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2013-02-07

alexandre gonçalves - palmela

 

NOVAS BEM-AVENTRANÇAS

 

Dissecada a amizade até ao limite do tolerável, até onde a letra o permite, ocupemo-nos com urgência do seu espírito. Isto é, façamos dela um caminho de cumplicidade, para que a Palmeira seja verde, móvel e incómoda. Não aceleremos o tempo. Ele tem um ritmo próprio. Não precisa da nossa precocidade. O céu bem pode esperar sentado, que nós somos da terra. Bem-aventurados os que resistem, porque deles é o pão-nosso de cada dia! Pode a argila inclinar-se e perder a arrogância anatómica doutras eras. Mas lá dentro mora ainda um homem, que acena com a cabeça um grande NÃO. Que ri desta fraude, desta farsa civilizacional, que nos querem vender a preço de saldo. E por isso, saúdo e honro todos os que discreta ou explicitamente afrontam com feroz denodo o peso dos dias e as agressões do tempo. E não são poucos. E em nome deles todos, exalto aqui dois nomes, dois guerreiros exemplares cuja coragem nos deve inibir qualquer desistência. São eles o Peinado e o Ribeiro. Um, porque nenhuma ameaça lhe tira o bom humor, nem a euforia de estar vivo. O outro, porque acumulando anos os troca pela sabedoria e pela doçura deslizante da memória. E por aquela garra de Oliveira, a dar peso à leveza da imagem. Saúdo também a consciência disto tudo e dum passado que sendo comum é contado sucessivamente por muitos, segundo a luz que a cada um assiste. A esse respeito, cito as "palavras vagarosas"que ainda praticamos na (vã?) procura de "verdades transparentes", como diz Pires. Ou aquela dor remota, que a memória traz de volta, por já não haver quem nos espere. Na estação dos caminhos de ferro ou na paragem das carreiras cancerosas das aldeias. E o trágico portão enferrujado, que selava metalicamente o nosso silêncio. Aventino, chamaste "mau" àquele deus que nos foi vendido como pai. Eu acrescentaria que além de mau era perverso, castrante e tarado. Muito semelhante aos deuses helénicos. Ao menos estes largavam o Olimpo e misturavam-se com os humanos, roubando-lhes as mulheres e fazendo filhos de qualidade. Deuses e homens deram à Grécia o grande século de oiro de Péricles, inventando a democracia, a liberdade, a justiça e o VALOR. E já agora, Aventino, bem-aventurado sejas por um pai desse tamanho! Gostei muito de o conhecer nesse retrato breve em sépia e em ternura.

                   Felizes os que têm pai,

                   mimosos os que têm mãe:

                   eu não tenho nenhum deles,

                   eu não pertenço a ninguém!

2013-02-06

Arsénio Pires - Porto

Escreve, amigo. Aqui.

Comenta o não comentável.

Diz que sim e diz que não. Ou que talvez.

Importante é que te sintas vivo.

Faz aqui a tua prova de vida antes que os dias te engulam.

Estás no sítio em que só vale a memória.

 

Saibas que quando só lembrares tempos idos,

o fim está próximo.

Partir é só regressar ao início.

 

Comenta enquanto há tempo.

Comenta

o Aventino,

o Alex,

o Assis,

o Ismael,

o Peinado,

o Vieira,

o Martins Ribeiro

e os outros todos também.

 

E espera.

Ela a Palmeira está próxima!

O dia está quase a rebentar.

Mas antes de a aurora

“de róseos dedos” nascer

haverá sinais terríveis no céu.

Os homens levantar-se-ão uns contra os outros.

Os justos perecerão aos pés dos infiéis.

As reformas dos velhos

como tu

serão assaltadas à mão armada!

Haverá choro e ranger de dentes.

Depois, do sol descerá

a Palmeira.

Chegará em todo o seu esplendor.

Para julgar os vivos e os mortos!

2013-02-04

Peinado Torres - Porto

 Bom dia amigos e companheiros Saúde e alegria de viver é o que a todos desejo.

 Hoje quando acordei, fiz o propósito de vir a esta página falar do meu  F C do Porto

. Está a fazer um belissimo campeonato ( hoje chama-se liga ) e só não está em primeiro lugar isolado, com mais 3 pontos que o Benfica porque funcinou o APITO VERMELHO no jogo entre ambas as esquipas, que foi arbitrado pelo mesmo árbitro que desencadeou o célebre motim do TÚNEL, mas são águas passadas , mas não esquecidas.

