fale connosco


2015-11-27

alexandre gonçalves - palmela

 

BARROSAL XVI - Conto de Inverno

 

A tua ausência está cheia de frio,

leito de neve, corpo estilhaçado:

a memória sem futuro nem passado,

a terra assassinada, o céu vazio.

 

Entre nós já não corre nenhum rio.

Anda a correr em vão por outro lado.

Quem neste abismo pode ser culpado,

deste enganoso e trágico desvio?


 

Toco de leve o corpo que foi belo

e beijo à pressa o rosto que eu amei.

Já tudo agora é feito só de gelo.

 

Foi tão breve o que tanto desejei,

que em vez de o relembrar quero esquecê-lo,

gritando que da vida nada sei.

 


2015-11-26

Arsénio Sousa Pires - Porto

A palmeira

que olhava coimbrões até ao mar

estava já sem braços ou cabelos

à espera dos homens finais com uma serra na mão.

Chegaram e somaram-lhe o tronco em pedaços.

Depois

encheram três camiões

e foram-se embora sem olhar para o portão verde

que te viu entrar.

Ficaram-lhe as raízes

no ventre da terra até ao bosque.

Mas não ressuscitará!

 

A palmeira.

2015-11-22

ANTÓNIO GAUDÊNCIO - LISBOA

Com a sua prosa rica e exuberante, ( mas onde cada palavra diz o que tem a dizer não sendo nenhuma excessiva nem servindo para florear ), vem o Alexandre comunicar-nos que, sem Requiéns nem antífonas e sem o formalismo duma convocatória, realizámos uma bela "assembleia geral" em Palmela, no sábado passado. Não vou fazer o panegírico desse convívio por me parecer desnecessário mas quem esteve presente pode atestar a alegria, a amizade e o espírito das tarefas partilhadas que geraram em cada um o sentimento de que valeu bem a pena  participar. 

Não estou com isto a defender a ideia de não haver regulamentos, de não haver assembleias gerais, de não haver convocatórias para assembleias ou de não se respeitar os formalismos  que regem  a AAAR. Nada disso.

Mas disseram-se demasiadas coisas e algumas delas dispensavam-se. Todavia, espero que continuemos com este espírito "belicoso" pois também isto faz parte do nosso"viver" e espevita-nos. Uma boa briga faz sempre bem...........

Posto isto, julgo desnecessário cantar requiéns à Associação e não creio que tenha sido muito decoroso enxovalhar-nos chamando  " caloteiros " a todos nós por ainda não termos pago a quota anual.

O convívio de sábado passado prova que a AAAR está bem viva e que as " assembleias gerais" acontecem onde e quando nós quisermos. E as outras, com Convocatória, também irão realizar-se a seu tempo.

Não nos agarremos tanto aos formalismos e vivamos mais a Associação pois o tempo vai contando............e, qualquer dia, acaba.

2015-11-20

alexandre gonçalves - palmela.

BARROSAL  XV - Alevantamento dos Agapantos

 

Ouvi falar em "REQUIEM"por nós, os que somos indiferentes aos estatutos e à necessidade das assembleias. Há na expressão alguma iniquidade, na medida em que presume que é na letra da lei que mora a vida. Fora dos estatutos, cavamos inevitavelmente a nossa extinção. Nada mais falso, mais injusto e mais ocioso. Quando os irmãos vêm de longe e de longas ausências, sentam-se à mesa sem regulamentos, bebem um copo, falam, encontram-se e são felizes, nem que seja por uma hora. Os que não vêm de parte nenhuma, estejam perto ou longe, esses sim, nunca se encontram. Nem que andem com estatutos pendurados ao pescoço. Os factos contrariam os artigos citados por diversos especialistas. E de entre eles, trago à consideração geral o encontro de Palmela. A um simples gesto, como quem acena apenas um endereço, emergiram do silêncio vinte e sete criaturas entusiasmadas, matinais, e abundantes de risos, de abraços, de géneros líquidos e sólidos e de tudo o que é belo numa festa de sabedoria. Nós, os flagelados de outras idades, de inspiração castelhano-jesuítica, nós os que partimos as tábuas da lei, nós os que inaugurámos um modo novo de estar vivos, nós devolvemos o REQUIEM a quem no-lo encomendou. Nos verdes campos de palmela, onde correm o leite e o mel, onde a paz pagã de Ovídio e de Horácio nos dá um sossego espiritual surpreendente, nós, os herdeiros dos agapantos, patrocinados por Martinho de Tours, inventámos um encontro inesquecível. Pelas dez, chegaram os primeiros poetas do prazer e da alegria. Em ondas sucessivas, chegaram os restantes, todos com fúria de viver. Estendemos um lenho clássico, amplo e arejado, rente à churrasqueira, coberto de uma toalha branca, tecida por gestos sem nome ali expostos. Entradas, meadas e acabadas, sol, frutos e vinhos, tudo uma infinita oferta de afectos, mais doces que o líquido que os envolveu. A palavra circulou de mão em mão, fácil, alegre e solidária. E cada um à sua maneira soube saborear a doce amizade que deu e recebeu. Será isto uma comezaina? Ou não será antes uma vitalidade desconhecida, agora mais virada para as coisas simples e não para a obesidade ornamental? Mais, eu atrevo-me a chamar-lhe uma ressurreição, muito mais digna de um hino de glória do que de um obscuro requiem, como alguns já sugeriram. Não estamos disponíveis para cânticos tristes mas sim para salmos de sabedoria, sem vingança nem culpa.

