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2010-08-10

MANUEL VIEIRA - esposende

A criatividade literária tem aqui os seus mestres e se por vezes a interpretação que possa ser feita nos leve a supor algo de biográfico, o último texto do nosso colega Ribeiro anda longe disso, tanto quanto sei, o que já contrasta certamente com os cenários pintados sobre as musas e as dunas ofegantes.

Também a carta do Arsénio mostra a criatividade que lhe é peculiar e é representativa dos cenários familiares reactivos  que se foram repetindo nos percursos de vida e aí não sei se terá equivalência biográfica.

Muito interessantes as intervenções do Aventino e do Alexandre e também do Arsénio, que nos habituaram já à busca profunda nos seus ais.

Espero que a partilha destes saberes estimulem outros colegas a ímpetos de escrita pois somos manta de recursos.

2010-08-08

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

 

 

 

 

                                             SOMBRAS VIVAS



           Eu tinha uma menina de cabelinhos  loiros como fios de oiro que o sol deixasse desprender da sua infinita distância, oiro macio e reluzente, criança de olhos redondinhos, espelhos onde coriscavam diamantes, onde bailavam fadas de vestes vaporosas, olhos onde se esparramavam girândolas coloridas nas noites de festa da minha acidentada existência.  Era uma boneca das mais lindas e perfeitas, mais belas e bem feitas que aquelas das montras feéricas.  Foi o meu delicioso amor de outrora, fruto doutro amor longínquo e que se perdeu no negrume dos tempos.

          Ora, num belo dia em que o céu era mais límpido, ou noite em que as estrelas eram de uma luz mais diáfana,  não sei bem, num dia em que o sol era mais macio, dia de imaginação de bom poeta, senti bater à porta.  Pancadas secas, rápidas, fortes!

          Fui abrir e caí, estarrecido, ante um monstro horrendo e feroz.  Era um enorme esqueleto vestido com um manto negro e na mão sustendo uma gadanha afiada e medonha.

          Quem és?   Bradei...

          A resposta  foi dada com tom rápido, cavo e sepulcral:

          Sou a Morte!

          E que queres?  Porque vens perturbar a minha paz e enegrecer estes felizes dias da minha vida, limbus maldito?

          Depois, com acento inquiridor e sarcástico, retorquiu:

          Não tens uma menina de cabelos de oiro e de olhos brilhantes e reluzentes?

          Oh! Tenho, tenho...

          E com voz de além-túmulo, fria como o vento glacial das montanhas:

          Venho buscá-la.

          Não, piedade, não, antes a mim, antes a mim que sou pecador!

          Caí de joelhos, implorando, entre choros de fatalidade:

          Perdão, agora não, é o meu tesoiro, a minha vida!

          Porém a Morte continuava arrogante e silenciosa.  Estendeu-me um cartão onde em letras negras como fuligem do inferno se lia a fulminante palavra:

         LEUCEMIA

         Desapareci no abismo do desespero, mas lá do fundo reagi com raiva, furibundo, transtornado.  Rasguei o cartão e tentei lutar contra o monstro. Corpo a corpo não podia. Então dei-lhe venenos, medicamentos, injecções, transfusões de sangue.

         Depois, num arreganho:

         Hei-de vencer-te, Morte, hei-de vencer-te!

         Ah!  Mas ai de mim!  O monstro começou a rir com gargalhadas sarcásticas, casquinantes, batendo as queixadas ósseas num matraquear cínico e aterrador.  Era como aqueles monstros do cinema moderno que comem balas como quem saboreia um bago de uvas ou se alimentam de cianeto e estricnina.  Empurrou-me com um encontrão de desprezo, desse desprezo que deriva da força e do poder e correu direito à minha boneca de cabelos de oiro e de olhos brilhantes e reluzentes. Arrebatou-a do berço com os dedos esqueléticos, escondeu-a no manto negro e sumiu-se.

                                      

                                                         

                             

      Nesta altura, ouvindo uma sinfonia gravada, música celestial e repousante, deparei com um frasco de remédio pousado sobre um móvel e que ficara ali desde o rapto da minha menina de cabelos de oiro e de olhos brilhantes e reluzentes.

