fale connosco


2012-01-01

Assis - Folgosa - Maia

FELIZ  ANO  NOVO  para todos os amigos e seus familiares para cujo Email me não foi possível enviar tais votos.

Espero ainda chegar a tempo já que o garoto 2012 ainda nem um dia tem de vida...

Esta foi a razão primeira que me trouxe ao 'fale connosco' e não para falar da afamada 'roupa velha´de que, como o amigo Manel, tanto aprecio.

E, uma vez que comecei a falar, deixai que diga mais umas palavras. E estas serão apenas para dizer ao nosso amigo Martins Ribeiro que, se fosse eu a escrever o seu belo conto, não o terminaria de forma tão agradável para o dedicado "zelador", não. Acabaria por levantar da cova o pobre velho para meter um 'cagaço' tal ao zelador que, petreficado, ficasse como exemplo para quantos nos querem hoje, e no futuro, até o calor do sol roubar... 

Bom Ano para todos...

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2011-12-31

A.Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

 

O VELHO E O SOL


Num País não distante como o das fábulas, mas aqui bem perto, havi um velhinho, encorrilhado e relho, reformado dos serviços públicos com a mísera pensão de poucos tostões que mal lhe davam para enganar a fome. Vivia num casinha mais parecida com um pardieiro, muito desconfortável e sombria, por cujas frinchas zunia uma aragem cortante, situada num pequeno quintal que dava para a rua pública. 

O País onde vivia o reformado já não existe porque, tendo sido antanho possuidor de uma encantada História de heróis e santos, de trovadores e cavaleiros, foi caindo na vileza e tornou-se num antro de ladrões, de madraços, de vilanaços e escroques que o mergulharam na ignomínia e na desonra até o riscarem do mapa.

Ali num canto do eido, rodeado de plantas e ervas daninhas, sobressaía um tosco e pequeno banco e pedra batido pelo sol nos dias limpos de inverno, onde o pobre do velhote, curvada a espinha e arrimado a um cajado rústico, nele se ia sentar e se deixava ficar tempo sem fim, muito regalado, a dormitar ou a pensar na sua vida, até o sol desaparecer. 

Mas veio um certo dia em que passou por ali na rua pública um indivíduo bem posto que, vendo o velho todo refastelado a gozar as delícias do calor daquele sol benfazejo, parou um pouco a observar, meneou a cabeça e seguiu caminho. Era o autarca (que título altissonante) do Município daquela terra, que foi concluindo para  si mesmo: não podia ser, a atitude do reformado era uma provocação, um desaforo, um insulto á sua condição de político, pois o que o velhote estava a fazer não era mais que a usufruir abusivamente de um privilégio para o qual não lhe tinha concedido a sua autorização de régulo e senhor todo poderoso a que ninguém deveria escapar. Chegado ao seu pomposo gabinete mandou chamar um zelador municipal a quem deu ordens para intimar o velho e avisá-lo de que deveria pagar um imposto se quisesse continuar a gozar o calor daquele sol de inverno. O subordinado, com o zelo de um capanga para agradar ao amo, não perdeu tempo e chegado ao pé do ancião, assim o informou:

-meu amigo, por ordem do nosso Presidente venho avisá-lo de que foi lançado um imposto a todos aqueles que, como você, apanham o sol nestas tardes frias, seja lá onde for.

 Não pôde o pobre do homem dar-lhe ali já uma bastonada com o seu bordão porque era muito fraco e desvalido mas, mesmo não conseguindo endireitar o seu corcovado dorso, retorquiu indignado:

-pagar um imposto pelo sol que Deus dá a todos na sua infinita bondade? Nunca! E saia daqui que já o não vejo bem!

Ruminando impropérios o malvado zelador lá foi informar o Soba daquele burgo da resposta do velhote. Parecia tudo ter ficado esquecido, porém, dali a uns dias, o desditoso ancião verificou que do lado público do seu quinteiro estavam muitos homens de fato macaco a construir uma estrutura semelhante a um alto muro, referindo tratar-se de um melhoramento para benefício do espaço público, mas ele viu muito bem que faziam aquilo para lhe roubar o sol que não quis pagar. 

Dali em diante o sol deixou de aquecer o seu rude e grosseiro banco de pedra e, ao sentar-se nele, o pobre do homem, privado do  gostoso calor do astro, passou a tremer de frio e logo fugia para dentro de casa, mas  como nela não tinha borralho tremia também, metia-se na cama e como a roupa era pouca, continuava a tremer. Foi enregelando cada vez mais e em pouco tempo se finou.

Alguns meses mais tarde andava um grupo de funcionários da autarquia a trabalhar numas obras do cemitério municipal e deles fazia parte o infame zelador que intimara o velhote; a dada altura, quando regressavam no fim da tarefa, passaram junto duma térrea e humilde sepultura, sem nome nem lápide e, olhando-a melhor, um dos homens inquiriu, meio intrigado:

-esta não é a campa daquele velho que recusou pagar o sol?

