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2010-08-11

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

Eis-me de volta de umas mini-férias passadas numa casa de turismo rural, para fugir á poluição sonora aqui dos meus lados e também para descansar e meditar. E eis-me, assim, quase transformado em agricultor. Resolvi pôr em dia a leitura do nosso site e fiquei deveras deliciado com as prosas do Aventino, do Alexandre e do Arsénio; todas magníficas.  Claro que me fizeram também recordar tempos do meu tempo. Lá na casa rural existia um pátio no meio do qual medrava uma videira já muito antiga, disseram-me que da época dos trisavós do actual proprietário, uma cepa única, tão grossa como o tronco de uma árvore de meio porte, cujas vergônteas serpeantes como os cabelos da medusa, sustentavam e enchiam uma latada de vinha "moranga" de mais de cem metros quadrados, gerando uma refrescante sombra nestes dias de canícula. Mesmo assim, através de falhas na ramagem, escoavam-se raios  de sol que faziam  o chão malhado com pequenas manchas de luz. Convidava, como se diz no jargão popular, a "ferrar uma galhada". Era o que acontecia em tardes de silêncio e paz. 

E então vi-me um rapazinho pequeno, quase ainda de cueiros, aparolado, a entrar na quinta da Barrosa pela mão do meu pai, num mundo novo e desconhecido. Afirma o Alexandre no seu tópico que "o amor é contínuo"  e diz não perceber por que ele tem tantos intervalos. Mas eu digo que não: o amor deverá ser contínuo mas só depois de começar. Porque, como escreve Erich Maria Remarque no seu famoso livro "zeit zu lieben und zeit zu sterben", há um tempo para tudo, mormente tempo para amar e tempo para morrer. Mas eu acrescento; tempo também para crescer, que deve ser o primeiro. E nesse meu tempo de seminário não havia ainda tempo para amar, só para crescer, nem tempo sequer para férias, nem para imaginar o que seria um primeiro beijo. Ah! Mas eu gostei dessa época; fui assimilando valores fundamentais e - "… nunca fiquei com quaisquer medos, nem de padres nem de deuses, nem de pecados nem de culpas, nem de mulheres nem de sexo, nem do inferno nem da amizade, nem de pais-nossos ou avé-marias,"-como confessa o nosso colega Aventino. Depois apanhei-me crescido e então sim, apareceu o amor: mulheres de todos os feitios, esbeltas e elegantes, rechonchudas e pequeninas como a sardinha, com joelhos cruzados e descruzados, com maminhas pernósticas e virginais como maçãs do paraíso, com cabelos lascivos ou nem tanto. E todas elas não rebentaram só nos meus olhos; estoiraram no corpo todo como bombas nucleares provocando ingentes devastações. Mas, como as paixões são como as ondas do mar que atrás de umas vêm outras, lá surgiu aquela que seria a última e aí começou o amor contínuo, constante, infinito. Continuava a dormitar e, depois disso tudo, pareceu-me ver,  de repente, um casal de velhinhos de mãos dadas a subir tropegamente a encosta duma acentuada colina. Chegados ao cimo, pararam, perscrutaram a distância e esperaram. Estavam á espera de quê? Possivelmente de serem tele transportados para alguma nave espacial que os conduziria a um local de paz, algures na Dimensão do Firmamento sem fim, onde o Amor nunca iria morrer.

Acordei!

