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2011-03-08

António Gaudêncio - Lisboa

Meu caro Arsénio

Gostei da tua resposta e como eu também não gosto de ofender quem quer que seja ( a não ser os que merecem mesmo ser ofendidos, claro ) aceito que talvez eu tenha sido vítima de alguma confusão semântica.

 As tuas explicações são bem claras e acredito que não tivesses as tais intenções que eu te atribuí, mas eu não consigo ver o comunismo sem comunas, ou seja, para existir comunismo têm que existir comunas. E para " morrer um pouco de comunismo " têm que morrer uns quantos comunas. Daqui resulta a minha interpretação daquela tua frase.

 Um dia ainda havemos de falar sobre o comunismo como filosofia política. Foi pena que os intérpretes que, inicialmente, tentaram implantar o comunismo, como política de governo, tivessem sido uns canalhas da pior espécie. ( Refiro-me a Estaline e Mao essencialmente). Por isso, eu considero que os resultados que advieram do comunismo  se devem não à doutrina mas à forma como ele foi usado para benefício de uns quantos que só queriam o poder pessoal não para melhorar a vida dos seus povos mas para uso próprio.

E chega de faladura e contigo também vou cantarolar " o Bairro Negro " do grande e inesquecível Zeca Afonso. 

2011-03-08

Arsénio Pires - Porto

Meu caro Gaudêncio:

 

Agradeço-te o teres reconhecido esta pequena homenagem que aqui quis prestar ao nosso querido Zeca Afonso.

Algumas vezes o ouvi ao vivo e muitas outras o cantei em privado e em público, acompanhando-me à viola, azucrinando os ouvidos salazaristas do meu comandante de Batalhão nas matas da Guiné. A “Menina dos Olhos Tristes” e “Olha o Sol que vai Nascendo”, chorei-os muitas vezes.

Não ficaria de bem comigo se não assinalasse esta data.

 

Agora, vamos a outro assunto.

Sei bem que uma mentira repetida cem vezes se transforma em verdade.

Deve ser por isso que afirmas: “por teres demonstrado com esse teu gesto, de bom gosto, que aquela " barbaridade " que, faz tempo, escreveste sobre o mundo pular e avançar sempre que morre um comuna, devia ter alguma subjacente picardia, ou alguma motivação malévola contra alguém”.

Ora, esta tua afirmação é uma não-verdade que não quero deixar passar no escuro. O que afirmei, e podes consultar a páginas 50 e tal deste link, é textualmente o seguinte:

 

“Com Saramago morreu mais um pedaço do pouco que resta do comunismo. E quando morre mais um pedaço do comunismo eu sinto que o mundo pula e avança."

Caro Gaudêncio, eu nunca afirmei “sempre que morre um comunista”(muito menos um comuna…) como tu dizes.

Portanto, “aquela “barbaridade” não tinha “alguma subjacente picardia, ou alguma motivação malévola contra alguém”. Porque, simplesmente, não gosto de ofender ninguém.
Também não me alegro com a morte de ninguém. Não está nos meus valores. Combato, sim, com todo o direito, julgo eu, as ideias ou ideologias que vão contra os meus valores.

Tento sempre nunca confundir ideias com pessoas. Para mim, a pessoa é um valor absoluto. Não a sociedade! Muito menos as ideologias!

 

Mas, desconfio que terei de ficar com a tal mentira corcundada nas minhas costas.

 

Termino agradecendo-te, mais uma vez, as tuas palavras de reconhecimento. Este era um dever meu.

Alegro-me por saber que também tu és um dos amigos do Zeca.

Venham mais cinco!

2011-03-07

António Gaudêncio - Lisboa

Obrigado, meu caro Arsénio, duplicamente obrigado !!!!!!!!

E obrigado,porquê? Por duas coisas bem simples:

a) por teres trazido à nossa leitura esses dois textos, muito bonitos, sobre esse nobre português que foi Zeca Afonso;

b) por teres demonstrado com esse teu gesto, de bom gosto, que aquela " barbaridade " que, faz tempo, escreveste sobre o mundo pular e avançar sempre que morre um comuna, devia ter alguma subjacente picardia, ou alguma motivação malévola contra alguém.

E falo "dos comunas" porque é um pensamento recorrente na cabecinha de todos os reacionários  primários ( perdoem a cacofonia ) deste cantinho, que o Zeca Afonso era comuna. Não era. Ele era outra coisa bem diferente: era um homem culto, era um homem bom, era um homem atento ao seu semelhante, era um homem muito sensível às injustiças sociais, era um homem que prezava a liberdade, era um poeta com P grande e era um cantautor do melhor que tivemos durante décadas.

Convido os "reacionáros" que, infelizmente, abundam neste País, a despirem os seus preconceitos sobre o Zeca e peguem nos seus CDs e num livreto com as suas poesias e leiam-nas e, ao mesmo tempo, oiçam as suas músicas. E, em simultâneo, tentem imaginar as condições em que algumas dessas obras de arte foram compostas e cantadas.

O Zeca viveu pobre e morreu pobre. Nunca conheceu uma vida desafogada e teve uma vida atribulada porque nunca abdicou dos seus ideais. Foi um desalinhado a quem alguns nunca perdoaram essa sua independência

Conheci o Zé Afonso, no verão de 1963, na cidade de Faro onde ele leccionava Português e eu aguardava que um barco dos grandes me levasse para a guerra de Angola, o que veio a suceder mesmo no final desse ano.