-Mas é mesmo, certificou o zelador com malvadez nos olhos. Ai o desavergonhado e somítico do velho carcaça, espera aí que eu já o ensino.

E sem cuidar do respeito devido ao campo santo, desapertou a braguilha das calças e fez uma indecorosa mijada em cima da campa rasa meio esbandalhada, juncada de uns quantos ramos de flores já secos e apodrecidos. Tudo porque o pobre do velho não quis pagar o sol.

A moral desta história é a de que já faltou mais para ela  acontecer.




 

2011-12-31

manuel vieira - esposende

Falava eu há dias sobre a "Roupa Velha", esse ditoso prato que mistura a verdura das couves ou coivões em segundo uso, o bacalhau e a as batatas azeitadas  com as chalotas e o alho sem grelo.

Na minha aldeia com ares de cidade ainda "se bota o ano belho fora", numa tradição que cresce em carrelas de ripas de pinho e as caras besuntadas de disfarce em grupos de 5, em despique com prémios endinheirados.

"E bota o ano belho fora, e bota o nobo cá pra dentro..." cantarola a miudagem calcorreando os recantos mais movimentados e as portas dos comércios na procura da moedinha. Em cima vai o "ano velho", lestinho no peso e na altura para não desgraçar os ombros dos moços do andor.

"...e bota o nobo cá pra dentro " ouve-se em coros entrelaçados na rua principal onde cheira já a bolo rei especial das boas pastelarias que concorrem em convencimentos adocicados.

"Boas saídas e melhores entradas" para os meus bons amigos que já oiço lá ao fundo.

2011-12-27

manuel vieira - esposende

Hoje, meus amigos, foi "Roupa Velha" e atentos à quadra podemos naturalmente descodificar a receita, sem confusões com o uso desmesurado de indumentária.

É uso da consoada o reforço das panelas com esse fim, numa tradição que tem atravessado gerações.

Limpinho de espinhas e da pele, lasca-se o bacalhau e reserva-se. Noutro recipiente cortam-se e reservam-se os "coivões" e as batatas também sobrantes.

 

Num tacho alargado aloira-se em bom azeite a cebola e o alho limpo do grelo, com folha de louro e toque ligeiro de pimenta preta moída na hora.

Adicionam-se os ingredientes reservados da ceia e vai-se mexendo, dando-lhe a frescura e intensidade de umas gotas muito ligeiras de vinagre Moura Alves, o tal com 10 graus de acidez estagiado em barricas de carvalho durante 10 anos . Também um toque de cominhos pode reforçar os aromas.

Emprata-se a Roupa velha, remoçando com ovo cozido em rodelas generosas e azeitonas pretas e um toque subtil de salsa cortada finamente.

É uma velha tradição portuguesa com arraiais fortes no Minho e pode ser cozinhado em versões ligeiramente diferentes.

Nas sobremesas as aletrias, os mexidos, os frutos secos, as rabanadas, os bolinhos de abóbora, o bolo rei e outros sustentos bem doces enxameiam as mesas.

Por cá fica o meu contributo...

 

2011-12-23

manuel vieira - esposende

"Vou comer os meus pirús", alguém diria por aqui em entoação de ligeira rusticidade e "assados são melhor que o céu", quase a afirmar "diz-me o que comes, dir-te-ei quem és", alheios, claro, à malvadez dos mafarricos do esquentado inferno aludido por Jorge de Sena.

 

"O prazer da mesa é de todas as idades, de todas as condições, de todos os países e de todos os dias; pode ser associado a todos os outros prazeres, e permanece como o último, para nos consolar da sua perda", dizia Brillat-Savarin em "Fisiologia do gosto" em 1825 e ainda hoje referenciado por ilustres chefes de cozinha.

 "Só o homem de espírito sabe comer: os animais alimentam-se" dizia ainda em aforismo, percebendo que nas manjedouras natalícias o eu sensitivo não prescinde da individualidade comensal.

 

Não sei se consegui afirmar alguma coisa mas não terei qualquer dúvida de que " a mesa é o único sítio onde ninguém se aborrece durante a primeira hora" e quando é na "Oliveira do Paraíso" do nosso Alexandre, não há minuto que aborreça, como aconteceu certamente na Terça-Feira onde se juntaram 12 colegas para um ditoso almoço de Natal onde se apascentou um expressivo arroz de lebres, sápido e de escorrido tempero das artes do Davide.

Natal que acalenta o nosso diálogo de mensagens, de abraços tantos já recebidos de vários recantos.

Natal que traz poesia e encanto e sensações várias e se serve em mesas longas.

 

Com a relevância da amizade, para todos envio um abraço natalício.

 

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