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2010-08-07

Arsénio Pires - Porto

Carta do Irmão dum Ex-seminarista

Nota prévia:
Não resisto a partilhar convosco esta carta do irmão dum ex-seminarista.
Apareceu-me no meu endereço electrónico.
Arsénio


Meu querido irmão:
Só hoje ganhei coragem para te escrever. Passaram já tantos anos…
Sou o teu irmão mais velho, já quase na casa dos oitenta. Sinto que pouco tempo me resta para te ver e conversar contigo.
Como sabes, passo o meu tempo no Lar de Dia. À noite, a minha filha ainda me aceita em casa dela. Não sei se por muito tempo. Em breve terei que ficar dia e noite num asilo qualquer. Eles têm a sua vida e eu, daqui a pouco, serei totalmente dependente pois já quase não me movo.
Não lhes levo a mal. A vida é assim mesmo!

Como podes ver, não sou eu quem te escreve. Eu já nem sei escrever…
Pedi a uma funcionária do Lar que me passasse a computador o que me tem estado encravado na carne e nunca tive coragem de to dizer.

Tu foste para o seminário. Nós, todos os teus irmãos, ficámos na lavoura. A tratar das terras, das vacas e da vinha dos nossos pais. Alguns de nós, como sabes, tiveram que emigrar. Eu também, mas sem sucesso algum!

Cada vez que vinhas à terra abraçava-te com saudade, lembraste? E, quando partias, metia-te uma nota de 100 escudos no bolso que, naquele tempo, era de bastante valor.

Mas… nunca te disse que senti sempre um grande ciúme de ti por os pais te terem posto a estudar e, a mim, não. Nunca entendi bem porquê!
Sei que não tens culpa mas foste um privilegiado. Estudaste até quando quiseste e, graças aos estudos que fizeste no seminário, fizeste-te um homem independente arranjando um bom emprego. Compraste carro. E vens à terra de vez em quando.
Eu, fora aquele pequeno período em que foi para França, andei sempre afundado na lavoura. Primeiro, na dos pais. Depois, na minha.
E acabei tão rico como quando comecei!

Tarde e mal arranjei tempo para namorar. Também, que me lembre, nunca tive um gesto de carinho, e de festas, por parte dos pais. Mas não os culpo. Na lavoura não havia tempo para carinhos. Que podiam eles fazer se chegavam sempre derreados de trabalho já depois do sol-pôr?
Nunca alguém me disse “Gosto de ti”, quanto mais “Amo-te” ou “Adoro-te” como agora se diz ao desbarato. Na nossa aldeia, o “Amo-te” e o “Adoro-te” eram só para Deus. Hoje toda a gente ama e adora alguém mas, mesmo assim, nunca vi tanta falta de amor. Ama-se e adora-se a metro. Com princípio e fim à vista!
Era já casado quando recebi os primeiros gestos de ternura. O primeiro beijo que dei, a sério, foi à minha mulher que está aqui ao meu lado com a doença do esquecimento! Foi ela que me disse pela primeira vez: “Gosto muito de ti!” E nunca deixámos de gostar um do outro.
Eu acho que isto é amor!

Tu, um certo dia, fizeste-me queixa de que, no seminário, não podias conviver com raparigas. Que isso era como se te tivessem cortado uma perna e nunca mais pudesses andar direito! Que só depois de teres saído é que soubeste o que é uma mulher! E que te sentias também como se te tivessem roubado todo o tempo que lá passaste.
Olha que eu também passei o meu “seminário” na nossa terra. Só quando fui à tropa é que… bom! Já era homem. Até lá, era na festa da Senhora da Guia, e num que outro baile, que nós tínhamos oportunidade para pôr os braços sobre uma mulher. Mesmo assim… sempre a medo. Nada mais! Que as pessoas podiam ver!

Penso muitas vezes: Que sorte a tua! Se os pais não te tivessem posto a estudar, talvez hoje estivesses cá pela aldeia, velho e de carnes comidas pela sachola, rodeado de filhos que só te vinham ver nas férias, em Agosto.
Ainda bem. Para ti.
Mas eu senti ciúmes e tinha que arranjar coragem para to dizer. Perdoa-me!

Lembra-te sempre de que foste o mais sortudo de todos nós.
Agradece a quem achas que deves agradecer. Aos pais, não, que já morreram.

E não te queixes da vida! Muito menos do seminário!

Desculpa a minha escrita. Sabes que só fiz a 3ª classe e já nem sei ler nem escrever.
Foi conforme me saiu da alma que ditei esta carta.

Quando quiseres, podes visitar-me. Falaremos, então, mais sobre este assunto.
Sabes onde moro. Por enquanto.

Era só isto.
Recebe um abraço do teu irmão

António.

