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2010-10-03

Aventino - Porro

E tu que partes, partes em busca ou buscas-te? Caminhas um quilómetro e outro quilómetro; e um silêncio e uma ausência; e o sonho e uma alegria; e um repasto e um cabrito; e um encontro e um regresso; e uma tristeza e um outro dia; e um novo dia e um outro sonho e um outro cabrito. E tu que partes, partes? E aqueles que ficaram, como ficamos, numa quinta feira, às quintas-feiras não havias aulas era o recreio e o almoço melhor e o dia melhor e uma esperança e o teu pai e o meu e a minha mãe e a tua e nós à espera que nos viessem visitar e o fim do dia e nada, nada, nada, nada e novamente o silêncio e o jantar e as orações e o dormitório. Agora tu lá caminhas para Arcos de Valdevez, convidado, só tu és convidado, só tu és quinta feira, quem é que pode ir à quinta-feira para Arcos de Valdevez? Também eu já quis ir para Arcos de Valdevez à quinta-feira, quando o corredor era ali adiante, lentamente, um passo, outro passo, o gabinete, a chave a trancar a porta, era quinta-feira e lá dentro eu e ele, uma criança, o silêncio,  e o resto. Nesse tempo é que eu queria ir para Arcos de Valdevez, ou para o mar, ou para o mar, ou para o mar, ou para o mar. Nesse tempo o que eu queria era não ir às quintas-feiras, pelo corredor adiante, uma porta, uma fechadura, um trinco e o silêncio. Nesse tempo eu não sabia que havia Arcos de Valdevez, nem Portugal, nem Europa, nem África, nem. Nesse tempo eu amava a minha mãe e o meu pai; eu amava as minhas irmãs e os meus irmãos. Nesse tempo eu amava-me a mim, a criança que eu era e era feliz assim, amando esses que não mais me deixaram amar. Esse tempo era o tempo em que eu ainda sabia o que era o amor. Agora o que eu queria era que não me falasses de Arcos de Valdevez, nem de amizades, nem de encontros, nem de almoços nem de felicidade. E muito menos de quintas-feiras.

2010-10-03

alexandre Gonçalves - Palmela

Transumância é a palavra de ordem. A idade ensinou-me que nada nos deve impedir de correr até onde se disser que abundam as verdes pastagens. Inventada como está a confraria do cabrito montês, aí irei eu seja qual for a data. E muito me alegrou saber que o Ricardo Morais está disposto a inundar toda a região de Arcos com a sua excepcional colheita de 2009. Tanto mais quanto já está no ventre das cubas, numa milagrosa e exaltante gravidez, um novo falerno para as futuras libações. Bem diz o Arsénio que o rectângulo não sofre dessa doença a que alguns chamam tristeza. Pelo menos o clube dos mais avisados parece desmentir a teoria da dita canção nacional...Já agora, que evoquei o conceito de teoria, acrescento que a transumância é movimento, é deslocação, é mudança. Mesmo que não se saia do qintal. Porque é por dentro que se viaja. É por dentro que se fazem as revoluções. É por dentro que se faz a vida e se ama e se escreve uma ideia.E é por dentro e para dentro que se verte o fruto da videira, na suave liturgia dum encontro.
2010-10-01

Arsénio Pires - Porto

Pego na pena, furibundo e algo mais, para riscar o mito de que o povo português é um povo triste e, nisso, alguns pretendendo justificar esse canto lamechas que por fado dos deuses da Antiga Grécia ou de Lácio, se diz chamar Fado.

Quem diz que o povo português é um povo triste é porque, nas suas emigrações, não passou de Badajoz.
Ide, criaturas, aos países nórdicos! Fazei escala em Londres e dizei-me se no meio daquele nevoeiro descortinais algum sorriso. Pernoitai em Estocolmo e contai pelos dedos duma só mão por quantos transeuntes passais que demonstrem um só sorriso!

Andar 400 kms (como vai fazer o nosso Alex!) para vir desgraçar um cabrito na companhia dos amigos, é coisa impensável em qualquer dos tais países que são evoluídos e raramente vêem o sol. Esses, sim. Esses é que são tristes!
Mas não têm Fado. Só isso lhes invejo!

Nota: Cabrito, sim! Venham mais cinco!

