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2011-10-05

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

Caros companheiros e amigos: 

na verdade isto por aqui está mais murcho que a pele dos “ditos” e parece que todos dormem a sono solto. Para ver se a coisa arrebita, lembrei-me hoje de aparecer deitando mão dum postal feito de bucolismo e serenidade. E foi o caso que, nesta manhã,  ao sair para tomar o café do costume, na rotina do costume, me deparei com um dia luminoso, cheio dum sol esplendoroso ainda quente, a escoar-se em suaves e difusos raios por entre a folhagem do arvoredo, alguma já a tingir-se de tons amarelentos. Ao contrário do bulício e confusão doutras ocasiões hoje fazia um silêncio aprazível, corria uma calma e uma paz benfazeja, apenas entrecortada pelo rumorejo da leve correnteza que se desfazia em pequenas madrias sussurrantes caindo sobre tufos e torrões de erva fresca e verdejante. Parei em cima do pontilhão sobre o rio Vez e, sendo este um dia outonal, dei comigo a meditar em como, também em pleno outono da minha existência, me era ainda concedido pelo universal Reitor da Vida e da Morte o gratuito privilégio de puder desfrutar de tão genuíno paraíso; pude aquilatar igualmente o supremo valor dessa dádiva, agradecendo-a com o possível e sincero fervor dum pedinte. Torna-se evidente que para tal fruição ser plena se deveria estar também em paz com Ele e com a nossa própria Consciência o que, por felicidade, julgo ser o meu caso no presente. Se algum mal pratiquei, não me lembro bem, foi antanho, estorricado muitas vezes pelo fogo de amores desencontrados, agora bem apagados e distantes. 

Se viveis no meio de infernais balbúrdias convido-vos a aparecer por estas paragens para nos encontrarmos na minha tenda e, como diz o Arsénio, assobiar e cantar então uma ode á alegria, sem interferência das “ditas” e das “tripas”. Fico á vossa espera.

Este postal vai sem selo e faço votos para que não sejais vós a pagar a multa aos correios.

 

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2011-10-03

Arsénio Pires - Porto

Meu caro Aventino:

Regressado, há dias, duns tempos fora desta "Troika", deparei-me com o silêncio geral que o teu generoso convite provocou.

Não te espantes, amigo! É que, depois da "dita" a que bastantes aderiram (pelo menos, de boca... já que a idade é mais pesada do que o chumbo!), as forças ficaram rente ao chão. A coisa demora a endireitar-se mas... lá irão!

Portanto, esperemos, assobiemos, cantemos que, mesmo sem medicinas, marcaremos contigo o dia para pisarmos as ruas e tabernas donde Portugal extraiu o nome.

À "dita" não iremos. Preferiremos ficar por perto, um palmo mais acima, devorando umas boas "Tripas" à moda do Porto que é o único sítio onde os homens e mulheres ainda as têm.

Têmo-las no sítio, ó adoradores de Mafoma! Se duvidais, vinde apalpar já que a fé vos é do tamanho do milho miúdo!

2011-09-17

AVENTINO AVENTINO - PORTO

AS PROMESSAS NÃO SÃO PARA CUMPRIR

Alguns de vós invectivaram-me sobre a proposta que aqui lancei e aqui me comprometi: um sábado, na cidade do Porto, numa visita sobre a sua História, eu Aventino, servindo de guia da amizade e do conhecimento, ao serviço de quantos e quantos AAAR's quisessem vir.

(Outras vezes propus-me falar sobre os grandes temas que carregamos das nossas estórias: a CULPA; o SILÊNCIO; a POBREZA.  Mas em todas essas vezes, as palavras foram mudas, como que se todos não soubéssemos que numa ferida aberta não se pode tocar).

Agora, eu, Aventino, aqui reitero e afirmo o empenho, o encanto e a entrega aos vosso querer, numa visita pelos sinais e pelos silêncios de uma cidade de onde houve nome Portugal. Direis vós o dia certo de um sábado ou de um domingo.

O demais, dar-me-eis vós a honra de vos dizer simplesmente: SIM. 

 

2011-09-17

AVENTINO AVENTINO - PORTO

 

E porque marcais vós repastos e banquetes a esses dias?

Vou consultar Freud e Marx, Platão e Séneca. (Os Evangelhos, não; Deuses não. Não vão eles dizer-me as razões que nem eu quero saber).

Vá lá meus queridos AAAR: Dizei-me vós o porquê desses dias improváveis de terças-feiras e quintas-feiras, vá lá, dizei-me.