2010-08-06

Alexandre Gonçalves - Palmela

Não resisto, Aventino, a essa viagem de verão que fizeste à infância, onde nem as palavras nos protegiam. A palmeira, o portão, a mala, o largo e o silêncio cerrado, frágil biografia para quem, para abrir o futuro, tem de deixar pai, mãe,irmãos e outros legítimos afectos. Honestamente não vale dizer: tudo é passado, o que importa é o presente. Carregamos uma bola de neve, bem fria por certo. Trazemos connosco penosas ausências, ficheiros indiscretos que, por um pudor quase feminino, nem nomeamos. Por exemplo, quando aconteceu o primeiro beijo? De que mãos nos privámos, quando havia frio? Quando foi que olhámos sem rubor? Que transgressões adiámos por falta de circunstância? Quem não se arrepiou por perguntar o que havia debaixo de uma roupa mais delicada que a nossa? Se o amor é contínuo, por que motivo tem o nosso tantos e tão vastos intervalos? Já deixei o largo da palmeira. Corri as salas do 1º ao 5º Ano. É verão e vou de férias. Fui recrutado nos baldios rudes da serra e ali regresso por uns dias. As hormonas estão ao rubro mas para as fintar levo comigo um leque variado de regras e de intenções. E transporto no corpo toda uma muralha de interdições e ameaças. A carreira da tarde pára junto ao adro da igreja. Saio e tento recolher a mala. Pela primeira vez tremo de terror. Em frente, num banco de jardim, dois joelhos, que eu supus serem de cedro polido, explodiram nos meus olhos. Estavam cruzados com agilidade. À minha passagem e a pretexto dum cumprimento, fizeram o movimento inverso. Uma angústia súbita apoderou-se de mim e desactivou as defesas que eu trazia armadilhadas. Mais tarde, pareceram-me fisgas apontadas a canhões. Fiquei sem mãos, sem forças, sem palavras. Nem me ocorreu o que era suposto fazer-se. Virei a cara e só não fugi porque nem os músculos me obedeciam. No dia seguinte, a minha santa mãe perguntou-me em jeito de censura por que razão eu não tinha cumprimentado a minha prima, que também andava nos estudos. Foram dias de morrer. Foram noites de verão perdidas para sempre. Quando regressei a Vila Nova, não demorou muito o primeiro retiro. Ao terceiro dia não ressuscitei. O pregador de serviço, quiçá suspeitando da minha obscuridade pecaminosa, mostrou do alto do púlpito o próprio inferno. E dei-lhe absoluta razão. Que é que tu pensavas, ó meu? E ocorre-me de novo a palavra joelhos. Explodem outra vez junto ao adro. Mas agora com mais intensidade. Admito que eu vi qualquer coisa mais do que uns joehos de cedro. É a derrocada total. Para isto é claro não há perdão. Irei assumir as minhas responsabilidades e direi aos meus superiores. Não disse nem assumi. Preferi ficar de noite a curtir remorsos e a ouvir sonhos sonoros no dormitório. Fiquei sem fala nem alegria. E sem futuro, nem dentro nem fora da instituição. Foi o tal silêncio cerrado. E a hipótese da loucura. Bem, como toda a gente, eu safei-me por uma unha negra mas safei. Depois fiz uma vida equilibradíssima. Traumas? Nem por sombras! Quando saí, tinha o mundo aos meus pés. Raparigas era comigo. Namorei dezenas até aprender como elas eram por dentro e por fora. Despi, vesti, amei, esqueci, dancei até cair para o lado. Quando casei, só podia ser uma princesa, boa herdeira e com todas as peças no sítio. Não admira que tenhamos sido bem felizes, graças a Deus, com vários filhos, já hoje bem orientados na vida. O mais velho é arquitecto, que muito vai dar que falar. A rapariga é uma investigadora notável. O mais novo está a acabar biomedicina. Eu e a minha esposa aguardamos a aposentação mas em rigor até poderíamos viver apenas dos rendimentos acumulados. Nem mais! Quem nos devolverá o que tão cedo nos foi tirado? Quem nos enchugará a chuva outonal, a bater-nos no rosto, quando descobirmos que o amor nos morreu oficialmente no dia cinco de outubro, às cinco da tarde? Culpas? Não perguntem! De que vale ao homem explicar-se se a vida é uma bola de neve, a rolar pela memória abaixo até aos amieiros da infância?
2010-08-05

Arsénio Pires - Porto

Carta ao “Antigo Aluno Redentorista que aqui nunca escreveu” secundum Aventinus.

Sabes, tu que nunca escreves, porque nunca escreves? Sabes?
Eu, que aqui tanto escrevo, não sei porque escrevo.
Ou melhor, até sei.

