fale connosco


2010-08-31

Alexangre Gonçalves - Palmela

Caros Gaudêncio e Arsénio: Obrigado pela vossa reacção. Não esperei de modo algum pelo vosso acordo. Direi até que me esforcei por merecer a vossa divergência. O silêncio dos outros falantes, tão generosos a elogiar os alvarinhos e os imaculados cordeiros dessas paisagens, demoliu com a sua indiferença o nome de Antígona, ela que na voz, na beleza melancólica do rosto, no tremor das suas melodias, e até na pureza da sua respiração, afrontou a lei e o poder em nome do povo donde vinha. Talvez um dia isto fique mais claro e mais persuasivo. Quanto a vocês, entendo os vossos pontos de vista, até porque já foram os meus. Há na vida obstáculos de ordem epistemológica que obstruem , na maior das inocências, a transição para o outro lado do rio. Eu tenho na memória uma carreira cancerosa, que atravessava toda a Beira Interior para chegar a minha aldeia. A paragem, junto ao adro da igreja, era precedida por uma curva e uma rampa íngreme. Ao aparecer nesse esforço mecânico, ela roncava estrondosamente, o motor expelia uma fumarada agonizante e todo aquele metálico volume vinha coberto de pó. Ela vinha de muito longe...Eram setenta quilómetros pavorosos, que, para serem vencidos, precisavam de quatro imensas horas. Depois era o ritual do costume. O motorista e o revisor, em solidariedade com aqueles cavalos extenuados, caíam na tasca do Manata e só regressavam depois do motor ter tido o respectivo repouso. O revisor, também ele revigorado e redondo como um pipo, puxava a manivela até o estrondo se ouvir. O motorista assumia as funções de comandante de um navio e arrancava vitorioso e arrogante pela estrada acima. Foi num monstro destes que eu fui para Vila Nova e noutro igual que eu circulei pelas estradas de terra batida até Castelo Branco. A carreira passava pelas aldeias, as mães vinham despedir-se, punham as mãos debaixo do avental e encostavam-se às paredes de granito velho. A camioneta levava tudo, os maridos já tinham fugido, os filhos eram despachados ao ritmo do seu crescimento. As mães ficavam a segurar as paredes, com uma das mãos disponível para acenar um adeus definitivo e a outra para recolher uma lágrima na ponta do avental. Tudo isto me veio à boca, ao ouvir a Amália desse tempo. É um tempo de fome, de campos rapados, de mulheres que vão à ribeira a lavar, que vão ao graveto nos montes. São mulheres cheias de frio, cujo coração foi forçado a ficar viúvo muito cedo. Em consequência, o rosto trigueiro é mortalmente ferido pela paisagem e confunde-se muito cedo com a cor e a dor dos brutos elementos. Algum tempo depois é o corpo que cede e envelhece abruptamente. Sobra-lhes uma alma póstuma, que vai assistir à decadência geral do universo. O meu país partiu para todos os lados. Ninguém é de lugar nenhum. É por isso que as nossas casas têm olhos vazados. E uma tristeza ontológica, que corre nas veias portuguesas. Tudo isto me vem à boca e me cresce em forma de raiva, quando Amália canta. Omito a palavra fado (ou fatum). Estão manchadas de cargas negativas e sob essa capa de "canção nacional" esconde-se muita mediocridade e muita miséria. O estado novo tinha o condão de envenenar os objectos onde tocava. Um deles foi sem dúvida o fado. O PREC, onde estive mergulhado até à medula, não fez melhor. Essa canção sobreviveu nas mãos de editores gananciosos, que apesar disso protegeram e estimularam algum desenvolvimento. Hoje, na democracia possível, mas livres de alguns radicalismos de época, podemos tentar ouvir de novo (ou quem sabe pela primeira vez) ou a Amália ou outros nomes sérios que estão numa profunda renovação/revolução dessa música étnica, genuinamente portuguesa. Os textos são cada vez mais elaborados, assinados por nomes como Davide Mourão-Ferreira, Alexandre O"Neill, Sofia de Mello Breyner, V.Graça Moura, e muitos outros. Como em tudo, é preciso escolher e dar o benefício da dúvida. E ter a humildade de ouvir. Não morro de amores por tudo o que se canta com esse nome. Mas já fui sacudido até ao limite por audições surpreendentes. Cito um clássico de Amália, cantado primeiro por ela e agora numa gravação de Ana Moura. O poema acaba assim: Já não temos fome, mãe. Mas já não temos também o desejo de a não ter. Já não sabemos sonhar, já andamos a enganar o desejo de morrer. Ana Moura (Guarda-me a Vida na Mão, faixa 15) Não quero converter ninguém. Mas defendo que nem só de CLÁSSICA vive o homem. E estas melodias efémeras exprimem as nossa efémeras alegrias e tristezas. E projectam esperança para o dia seguinte. E mordem no coração de um país desorientado, apagado e enganado por lideranças vadias , sem grandeza nem mérito.
2010-08-27

