fale connosco


2010-09-10

manuel vieira - esposende

Confesso que aprecio bem o fado, mais o de rua sob os candeeiros mortiços e a bruma da intimidade do grupo. Em Fão, onde nasci e onde aqueci muitas noites nos pátios dos largos do casco urbano da velha vila, apreciei a canção e as cantigas das velhas revistas acompanhadas da guitarra e dos violões dos amigos. Ainda o ano passado corremos os pátios de Fão a recordar a via sacra de outrora e largas dezenas de pessoas espreitaram um pouco da vida mundana acompanhando os trinados repetidos na noite.Acenderam-se tochas tão na moda e apreciou-se também o silêncio. Os ritmos variaram e cantou-se à desgarrada com sorrisos. As moças vieram à janela e namorou-se à antiga.

Em Fão estas tradições ainda se repetem e o povo canta em uníssuno as cantigas de outrora. A guitarra do Mário Belo com 87 anos ainda se ouve, por vezes já trôpega, mas com graça.

Quem não quer saber das guitarras por estes dias é o nosso amigo David, que foi sujeito na passada segunda feira a uma intervenção cirúrgica no hospital dos bancários e tem para uns tempos pois o pós operatório é normalmente muito incómodo.

Tenho conversado com ele e faço votos que se recomponha depressa pois temos umas contas gastronómicas para ajustar. Um abraço grande para ele.

2010-09-05

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

Dado que ninguém mais "cantou o fado" neste site, ou não o quis cantar, que é o mais certo, apareceu este último texto do Vieira o qual, e dada a categoria do mesmo, não posso deixar de assinalar. É uma pequena e magnífica prosa  que consubstancia de forma admirável um perfeito epítome  da história da nossa dita canção nacional. Uma pequena pérola. Há quem goste muito e também quem goste pouco do fado, mesmo até quem o deteste, mas  isso é uma irrelevante questão de gosto e cada um tem o seu. O que interessa é, como muito bem diz o Vieira, ter uma música própria para ouvir nos bons momentos da vida, seja ela um trepidante malhão ou um vira ou, se tiver que ser um fado, que ele seja um fado gingão. Não sei se a broa tem côdea muito dura que aleija os dentes mas, se esse  for o caso, que isso não nos impeça de falar, mesmo que seja com a boca cheia.

Abraços e … aparecei!

2010-09-05

manuel vieira - esposende

Apreciar o fado deve ser no silêncio da noite,diz-se. Ele canta o sofrimento, a saudade, o amor perdido, a desgraça, o amor e ciúme, o destino. Falamos do fado menor, sem a menoridade do termo, talvez cantado pela cigana e prostituta chamada Severa, essa cantadeira de fado também instrumentista que fazia chorar as guitarras.

Esse fado típico, hoje produto turístico e que se desenvolveu nas tabernas e nos pátios dos bairros da capital estava também associado à boémia e teve vários nomes desde fado castiço, fado vadio ou fado corrido e embebia-se de emoções e néctares e os seus conteúdos não eram de intervenção social.

O fado moderno teve apogeu com Amáliae e passaram a cantar-se os grandes poetas como Camões, Fernando Pessoa e outros figurões das letras.

O fado de Lisboa, o fado de Coimbra sairam da rota da fatalidade e procuraram por vezes ser fatais no contexto socio-político.

Mas aquele que era um produto barrado pelas fronteiras excedeu barreiras e Mariza, katia Guerreiro,Camanés e outros deram ainda mais folego a esta canção urbana.

O fado vive-se como se ouve e a guitarra chora quando chora e ri quando ri e entender o fado é mais que a interpretação da nossa alma no momento do trinar.

A desgarrada tem tanto de humor como de sarcástico e explode por vezes em dinâmicas que contrariam o sentimento fatalista. Ouvir o fado é certamente bem diferente de ser fadista e quem canta encena e contracena com o seu público. A melancolia desta canção é apreciada em certos momentos e esquecida em cenários do folclore, pelo Malhão, pela Chula  do Minho, pelos Sargaceiros de Apúlia ovacionados pelo Pedro Homem de Melo, pelos Pauliteiros de Miranda, estes sim reflexos de um povo.