2010-08-11

Peinado Torres - PortoBom di

Bom dia companheiros Hoje, quando resolvi abrir o computador para escrevinhar umas coisas, deparei-me com um texto do nosso presidente MANUEL VIEIRA, que trata exactamente o tema que eu me propunha dissertar. Bem, como não sou rapaz para desistir, pelo menos vou relatar o meu primeiro encontro com o AVENTINO. Foi o saudoso BENJAMIM PARRA que num encontro casual na rua me falou da nossa associação e me convidou para um jantar com várioos colegas. O local era o Restaurante Regaleira. Fui, encontrei lá o Rev Padre Faustino, o Assis, O António Barros e mais 2 ou 3 de cuja memória não se me ocorre. Passado uns anos, num encontro anual que se realizou em VILA NOVA DE GAIA, precisamente na quinta da Barosan o palestrante foi o AVENTINO, e francamente gostei do que ouvi e fiz o meu juízo do HOMEM. Agora ao ler este seu escrito penso que li um POEMA e mais não digo. A prosa do ALEXANDRE é magnifica, bem como a do MARTINS RIBEIRO. Por último uma palavra de grande apreço ao ASSIS pela missão que vai desempenhar. Será bom que a familia REDENTORISTA não se esqueça do Rev Padre MARINHO, grande obreiro da construção do Centro de Caridade Nossa Senhora do Perpetuo Socorro. obra de grande dimensão social que miuti honra a população do Norte, miuto especialmente o PORTO. Voltarei.
2010-08-11

manuel vieira - esposende

Amanhã, quinta-feira, o nosso colega Assis ruma a Vila Velha-Fortaleza e acompanha o Padre Henri no seu regresso aos locais de pobreza gritante, à favela. Será um estágio repetido em cenários reais de carências muito graves e o seu apelo à solidariedade que comuniquei aos colegas da AAAR tem tido uma boa resposta  e vai continuar a ter, na certeza que o "gota a gota" custa pouco a cada um e tem normalmente um resultado global satisfatório. Vai certamente contribuir para aliviar algumas carências e é importante que a nossa solidariedade fique demonstrada com objectividade, pois muitas vezes apercebemo-nos de que na hora de dar se geram mecanismos de recusa.

Ao sorriso do Assis e do Padre Henri vamos juntar o nosso contributo e esse desafio não termina com a partida destes 2 nossos colegas da Associação a caminho da pobreza pois a conta está sempre aberta.

Também o nosso colega Luís Guerreiro e esposa partem  amanhã para Brasília depois das férias habituais em Gondarém e este ano conviveram em Gaia e em Palmela com outros colegas.

2010-08-10

MANUEL VIEIRA - esposende

A criatividade literária tem aqui os seus mestres e se por vezes a interpretação que possa ser feita nos leve a supor algo de biográfico, o último texto do nosso colega Ribeiro anda longe disso, tanto quanto sei, o que já contrasta certamente com os cenários pintados sobre as musas e as dunas ofegantes.

Também a carta do Arsénio mostra a criatividade que lhe é peculiar e é representativa dos cenários familiares reactivos  que se foram repetindo nos percursos de vida e aí não sei se terá equivalência biográfica.

Muito interessantes as intervenções do Aventino e do Alexandre e também do Arsénio, que nos habituaram já à busca profunda nos seus ais.

Espero que a partilha destes saberes estimulem outros colegas a ímpetos de escrita pois somos manta de recursos.

2010-08-08

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

 

 

 

 

                                             SOMBRAS VIVAS



           Eu tinha uma menina de cabelinhos  loiros como fios de oiro que o sol deixasse desprender da sua infinita distância, oiro macio e reluzente, criança de olhos redondinhos, espelhos onde coriscavam diamantes, onde bailavam fadas de vestes vaporosas, olhos onde se esparramavam girândolas coloridas nas noites de festa da minha acidentada existência.  Era uma boneca das mais lindas e perfeitas, mais belas e bem feitas que aquelas das montras feéricas.  Foi o meu delicioso amor de outrora, fruto doutro amor longínquo e que se perdeu no negrume dos tempos.

          Ora, num belo dia em que o céu era mais límpido, ou noite em que as estrelas eram de uma luz mais diáfana,  não sei bem, num dia em que o sol era mais macio, dia de imaginação de bom poeta, senti bater à porta.  Pancadas secas, rápidas, fortes!