Após o banquete grego, ali ritualizado, passámos ao momento mais litúrgico, mais arcaico, mais intimista. O círculo do fogo aguardava impaciente a nossa criatividade. Os engenheiro da hora montaram uma gingajoga eficaz, que, após uma primitiva fogueira, nos dava chama para o crepúsculo iminente e as douradas castanhas outonais. Cada qual extraiu das suas emoções o comentário que uma chave sugere quando rasga a opacidade de uma porta, de uma casa escura, de um coração fechado. Derramámos vinho, canções, abraços e despedidas. A noite já descia pelas casuarinas. Os que vieram de longe anteciparam o adeus. Os outros foram ficando, conversando à luz do fogo. Os últimos arrumaram os lenhos e o cadeirame. Tudo tão igual ficou que mal se notava que ali estiveram centenas de rostos cantando e vivendo mais um dia brilhante, para inscrever em narrativas futuras. O portão selou de silêncio o espaço, agora vazio, pelas vinte e duas. Mas quando acordei no domingo, para mais um dia de sol, ainda pude experimentar o consolo de uma "oliveira do paraíso" cheia de gente.

2015-11-12

alexandre gonçalves - palmela

Companheiros de Jornada

 

Que bom! Sábado à tarde não morre

ninguém na cidade:

a agência funerária faz semana inglesa

Anda comigo meu irmão

podemos passear tranquilamente

Ruy Belo

 

Pois é! Neste sábado, tal como estava previsto, vai haver sol no céu de Palmela. A chuva lavou os cedros e as casuarinas. Acendeu o brilho da erva e enchegou os campos. É hora de preparar a saída. Vamos martinhar a alegria serena de estarmos ainda muito vivos, mesmo que às vezes pareça que há um coma induzido. A proposta foi ganha por todos, pois as inscrições excederam as expectativas. Há já 25 nomes confirmados e mais seis em franca disponibilidade para virem de todos os lados do mundo. O vinho já corre pelas ruas inclinadas, a cor, o aroma, a textura já entram pelas narinas, afinadas por um olhar renovado. O vinho e o fogo são sinais litúrgicos deste outono escaldante. 

O programa inclui uma pequena visita à vila, pois há muitos que nunca tiveram essa oportunidade. Por isso venham soltos, confortáveis, calçado próprio dos campos e alguma prevenção para o cair da tarde. O almoço será constituído por pedaços de imaginação, com sobremesa de castanhas douradas, assadas por especialistas. Uma fogueira clássica anunciará ao mundo a nossa vitalidade e um encontro original, cheio de juventude, de canções e de esperança. Outono a sul é um hino à natureza, aos frutos e à mais doce amizade. Liguem os motores e ponham-se na auto-estrada. Às 10 horas é o primeiro contacto com o prazer da festa, a cargo de um moscatel  ou um branco perfumado, e outros sabores condizentes. Segue-se um breve passeio, para merecer e desejar um almoço inesquecível. Assim seja!

NB. Para quem não se lembre, a morada do convento é na Rua do Agricultor, a 300 metros da entrada, do lado esquerdo de quem desce, com um portão verde, guardado por três feras. Estes dados são matematicamente precisos, pelo que não é desculpável qualquer extravio.

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