Desse nosso conhecimento nada ficou porque o Zeca, nessa altura, ainda não tinha ganho o espaço que alcançou nos anos seguintes no campo da música de intervenção e, já então, a PIDE não lhe largava as canelas. Naqueles anos a sua canção mais conhecida talvez fosse " O meu menino é de oiro, oiro......" ( totalmente inócua ). As canções de intervenção ( Vampiros, Coro dos Tribunais, Menina dos olhos tristes, etc ) vieram depois.

 A minha admiração pelo Zé Afonso poderia levar-me a escrever sobre ele até amanhã mas descansem que vou terminar mas não sem uma pequena provocação: Esse patusco desse Papa João Paulo II,  que deve ter feito "santos" à média de 15 por semana, podia ter tido um gesto nobre e devia, também, ter elevado aos altares o nosso grande Zeca Afonso porque ele ao menos deu-nos grandes exemplos  de bondade para com os nossos semelhantes, teve uma vida despojada, nunca procurou bens terrenos e nunca foi capitalista nem ganancioso como o SSSAAANNNTTTOOO J. M. ESCRIVÁ.

Agora batam!!!!!!   

      

2011-03-07

Arsénio Pires - Porto

Amigos:

Zeca Afonso morreu há 24 anos [23 de Fevereiro de 1987], com uma doença atroz: esclerose lateral amiotrófica.

Quem é que, de entre nós, nunca cantou uma das suas canções?

No Pontos de Vista fazemos-lhe homenagem.

Para que o não esqueçamos!

O seguinte texto do poeta António Pina, merece ser meditado.


 Vampiros e Eunucos 

 

Há 24 anos, feitos ontem, morreu José Afonso. Entretanto, vindos "em bandos, com pés de veludo", os vampiros foram progressivamente ocupando todos os lugares de esperança inaugurados em 1974, e hoje (basta olhar em volta) os "mordomos do universo todo/ senhores à força, mandadores sem lei", enchem de novo "as tulhas, bebem vinho novo" e "dançam a ronda no pinhal do rei", tendo, em tempos afrontosamente desiguais, ganho inaceitável literalidade o refrão "eles comem tudo, eles comem tudo/ eles comem tudo e não deixam nada".

Talvez, mais do que legisladores, artistas como José Afonso sejam, convocando Pound, "antenas de raça". Ou talvez apenas olhem com olhos mais transparentes e mais fundos. Ou então talvez a sua voz coincida com a voz colectiva por transportar alguma espécie singular de verdade. Pois, completando Novalis, também o mais verdadeiro é necessariamente mais poético.

O certo é que a "fauna hipernutrida" de "parasitas do sangue alheio" que José Afonso entreviu na sociedade portuguesa de há mais de meio século está aí de novo, nem sequer com diferentes vestes; se é que alguma vez os seus vultos deixaram de estar "pousa[dos] nos prédios, pousa[dos] nas calçadas". E, com ela, o cortejo venal dos "eunucos" que "em vénias malabares à luz do dia/ lambuzam da saliva os maiorais".

Lembrar hoje José Afonso pode ser, mais do que um ritual melancólico, um gesto de fidelidade e inconformismo.

Manuel António Pina

Jornal de Notícias, 24 Fevereiro 2011.

2011-03-07

Alexandre Gonçalves - Palmela

Será que já morremos sem que ninguém desse pela nossa falta? Como aqueles anciãos encontrados na poeira secreta do seu silêncio abandonado? Por onde gastamos nós as palavras que nos foram confiadas? Será por o tempo ser um bem escasso? Se o è, por que motivo o não ampliamos pela fala? A notícia que o Delfim houve por bem transmitir sobre o Joaquim Martins não justifica um alarme? Chamo de imediato Vergílio Ferreira, o escritor dos nossos descotentamentos metafísicos. Querendo almoçar com alguns colegas de outros tempos, telefonou ao primeiro. Já não mora aqui, diz a esposa, já partiu para o outro lado, nunca mais foi visto entre nós. Ferreira desliga e suspende-se entre o céu e a terra. Não telefonou a mais nenhum com medo de ter de almoçar com outro morto. O J. Martins era um nome que se fixava bem. Afável, insubstituível naquele nosso mundo de ausências, assinou de muitas maneiras a sua passagem por entre nós. Não é difícil à memória ir buscá-lo àqueles anos distantes, em que se jogava o nosso destino tanto individual como colectivo. Muitos foram os que passaram por nós, a quem o tempo apagou como se estivessem escritos a lápis. Nem um sinal os identifica hoje no espaço comum que foi o nosso. Não é concerteza o caso de J. Martins. Um dia pertimos todos para a vida, nas mais diversas direcções. Por momentos a festa da juventude foi interrompida. Em alguns casos os perigos foram maiores do que as forças. Muitos regressámos à doce amizade que a associação proporcionou. Falámos, fomos vistos, dissemos o nome, restituímos a presença. O J. Martins só voltou "numa caixa de pinho", porque temos muitos olhos atentos ao vento que passa. Entre todos lá se vai sabendo qualquer coisa, nem que seja obliquamente numa necrologia de jornal anónimo. Falar é preciso. Ir dizendo o nome, como quem responde às chamadas num início de aula. Remover o hábito das faltas injustificadas. Afinal, a idade já deu a volta à terra, já sabe distinguir entre ser e parecer. E o que mais nos consola é regressar a casa, aos que sabem de nós, dar notícia, informar, prevenir. Ou tão só sentar-se à mesa para um almoço de vivos...!

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