fale connosco


2013-07-19

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez













EPIGRAMA


Disse aqui certo janota

Que os amores de cinquenta 

Tinham cunho arrevesado

E o coração não aguenta!

 

E sem ficar agastado

Bato o pé que foram bons:

Amores deliciosos

Vividos em vários tons.

 

   Seja duma forma ou doutra

   Tudo o que se diz são lérias:

   E despeço-me de vós

   Que mais logo vou de férias.

2013-07-18

Assis - Folgosa

Meus amigos:

 

Esta tem por finalidade 'unica a de vos enviar o meu abraco fraterno desde Opole, uma pequena cidade da Pol'onia, onde me encontro para o baptizado da minha netinha linda ZOFIA e de vos desejar a todos um bom descanso ferial.

 

F. Assis

 

2013-07-15

manuel vieira - esposende

O nosso Encontro de Setembro foi direcionado para o Douro Património da Humanidade, aproveitando a sugestão de alguns trilhos do Douro de Miguel Torga:

 

"O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a refletir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta."

 

O grupo de trabalho não está parado e novas informações deverão ser acrescentadas em breve  para estimular a agenda.

 

 Falei há dias com o Luís Gurreiro que recentemente celebrou 84 anos e já está de regresso a casa, depois de umas férias mais curtas em Gondarém. Valeu-nos a favada para o reencontro e para o abraço.

 

Também o nosso amigo Assis vai presenciar o batismo da neta que vive na Polónia e descansar dos trabalhos agrícolas de Cabanas,partindo hoje para aquele país e  estando ausente do seu precioso recanto até ao final do mês.

Como já devem ter lido em "Notícias" o José Maria Pedrosa tem mais um trabalho em publicação.

 

Alguns colegas estarão de férias e outros não estão a perder as boas condições de tempo para umas folgas nas preocupações e aproveitar uma boa mesa.

 

 Para todos um abraço.

2013-07-07

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

👦

VISÃO DE DOIS MUNDOS

Diz a canção de Coimbra, quase toda ela envolvida no seu inveterado romantismo, sendo por isso que eu tanto gosto dela:

Para que quero eu olhos,

Senhora Santa Luzia,

Se não vejo o meu amor 

Nem de noite nem de dia?

E é a pura verdade, aos anos já que eu não via quase nada, não só amores, como nada mesmo e, como sabeis, agora que rectifiquei um deles - a seguir será o outro - santo Nome, agora vejo desse olho como um lince vê dos seus dois, vejo o Alpha e o Alleph, vejo muitos amores, aqueles que desejo e me interessam, vrjo com outra visão mais penetrante, vejo com o prazer do milagre, vejo como um homem de corpo novo, de esperança renascida; já escrevo, já conduzo como numa pista desimpedida e larga. E nem sabia mas, na verdade, não via mesmo nada, era quase um cego e aproveito para dizer ao Gaudêncio que os amores dos anos 50 não eram nada arrevesados: eram verdadeiros, românticos e por isso é que eu gostava deles. Agora é que são diferentes, prosaicos, despachados mas eu sei-lhes dar a volta. O Alexandre, conforme narra no seu tópico, não fez mais do que eu também fiz nessa terra de ÁGUA TODO O ANO, que fica a meia dúzia de metros da entrada em Ponte de Sor, vindo da cidade de Abrantes e na estrada de Montargil em direcção a Mora, Pavia e Évora. Também a fotografei para mostrar aos amigos, sobretudo pelo exotismo da  sua denominação. Só não vivi lá qualquer aventura, apenas por lá passei, mais que uma vez. E creio que é uma terra que não deverá morrer de sede, pois água não falta por essas paragens dado estarem banhadas por uma importante barragem. 

