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2011-05-29

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

Oh! Bem-aventurado que eu fui por não ter ficado com deletérias sequelas do seminário, nem com a personalidade cheia de mórbidas brotoejas. Nada disso; enquanto lá estive fui-me adaptando à sua vivência, fui comendo o que me davam e calando o que me mandavam. Poderia ter havido para outros motivos de escândalo, motivos de esconjuro, motivos para ter de sentir ainda hoje algum ferrete de ignomínia e recalcamento, mas eu apenas direi: bendito seminário de Cristo-Rei que me deu quase tudo do que fui na vida. Poderia, na verdade, não ter sido muito, mas esteve conforme o tamanho da minha ambição; por isso, o bastante. Apesar de tudo o que dizem, senti-me (e fui) sempre um homem livre. Reconheço, no entanto, que as coisas devem ser encaradas através de várias perspectivas e, por isso, admito sentimentos e reacções diferentes das minhas e posso dizer-vos que eu nunca me deixei castrar e, libertando-me da lei da rolha, pude sentir mesmo e sem preconceitos os ditos amores da juventude. Creio que, nesse aspecto, as gerações mais recentes dos seminaristas da Barrosa foram bem mais favorecidas que a minha já que, segundo me apercebi, puderam conviver de forma mais descontraída com o elemento feminino. Mesmo assim não os invejo porque eu soube dar-lhe a volta e nunca me queixei. Claro, posteriormente, fora desses muros, pude então desforrar-me bem das restrições passadas.

Verifico que ao Vieira lhe deu hoje para, de forma erudita, filosofar sobre o rapanço de tachos e cantar o fado corrido da chouriça e das possíveis iguarias do Albertino; ainda bem, porque esse é que é fado que se cante, fado corrido e marialva, e não o da “desgraçadinha”, fado triste que certos meninos dos seminários que não souberam construir a tal carapaça protectora de que fala o nosso Presidente, ainda hoje cantam, em tom fatalista e lamurioso, frustrações e traumas  simplórios;  mas eu não. Embora prefira ser comido pela terra pois tenho isso como um fim mais bíblico e prosaico, creio mesmo que e como entende o companheiro Peinado, até ser “cromado” cederei sempre ao pecado da gula e, não querendo ser indiscreto, a muitos outros pecados considerados ainda mais escabrosos. 

Assim sendo, que venha rápido o nosso Encontro para nele vivermos a alegria da amizade e cometermos, ao menos e já sem os dentes de outrora, o dito pecado da gula. De resto e como reza o “Borda d´Água”, Deus super omina!

E que viva o Amor!

 

2011-05-29

manuel vieira - esposende

 Esta ' mui nobre arte de bem rapar todos os tachos'  não tem só marquesa na Clínica do senhor Albertino pois vivemos em território farto de bons medicamentos, mas que dá para aguçar os dentes e reagir de forma pavloviana, lá isso dá.

Não sou muito farto em aceder ao passado por livre arbítrio mas não estarei imune às colagens subconscientes aos lugares da Quinta, nomeadamente ao seu refeitório onde destrinço uma chouriça preta de acidez avinagrada q.b., bem melhor do que as que eu não comia em casa e que nunca mais achei em parte alguma. Não sei se seria exclusivo de fabrico local pelos bons "irmãos" que suavam as estopinhas para alimentar aquela boa cambada.

Os nossos "conventos" deixaram marcas diferentes em cada um dos meninos e dos adolescentes pois os denomnados "jovens" já tinham construído a sua carapaça protectora, com as ferramentas genéticas e alguma experiência de internato.

Se alguns se foram da lei da rolha libertando, como simulara o poeta, outros ainda hoje vivem marcadamente arrolhados, qual colheita de muitos anos tamponada pelo tempo e que permanecem com cara de padre, como se isso fosse marca gravada por ferro em brasa.

Outros transpuseram essa marca mas fazem questão de trazer sempre à tona, como faz a fadista, ao cantar as lamúrias do destino, ao entoar em tons menores a fatalidade, essa desgraça ambulante que não descansa pelo uso repetido nos palcos daquele  desassossego militante que assoma às janelas da vida. (isto é que é falar)

É o lado emocional que se não quer esquecer, é a fase da vida lampejada de sonhos e fantasias irrepetíveis, únicas,  que nunca queremos afastar... que fazemos questão de relembrar nos momentos de arte criativa.

Parece que Hoje me deu  para cantar o fado nestas andanças virtuais. Mas também quero ver se o escuto cantado de outro lado.