          Fui abrir e caí, estarrecido, ante um monstro horrendo e feroz.  Era um enorme esqueleto vestido com um manto negro e na mão sustendo uma gadanha afiada e medonha.

          Quem és?   Bradei...

          A resposta  foi dada com tom rápido, cavo e sepulcral:

          Sou a Morte!

          E que queres?  Porque vens perturbar a minha paz e enegrecer estes felizes dias da minha vida, limbus maldito?

          Depois, com acento inquiridor e sarcástico, retorquiu:

          Não tens uma menina de cabelos de oiro e de olhos brilhantes e reluzentes?

          Oh! Tenho, tenho...

          E com voz de além-túmulo, fria como o vento glacial das montanhas:

          Venho buscá-la.

          Não, piedade, não, antes a mim, antes a mim que sou pecador!

          Caí de joelhos, implorando, entre choros de fatalidade:

          Perdão, agora não, é o meu tesoiro, a minha vida!

          Porém a Morte continuava arrogante e silenciosa.  Estendeu-me um cartão onde em letras negras como fuligem do inferno se lia a fulminante palavra:

         LEUCEMIA

         Desapareci no abismo do desespero, mas lá do fundo reagi com raiva, furibundo, transtornado.  Rasguei o cartão e tentei lutar contra o monstro. Corpo a corpo não podia. Então dei-lhe venenos, medicamentos, injecções, transfusões de sangue.

         Depois, num arreganho:

         Hei-de vencer-te, Morte, hei-de vencer-te!

         Ah!  Mas ai de mim!  O monstro começou a rir com gargalhadas sarcásticas, casquinantes, batendo as queixadas ósseas num matraquear cínico e aterrador.  Era como aqueles monstros do cinema moderno que comem balas como quem saboreia um bago de uvas ou se alimentam de cianeto e estricnina.  Empurrou-me com um encontrão de desprezo, desse desprezo que deriva da força e do poder e correu direito à minha boneca de cabelos de oiro e de olhos brilhantes e reluzentes. Arrebatou-a do berço com os dedos esqueléticos, escondeu-a no manto negro e sumiu-se.

                                      

                                                         

                             

      Nesta altura, ouvindo uma sinfonia gravada, música celestial e repousante, deparei com um frasco de remédio pousado sobre um móvel e que ficara ali desde o rapto da minha menina de cabelos de oiro e de olhos brilhantes e reluzentes.

         Armas contra a Morte?

     Sorri-me então desse disparate, dessa loucura!

         E entre arpejos de melodias e espirais de fumo dum cigarro fui transportado até a um mundo distante e misterioso, mundo longínquo onde se confundiam recordações dolorosas com pensamentos indecisos do tempo presente. Mundo de espectros e visões indistintas de anjos e demónios.

          "Leucemia, glóbulos brancos e vermelhos, sangue!

           Cancro, assassino asqueroso e traidor, febre,  glóbulos outra vez!

 Pastilhas, comprimidos, agulhas, injecções, olhos ansiosos e feições sorumbáticas de médicos calados em expectativa, batalhões incontáveis de todo esse grande exército que luta, em vão, contra a Morte.

           Depois mais sangue, mais glóbulos vermelhos e brancos, faces lívidas de moribundos, desespero na luta, frenesí, raiva e impotência, gargalhadas pungentes e gritos angustiosos.

           E cancro, cancro, cancro de novo...

           Comprimidos, xaropes, leucemia!"

           A seguir uma escuridão, uma tontura e um desesperado e  furibundo anelo!...

           Dei um salto na cadeira e despertei dessa macabra recordação.  

           Queria ser poderoso, mais poderoso que todos os reis da terra e do céu só para poder matar a Morte.

            Mas, oh loucura, não entendia que era o mesmo que querer queimar o Fogo.

            E sorri de quanto era ridículo o meu desejo.

            O cigarro acabou e enquanto esmagava a ponta de encontro ao cinzeiro o braço mecânico do gira-discos automático encerrava também a melodia sinfónica.







                                      

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