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2011-05-27

manuel vieira - esposende

Pecado estará quase sempre associado a proibição. Também normalmente só se proíbe o que é bom,o que sabe bem, pois o que é mau naturalmente não precisa pois não se pressupõe a tentação. Ninguém proíbe de beber o que é extremamente amargo, intragável pois ninguém se tenta por tão mal saber. Amesendar-se em Folgosinho, nas mesas gulosas do Albertino, é reactivamente de aprazível satisfação, acelerando os prazeres que inebriam o corpo e também o espírito, ou a alma, na voz de alguns. É o tratamento recomendado pelos deuses que gerem os condimentos, mas os mafarricos da oposição procuram apelidar sempre de gula, um termo preconceituoso dos reduzidos de estômago que indispõem até os enclausurados monásticos, representantes do paraíso nos celestiais banquetes de mesa comprida, apreciadores e também criativos das artes clericais de bem comer e lambusar os dedos. Para ontrariar e até fazer esquecer garantidamente os percursos de mesa em Cristo Rei, não há como na "marquesa" do Albertino.
2011-05-27

Arsénio Pires - Porto

1.

O Aventino tem a pena de escrever palavras

como mãos que falam.

Ninguém fica sentado se os seus textos

batem leves na janela da manhã

e acenam e despertam e vos chamam

como um amor infante e proibido.

 

Não fora assim e os momentos fortes

que aqui passámos mudos e a gritar

teriam sido ausência em tudo e todos.

Um silêncio que não chega a estar calado

para que possamos respirar e quem sabe

ainda vir.

Daí que, lá e aqui, o Medo.

Com letra grande o Medo,

condição de todo o Anjo que é carnal.

De tudo o Medo e de ninguém

que nos ata internamente e nos sufoca.

 

2.

Em tudo sois iguais aos outros homens.

Excepto no pecado.

Nascestes sem ele como as pedras da montanha.

E em virgindade fostes concebidos.

Depois, viestes ressurgidos de entre os montes.

E aqui estais.

Como se tudo começasse agora mesmo

e gritásseis: Vede como tudo é bom!


3.

Abraçai-vos assim enquanto é tempo.

O Tempo de não ter Medo a ninguém.

2011-05-26

Alexandre Gonçalves - Palmela

Ponto 1.Euforia é a palavra que me ocorre para caracterizar esta farta abundância de presenças na nossa fala. É Maio, a natureza acorda duma hibernação imensa,a flor da giesta invade os bíblicos territórios deste portugal em vias de extinção. Dói viajar por estes vales e montanhas e ver uma infinita beleza sem qualquer utilidade. Os políticos de serviço ladram como cães vadios mas ignoram de que matéria é feita tanta tristeza e tanto abandono. Os humanos sobreviventes estão de pé a segurar o vento, a pôr o ombro nas casas, para que o mundo não lhes caia em cima durante a noite. Acabo de chegar pela centésima vez desse fundo obscuro a que damos o sonoroso nome de Portugal. Um país que morre devagar em Lisboa, que se extinguiu nas serranias,que balbucia quase fome quase raiva nas cidades. E uma classe política que se prepara para reproduzir um passado vexante, como se não houvesse nada de novo na frente norte. É confortante que a alma da palmeira esteja viva numa paisagem social onde tudo foi morrendo. E confesso ter saudades dum tal J.Marques, que agitou os ânimos, tendencialmente demasiado brandos. Ponto 2. Aventino, não nos acuses nem de gula nem de quaisquer pecados. Nós, como tu bem referes, pagámos tudo com antecedência. Sirva de argumento esse menino que por ser alérgico ao leite se viu privado de sucessivos pequenos-almoços. Não foi só ele que que bebeu as manhãs de neblina em jejum. No seu jejum todos nós jejuámos a mão que embala o berço. O pão quente, que não se provava. Aquela fala musical que devia ajudar a agarrar o dia e niguém ouvia. Ficou-nos a todos a palavra medo como herança. E quando tanta audácia nos fazia falta para voar, só aparecia no vocabulário hesitação e medo. De resto, em Folgosinho vamos comer a mais espiritual das culturas, que terá sabor a estética, a grandiosidade, a tradição. A mesa será apenas o lugar da fala, do encontro, de irmãos distantes que regressam. É dia de PORTUGAL. Celebrá-lo não é inflamar o discurso duma retórica hipócrita, como o irão fazer aqueles que sugaram a esperança. É andar 700 KM e ver no terreno as feridas dum país traído. É ver também como este esplendor lateral, tão mal usado de se ver, pode exaltar o espírito e devolver energias que andam perdidas. (Continua na poóxima ocasião)
2011-05-25