Escrevo coisas como se fossem poemas
e escrevo também prosas contra o comunismo como se ele fosse da minha terra,
escrevo contra a decrepitude da hierarquia da Igreja católica como se ela tivesse salvação,
escrevo contra a injustiça dos homens como se eu tivesse a ver alguma coisa com os outros,
tenciono até escrever sobre o paraíso da Coreia do Norte
mas não me atrevo a ferir mais a sensibilidade de quem me merece todo o respeito
e amizade,
e ainda queria escrever sobre, olha, não sei sobre quê nem para quê.

Andei bem mais de meia vida à procura do mal e não o encontrei.
Procurei-o na aldeia e não estava lá.
Procurei-o na família e não estava lá.
Procurei-o na escola e não estava lá.
Procurei-o no seminário e não estava lá.
Procurei-o na tropa e não estava lá.
Procurei-o na empresa e não estava lá.
Procurei-o na minha casa e também não estava lá.

Um dia caí de mim abaixo e encontrei o mal.
Estava dentro de mim.
Debaixo da minha pele.
Desde então só me apetece escrever. Mas ele não sai. Continua cá.

De maneira que, meu caro, no fundo admiro e invejo a tua atitude.
Se calhar vou fazer como tu e venho aqui só para espreitar o que os outros escrevem.
Talvez isso seja o bem.
Quem sabe?
Quem?

2010-08-04

AVENTINO - PORTO

FALA (IMAGINADA) DO ANTIGO ALUNO REDENTORISTA QUE AQUI NUNCA ESCREVEU

Todos os dias aqui venho. Espreito, leio-vos e prendo-me à voz das vossas palavras, a vós que neste "FALE CONNOSCO" escreveis. Também eu já quis escrever e tantas vezes comecei e outras tantas vezes desisti. Também eu já aplaudi aqueles que dizem sim e aqueles outros que dizem não; os que permitem e nunca os que proibem.Convosco regressei à memória de um portão, uma palmeira, a mala na mão e a clausura do silêncio. E convosco chorei a mácula que carrego de um "tão cedo me levaram da casa dos meus pais".

Já tive alma e fé; coerência e verdades; sentimentos e opções. Hoje sou a própria contradição:vivo entre mim e o meu contrário, entre o abraço e a repulsa, o querer ir além e o não querer coisa nenhuma. Fui feliz quando não sabia o que era a felicidade e, hoje, se sou feliz, é apenas porque já não busco felicidade alguma.

Houve um tempo em que vivi com um companheiro e, nesse tempo, isso era-me bastante. Sentávamo-nos na pedra fria da soleira da casa de meu pai e tudo discutíamos. O meu companheiro chamava-se Pensamento e eu e ele éramos a frente e o verso de uma eternidade. Hoje já só quero o nihil, o vazio e a ausência como os versos de "Fernando Pessoa":"ai que prazer ter um livro para ler e não o fazer".

Não vos escrevo, pois, porque não sou nada nem tenho nada e, mesmo tendo-o, tenho ainda todos os medos: dos padres e dos deuses; do pecado e da culpa; das mulheres e do sexo; do inferno e da amizade; de todos os pai-nossos e avé-marias.

Tenho medo de que me faleis de sonhos e humanidade, de bondade e de tolerância, de um reino maravilhoso ou de uma quinta grande onde nos mataram o amor.

Medo de que algum de vós me tire deste lugar tranquilo onde namoro as rosas, "porque as amei na infância".

2010-08-01

manuel vieira - esposende

Ora viva Agosto... ou a gosto!

O nosso amigo Assis vai acompanhar o nosso Padre Henri e voltar a vivenciar o ambiente de pobreza  em Vila Velha-Fortaleza, onde a organização potenciada pelo advogado José Airton pretende e se esforça por gerar melhores condições de vida,ali  onde a carência extrema vive porta com porta, com os muitos problemas sociais que estão associados.

O Movimento Emaús-Vila Velha procura criar condições de ensino básico na Escola padre Henri, condições mínimas de saúde e de salubridade.

Presenciar a pobreza, a penúria de bens essenciais e viver no seu seio é uma experiência de vida que só alguns aceitam suportar. É preciso grande coragem, determinação e sensibilidade pelo próximo e as expressões do Assis quando fala da Igreja e do poder enraizam-se nessas vivências sentidas. Os mantos de seda, as mitras e as poltronas magníficas em nada condizem com os princípios cristãos e são meros sinais de poder e riqueza, de ostentação.

Mas é bom sentir o entusiasmo dos que assumem enfraquecer a pobreza com o seu esforço e coragem. Mas isso será viver a vida a...gosto? Penso que sim pois o prazer de viver assenta na satisfação do que se faz e a dedicação aos outros, pesem os sacrifícios, compensa o esforço da missão que se assume.Obrigado Assis por seres assim, percebendo eu quanto a família é penalizada. Um abraço.

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