Com o calor que, finalmente, se tem feito sentir nestes dias, parece reinar uma paz forçada e calma que me convida a sentar no "púlpito" da minha casa, conhecido de muitos de vós, não para arengar a um qualquer fantasmagórico auditório mas para sentir o frescor da aragem da noite. Ás vezes dormito, outras deixo-me enfeitiçar pelo argênteo sortilégio da lua cheia. Num dia destes, ao contemplar a imensa mole do Outeiro Maior, que se vê desse meu recanto, deixei divagar o espírito pelas paragens esotéricas de mundos que não conhecemos mas que sabemos que existem por deixarem em nós marcas de transcendência e eternidade. E lembrei-me de que, no meu primeiro ano de casado, a minha mulher, amor já definitivo e, por isso, despido de aventura, tinha sido colocada um tanto compulsivamente e no exercício do seu magistério, numa das muitas aldeias perdidas nos córregos da serrania que abraçam estas belas terras de Valdevez. Era um povoado isolado, selvagem, primitivo, onde ardia, de forma inextinguível e contínua, o sagrado fogo das lareiras e, lá no fundo, cortado por um regato límpido e sussurrante. Não havia estradas, nem transportes, nem sequer uma simples bicicleta: só mesmo a caminhada por carreiros cobertos de pedregulhos por entre tojos e carrascas nos podia levar até lá. Veio-me então á memória que, certa vez em que, como de costume, fui passar o fim de semana com ela devia regressar na segunda feira para voltar ao trabalho, sendo forçoso sair por volta das quatro da manhã, descer por angustas veredas, por incertas penedias, por vezes escorregando por fundos barrancos. Ora nessa noite, no sopé da parda mole do Outeiro Maior, esborrachado pelo silêncio constritor do Infinito, estacando a alma junto á ermida do Senhor da Paz, deu-me para olhar o alto do cume. E que vi eu? Um Céu negro, dum negrume profundo, encrustado de estrelas tão tremeluzentes e brilhantes que logo me lembrou um mundo que alguém me tinha contado, habitado por Deuses, um reino de fadas, de duendes, de anjos esvoaçantes e translúcidos, uma plaga onde não podia existir dor, nem tristeza, nem maldade, nem sofrimento. Nunca tinha visto nada assim e a sensação de paz era tão intensa que lá permaneci muito tempo contemplando tal maravilha como se, de repente, estivesse a sonhar. Nesse lugar indefinido só poderiam estar os Justos, a Mãe de nosso Senhor e a minha santa mãe que Deus tem, todos aqueles que ajudaram os seus irmãos, todos os que se sentiram perseguidos pela injustiça, todos os que sofreram e passaram fome, todos os que foram roubados, todos os perseguidos, todos os atribulados, todos os amores que morreram, todos os missionários que proclamam o verbo da esperança, todos os coros dos anjos, toda a benção e toda a bondade. Absorto na bem-aventurança foi  então que, como num estalar de dedos, um agitado estremeção me desconcentrou daquele êxtase e me obrigou a olhar para baixo onde se abriam cavernas escuras, precipícios aterradores, ravinas medonhas, sombras de gigantescos penedos assombrando a noite, córregos profundos que pareciam conduziam a subtérreos avernos. E foi-me dado ver outro mundo: um mundo tétrico onde reina o medo, donde provinham gritos raivosos do choro e ranger de dentes de inditosos condenados e almas penadas, um mundo feito de masmorras e cadafalsos, um mundo onde só podiam reinar nigromantes e demónios, porque nele só poderiam entrar os ladrões, os parasitas, os agiotas, os políticos, os corruptos, os juízes, os assassinos, os agnósticos, os tiranos, os calaceiros, os pedófilos, os panascas, os torturadores de animais e todos aqueles que atormentam os seus semelhantes. 

Espantado e temeroso corri monte abaixo, seguindo por veredas conhecidas, até á povoação onde encontraria o transporte para terminar o regresso. 

Começava já a raiar a luz da alva quando, meio azoinado ainda pela emoção, me invadiu a certeza de que, nessa manhã, me tinha sido dado perceber a existência de dois mundos opostos e distintos que a imaginação apenas podia conceber. Porque nunca tinha visto nada igual nem Céu tão lindo como aquele!

 

2013-07-05

alexandre gonçalves - palmela

 

                             ÁGUA TODO O ANO

 

Desde há muito tempo que atravesso o Alentejo no verão. E na planície em fogo, tropeço inevitavelmente neste grito irónico, ÁGUA TODO O ANO, que dá nome a uma aldeia que morre de sede. Antigamente, quando eu respirava futuro por todos os poros, chegava ali num volkswagen, eroticamente redondo, que me acompanhou cerca de vinte anos. Não morreu em combate. Larguei-o de vez, não por incompatibidade de feitios, mas porque a sua manutenção me subvertia o orçamento. Só então percebi que o meu escasso sucesso amoroso se devia mais a ele do que ao dono. 

Quando chega o verão, vêm-me à boca, cheia de sede, essas duas trivilialidades, o carro e a aldeia. Como se a paisagem e a travessia fossem elas mesmas feitas de água pura, a brotar da infância. Fotografei a placa de muitos ângulos, de muitas cores, de muitas intenções. Há-de ser o título dum livro, que hei-de escrever. Tenciono cumprir a promessa na eternidade. Aí não me vão faltar nem tempo nem leitores. Mas a palavra água não a largo, não a troco, nem a adio. O grego e o romano, e muitos portugueses de excelente extracção, preferiam o vinho. Mas aquela Madalena bíblica só tinha água para dar. E foi o que Jesus Cristo lhe pediu. Sem desprimor para os apóstolos das confrarias vínicas, nem quaisquer propósitos de imitar ninguém, era isso que eu pediria a uma jovem morena, em cujos suados braços deslizasse uma gota de água.     

Falo do verão que agora começou. Já não temos nada que alguém veja. Já não temos nada que alguém deseje. Nas praias, os nossos corpos só são toleráveis se discretamente nos embrulharmos na areia. E fizermos do  silêncio a nossa sábia presença. Mas nós pagamos na mesma moeda. Retiramo-nos para a esplanada, lemos o jornal e aguardamos que venha setembro com urgência. Até lá, despejamos mais algumas cervejas, dizemos banalidades e ocultamos os desejos na memória. O pior é que a memória não dorme. Sugere uma quinta protegida por cães de guarda. De noite, ou num recanto de arbustos, ou numa esquina de café, qualquer ruído acorda os sentidos passados, como rafeiros ferozes. Não é o ladrar que nos incomoda. É antes o assalto súbito, os dentes afiados, e a tentativa da dentada fortuita. É antes uma sede que perdura. Uma tarde em vão parada na consciência. Um alentejo sem fim, onde a vida arde sem razões no horizonte. Antigamente, quando respirávamos futuro, um carro mais velho do que nós era mais que bastante para acreditarmos num amor cristalino, a brotar da fenda duma pedra ou dum tufo de juncos. Hoje, inclinados para o areal, esperamos que chegue setembro.

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