fale connosco


2010-08-06

Alexandre Gonçalves - Palmela

Não resisto, Aventino, a essa viagem de verão que fizeste à infância, onde nem as palavras nos protegiam. A palmeira, o portão, a mala, o largo e o silêncio cerrado, frágil biografia para quem, para abrir o futuro, tem de deixar pai, mãe,irmãos e outros legítimos afectos. Honestamente não vale dizer: tudo é passado, o que importa é o presente. Carregamos uma bola de neve, bem fria por certo. Trazemos connosco penosas ausências, ficheiros indiscretos que, por um pudor quase feminino, nem nomeamos. Por exemplo, quando aconteceu o primeiro beijo? De que mãos nos privámos, quando havia frio? Quando foi que olhámos sem rubor? Que transgressões adiámos por falta de circunstância? Quem não se arrepiou por perguntar o que havia debaixo de uma roupa mais delicada que a nossa? Se o amor é contínuo, por que motivo tem o nosso tantos e tão vastos intervalos? Já deixei o largo da palmeira. Corri as salas do 1º ao 5º Ano. É verão e vou de férias. Fui recrutado nos baldios rudes da serra e ali regresso por uns dias. As hormonas estão ao rubro mas para as fintar levo comigo um leque variado de regras e de intenções. E transporto no corpo toda uma muralha de interdições e ameaças. A carreira da tarde pára junto ao adro da igreja. Saio e tento recolher a mala. Pela primeira vez tremo de terror. Em frente, num banco de jardim, dois joelhos, que eu supus serem de cedro polido, explodiram nos meus olhos. Estavam cruzados com agilidade. À minha passagem e a pretexto dum cumprimento, fizeram o movimento inverso. Uma angústia súbita apoderou-se de mim e desactivou as defesas que eu trazia armadilhadas. Mais tarde, pareceram-me fisgas apontadas a canhões. Fiquei sem mãos, sem forças, sem palavras. Nem me ocorreu o que era suposto fazer-se. Virei a cara e só não fugi porque nem os músculos me obedeciam. No dia seguinte, a minha santa mãe perguntou-me em jeito de censura por que razão eu não tinha cumprimentado a minha prima, que também andava nos estudos. Foram dias de morrer. Foram noites de verão perdidas para sempre. Quando regressei a Vila Nova, não demorou muito o primeiro retiro. Ao terceiro dia não ressuscitei. O pregador de serviço, quiçá suspeitando da minha obscuridade pecaminosa, mostrou do alto do púlpito o próprio inferno. E dei-lhe absoluta razão. Que é que tu pensavas, ó meu? E ocorre-me de novo a palavra joelhos. Explodem outra vez junto ao adro. Mas agora com mais intensidade. Admito que eu vi qualquer coisa mais do que uns joehos de cedro. É a derrocada total. Para isto é claro não há perdão. Irei assumir as minhas responsabilidades e direi aos meus superiores. Não disse nem assumi. Preferi ficar de noite a curtir remorsos e a ouvir sonhos sonoros no dormitório. Fiquei sem fala nem alegria. E sem futuro, nem dentro nem fora da instituição. Foi o tal silêncio cerrado. E a hipótese da loucura. Bem, como toda a gente, eu safei-me por uma unha negra mas safei. Depois fiz uma vida equilibradíssima. Traumas? Nem por sombras! Quando saí, tinha o mundo aos meus pés. Raparigas era comigo. Namorei dezenas até aprender como elas eram por dentro e por fora. Despi, vesti, amei, esqueci, dancei até cair para o lado. Quando casei, só podia ser uma princesa, boa herdeira e com todas as peças no sítio. Não admira que tenhamos sido bem felizes, graças a Deus, com vários filhos, já hoje bem orientados na vida. O mais velho é arquitecto, que muito vai dar que falar. A rapariga é uma investigadora notável. O mais novo está a acabar biomedicina. Eu e a minha esposa aguardamos a aposentação mas em rigor até poderíamos viver apenas dos rendimentos acumulados. Nem mais! Quem nos devolverá o que tão cedo nos foi tirado? Quem nos enchugará a chuva outonal, a bater-nos no rosto, quando descobirmos que o amor nos morreu oficialmente no dia cinco de outubro, às cinco da tarde? Culpas? Não perguntem! De que vale ao homem explicar-se se a vida é uma bola de neve, a rolar pela memória abaixo até aos amieiros da infância?
2010-08-05

Arsénio Pires - Porto

Carta ao “Antigo Aluno Redentorista que aqui nunca escreveu” secundum Aventinus.

Sabes, tu que nunca escreves, porque nunca escreves? Sabes?
Eu, que aqui tanto escrevo, não sei porque escrevo.
Ou melhor, até sei.