 Efectivamante o F C do Porto está em grande forma o que me leva a pensar que vai renovar o título de CAMPEÃO.

 Creio que foi no jogo do Moreirense com o Benfica , apareceu um poster com a cara do Jesus e como coração o emblema do Benfica.

 Pobres benfiquistas. o Jesus deles é fraquinho, e não  deve brincar com coisas sérias, acho que é de mau gosto.

 Mas a verdade é que o próprio Jesus CRISTO, também anda bastante distraído, pois se andasse atento este MUNDO não estaria uma grande porcaria conforme está.

 Bom, depois deste apontamento sobre o meu  F C do Porto, não posso deixar passar em branco a ODE Á VIDA que o nosso confrade e EX-RECLUSO MARTINS RIBEIRO nos brindou.

 O escrito que nos enviou é duma profundidade enorme, e quem o conhece como nós, sabemos que o texto saiu das profundezas da alma, e revela que com muito realismo que os seus 80 anos são só 40, entenda-se ainda tem muito para nos dar.

 Também gostei imenso do ROMANTISMO da carta do nosso companheiro AVENTINO, obrigado AMIGO ,não foste meu contemporâneo, mas adoptei-te como  tal, desde o dia em que tive o prazer de te conhecer, sabes quando foi? Foi quando  te convidaram para proferires uma palestra e apresentar o teu livro INOCÊNCIA, que mais tarde  me enviaste  um ezemplar, num GRANDE ENCONTRO na CASA MÃE.

 Temos mais alguns a escreverem e admiravelmente , e temos muitos mais que o poderiam fazer e não o fazem, mas a nossa CRUZADA é pugnar para que apareçam.

 Onde  andas NICOLAU e quejandos ?

 Caro ARSÉNIO, ainda não é hoje que te dedico um escrito, mas vai ser qualquer dia, resguarda as orelhas.

 VIVA A AAR, VIVA O FC DO PORTO, E VIVAMOS TODOS NÓS E AS NOSSAS FAMÍLIAS. VOLTAREI, PEINADO

 

2013-02-03

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

      Estive, na verdade, com uma virulenta gripe que me levou á cama e me pôs o corpo num feixe. Bem, afinal não passava duma simples gripe que apenas me bateu forte e feio. E é para vos dizer que, felizmente, já me encontro em plena forma, quiçá mais limpo de miasmas latentes. Houve alguns companheiros que se chegaram a preocupar com esta coisa: neste sítio, o Vieira, o Alexandre, o Arsénio, o Peinado por telefone e por eMail o Assis porque também sofreu na pela o contágio do virus apanhado nas terras do conde Drácula e do qual, pelos vistos, ainda restam pequenas sequelas. A todos estou a agradecer e vos digo que, ás vezes, há males que vêm por bem pois, enquanto curtia na cama as sezões malígnas fui pondo os neurónios a trabalhar e, no fim, surgiu este trecho que vos mando e com que vos vou maçar:

                                         

                                         ODE Á VIDA



Sei que já fiz muitos anos,

Que, como dizem, já sou velho, ranhoso e desvalido,

Sei que devo ter cuidado; disso tudo não duvido.

Ah! Mas também sei que devo procurar viver sem desenganos.

Que se não deve parar nem desistir, vergado ao desalento!

Os anos não contam, alguém mo disse  e não invento

O que conta é o estado da carcassa que nos mantém o coiro.

Por isso, deito p'ra trás das costas os conceitos estafados

De que sendo velhos devemos renunciar á vida, resignados. 

E que me importa a mim estar carregado de anos?

Que me interessa o tempo que já por mim passou? 

O que me interessa é viver, buscar outros desejos, congeminar planos.

Corri  então caminhos, palmilhei veredas, atravessei rios, alisei outeiros,

Subi montanhas, saltei pélagos, visitei infernos

Só p'ra conseguir formas de não cair vencido em lamaçais parados.

E encontrei amigos, ranchos deles, tunantes, prazenteiros:

Comi com eles manjares suculentos, requintados,

Com eles libei á glória, em tragos de vinhos quentes e bravios,

No meio deles berrei cantos profanos e entoei canções de amor,

Recitei poemas, cantei salmos e fui rindo com desbrago e sem pudor.:

E vivi. 