2010-09-30

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

Foi com certa surpresa que percebi o desejo do companheiro Alexandre, manifestado no seu magnífico tópico, de integrar o grupo dos "comedores" de cabrito montês aqui destas serras dos Arcos. Tal surpresa deu, por sua vez, lugar a uma sã alegria, porque não podemos viver só de musas, loiras ou morenas, nem da transcendente filosofia. Dizem pr'aí que não se pode agradar a todos, nem a gregos nem a troianos,  ao mesmo tempo. A concertação das datas foi um exercício difícil e o dia 14 tem uma razão. Para mim, o dia 15 seria o ideal, mas não agrada ao Peinado pelas mesmas razões que o Alexandre invoca e, então, que fazer? A solução deveria ser a salomónica: vir no dia 14 e também no dia 15 mas isso seria uma "violência" e o que é demais, é moléstia! Reitero o meu alvoroço na comparência do amigo Alexandre e daqui lhe peço um seu pequeno esforço em tal sentido. No que toca a programa, é que não há programa nem é necessário, porque nestas acções de Epicuro o essencial é comparecer. Por isso, é só aparecer aqui nos Arcos por volta das 10-11 e confiar nos peritos preparadores da iguaria caprina. Sabemos que em tais circunstâncias estes eventos materiais são aproveitados (e devem ser) para se filosofar um bocado, dando razão ao conceito de que não se pode filosofar de barriga vazia. 

Do fado já falei, mas dou toda a razão ao Alexandre: é uma canção que ilustra bem a característica dum povo como o nosso que, talvez por um decreto eterno, cumpre o triste fadário de não passar dum povo amorfo e triste, com o relativo mérito de ter inventado a palavra saudade.

Conto convosco e … abraços.

2010-09-29

Alexandre Gonçalves - Palmela

Meu Caríssimo Inimigo do Fado, Martins Ribeiro, e Ajuvantes: Tendo captado, em emissão de FM, que um vago convite andava no ar, ajeitei-me de imediato para integrar o Clube dos Predadores de Cabritos/as do Minho. Enquanto reflectia profundamente na data, na deslocação e outras prevenções... o ilustre anfitrião muda o dia, não indica a hora, nem guarnece o cabrito (ou o que for) das respectivas instruções. Afirmo a intenção de elogiar tudo o que ao cabrito se refira. Mas a data de 14 complica-me vários mecanismos, próprios de um homem comprometido com desejos e obrigações. Não poderá voltar à data inicial de 15? Se o for, garanto toda a cumplicidade e até a presença. Caso contrário, terei de tentar a volta, que de momento está complicada. Aguardo a vossa benevolência... Quanto ao dito, podemos odiar, desmascarar, esconjurar... Mas este país, feito das sobras ibéricas, cortado em tiras de alfaiate, os corpos samoanos languidamente espalhados pelas praias gregas, os chefes tribais a fingirem de reis, tudo isto inspira uma ondulada tristeza... Tragam-me uma cítara ou um alaúde ou um corno de boi... e eu comporei um salmo tão dramático como os de David. Ou farei um coro trágico à maneira de Sófocles. O destino subverte-nos a utopia. Há deuses pagãos a armarem-nos ciladas. O mar não tem ventos. Os navios aguardam em vão uma vã oportunidade. Que podemos nós fazer colectivamente, para que o rectângulo se estique um pouco e caibam lá todos os seus habitantes? Como nunca até à data o conseguimos, inventamos efes, com ou sem melodia, com ou sem acompanhamento. Bebemos-lhe, choramos-lhe, e fazemos trinados em copos de três. Não é o melhor para as contas pú(b)ticas. Mas é o que há. E há muita gente assustada com uma dor estranha, que nem é revolta nem submissão. O FADO não se gosta nem se desgosta. É um povo que anda sempre na diáspora, à busca de pastos. E teve de criar a palavra SAUDADE para se lembrar de todos os lugares onde pernoitou e donde teve de partir no dia seguinte. Mesmo que todos os fadistas fossem péssimos, e alguns são abomináveis, mesmo que ninguém desse voz à melancolia morena de um povo deitado ao sol, nem assim deixaríamos de ter uma sina que nos perpetua a mágoa de sermos um país hipoteticamente inviável.

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