fale connosco


2012-10-20

manuel vieira - esposende

As notícias tristes também nos chegam...

Faleceu esta manhã o nosso colega Alexandre da Costa Gomes com 64 anos de idade, que residia na freguesia de Avintes em Gaia.

O Costa Gomes esteve connosco o ano passado no Encontro do Sabugal e este ano o seu estado de saúde já o condicionava bastante e por isso não esteve em Gaia.

O Assis e o Arsénio visitaram-no recentemente e já estava muito debilitado.

O seu funeral está marcado para o dia de amanhã, domingo, com as cerimónias fúnebres a partir das 16h00 na capela de S.Vicente na freguesia do Olival, onde nascera.

 

2012-10-19

manuel vieira - esposende

Morreu esta tarde no Porto o escritor Manuel António Pina, 68 anos, Prémio Camões 2011.

Natural do Sabugal, terra de muitos dos nossos antigos colegas, foi jornalista do JN durante bastantes anos e um dos grandes poetas da actualidade.


Regresso devagar ao teu

sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que

não é nada comigo. Distraído percorro

o caminho familiar da saudade,

pequeninas coisas me prendem,

uma tarde num café, um livro. Devagar

te amo e às vezes depressa,

meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,

regresso devagar a tua casa,

compro um livro, entro no

amor como em casa.

2012-10-19

alexandre Gonçalves - palmela

RIOS  DE  OUTONO

 

Do alto de Palmela, onde me dói a alegria de estar vivo, vejo correr dois rios impetuosos. Um é o rio da indignação. O outro o da esperança. Qualquer deles ultrapassa o seu leito, pelo ritmo excessivo dos caudais. Porém,  não há violência nestas águas. Violentas, sim, são as margens que as comprimem (B. Brecht). É meu propósito associar-me aos milhões de vozes e de vidas que neste início de outono mergulham na turbulência dos rios. Se ler não é um castigo, prometo de imediato três intervenções. Uma, que é esta, para insistir no fenómeno geral da indignação, já sugerida por diversas vezes nesta plataforma de encontro. E não me inibo de propor que se aproveite esta raiva colectiva como tema de reflexão e  porventura um simbólico exercício de cidadania. A este rio, que corre de toda a parte para Lisboa, referir-me-ei nos próximos dias. Mais à frente, falarei do rio da esperança. Eu sei, como diz o Aventino, que esta é a era do vazio. O céu nada oferece de azul. A terra está nas mãos dos predadores. A idade já nos inclina para  a melancolia. Não sei se queremos o passado. Ignoro se o presente não passa duma fraude. E o futuro está a cair como um telhado velho. Pode alguém escrever versos que não sejam tristes? Felizes os que têm voz e se dizem ainda, como se valesse a pena cantar! Mesmo assim, sei onde corre o rio da esperança. E hei-de falar dele como sendo tão verdadeiro como a chuva que agora bate nos vidros da janela.

Mas hoje não, nem nesta hora. Esta chuva é tão doce, tão rítmica, tão retroactiva... Tenho que ir a vila nova, àquela melodia húmida que se ouvia nas salas do quarto e quinto anos. Que descia com tristeza sobre Soares dos Reis e Coimbrões. E sobre as nossas mãos, trémulas de ausências. Tenho de me comover ainda com este largo onde a palmeira resiste, como se fora um café de encontros e confidências. Arrepiam-me as altas torres de Córdoba, pássaros negros ou corujas, que o Gaudêncio apanhou em flagrante a olharem para ele. Isto é, para nós. Finge, amigo, que não viste. Vamos juntar-nos todos para afrontar o inimigo iminente. Viver é resistir. Resistir é organizar-se em círculos concêntricos. Irei ter contigo. Juntamos os pagãos do sul e do nordeste, sequestramos os infiéis do Porto e arredores, nomeadamente o S.Pires, o Nabais, o B.Cardoso, o Aventino, o Peinado e outras espécies ameaçadas, como o Vieira, o Assis, o Meira, etc. No largo da Palmeira, num imenso lenho circular, instauraremos um banquete de residentes. E aí comeremos e beberemos a vida com urgência. E queimaremos todas as teologias da morte, num auto de fé final, como quem protesta contra todas as obscuridades. E havemos de ser felizes, visto que serão bem-aventurados os pobres, porque deles é o reino da terra. Andei ausente em parte incerta, mas todos entenderão que sou viciadamente ocupado. E que todas as noites faço preceder o meu leito nupcial por  uma breve passagem pelo amplo e  biodiverso recinto da palmeira. Esta palmeira é alta e dela  vê-se o mar, a infância, os amores perdidos e a inocência dos nossos pecados. É por isso que a palmeira, mesmo sem a garantia de herdeiros, está mais viva do que todas as eclesiásticas instituições que lhe inspiraram a existência. E assim como assim, o último a debandar que feche a porta.  Sem lágimas nem elogios fúnebres. Aproveito ainda para saudar o luminoso presidente, que em serviço de tolerante e sereníssima continuidade supre com vantagem as sucessivas ausências.

