fale connosco


2019-05-04

Manuel Vieira - Esposende

O nosso colega José Maria Pedrosa convida-nos mais uma vez para estar presente na Igreja Românica de S.Pedro de Rates, Póvoa de Varzim, amanhã, domingo, dia 5 de maio, pelas 18h00, para a sua conferência sobre o tema "Glórias de Maria na história da Música".

"Natural de Guimarães, depois de se formar em Filosofia e Teologia, José Maria Pedrosa Cardoso estudou Pedagogia, Didáctica Musical e Direcção Coral, diplomou-se em Piano no Conservatório de Música do Porto, fez a licenciatura em Ciências Musicais na Universidade Nova de Lisboa e obteve o grau de doutoramento em Ciências Musicais Históricas na Universidade de Coimbra."


2019-04-27

José Manuel Lamas - Navarra - Braga

            Os duros também choram

 

      O Lucas era chefe dum bando de rufias no bairro das amoreiras .

O Lucas era o grande patrão .

 

 

                 O Lucas das amoreiras

                 fartou - se de fazer asneiras

                 e foi parar à prisão 

                 logo que à prisão chegou

                 olhou em volta e pensou 

                 aqui também vou ser patrão

                 mas ser patrão não podia

                 e o Lucas se enganava

                 porque ali já havia 

                 alguém que muito mandava

                 só foi arranjar sarilhos

                 como peixe que cai na rede

                 foi eleado e encostado à parede

                 rasgaram - lhe os fundilhos

                 chamaram - lhe cu do povo

                 por todos abusado

                 ficou o Lucas com um andar novo

                 no chão assustado e a tremer

                 jurou que patrão já não queria ser

                 e quando a custo se levantou 

                 o Lucas das amoreiras pela primeira vez chorou .

 

 

     Com aquele abraço .

 

                                    Zé Lamas .

2019-04-24

alexandre Gonçalves - Palmela

OS NOVENTA DE LUÍS GUERREIRO

 

Companheiros das vastas ilhas, afinai ouvidos e memória! Há um barco no mar, que passará por todas as moradas, distribuindo convites e apelos para um encontro a norte. Para quem não se lembre, o pretexto é mais uma homenagem a Luís Guerreiro, esse heróico navegante, nascido em Gondarém, Caminha, em Julho de 1929. Dele se pode em rigor dizer que a sua longa biografia dava um longo filme. De tanto participar nas actividades associativas, e dado o brilhante passado anterior, bem como a sua obra literária, de todos conhecida, não é necessária qualquer apresentação.

Recordo apenas que há dez anos, quando celebrámos os seus gloriosos oitenta, nos reunimos em grande número sobre as águas do rio Minho, num restaurante próximo da sua aldeia. O rio e a paisagem verde que o envolve terão sido um dos primeiros apelos de escrita, como se verifica no último livro publicado. Luís Guerreiro nasceu, cresceu, sofreu e ali escreveu o seu destino. A teia da vida é imprevisível e misteriosa. Mas esta infância, nesta margem esquerda, nesta envolvência vegetal e pura, nestas águas de  fronteira, terá dado muita força para os muitos regressos. Foi a pensar nisto tudo que alguns de nós nos pusemos ao caminho, e, em acordo-surpresa com a Hirene, decidimos que era ali o local adequado para a festa.

Sei que já está em preparação o novo encontro. Apresso-me a  saudar os organizadores. Porque nada se improvisa com êxito. Mas gostava de sugerir que não fugissem desta maravilhosa paisagem, que viu o Luís Guerreiro a aprender a voar. É a linha final de um país comprido. Do outro lado, é o mundo europeu, a enorme Espanha, nossa irmã. Este lugar é bom, é limpo, é genuíno. E tem silêncio que chegue para a nossa idade. Não se deve procurar longe o que temos à mão. A minha aldeia tem um rio, dizia o outro. O Guerreiro também o diz. E nós, pela memória acumulada, também o dizemos. Restaurantes há muitos, mas nenhum que se afaste deste doce rio cumpre a nossa intenção.

Noventa sim, mas no coração. Na simplicidade líquida destas casas, destas margens. Onde se aprendeu a voar!!!


