fale connosco


2011-03-07

Alexandre Gonçalves - Palmela

Será que já morremos sem que ninguém desse pela nossa falta? Como aqueles anciãos encontrados na poeira secreta do seu silêncio abandonado? Por onde gastamos nós as palavras que nos foram confiadas? Será por o tempo ser um bem escasso? Se o è, por que motivo o não ampliamos pela fala? A notícia que o Delfim houve por bem transmitir sobre o Joaquim Martins não justifica um alarme? Chamo de imediato Vergílio Ferreira, o escritor dos nossos descotentamentos metafísicos. Querendo almoçar com alguns colegas de outros tempos, telefonou ao primeiro. Já não mora aqui, diz a esposa, já partiu para o outro lado, nunca mais foi visto entre nós. Ferreira desliga e suspende-se entre o céu e a terra. Não telefonou a mais nenhum com medo de ter de almoçar com outro morto. O J. Martins era um nome que se fixava bem. Afável, insubstituível naquele nosso mundo de ausências, assinou de muitas maneiras a sua passagem por entre nós. Não é difícil à memória ir buscá-lo àqueles anos distantes, em que se jogava o nosso destino tanto individual como colectivo. Muitos foram os que passaram por nós, a quem o tempo apagou como se estivessem escritos a lápis. Nem um sinal os identifica hoje no espaço comum que foi o nosso. Não é concerteza o caso de J. Martins. Um dia pertimos todos para a vida, nas mais diversas direcções. Por momentos a festa da juventude foi interrompida. Em alguns casos os perigos foram maiores do que as forças. Muitos regressámos à doce amizade que a associação proporcionou. Falámos, fomos vistos, dissemos o nome, restituímos a presença. O J. Martins só voltou "numa caixa de pinho", porque temos muitos olhos atentos ao vento que passa. Entre todos lá se vai sabendo qualquer coisa, nem que seja obliquamente numa necrologia de jornal anónimo. Falar é preciso. Ir dizendo o nome, como quem responde às chamadas num início de aula. Remover o hábito das faltas injustificadas. Afinal, a idade já deu a volta à terra, já sabe distinguir entre ser e parecer. E o que mais nos consola é regressar a casa, aos que sabem de nós, dar notícia, informar, prevenir. Ou tão só sentar-se à mesa para um almoço de vivos...!
2011-03-04

Alexandre Gonçalves - Palmela

Nada sei de Fão. Nem onde fica Fão. Mas quero ir a Fão. Este som redondo, recheado de sugestões espirituais, onde o presidente se derrama em delírios gastronómicos, já não carece de mais justificações. A moirama troca de boa vontade o tédio urbano do sul, manchado por paraquedistas intrusos e loquazes, pelas verdejantes e bucólicas margens do Cávado. Estamos a preparar uma jornada de glória para o 16 de Março. E já podemos garantir quatro presenças, sem contar mulheres nem crianças. Temos um reforço de nordeste, que em virtude do seu carácter específico empresta a este empreendimento um grande significado. Chama-se ele nem mais nem menos Ricardo Morais. Porquê tanto alarido? Porque a vida passa como o vento destes dias rápidos de Março. Porque as pontes são a alma da associação. Porque a mesa, e a paisagem onde ela emerge, é cultura, é festa, é resistência, é um ritual de afectos e memórias. Porque a fala em directo tem mais verdade do que todas as escritas e gestos afins. Porque a vida apetece e outra não temos para emendar os erros. Eu quero ir a Fão. Vou esquecer por vários dias a minha vinha, o meu escritório, o meu computador, as mazelas entretanto decretadas pelo meu médico, a importância relativa que me é atribuída nos destinos da pátria. ("Prefiro rosas, meu amor, à pátria/ e antes magnólias amo/ que a glória e a virtude"). Eu vou a Fão e é legítimo esperar que aí possa ver e ouvir testemunhas da minha infância, dos meus devaneios juvenis, das minhas rezas antigas. E até dos meus excessos sazonais. Sei que vou com fome e sede e talvez até com lembranças pesadas. Mas sei que hei-de regressar mais leve, mais insuportável para os bons costumes, mais indisponível para a rotina da cidade, mais agressivo para os salteadores do meu país. Não os que roubam galinhas, mas os que de mãos desinfectadas infestam de virus a democracia. Vós todos os que medis a medo os dias que faltam faltai de vez ao medo e vinde e vede que é verdade o que as escrituras dizem: "Olhai que o vento cresce/ daquela nuvem negra que aparece".
2011-03-03

manuel vieira - esposende

O mês de Março é o melhor tempo para a lampreia, que se quer relativamente fresco para estar acomodado aos pratos quentes e daí o "encontro" para degustar aquela iguaria marcado para o próximo dia 16.