2012-10-19

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

Caros amigos e companheiros: a poesia tem de ser viva, não niilista como a de Paul Sartre, segundo afirma o Assis e estou de acordo com ele. Este último texto do Aventino foi um bocado despachado sobre o joelho, ele sim muito niilista, feito de tudo e de coisa nenhuma, muito saudosista de peripécias do seminário. Da azáfama do seminário eu já pouco recordo, não sei se é bom se é mau, mas não falo disso.  A poesia tem de ser substancial e quente como aquelas três coisas que, para serem boas, têm de ser também quentes, bem quentes; a mulher, a sopa e as castanhas. E, por falar em castanhas, calhava mesmo a propósito que houvesse alguém cá do nosso grupo que se dispusesse a fazer algum fumo nesse sentido e que as transformasse, como convém neste caso, em quentes e boas. Parece-me que para as bandas da Oliveira do Paraíso se está a pensar nisso, segundo informa o Davide e, se assim for, já lhe disse que gostaria de comparecer. Claro que, por motivos óbvios, preferia que fosse aqui bem mais perto e onde? Ora pois, noutro paraíso semelhante, o quinteiro do Assis, perto do céu e do mar. Ainda hoje comprei meia dúzia de dióspiros  e lembrei-me logo dos de Orbacém pois, mesmo comidos pelos melros e gaios, nem o que sobra deles se pode comparar sequer em doçura e sabor com quaisquer outros que por aí aparecem. Já sei que o Vieira foi presenteado com um cesto de physalis; sorte a dele. Os que eu cultivei aqui no meu eido, a título experimental, não tinham dado nada, mas agora desataram a florir em força e a produzir as suas cápsulas em barda. Só que piaram tarde e, estou mesmo a ver, o frio vai dar cabo deles. O Vieira tem vindo a sugerir receitas da pesada que nos vão fazendo salivar como o cachorro de Pavlov; então esta do sarrabulho é mesmo uma sádica provocação. Para mais, se for confeccionada pela sua mestria, nem quero imaginar! Vamos a isso e o Peinado que não falta porque, mesmo que não coma, vai sentindo o aroma pois cheirar já é bom, como acontece noutras circunstâncias. E devemos apressar-nos enquanto ainda sobram uns trocos pois, no ano que vem, para entrar nestas extravagâncias teremos de vender as calças e andar em cuecas. Entretanto e para prosseguir, vou ver se faço também a minha parte dando caça aqui pela serra a um cabritinho montês, bem mamão e bem chifrudo. 

2012-10-18

Assis - Folgosa - Maia

Olá, amigos...

Deixai que me espreguice um pouco...Deitei-me por volta das 3 h depois de ter posto a leitura das mensagens em dia. Até há bem poucos minutos, sentia-me quase como o Aventino, não a fazer a "poesia bela", mas como quem acaba de ler algumas páginas da filosofia nihilista de Sartre: Sem ter nada para dar, nem nada desejar receber... Abri agora, porém, o computador depois do almoço e recreio-me nos vossos escritos ricos em sabores. Mas vou lá fora ainda antes de vos juntar qualquer palavra mais...

Voltei. Não chove, mas também não há sol. Lá fora, fui recebido por sorrisos de miríades de flores, pequeninas, e o pio do Pisco. Ele voltou e veio acompanhado. Há outros, mas só um, ele, me reconheu. Cantou e respondeu ao meu desafio desentoado. Veio para mais perto e ali, descontraído, ficou ele a olhar-me. É ele, sim, o do ano passado. Já conhecia o diospireiro e pelos seus ramos se ficou. Como espantá-lo, amigo Ribeiro?... Quiçá ele tenha escutado os elogios do meu amigo aos diospiros do ano passado. Este ano, a chuva e o vento vieram juntar-se à passarada e aquela qualidade, então cantada pelo Ribeiro, está bem longe da qualidade dos disospiros já caídos ou ainda seguros nos ramos da árvore. Todavia, a quem os desejar provar, fica o convite para os vir guardar da passarada - gaios e melros - e lançar mão dos que se apresentem já apetecidos. E, se os diospiros não bastam, os physalis podem bem juntar-se-lhes. São abundantes e igualmente saborosos.

Quanto ao desafio lançado pelo Né Vieira, é questão de marcarem a data. Apenas, por razões familiares, peço não sejam escolhidos os dias 10 e 11 de Novembro. Vou estar ausente de Cabanas. Preferia, como o Aventino, ir jogar a bola, a pelota contra o frontão, a barra, o beto, o hóquei em campo, um passeio até Madalena, e até fazer um poema belo, como o seu, à minha mãe que Deus já há muito tem...mas há razões que nem sempre a nossa razão pode controlar...Ficai com o meu abraço fraterno.



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