2011-05-27

manuel vieira - esposende

Pecado estará quase sempre associado a proibição. Também normalmente só se proíbe o que é bom,o que sabe bem, pois o que é mau naturalmente não precisa pois não se pressupõe a tentação. Ninguém proíbe de beber o que é extremamente amargo, intragável pois ninguém se tenta por tão mal saber. Amesendar-se em Folgosinho, nas mesas gulosas do Albertino, é reactivamente de aprazível satisfação, acelerando os prazeres que inebriam o corpo e também o espírito, ou a alma, na voz de alguns. É o tratamento recomendado pelos deuses que gerem os condimentos, mas os mafarricos da oposição procuram apelidar sempre de gula, um termo preconceituoso dos reduzidos de estômago que indispõem até os enclausurados monásticos, representantes do paraíso nos celestiais banquetes de mesa comprida, apreciadores e também criativos das artes clericais de bem comer e lambusar os dedos. Para ontrariar e até fazer esquecer garantidamente os percursos de mesa em Cristo Rei, não há como na "marquesa" do Albertino.
2011-05-27

Arsénio Pires - Porto

1.

O Aventino tem a pena de escrever palavras

como mãos que falam.

Ninguém fica sentado se os seus textos

batem leves na janela da manhã

e acenam e despertam e vos chamam

como um amor infante e proibido.

 

Não fora assim e os momentos fortes

que aqui passámos mudos e a gritar

teriam sido ausência em tudo e todos.

Um silêncio que não chega a estar calado

para que possamos respirar e quem sabe

ainda vir.

Daí que, lá e aqui, o Medo.

Com letra grande o Medo,

condição de todo o Anjo que é carnal.

De tudo o Medo e de ninguém

que nos ata internamente e nos sufoca.

 

2.

Em tudo sois iguais aos outros homens.

Excepto no pecado.

Nascestes sem ele como as pedras da montanha.

E em virgindade fostes concebidos.

Depois, viestes ressurgidos de entre os montes.

E aqui estais.

Como se tudo começasse agora mesmo

e gritásseis: Vede como tudo é bom!


3.

Abraçai-vos assim enquanto é tempo.

O Tempo de não ter Medo a ninguém.

2011-05-26

Alexandre Gonçalves - Palmela

Ponto 1.Euforia é a palavra que me ocorre para caracterizar esta farta abundância de presenças na nossa fala. É Maio, a natureza acorda duma hibernação imensa,a flor da giesta invade os bíblicos territórios deste portugal em vias de extinção. Dói viajar por estes vales e montanhas e ver uma infinita beleza sem qualquer utilidade. Os políticos de serviço ladram como cães vadios mas ignoram de que matéria é feita tanta tristeza e tanto abandono. Os humanos sobreviventes estão de pé a segurar o vento, a pôr o ombro nas casas, para que o mundo não lhes caia em cima durante a noite. Acabo de chegar pela centésima vez desse fundo obscuro a que damos o sonoroso nome de Portugal. Um país que morre devagar em Lisboa, que se extinguiu nas serranias,que balbucia quase fome quase raiva nas cidades. E uma classe política que se prepara para reproduzir um passado vexante, como se não houvesse nada de novo na frente norte. É confortante que a alma da palmeira esteja viva numa paisagem social onde tudo foi morrendo. E confesso ter saudades dum tal J.Marques, que agitou os ânimos, tendencialmente demasiado brandos. Ponto 2. Aventino, não nos acuses nem de gula nem de quaisquer pecados. Nós, como tu bem referes, pagámos tudo com antecedência. Sirva de argumento esse menino que por ser alérgico ao leite se viu privado de sucessivos pequenos-almoços. Não foi só ele que que bebeu as manhãs de neblina em jejum. No seu jejum todos nós jejuámos a mão que embala o berço. O pão quente, que não se provava. Aquela fala musical que devia ajudar a agarrar o dia e niguém ouvia. Ficou-nos a todos a palavra medo como herança. E quando tanta audácia nos fazia falta para voar, só aparecia no vocabulário hesitação e medo. De resto, em Folgosinho vamos comer a mais espiritual das culturas, que terá sabor a estética, a grandiosidade, a tradição. A mesa será apenas o lugar da fala, do encontro, de irmãos distantes que regressam. É dia de PORTUGAL. Celebrá-lo não é inflamar o discurso duma retórica hipócrita, como o irão fazer aqueles que sugaram a esperança. É andar 700 KM e ver no terreno as feridas dum país traído. É ver também como este esplendor lateral, tão mal usado de se ver, pode exaltar o espírito e devolver energias que andam perdidas. (Continua na poóxima ocasião)

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