Escrevo coisas como se fossem poemas
e escrevo também prosas contra o comunismo como se ele fosse da minha terra,
escrevo contra a decrepitude da hierarquia da Igreja católica como se ela tivesse salvação,
escrevo contra a injustiça dos homens como se eu tivesse a ver alguma coisa com os outros,
tenciono até escrever sobre o paraíso da Coreia do Norte
mas não me atrevo a ferir mais a sensibilidade de quem me merece todo o respeito
e amizade,
e ainda queria escrever sobre, olha, não sei sobre quê nem para quê.

Andei bem mais de meia vida à procura do mal e não o encontrei.
Procurei-o na aldeia e não estava lá.
Procurei-o na família e não estava lá.
Procurei-o na escola e não estava lá.
Procurei-o no seminário e não estava lá.
Procurei-o na tropa e não estava lá.
Procurei-o na empresa e não estava lá.
Procurei-o na minha casa e também não estava lá.

Um dia caí de mim abaixo e encontrei o mal.
Estava dentro de mim.
Debaixo da minha pele.
Desde então só me apetece escrever. Mas ele não sai. Continua cá.

De maneira que, meu caro, no fundo admiro e invejo a tua atitude.
Se calhar vou fazer como tu e venho aqui só para espreitar o que os outros escrevem.
Talvez isso seja o bem.
Quem sabe?
Quem?

2010-08-04

AVENTINO - PORTO

FALA (IMAGINADA) DO ANTIGO ALUNO REDENTORISTA QUE AQUI NUNCA ESCREVEU

Todos os dias aqui venho. Espreito, leio-vos e prendo-me à voz das vossas palavras, a vós que neste "FALE CONNOSCO" escreveis. Também eu já quis escrever e tantas vezes comecei e outras tantas vezes desisti. Também eu já aplaudi aqueles que dizem sim e aqueles outros que dizem não; os que permitem e nunca os que proibem.Convosco regressei à memória de um portão, uma palmeira, a mala na mão e a clausura do silêncio. E convosco chorei a mácula que carrego de um "tão cedo me levaram da casa dos meus pais".

Já tive alma e fé; coerência e verdades; sentimentos e opções. Hoje sou a própria contradição:vivo entre mim e o meu contrário, entre o abraço e a repulsa, o querer ir além e o não querer coisa nenhuma. Fui feliz quando não sabia o que era a felicidade e, hoje, se sou feliz, é apenas porque já não busco felicidade alguma.

Houve um tempo em que vivi com um companheiro e, nesse tempo, isso era-me bastante. Sentávamo-nos na pedra fria da soleira da casa de meu pai e tudo discutíamos. O meu companheiro chamava-se Pensamento e eu e ele éramos a frente e o verso de uma eternidade. Hoje já só quero o nihil, o vazio e a ausência como os versos de "Fernando Pessoa":"ai que prazer ter um livro para ler e não o fazer".

Não vos escrevo, pois, porque não sou nada nem tenho nada e, mesmo tendo-o, tenho ainda todos os medos: dos padres e dos deuses; do pecado e da culpa; das mulheres e do sexo; do inferno e da amizade; de todos os pai-nossos e avé-marias.

Tenho medo de que me faleis de sonhos e humanidade, de bondade e de tolerância, de um reino maravilhoso ou de uma quinta grande onde nos mataram o amor.

Medo de que algum de vós me tire deste lugar tranquilo onde namoro as rosas, "porque as amei na infância".

2010-08-01

manuel vieira - esposende

Ora viva Agosto... ou a gosto!

O nosso amigo Assis vai acompanhar o nosso Padre Henri e voltar a vivenciar o ambiente de pobreza  em Vila Velha-Fortaleza, onde a organização potenciada pelo advogado José Airton pretende e se esforça por gerar melhores condições de vida,ali  onde a carência extrema vive porta com porta, com os muitos problemas sociais que estão associados.

O Movimento Emaús-Vila Velha procura criar condições de ensino básico na Escola padre Henri, condições mínimas de saúde e de salubridade.

Presenciar a pobreza, a penúria de bens essenciais e viver no seu seio é uma experiência de vida que só alguns aceitam suportar. É preciso grande coragem, determinação e sensibilidade pelo próximo e as expressões do Assis quando fala da Igreja e do poder enraizam-se nessas vivências sentidas. Os mantos de seda, as mitras e as poltronas magníficas em nada condizem com os princípios cristãos e são meros sinais de poder e riqueza, de ostentação.

Mas é bom sentir o entusiasmo dos que assumem enfraquecer a pobreza com o seu esforço e coragem. Mas isso será viver a vida a...gosto? Penso que sim pois o prazer de viver assenta na satisfação do que se faz e a dedicação aos outros, pesem os sacrifícios, compensa o esforço da missão que se assume.Obrigado Assis por seres assim, percebendo eu quanto a família é penalizada. Um abraço.

2010-08-01

Assis - Folgosa - Maia

Ora viva Agosto!