         Armas contra a Morte?

     Sorri-me então desse disparate, dessa loucura!

         E entre arpejos de melodias e espirais de fumo dum cigarro fui transportado até a um mundo distante e misterioso, mundo longínquo onde se confundiam recordações dolorosas com pensamentos indecisos do tempo presente. Mundo de espectros e visões indistintas de anjos e demónios.

          "Leucemia, glóbulos brancos e vermelhos, sangue!

           Cancro, assassino asqueroso e traidor, febre,  glóbulos outra vez!

 Pastilhas, comprimidos, agulhas, injecções, olhos ansiosos e feições sorumbáticas de médicos calados em expectativa, batalhões incontáveis de todo esse grande exército que luta, em vão, contra a Morte.

           Depois mais sangue, mais glóbulos vermelhos e brancos, faces lívidas de moribundos, desespero na luta, frenesí, raiva e impotência, gargalhadas pungentes e gritos angustiosos.

           E cancro, cancro, cancro de novo...

           Comprimidos, xaropes, leucemia!"

           A seguir uma escuridão, uma tontura e um desesperado e  furibundo anelo!...

           Dei um salto na cadeira e despertei dessa macabra recordação.  

           Queria ser poderoso, mais poderoso que todos os reis da terra e do céu só para poder matar a Morte.

            Mas, oh loucura, não entendia que era o mesmo que querer queimar o Fogo.

            E sorri de quanto era ridículo o meu desejo.

            O cigarro acabou e enquanto esmagava a ponta de encontro ao cinzeiro o braço mecânico do gira-discos automático encerrava também a melodia sinfónica.







                                      

2010-08-07

Arsénio Pires - Porto

Carta do Irmão dum Ex-seminarista

Nota prévia:
Não resisto a partilhar convosco esta carta do irmão dum ex-seminarista.
Apareceu-me no meu endereço electrónico.
Arsénio


Meu querido irmão:
Só hoje ganhei coragem para te escrever. Passaram já tantos anos…
Sou o teu irmão mais velho, já quase na casa dos oitenta. Sinto que pouco tempo me resta para te ver e conversar contigo.
Como sabes, passo o meu tempo no Lar de Dia. À noite, a minha filha ainda me aceita em casa dela. Não sei se por muito tempo. Em breve terei que ficar dia e noite num asilo qualquer. Eles têm a sua vida e eu, daqui a pouco, serei totalmente dependente pois já quase não me movo.
Não lhes levo a mal. A vida é assim mesmo!

Como podes ver, não sou eu quem te escreve. Eu já nem sei escrever…
Pedi a uma funcionária do Lar que me passasse a computador o que me tem estado encravado na carne e nunca tive coragem de to dizer.

Tu foste para o seminário. Nós, todos os teus irmãos, ficámos na lavoura. A tratar das terras, das vacas e da vinha dos nossos pais. Alguns de nós, como sabes, tiveram que emigrar. Eu também, mas sem sucesso algum!

Cada vez que vinhas à terra abraçava-te com saudade, lembraste? E, quando partias, metia-te uma nota de 100 escudos no bolso que, naquele tempo, era de bastante valor.

Mas… nunca te disse que senti sempre um grande ciúme de ti por os pais te terem posto a estudar e, a mim, não. Nunca entendi bem porquê!
Sei que não tens culpa mas foste um privilegiado. Estudaste até quando quiseste e, graças aos estudos que fizeste no seminário, fizeste-te um homem independente arranjando um bom emprego. Compraste carro. E vens à terra de vez em quando.
Eu, fora aquele pequeno período em que foi para França, andei sempre afundado na lavoura. Primeiro, na dos pais. Depois, na minha.
E acabei tão rico como quando comecei!