António Gaudêncio - Lisboa

Tenho estado bem quieto e caladinho mas, de quando em vez, acho que faz bem intervir nestas conversas. E hoje vou ter a ingrata tarefa de me pronunciar sobre os escritos de dois bons e grandes amigos: o Alexandre e o Arsénio, tarefa complicada mas ao mesmo tempo simples pois, o facto de tomar partido por um deles, não implica uma menor consideração pelo outro.

Rendo-me à beleza e à leveza do texto do Alexandre. Simplesmente admirável. Mas já não o acompanho no seu amor pelo FADO. Desde sempre ( isto é: desde que comecei a analizar o mundo que nos rodeia e condiciona ) me conheci a nutrir uma aversão forte a tal género de cantigas.Creio que o meu desamor pelo FADO se deve mais a razões intelectuais e menos a razões estéticas. 

Considero o FADO uma canção doentia que só faz curso porque ou somos fatalistas, ou tristes ou com tendência para estados mórbidos.

A despropósito, tive uma namorada espanhola a quem impressionava a tristeza genérica do povo português, que, segundo ela, se manifestava pela música e, essencialmente, através dessa coisa menor a que chamamos FADO

O FADO teve uma grande expansão durante o Estado Novo, tempo em que três "F" foram preponderantes no adormecimento colectivo do povo: Fátima, Fado e Futebol, trio que eu, por minha conta e risco, traduzo por Fátima , Fado e Bola, por me soar melhor. De Fátima já não falo; da Bola também não me parece haver interesse em dizer seja o que for. Resta o Fado.

Já era tempo de fazer uma declarção de interesses: não gosto de FADO. Essa mania que os fadistas têm de chorar as dores deles e as dos outros não me cai bem e, menos ainda, quando alguns lhe chamam a "canção nacional" Não me revejo naqueles letristas menores que rimam amor com flor, coração com paixão, ciúmes com dor de corno etc, etc. O FADO é uma expressão musical, tipicamente lisboeta, que nasceu e se foi impondo num ambiente onde a negrura da vida diária convidava aos copos de tinto, para esquecer, e onde os amores perdidos ou não correspondidos deviam fazer parte das preocupações dos moradores daqueles bairros que, pelo que vê hoje, já teriam então uma  qualidade de vida pouco famosa.

Reconheço, no entanto, que AMÁLIA, é um nome incontornável neste País pequenino e que gosto de algumas canções dela, assim como gosto de algumas canções ( fado-canção? ) do Carlos do Carmo, sobretudo de algumas editadas num disco chamado " O HOMEM DA CIDADE " em que a quase totalidade das letras são desse ( grande ) poeta Ary dos Santos, hoje quase esquecido.