Era um belo mês este, quando partíamos para férias desde a nossa quinta "A Barrosa"... Em 1955 parti eu, na companhia de mais meia dúzia sob a batuta responsável do nosso saudoso Manuel Abrunhosa, em direcção ao Douro, ao lindo Douro que muitos dizem ser uma das paisagens mais belas do mundo. Não fosse ela minha, eu confirmaria sem titubear que será certamente a primeira em beleza... Sim, eram as minhas primeiras férias - grandes e pequenas -  passadas com os mais chegados familiares. Apenas 14 dias que me souberam a mel, como o saberiam todas as restantes até rumar a Nava del Rey e Valladolid. No 2ºano, já foram um pouco mais longas: 18 dias; no 3º, 22; no 4º, 25; no 5º, 30; e no 6º, em época de Páscoa, 12 dias para dizermos adeus por mais quatro anos... E já na época fomos considerados uns afortunados, pois grande parte daqueles que nos precederam nem um dia tiveram até à ordenação... Não me quero queixar contra a sorte, pois outros maiores razões teriam para o fazer, como podeis ver. Mas que era uma violência muito grande, lá isso tenho de confessá-lo, embora os superiores, como ainda há dias, no cemitétio de Coimbrões, me confessava o Pe. Ibanhes, eles procurassem amenizar a situação intra muros com variados eventos, nomeadamente as rifas de Natal e os teatros que na época eram levados a cena. Recordo que muitas dessas peças eram até inventadas e escritas pelos próprios. O Pe. Ibanhes, então director, ele um homem tão duro - assim o tínhamos em conta e algumas cenas de que fizemos parte não o  desmentem - ele próprio criou pequenos diálogos cómicos que a todos nos faziam rir, ao menos àqueles que éramos mais inocentes...

Como disse, não pretendo queixar-me e menos de quem teria mais razões para o fazer do que eu. Mas, sendo a família, uma das maiores batalhas da Igreja, não compreendo como se pôde chegar a praticar tamanha barbaridade arrancando aos pobres pais crianças de tão tenra idade. - Sei que sem a prática desta tão grande violência, a maioria de nós não teria conseguido estudar. Mas eu pertgunto-me, hoje que sou adulto: "Porquê tudo isto"? - Continuo à procura de uma resposta e ainda a não encontrei, ao menos de forma cabal, ou talvez... - "Pobres, sempre os tereis convosco..." diz o evangelho, o escrito. Não sei se algum dia o terá dito Jesus. Alguns dirão que não há volta a dar...e sentem que com este seu raciocínio tudo fica resolvido. Pois eu penso que tudo continua na mesma ou ainda pior, se continuamos a pensar dessa forma. - Sto. Agostinho, julgou ter tudo explicado com o seu "pecado original", e a Igreja constantiniana também. A Igreja, de origem pobre, trocou o cajado de madeira do profeta Jesus de Nazaré pelo báculo de prata ornamentado com pérolas e diamantes. A sua túnica - única - virou, como diz o brasileiro, em toga com vários metros de cauda. O seu banco de madeira rústica transformou-se em trono e ao trono começaram a chegar os tributos. Aliou-se ao poder. Portanto, quem deverá defender a partir de então? - Àquele que tão grande favor lhe fez: O poder. O pobre deixou de ser o seu objectivo. Só dele tratará quando dele conseguir tirar algum proveito. Esta a realidade que ainda hoje está infelizmente vigente. Mude ela de báculo para cajado; de túnica luxuosa, para veste simples; de mitra dourada, para chapéu do dia-a-dia. E venha então, junto dos pobres, falar-lhes de pecado original, de inferno, de purgatório e sobretudo de céu, de FRATERNO AMOR. Urge que isso aconteça, pois está caindo em completo descrédito. - "Comunista..." gritará alguém. Não. Fui beber estes pensamentos aos pequenos livros do grande Redentorista, Bernard Haring: "À Contestação dos não Violentos", "À Igreja que eu Amo", ao "Tudo ou Nada", "É Possível Mudar," "Em Crente e Activa Liberdade", "Livres e Fiéis em Cristo", "Problemas actuais da Teoçlogia Contemporânea", "Que Padres para a Igreja" e algum mais, também de outros autores. Neles aprendi a ler o Evangelho de Jesus de uma nova maneira, não à letra, mas segundo o espírito dessa mesma letra e até a vê-lo vivo. Por isso eu me interrogo mais uma vez: "Porquê tudo isto?" - Porque ainda não nos convencemos que somos realmente todos irmãos, também o pobre Eduardo aquele que me roubou os meus dois chapéus e que passava os seus dias de criança de 11 anos, nu, metido numa bacia de água; aquele casal octogenário, cujo marido possuia um olhar de fogo, longínquo, a perder-se de vista, e a mulher uns olhos de grata ternura, olhares que jamais  sairão dos meus; e aquele  menino que me provocou com ferro e fogo, apenas dizendo "dá pão...dá pão..."

Já varios de vós me interrogastes porque volto ao Brasil com o nosso amigo Henri Le Boursicaud. Eis aqui a resposta: Vamos de férias à procura de mais uma razão para viver. - Agosto feliz também para todos vós e o meu abraço fraterno.

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