Tarde e mal arranjei tempo para namorar. Também, que me lembre, nunca tive um gesto de carinho, e de festas, por parte dos pais. Mas não os culpo. Na lavoura não havia tempo para carinhos. Que podiam eles fazer se chegavam sempre derreados de trabalho já depois do sol-pôr?
Nunca alguém me disse “Gosto de ti”, quanto mais “Amo-te” ou “Adoro-te” como agora se diz ao desbarato. Na nossa aldeia, o “Amo-te” e o “Adoro-te” eram só para Deus. Hoje toda a gente ama e adora alguém mas, mesmo assim, nunca vi tanta falta de amor. Ama-se e adora-se a metro. Com princípio e fim à vista!
Era já casado quando recebi os primeiros gestos de ternura. O primeiro beijo que dei, a sério, foi à minha mulher que está aqui ao meu lado com a doença do esquecimento! Foi ela que me disse pela primeira vez: “Gosto muito de ti!” E nunca deixámos de gostar um do outro.
Eu acho que isto é amor!

Tu, um certo dia, fizeste-me queixa de que, no seminário, não podias conviver com raparigas. Que isso era como se te tivessem cortado uma perna e nunca mais pudesses andar direito! Que só depois de teres saído é que soubeste o que é uma mulher! E que te sentias também como se te tivessem roubado todo o tempo que lá passaste.
Olha que eu também passei o meu “seminário” na nossa terra. Só quando fui à tropa é que… bom! Já era homem. Até lá, era na festa da Senhora da Guia, e num que outro baile, que nós tínhamos oportunidade para pôr os braços sobre uma mulher. Mesmo assim… sempre a medo. Nada mais! Que as pessoas podiam ver!

Penso muitas vezes: Que sorte a tua! Se os pais não te tivessem posto a estudar, talvez hoje estivesses cá pela aldeia, velho e de carnes comidas pela sachola, rodeado de filhos que só te vinham ver nas férias, em Agosto.
Ainda bem. Para ti.
Mas eu senti ciúmes e tinha que arranjar coragem para to dizer. Perdoa-me!

Lembra-te sempre de que foste o mais sortudo de todos nós.
Agradece a quem achas que deves agradecer. Aos pais, não, que já morreram.

E não te queixes da vida! Muito menos do seminário!

Desculpa a minha escrita. Sabes que só fiz a 3ª classe e já nem sei ler nem escrever.
Foi conforme me saiu da alma que ditei esta carta.

Quando quiseres, podes visitar-me. Falaremos, então, mais sobre este assunto.
Sabes onde moro. Por enquanto.

Era só isto.
Recebe um abraço do teu irmão

António.