  

2019-04-20

Manuel Vieira - Esposende

As festas pascais animam por todo o país a época baixa e as tradições ainda são o que eram ,sobretudo na região norte, onde os compassos continuam a dar vida e muita cor no domingo, segunda feira e até na pascoela.

Vale bem visitar nestes dias a região alto minhota, a zona da Ribeira Lima, a freguesia limiana de Vitorino das Donas onde os homens que asseguram o compasso usam lenços de mulher atados nas cabeças e são acompanhados por uma orquestra de instrumentos de corda, ou as vianenses Meadela e Portuzelo com as gaitas de fole e os tamborileiros  marcam o ritmo das mordomas e das jovens minhotas coloridamente ataviadas.

Em Fiscal, terra do António Variações, o compasso desce o rio Homem em dia de segunda feira, com várias embarcações construídas para o efeito, onde navegam a Banda de Música, o compasso agora sem  o padre Joaquim recentemente falecido, os fogueteiros e os jornalistas e os fotógrafos.

A espiritualidade destes momentos também pode ser intensa,  vivida nos locais certos mas a festa familiar traduz a importância que ainda se dá à intensidade da vida e à partilha de tempos felizes.

Não vou estrear roupas novas como era tradição na minha infância mas alegra-me lembrar-vos nestes dias de festa.

Uma Páscoa Feliz e um abraço...


2019-04-11

alexandre gonçalves - palmela

 

 NOTA INTRODUTÓRIA: ELOGIO DA INSURREIÇÂO


"Foi o lugar que sucumbiu. Só vinga

a espécie de halo que ficou a dar

para a distância". F. Echevarría (Introdução à Poesia)


 

Saudações insurreccionais! Abril trouxe um pouco de chuva, o bastante para o ventre da terra se agitar de fertilidade. Num  súbito gesto solidário, e claramente deslumbrados pela explosão dos campos e dos bosques, emergem da penumbra alguns dos ARs mais atentos à vertigem da idade. Rejeitando concordâncias e resignações, aí estão os suspeitos do costume, a subverter a nossa precoce aposentação, de amplo espectro... O Aventino e o Gaudêncio, em pleno exercício de leitura, convocam-nos para qualquer forma de insubordinação. Eu larguei a courela, a vinha e o faval para participar neste regresso. Abaixo as previsões melancólicas de um arismo decadente e sentado, comendo cozinhados de TV e resíduos de um cristianismo apático e obeso. Esta página é excelente para dizer uma ideia livre e criadora. Não é para jeitosos inflamados. É para todos os que preservaram a palavra e a leitura. Que seguram sentimentos e convicções. E para todos os que aprenderam a rir disto tudo que nos rodeia e sufoca. Devemos um pensamento luminoso à sociedade que nos financiou, que julga ter-nos amado e se prepara para nos instituir. Seremos cães mudos? Será perfeito o mundo onde fomos jovens? Teremos uma poupança-reforma para gerir a solidão? Dizer não é só um direito. É também uma atitude ética. 

Com estes apelos, atirei-me sem rede sobre a memória. O resultado foi um naco de prosa perturbada, com a qual me recuso a fechar a porta. Quando Echevarría foi homenageado pelos seus noventa, comentou de improviso: "e muito mais escreveria, se outros  noventa houvesse!" Houvera vinte justos como ele, a pensar por escrito o que se passa na nossa rua, nós podíamos destruir este mundo e criar outro mais habitável. Se em vez de vinte, houvesse dez, fundávamos outra cidade. Se em vez de dez, houvesse cinco, íamos a Creta e pedíamos à formosa Ariadne que nos desse um fio de ouro e nos conduzisse ao Dinossauro. Porém, disse Deus uma vez que nem um justo haveria. Por isso, arrasou Sodoma e Gomorra. Mas como nós estamos em autogestão, mesmo que nem um justo abra a fascinante brancura desta página, está ainda longe de se apagar a luz que a viu nascer.

(Dada a hora avançada e a abusiva extensão da nota introdutória, fica para breve a "prosa perturbada" referida.)


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