Dizem da lampreia “ou se gosta muito ou se odeia”, ou se exalam  impropérios   perante o aspecto serpentiforme do virtuoso ciclóstomo, ou em contraponto escutam-se romarias dos seus indefectíveis apreciadores pelas capelinhas gastronómicas dos recantos com fama. O velho patrão da Sonae e o da cortiça constam entre estes últimos e muitos outros famosos galgam as estradas para se amesendar e regalar.
O norte minhoto apresenta cardápios de ementas tradicionais que passam por um arroz corridinho a esbanjar do prato, suculento e escurinho, a contrapor a uma singular opção à bordalesa, estufadinha em molho guloso e a acompanhar com um arroz seco e umas torradinhas. Não é por mero acaso que a safra de Sabores de Março no Minho aponta o concelho de Esposende com as virtudes deste ciclóstomo nas diversas opções, mesmo assada com batatinhas ou em feijoada. Não se assustem os comensais porque há ainda mais variedades em uso lá para o Alto Minho, ou perguntem ao Dr. Francisco Sampaio, eterno apreciador e conhecedor do que de bom tem esta região. Claro que para sobremesa aparecem sempre uns pasteizinhos de Fão ou "Clarinhas", ou como lhe queiram chamar. Lá branquinhos são, depois de polvilhadinhos com o açúcar de pasteleiro, fininho qb.
A lampreia do rio Cávado tem fama e a forma de a preparar e cozinhar tem alguns segredos que a tornam muito apreciada. É uso retirar-lhe a pele e envolvê-la em preparo de vinhos vários e temperos a condizer, que lhe darão a consistência e sabor inigualáveis.
Num estrugidinho com azeite de Vila Flor de 0,4 , cebola, alho , bacon e louro junta-se calda da temperança, estufa-se lentamente a dita cuja, repartida em postinhas com largura de 2 dedos dos meus, para ter consistência de carnes e não se desfazer, adicionando-se ao tacho 1 colherzinha rasa de sopa de farinha triga. Junta-se o resto da marinada sem exagerar nos centilitros e cozinha-se com substância, acertando os temperos. Talvez mais umas coisinhas, mas não podemos confessar tudo, se não lá vem a penitência. Apresenta-se na mesa com os acompanhamentos já referidos, não faltando um bom tinto verde ou maduro, conforme as preferências do degustante.
Estas etapas da “Bordalesa” condizem em parte no arroz corridinho e malandro de comer à colher, que deve ser sempre carolino, na opinião dos velhos especialistas, quando os comensais estão por perto, para não empapar. 3 partes de água e 1 de arroz e a coisada fica à maneira. Não me questionem como é que eu sei, nem me convidem para a confecção, sob pena de ganhar ainda mais amigos, mas que é cá um prato quente, não tenham dúvidas.

2011-03-03

manuel vieira - esposende

 O "nosso" Martins Ribeiro teve tempo para tudo em temas de poesia e não só a Elisa lhe lançou o engodo para a perversa lírica que até  pode chegar às mãos, ao que se lê.

Um poema forte e de sabida intervenção que pinga expressões de orientação revolucionária em alguns dos seus recantos, o que mostra que os fiscais do regime andavam distraídos submersos nos bairros da capital.

Claro que o Ribeiro só falou das mãos em tempos de idade mais adulta e deixou para outras musas os acrescentos de inspiração juvenil mas o que é certo é que este decano da AAAR mostra como sabe utilizar o tempo e os meios e agora já não estou a falar das mãos, claro, na sequência do último texto dos "Pontos de vista".

A partilha que vai fazendo da sua produção literária mostra também a forma aberta como se relaciona com os restantes colegas e a sua frequência pode ser incentivo para quantos por aqui passam em exclusivo de leitura.

Este é o espaço de todos e reconheço que ler também é participar, como sentirá qualquer escritor, pese a importância do escrever.

Faz bem e gera dinâmica comunicacional que reforça qualquer relação.

2011-03-02

Arsénio Pires - Porto

Belo poema, Martins Ribeiro.

Nem sei como não te incomodaram os tais que bufavam silenciosamente pelos cafés e esquinas.

Tiveste coragem!

No fim, ficamos com a certeza de que nem sempre a revolução é evolução. Que pena!

Belo poema!

Quer partilhar alguma informação connosco? Este é o seu espaço...
Deixe-nos aqui a sua mensagem e ela será publicada!

.: Valide os dados assinalados : mal formatados ou vazios.

Nome: *
E-mail: * Localidade: *
Comentário:
Enviar

Os campos assinalados com * são de preenchimento obrigatório.

Copyright © Associação dos Antigos Alunos Redentoristas
Powered by Neweb Concept
Visitante nº