quisesses, podias ordenar-te. Mas precisavas de tempo, tinhas vinte oito anos, era ainda muito cedo. Os teus superiores concordaram. Admitias a hipótese de saíres. Que não tinhas vocação. Eu ouvia-te com enlevo, com dezoito anos a suspirar, a transpirar, a transbordar. Faria tudo o que me pedisses. Não pediste nada. Tocaste-me na mão esquerda. Fizemos silêncio. Os teus dedos avançaram para os meus. Eu estremeci e olhei. Os teus olhos suplicavam-me tudo e tudo prometiam em troca. Já era inevitável. Misturámos bocas, mãos e desejos. E ali ficámos, quase imóveis, sem tempo, sem Deus, apenas respirando com algum ruído. Por fim caiu a tarde, ouviam-se grilos e tu disseste que nós éramos belos. Colei-me a ti para sempre. Tive muitos perseguidores mas nenhum respeitava o meu corpo como tu. Nunca me foi difícil resistir.

Três dias depois tinhas de regressar ao seminário. Pedi com lágrimas para não ires. Tu sorrias. Estes beijos de tão puros não podem impedir-me, dizias. Numa segunda-feira vi-te partir no autocarro. Tu partias para sempre e eu ficava para sempre por detrás de um reposteiro, ora acenando, ora chorando, ora esperando por outras férias. Dois anos depois, é verão e tu voltas a ensaiar o coro, para a festa anual de Sto. Amaro. E tudo se repete. Tu olhas, tu desejas, tu perturbas-me até à loucura. Tenho vinte anos, passei para o terceiro ano e devo ser a única virgem em toda a universidade. Porque protejo os mais belos sentimentos que atravessam toda a minha vida. Foi então que o mundo tremeu todo à minha volta. É tempo de amoras, é tempo de campo e o meu corpo  anda em sobressalto. Passo à tua porta e vejo-te sair. Pra onde vais, perguntei. Vou por aí, respondeste. Posso ir contigo?Claro que podia. O nosso passeio desta vez foi mais longo. Subimos a calçada, desviámo-nos por atalhos antigos e só parámos na ribeira dos moinhos. Bebemos água de mina e sentámo-nos à sombra dos salgueiros. Mas o calor era maior do que nós. Ou pelo menos maior do que eu. Subtilmente subi para uma rocha, deixei cair o vestido e joguei-me para o açude. Tu hesitaste e admiti que podias não ter coragem. E surpreendeste-me quando fizeste o mesmo que eu. Abraçámo-nos, beijámo-nos e caímos sem querer nos juncos, protegidos pelos amieiros. Posso algum dia esquecer este lugar, este verão, as margens desta ribeira?

Adeus! Não espero resposta tua. Prega lá a tua ressurreição! Perde-te nesses mistério! Mas não te queixes nunca de que não foste amado! Mais, o meu corpo foi humilhado mas o coração não morreu. Eu vivo ainda. Se passares por Lisboa, procura-me. Não é difícil encontrares-me! S.

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