A propósito, lembram-se do Tony de Matos,fazendo uns esgares trágico-cómicos, a cantar : "Procuro e não te acho"? Hoje , depois da invenção do Viagra, ele, se calhar, já acharia qualquer coisa..... Ah! Ah! Ah! Ah!. ( Riam-se, caramba, se não fico com a cara à banda )        

2010-08-27

Arsénio Pires - Porto


Caro Alex:

O teu belo texto (literariamente falando) acordou em mim um velho “ódio”. Tenho que deitá-lo fora. Aí vai.

Eu, que nunca fui de extremos, vou aqui vociferar até enrouquecer contra o tal de FATUM ou FADO.
Curioso! Nos tempos de PREC, eu que já na altura era do centro, tive que ver e ouvir homens guedelhudos e mulheres mal “ajambradas” proclamarem a contra-revolução do tal de FATUM ou FADO. Tudo o que cheirasse ao “povo que lavas no rio/as tábuas do meu caixão”, apanhava logo uma rajada de G3. A tal senhora Amália quase que foi enforcada na Praça da Figueira!

De repente, toda a minha gente (os homens e mulheres do PREC incluídos!) puxa da viola e da guitarra e… “bora prá Festa do Avante”!

Hoje, todo o mundo carpe o tal de FATUM ou FADO.
Ele são novos e velhos!
Ele são velhas e novas!
Até o Prince vem ramelar na Mouraria!

Ele são mulheronas de faca alantejana e alguidar de Bisalhães.
Ele é o carpir amores mal acabados com o forte duplo peso no frontispício.
Ele é o arranhar constante da garganta na impossibilidade de fazer alguma coisa na vida para além de andar de dia no gamanço e à noite afundar na tasca!
Penso até que o Velho do Restelo ia, noite fora, cantar o tal de FATUM ou FADO nas vielas do Bairro Alto.

Haja paciência!
Assim nunca mais combatemos o défice!

Abaixo o FATUM! Pum! Pum!
Morra o FATUM! Pum! Pum! PUM!

2010-08-26

Alexandre Gonçalves - Palmela

Ainda raso de lágrimas felizes,quero lavrar aqui nesta fala um nome. Faço-o por mim e por todos os que , talvez como eu, sem culpa formada o ignoraram por muito tempo. Tendo nós sido recrutados nas franjas mais obscuras do mais obscuro povo, como foi possível tanta distracção, tanta manipulação, tanta obstrução aos nossos mais genuínos sentimentos? Tenham calma que eu explico. Quando era tenro e moço, sim porque até eu já fui moço e tenro, que o diga a menina que se despediu por detrás de um reposteiro, eu era uma vedeta musical no quintal da minha aldeia. Quando vinha o inspector distrital e a respectiva companhia, eu e o António tínhamos quatro canções para brindar suas excelências, a pedido da professora. A nossa fama de cantores subiu pelas noites de luar, nos balcões da rua direita. Depois parti para vila nova. Nos primeiros dias, há um concurso para selecção de vozes. Candidatei-me nervosamente, na convicção de dar um pequeno passo para os outros e um gigante para mim próprio. Microfone na mão, uma tossidela de aclaramento e a minha rústica voz ecoa triunfante no céu do salão. Era uma idílica melodia, mais branca do que a farinha da morena moleira que vinha do rio. O refrão, onde eu expandia os meus surpreendentes recursos vocais, acabava numa bem sucedida declaração de amor, como é próprio. As autoridades locais, num zeloso alarme (alarve?) de perigo, nem me deixam concluir. Uma voz docemente pedagógica esclarece-me que o meu talento é de guardador de cabras ou de plantador de couves. Não era nem uma coisa nem outra, como se veio a provar. Mas essa sentença foi de amargura e apeou para sempre o meu voo musical. Ora trago aqui essa narrativa para sugerir uma resposta, claramente parcial, à questão do dito nome. A Dois acaba de emitir mais um progama de uma pequena série sobre o FATUM, o destino trágico de um povo que vinga em canções tristes a sua humilhação e a sua telúrica dor. Esta noite foi a voz, o retrato, a alma. Foi Amália inteira, um país inteiro, um mito inteiro e fundador duma nação. Ao revê-la hoje nas décadas de cinquenta e sessenta, num grito profundo que vem dos confins da Beira Interior, tive que chorar. E ocorreu-me que nesses anos os nossos ouvidos não ouviam, os nossos olhos não viam, os nossos sentidos não sentiam. E até a nossa boca não falava. Música? Sim, senhora! Mas apenas a que fosse imaterial e nos levasse directamente para o céu (dos pardais). Fado rimava com pecado e pecados já tínhamos de sobra. Porque o demónio andava mais perto de nós do que os anjos. E o fado de que é que falava? Na altura, para acautelar as virtudes, não sabíamos. Mas agora fica tudo mais claro. Nada tão perigoso como o amor. E parecia que os textos não saíam de pieguices amorosas. Ouvindo hoje Amália, é um povo imenso que chora na sua voz. Que se está sempre a despedir nas paragens dos autocarros, nos cais dos navios, nas estações dos combóios. Que vai às romarias a cumprir promessas infinitas. Que acumula um capital de saudade, porque os afectos estão a morrer. E porque este reino velho não tem emenda nem sabe proteger a esperança. Também as lágrimas são revolta. E o FATUM foi muitas vezes o refúgio da subversão possível. É a nossa maneira peculiar de fazermos uma cultura étnica original, porventura única. Aqui lavro tardiamente o teu nome, AMÁLIA, e gostaria que isto fosse pedra, para que a memória colectiva demolisse os seus ancestrais preconceitos e te reconhecesse o título de GLORIOSA MÃE DO PORTUGAL do século vinte (1920-1999).
2010-08-26