2010-08-06

Alexandre Gonçalves - Palmela

Não resisto, Aventino, a essa viagem de verão que fizeste à infância, onde nem as palavras nos protegiam. A palmeira, o portão, a mala, o largo e o silêncio cerrado, frágil biografia para quem, para abrir o futuro, tem de deixar pai, mãe,irmãos e outros legítimos afectos. Honestamente não vale dizer: tudo é passado, o que importa é o presente. Carregamos uma bola de neve, bem fria por certo. Trazemos connosco penosas ausências, ficheiros indiscretos que, por um pudor quase feminino, nem nomeamos. Por exemplo, quando aconteceu o primeiro beijo? De que mãos nos privámos, quando havia frio? Quando foi que olhámos sem rubor? Que transgressões adiámos por falta de circunstância? Quem não se arrepiou por perguntar o que havia debaixo de uma roupa mais delicada que a nossa? Se o amor é contínuo, por que motivo tem o nosso tantos e tão vastos intervalos? Já deixei o largo da palmeira. Corri as salas do 1º ao 5º Ano. É verão e vou de férias. Fui recrutado nos baldios rudes da serra e ali regresso por uns dias. As hormonas estão ao rubro mas para as fintar levo comigo um leque variado de regras e de intenções. E transporto no corpo toda uma muralha de interdições e ameaças. A carreira da tarde pára junto ao adro da igreja. Saio e tento recolher a mala. Pela primeira vez tremo de terror. Em frente, num banco de jardim, dois joelhos, que eu supus serem de cedro polido, explodiram nos meus olhos. Estavam cruzados com agilidade. À minha passagem e a pretexto dum cumprimento, fizeram o movimento inverso. Uma angústia súbita apoderou-se de mim e desactivou as defesas que eu trazia armadilhadas. Mais tarde, pareceram-me fisgas apontadas a canhões. Fiquei sem mãos, sem forças, sem palavras. Nem me ocorreu o que era suposto fazer-se. Virei a cara e só não fugi porque nem os músculos me obedeciam. No dia seguinte, a minha santa mãe perguntou-me em jeito de censura por que razão eu não tinha cumprimentado a minha prima, que também andava nos estudos. Foram dias de morrer. Foram noites de verão perdidas para sempre. Quando regressei a Vila Nova, não demorou muito o primeiro retiro. Ao terceiro dia não ressuscitei. O pregador de serviço, quiçá suspeitando da minha obscuridade pecaminosa, mostrou do alto do púlpito o próprio inferno. E dei-lhe absoluta razão. Que é que tu pensavas, ó meu? E ocorre-me de novo a palavra joelhos. Explodem outra vez junto ao adro. Mas agora com mais intensidade. Admito que eu vi qualquer coisa mais do que uns joehos de cedro. É a derrocada total. Para isto é claro não há perdão. Irei assumir as minhas responsabilidades e direi aos meus superiores. Não disse nem assumi. Preferi ficar de noite a curtir remorsos e a ouvir sonhos sonoros no dormitório. Fiquei sem fala nem alegria. E sem futuro, nem dentro nem fora da instituição. Foi o tal silêncio cerrado. E a hipótese da loucura. Bem, como toda a gente, eu safei-me por uma unha negra mas safei. Depois fiz uma vida equilibradíssima. Traumas? Nem por sombras! Quando saí, tinha o mundo aos meus pés. Raparigas era comigo. Namorei dezenas até aprender como elas eram por dentro e por fora. Despi, vesti, amei, esqueci, dancei até cair para o lado. Quando casei, só podia ser uma princesa, boa herdeira e com todas as peças no sítio. Não admira que tenhamos sido bem felizes, graças a Deus, com vários filhos, já hoje bem orientados na vida. O mais velho é arquitecto, que muito vai dar que falar. A rapariga é uma investigadora notável. O mais novo está a acabar biomedicina. Eu e a minha esposa aguardamos a aposentação mas em rigor até poderíamos viver apenas dos rendimentos acumulados. Nem mais! Quem nos devolverá o que tão cedo nos foi tirado? Quem nos enchugará a chuva outonal, a bater-nos no rosto, quando descobirmos que o amor nos morreu oficialmente no dia cinco de outubro, às cinco da tarde? Culpas? Não perguntem! De que vale ao homem explicar-se se a vida é uma bola de neve, a rolar pela memória abaixo até aos amieiros da infância?
2010-08-05

Arsénio Pires - Porto

Carta ao “Antigo Aluno Redentorista que aqui nunca escreveu” secundum Aventinus.

Sabes, tu que nunca escreves, porque nunca escreves? Sabes?
Eu, que aqui tanto escrevo, não sei porque escrevo.
Ou melhor, até sei.

Escrevo coisas como se fossem poemas
e escrevo também prosas contra o comunismo como se ele fosse da minha terra,
escrevo contra a decrepitude da hierarquia da Igreja católica como se ela tivesse salvação,
escrevo contra a injustiça dos homens como se eu tivesse a ver alguma coisa com os outros,
tenciono até escrever sobre o paraíso da Coreia do Norte
mas não me atrevo a ferir mais a sensibilidade de quem me merece todo o respeito
e amizade,
e ainda queria escrever sobre, olha, não sei sobre quê nem para quê.

Andei bem mais de meia vida à procura do mal e não o encontrei.
Procurei-o na aldeia e não estava lá.
Procurei-o na família e não estava lá.
Procurei-o na escola e não estava lá.
Procurei-o no seminário e não estava lá.
Procurei-o na tropa e não estava lá.
Procurei-o na empresa e não estava lá.
Procurei-o na minha casa e também não estava lá.

Um dia caí de mim abaixo e encontrei o mal.
Estava dentro de mim.
Debaixo da minha pele.
Desde então só me apetece escrever. Mas ele não sai. Continua cá.

De maneira que, meu caro, no fundo admiro e invejo a tua atitude.
Se calhar vou fazer como tu e venho aqui só para espreitar o que os outros escrevem.
Talvez isso seja o bem.
Quem sabe?
Quem?

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