Depois, deparei na grande fonte da existência, o Amor fatal:

Corri como um rapaz estouvado a ver se ainda era capaz de lá beber,

E o amor aconteceu ainda, mesmo ali á mão,

Intenso e fogoso como outrora, igual,

Com uma Rosa carente de seiva que se abriu para mim:

Agitei-lhe as pétalas, sorvi-lhe o perfume, matei o desejo e pequei:

Sacrílego pecado, sortílego fascínio, contentamento sem fim

Pois ele era própria Vida!

Uma labareda de fogo aqueceu-me o vigor da alma de seguida,

Varreu-me do acordo o peso dos anos já passados,

Jogou-me nas paragens do rapaz antigo que já fora,

Exultei de regozijo porque fui capaz ainda de beber sem travos.

E daí, em certa altura, chegou-se a mim um Mensageiro do Céu:

Entre recriminações, ameaças e censuras, montando cariz feio

 Alertou-me para as loucuras descabidas que operava no meu seio:

"… viandante, olha o Céu ali perto á tua espera

Refreia tais desvarios que o teu tempo já não é o que era."

Ouviu-se um horrissonante estrondo ecoando pela nossa posição,

Podendo ver as grossas, maciças e imponentes portas do Céu 

 A abrir-se lentamente num convite para entrar com decisão:

" …Mensageiro, há vida para além daquelas portas?"

Volveu ele, indeciso: " … não me é permitido informar-te."

"Mensageiro: diz então ao Senhor nosso que o Céu pode esperar;

Vou parar aqui um pouco, suster a minha caminhada e descansar,

Vou continuar no rebuliço dos amigos a comer e a beber mais,

Vou cantar ainda com eles melodias e recitar madrigais,

Vou-me empanturrar de amor, vou novamente pecar. 

Mas vai-te embora!

Volta algum tempo depois, quando te for bater á porta,

Que enquanto sentir vida em mim a bulir ao meu redor, 

Enquanto a não consumir toda, enquanto a não gastar,

Deixa-me consumi-la, saboreá-la, olhar o seu esplendor,

Que eu recuso-me a entrar."

O Mensageiro anuiu, meneou a cabeça e sumiu-se.

Mas sei que em outro dia há-de voltar.


 

2013-02-03

Aventino - Porto

UMA CARTA DE AMOR

Percorro o silêncio do nome dos associados, a voz da nossa memória, o nome dos que já partiram. Percorro o nosso site, percorro-me e ouço ao longe as tuas lágrimas, o teu choro envergonhado de umas lágrimas que finges em não consentir. De vez em quando volto ali, a todos esses silêncios dos nomes, o Joaquim, o António, o José, e todos os nomes sublinhados no único caderninho da nossa existência, como se a nossa identidade se resumisse a esse singelo e triste ser de ser um nome, criança pobre, num ano lectivo qualquer, roubada a um outro futuro qualquer.

Há dias escrevi ao nosso querido Domingos Nabais, que "a vida é um eterno fingimento". Agora que olho para os nossos AAR's que já partiram, a vida continua a ser um fingimento: sem dia, sem lugar, sem eternidade.

Quando eu regressava a casa para os longos períodos de férias que a nossa clausura nos consentia, o meu pai e a minha mãe vinham esperar-me à estação do caminho de ferro. A estação ficava, a esse tempo, a umas duas horas de distância da quinta onde morríamos. O meu pai usava um chápéu Borsalino, prenda de um italiano, amigo de meu pai e como ele combatente na Guerra Civil de Espanha, contra esse fascínora sem nome mas com o nome de Francisco Franco. O meu pai punha-se na gare, bem à frente, alto, pose de republicano, o chapéu ao longe e a minha cabecita de criança, pela janela do comboio afora, à espera do encontro com as mais belas e maravilhosas pessoas da minha vida.

E é nesse quadro eterno em que navego. No encanto de ser e não ser um redentorista. No encanto da felicidade que tenho desde o instante em que vos encontrei e o desencanto de alguma vez ter entrado numa quinta com um portão, uma palmeira, e um deus mau que ainda povoa os meus dias.

Às vezes penso na partida, no fim, na finitude da AAR. E quando penso é quando sinto esse combóio em que o meu pai e a minha mãe estão ali à espera e eu tenho medo, esse medo infante de que já ninguém nos espere. À nossa chegada.

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