Vamo-nos deixar destes preceitos tristes que mais projectam as nossas personalidades  e embrenhemo-nos nas suas origens boémias  de bordéis e tascas, aplaudamos as divas do fado recente e encaremos a parte sem estender ao todo, e aí sim, amesendemo-nos com fartos canecos de alvarinho e nacos de cabrito de Monção, pois o que é bom tem música e sincera devoção. E deixemo-nos de silêncios quando a broa não agrada.

2010-09-01

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

Os panegiristas de certos néctares e de cabritinhos, (não cordeiros, que esses, ignorância bucólica, não saltam entre as fragas das serranias, antes pastam na verdura dos campos), silenciam os temas profundos como os do fatum, simplesmente porque estes nem sequer lhes arrascanham a alma. Confesso, no entanto, que o texto do amigo Alexandre é tão esplendoroso literariamente que vale a pena lê-lo. Só por isso que, no resto e espremido no seu conteúdo, é uma prosa inane, donde apenas escorrem fluxos de mensagens catastrofistas, pessimismo e descabidas lamentações. Entendo que estarão bem inseridas nesta noção de "fado".  Eu igualmente provenho de um povo como o de Santo Estevão, com igreja e adro semelhantes, a minha santa mãe que Deus tem, também tentava segurar o muro da fatalidade com uma mão, limpando com a outra grossas lágrimas pela minha partida. Mas, logo depois, a luz e o calor do sol voltavam mais genuínos e mais puros e o curso da vida prosseguia de forma natural e sem esperar pela regeneração de qualquer motor. Nunca gostei das execráveis canções desse tempo, nem de Amálias, nem de fadistas, muito menos, em épocas mais recentes, de canções abrileiras ou revolucionárias. Prefiro antes a modorra e a doce sensualidade dum tango.  Abomino a chinfrineira actual que não passa de gritos ululantes e satânicos de seres alienados por frustrações e drogas, congeminadas por mentes geradas no esqualor  do desespero e da loucura. Por isso, não é com silêncio que se estará a demolir Antígona e sim porque tragédias nunca me seduziram;  importou mais virar-me para Afrodite, não de forma absoluta, é evidente, mas como sendo, na verdade, a essência do fogo sagrado da nossa energia telúrica, da beleza desmedida, da paixão que nos refrigera e nos acaricia como a leve espuma do mar. E, se como diz o Alexandre, tais melodias servem de efémeras alegrias para o povo do meu país, até poderei aceitar tal asserção, porém, e nisso é que  estou em desacordo, nunca o considerando  um povo triste, enganado ou desorientado. Este povo sabe muito bem o que quer, porque é um povo amorfo, um povo cretino e um povo que possui a manha das bestas. O bom povo que povoou as manhãs e as noites da minha mocidade, diluiu-se ingloriamente nas metástases que corroeram os seus valores ancestrais. Posso admitir, entretanto, que haja um ou outro fado que, pelo vigor da sua mensagem ou pela força da  interpretação da sua melodia, se aceite com valoração:  e dentre esses assimilei um deles que me marcou sobremaneira:

"… ai, quem me dera, ter outra vez vinte anos … para te amar outra vez". 