António Lobo Antunes escreveu, numa das suas divinas crónicas (vêem, vêem, como estou quase, quase a tornar-me crente?) que uma das suas mulheres, a primeira, claro, na hora de uma morte anunciada, perguntou-lhe as horas,

-que horas são?!

-seis menos um quarto, um quarto para as seis, respondeu-lhe Lobo Antunes.

-Que hora tão improvável!, disse-lhe ela. E morreu.

Os dias e os silêncios têm disto; o improvável e a certeza, a cor do vento e a água benta na nudez pura de uma criança. Os dias que agora conhecemos dos AAAR são à volta de um repasto, gordo, calórico, com álcool e doces em iguarias a que nem todos os possíveis AAARS são chamados.

A minha voz de hoje é a voz da inveja, essa voz da tristeza de não ter mergulhado a boca numa comida gorda, de cabrito, cordeiro ou de anho, de muito álcool e muitos doces, para adoçar uma tristeza triste de não vos ver, de não me rir convosco, de não vos poder dizer, oh! meu irmão, "A F...começou mesmo em Vila Nova de Gaia, há tantos anos que nem eu nem tu sabemos mesmo quando fomos isso, F...de favorecidos". 

Vá lá, meus queridos Peinados, Ribeiros, Arsénios, Vieiras, Assis, vá lá meus queridos seminaristas de mesa: aceitai ao vosso lado aqueles que navegaram nessas mesmas vossas águas dos anos sessenta em diante. Vá lá, tende misericórida, marcai um sábado, um domingo, uma sexta feira ao finzinho da tarde num qualquer canto deste nosso belo e eterno Portugal. Batei sinetas e trompetes, e-mails e telecópias, sms e telemóveis. Chamai a todos, mintam, mintam que nada é de seminário, de religião, de recordações ou vivências, de passados ou complexos. E então, não mais aqui escreverei: "E AQUELES QUE FICARAM".  

2011-09-16

Assis - Folgosa - Maia

Estou de volta, AMIGOS...

Já me actualizei quanto à leitura dos vossos escritos e também do belo "Pontos de Vista" de L. Boff, um autor que muito aprecio. - E viva o Luxo! amigo Ribeiro... Realmente uma viagem até à capital Catalã não se faz todos os dias, como a afamada de Monção também não será prato do dia a dia... Tornar-se-iam enjoativas e acabaríamos por ficar doentes, por muitas passeatas clínicas que dêssemos e por mais suaves que elas  fossem. É o que espero fazer à beira-mar logo que chegue ao meu quintal de Cabanas /Orbacém, onde te aguardo, assim como a todos os que me desejem visitar. É questão de me telefonar, pois não desejo que nenhum dos meus amigos bata com o nariz na porta. Sei que o amigo A. Lontro me telefonou - e eu respondi, desde Cracóvia, por mensagem que espero tenha recebido. - Pois viva o Luxo, Ribeiro. - Depois de visitar a cidade de Barcelona e  alguns dos seus monumentos, entre eles a Sagrada Família de Gaudi, se outro dia lá voltar, sentar-me-ei tranquilamente no interior da catedral e deixarei que a magia da luz e som que desce do alto pelos vitrais multicolores, me embede sem pressas de voltar ao exterior. Ali não havia o "pavio" que habita a normalidade das nossas igrejas e que tanto mal provoca em nossas mentes. Só luz e côr. Apenas Vida. - Mas, amigo Ribeiro, mais uma vez: "Viva o luxo!" - Sem o saber, o meu filho que passa os dias dentro de aviões, já tinha marcado outra viagem de avião para os pais - é claro, dessas mais baratas. Fomos até Cracóvia, a bela cidade polaca, culta, musical. Tive a oportunidade de assistir a um concerto clássico na igreja de S.Pedro e S. Paulo, mas fui também ver os campos da barbárie nazi de Auschwitz-Birkenau. - A par do belo criado pelo Homem, o contraste bárbaro do Homem. Como é isto possível? É a pegunta que me fica desta viagem. O pior é que ainda não aprendemos a lição. Hoje, continamos a matar-nos e talvez ainda em maior número, só que mais espaçadamente no tempo, e sobretudo nos lugares. Quantos milhões de inocentes já morreram e ainda vão continuar a morrer desde aqueles dias?

O meu abraço fraterno

PS - Sempre que possa, na mesa da amizade convosco, lá estarei para reatar os laços.




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