PEINADO TORRES - PORTO

Boa tarde Caro AVENTINO PEREIRA, é com o máximo respeito e amizade que te dirijo a ti e atodos os nossos companheiros as seguintes palavras: Efectivamente uma grande parte da educação que nos foi ministrada, teve como base O MEDO. e pior que o MEDO de vomitar,ainda agora acho eu, e já lá vão 68 primaveras, tem a ver com a parte espiritual. Quantas vezes ouvimos, nas pregações,nas leituras no refeitório e em muitos outros sítios , na famosa frase das GLÓRIAS DE MARIA, em que SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO escreveu " QUEM NÃO PRESERVERAR NA CASA DE DEUS, ÉSTÁ IRREMEDIÁVELMENTE CONDENADO AO INFERNO" . Ainda às vezes ouço isto. Assim como também me lembro do que me foi dito quando me mostraram o cartão vermelho. "não chores PEINADO, podes ser um grande homem lá fora e as PORTAS DO CÉU continuam abertas". Na altura eu tinha 16 anos e confesso demorei algun tempo a descodificar a mensagem e por isto e ouras coisas fiz uma visita após 15 de ter saído, estive 2 duas horas na sala de visitas sem que mais ninguem me aparecesse, além do IRMÃO que me abriu a porta, e o resultado desta situação foi ter estado 36 anos sem voltar à quinta da BAROSA. Há muito tempo que perdi estes e muitos outros MEDOS, mas amigos e companheiros, é com isto e outras coisas mais que me acompasnharão quando for " CROMADO ", quero dizer CREMADO. Não quero terminar sem vos dizer que a minha passagem pela BAROSA foi determinante para a minha vida futura, pois não só me deu formação intelectual, como me deu fortes directrizes no âmbito organizacional e disciplinar. Para todos um abraço. VOLTAREI se DEUS me permitir antes de ser "CROMADO"
2011-05-25

Aventino Pereira - Porto

E vós saboreais já o repasto imaginado no falado Albertino em Folgozinho. Varreu-se-vos da vossa memória a palavra gula e a palavra pecado com que tantas vezes nos varreram a nossa cabecinha de meninos imberbes e sonhadores de um prato cheio de comida como outros tinham, num outro lugar, de um outro país? Ou, porventura, não se varreu nada e lá está a sêmea e a maçã, o grão de bico e a sopa e os esquálidos corpos dos meninos da Barrosa pendurados em ossos que mesmo assim teimavam em crescer?

Havia um desses meninos que era alérgico ao leite. De manhã vinham umas cafeteiras de café com leite para todos mas esse menino não o tomava porque sabia que se o tomasse haveria de o vomitar de seguida e vomitar era, òbviamente, proibido. Havia ainda o medo, o medo de ser diferente, de ser doente e o menino que fosse doente haveria de ir embora, se não nesse mesmo dia, ao menos no fim desse período escolar. Era o medo, palavra bela para quem o impõe, palavra tenebrosa para quem o sente. Então durante os primeiros dois anos, esse menino não tomava o pequeno almoço e assim estava toda a manhã sem nada de comer no corpo e com muito pouco sentir na alma. 

Quem sabe se a gula no Albertino de Folgosinho a que vos aprontais não nos é a catarse desses tempos de fome e incerteza, desses tempos de todos os dias iguais de uma solidão consentida. Não se me varreu tudo desses tempos, não, infelizmente, e mais tarde percebi que é preciso espalhar o medo no coração de uns para que os outros reinem e que por este mundo maravilhoso profileram tantos e tantos que todos os dias, a todas as horas, o fazem em todos os continentes. E o pior de tudo isso, é que o fazem com êxito

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