2010-08-31

Alexangre Gonçalves - Palmela

Caros Gaudêncio e Arsénio: Obrigado pela vossa reacção. Não esperei de modo algum pelo vosso acordo. Direi até que me esforcei por merecer a vossa divergência. O silêncio dos outros falantes, tão generosos a elogiar os alvarinhos e os imaculados cordeiros dessas paisagens, demoliu com a sua indiferença o nome de Antígona, ela que na voz, na beleza melancólica do rosto, no tremor das suas melodias, e até na pureza da sua respiração, afrontou a lei e o poder em nome do povo donde vinha. Talvez um dia isto fique mais claro e mais persuasivo. Quanto a vocês, entendo os vossos pontos de vista, até porque já foram os meus. Há na vida obstáculos de ordem epistemológica que obstruem , na maior das inocências, a transição para o outro lado do rio. Eu tenho na memória uma carreira cancerosa, que atravessava toda a Beira Interior para chegar a minha aldeia. A paragem, junto ao adro da igreja, era precedida por uma curva e uma rampa íngreme. Ao aparecer nesse esforço mecânico, ela roncava estrondosamente, o motor expelia uma fumarada agonizante e todo aquele metálico volume vinha coberto de pó. Ela vinha de muito longe...Eram setenta quilómetros pavorosos, que, para serem vencidos, precisavam de quatro imensas horas. Depois era o ritual do costume. O motorista e o revisor, em solidariedade com aqueles cavalos extenuados, caíam na tasca do Manata e só regressavam depois do motor ter tido o respectivo repouso. O revisor, também ele revigorado e redondo como um pipo, puxava a manivela até o estrondo se ouvir. O motorista assumia as funções de comandante de um navio e arrancava vitorioso e arrogante pela estrada acima. Foi num monstro destes que eu fui para Vila Nova e noutro igual que eu circulei pelas estradas de terra batida até Castelo Branco. A carreira passava pelas aldeias, as mães vinham despedir-se, punham as mãos debaixo do avental e encostavam-se às paredes de granito velho. A camioneta levava tudo, os maridos já tinham fugido, os filhos eram despachados ao ritmo do seu crescimento. As mães ficavam a segurar as paredes, com uma das mãos disponível para acenar um adeus definitivo e a outra para recolher uma lágrima na ponta do avental. Tudo isto me veio à boca, ao ouvir a Amália desse tempo. É um tempo de fome, de campos rapados, de mulheres que vão à ribeira a lavar, que vão ao graveto nos montes. São mulheres cheias de frio, cujo coração foi forçado a ficar viúvo muito cedo. Em consequência, o rosto trigueiro é mortalmente ferido pela paisagem e confunde-se muito cedo com a cor e a dor dos brutos elementos. Algum tempo depois é o corpo que cede e envelhece abruptamente. Sobra-lhes uma alma póstuma, que vai assistir à decadência geral do universo. O meu país partiu para todos os lados. Ninguém é de lugar nenhum. É por isso que as nossas casas têm olhos vazados. E uma tristeza ontológica, que corre nas veias portuguesas. Tudo isto me vem à boca e me cresce em forma de raiva, quando Amália canta. Omito a palavra fado (ou fatum). Estão manchadas de cargas negativas e sob essa capa de "canção nacional" esconde-se muita mediocridade e muita miséria. O estado novo tinha o condão de envenenar os objectos onde tocava. Um deles foi sem dúvida o fado. O PREC, onde estive mergulhado até à medula, não fez melhor. Essa canção sobreviveu nas mãos de editores gananciosos, que apesar disso protegeram e estimularam algum desenvolvimento. Hoje, na democracia possível, mas livres de alguns radicalismos de época, podemos tentar ouvir de novo (ou quem sabe pela primeira vez) ou a Amália ou outros nomes sérios que estão numa profunda renovação/revolução dessa música étnica, genuinamente portuguesa. Os textos são cada vez mais elaborados, assinados por nomes como Davide Mourão-Ferreira, Alexandre O"Neill, Sofia de Mello Breyner, V.Graça Moura, e muitos outros. Como em tudo, é preciso escolher e dar o benefício da dúvida. E ter a humildade de ouvir. Não morro de amores por tudo o que se canta com esse nome. Mas já fui sacudido até ao limite por audições surpreendentes. Cito um clássico de Amália, cantado primeiro por ela e agora numa gravação de Ana Moura. O poema acaba assim: Já não temos fome, mãe. Mas já não temos também o desejo de a não ter. Já não sabemos sonhar, já andamos a enganar o desejo de morrer. Ana Moura (Guarda-me a Vida na Mão, faixa 15) Não quero converter ninguém. Mas defendo que nem só de CLÁSSICA vive o homem. E estas melodias efémeras exprimem as nossa efémeras alegrias e tristezas. E projectam esperança para o dia seguinte. E mordem no coração de um país desorientado, apagado e enganado por lideranças vadias , sem grandeza nem mérito.

Quer partilhar alguma informação connosco? Este é o seu espaço...
Deixe-nos aqui a sua mensagem e ela será publicada!

.: Valide os dados assinalados : mal formatados ou vazios.

Nome: *
E-mail: * Localidade: *
Comentário:
Enviar

Os campos assinalados com * são de preenchimento obrigatório.

Copyright © Associação dos Antigos Alunos Redentoristas
Powered by Neweb Concept
Visitante nº