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

Caros amigos:

Peço-vos que se, porventura, o achardes descabido ou inoportuno, me desculpeis o que vou dizer neste tópico. Não pretendo iniciar qualquer polémica nem a alimentarei por nenhum motivo, pois tudo já é passado. Só que as convicções permanecem e entendi fazê-lo porque uma revoltante indignação me deixou deveras transtornado.  Admito que será um assunto muito sério e fora do contexto deste espaço mas, quanto mais não seja, considerai-o como um grito no deserto. Aqui há meia dúzia de anos atrás, e quando o tema do aborto estava na sua furiosa pujança, tive uma discussão de café com um rapaz amigo, comunista convicto, de inabaláveis ideias esquerdóides. Lembro-me de que, após acalorada e irracional discussão, com alguns gritos incoerentes á mistura, eu terminei com a seguinte frase em jeito de axioma: "… caro amigo, ao menos concedam á criança o direito a que ela nasça e, se não a quiserem, torçam-lhe então o pescoço, porque matá-la na barriga da mãe, será o mesmo que ser morta depois de nascer. Mas tem a vantagem de, ao menos, lhe terem concedido esse justo direito". O "falso" amigo atirou-se a mim como gato a bofe, mimoseando-me com insultos e epítetos impronunciáveis. Depois, mais tarde, lá veio a lei:  "...pode-se abortar á vontade", passando á frente de tudo, com as respectivas despesas pagas pelos impostos de todos,  que tal não é crime nem ninguém será preso. Após a consumação tudo se calou, tudo se conformou e veio o silêncio. 

Vem isto a propósito da notícia  que hoje li num jornal, de que uma mulher tinha matado o seu filho depois de o ter deixado nascer. Entendo que foi mais "honesta" no seu acto porque, acima de tudo, não foi cobarde e lhe pôde ver a cara, comprovando também a minha afirmação. Porém, o que me indignou e me levou a escrever este texto, foi a miserável hipocrisia da dita lei feita por verdugos que, para um acto exactamente igual, tem outro peso e outra medida. Deus lhes perdoe!

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