fale connosco


2013-08-29

Alexandre Gonçalves - Palmela

 

 

ROTA  (D')OURO

 

Olá, viajantes da diáspora! O verão escancarou as portas do universo e nós, como cidadãos do século em curso, dispersámos por ínvios caminhos que a experiência vivida não imagina. Já nem me lembro do último leito onde pernoitámos, em amena fruição da existência. Os deuses quiseram oportunamente que somássemos as infâncias e entrássemos juntos pela vida fora, sem roteiro marcado. Um dia demos connosco, já gastos pelas fraudes dos caminhos, a beber um vinho velho que nos identificava. Ainda me lembro do nosso humor caseiro, difícil para ouvidos alheios, feito por palavras antigas, que nos faziam rir comunitariamente. Um misto de latim bárbaro com um português arcaico, pedaços de traduções medievais com citações dos grandes mestres da língua materna, tudo isto dava conversa sem fim, à qual se juntava um pouco de tinto e resíduos desafinados da melhor música clássica, aprendida em tempos de virgindade auditiva.E por trinta horas de encontro, éramos quase felizes. Como se na memória colectiva não houvesse ruído bastante para incomodar. E tanto  que muitos não arriscam nem tempo nem a vida prática, nem os próprios preconceitos. Desabafava um há dias, em dia de mau acordar: já fui, não volto! Vocês continuam de joelhos, em adorações abstratas. Vocês não mudaram. Vocês ainda rezam e porque rezam são santos. Não são da minha espécie. Vocês ainda querem salvar o mundo. Não estou do vosso lado. Não volto! Ainda ripostei com alguma ira: o cego não é propriamente o que não vê, mas aquele que não quer ver. E chegou. Em rigor, cada um sabe de si e muito pouco dos outros.

Já estou a falar da urgência de setembro. Da urgência de regressar a casa, de filtrar o tempo, de recusar a solidão. As viagens, esta mobilidade de época, estas malas desfeitas, esta idade ameaçada, tudo se pode impor à consciência com desconforto, como um espelho impiedoso, a devolver-nos um rosto ineditamente exausto. Não tenhais medo, disseram-nos, mas atentos estai, porque viver é perigoso. De momento é o DOURO que se perfila. E o DOURO são socalcos, doces degraus a descer até às águas. Ou aquele sumo espiritual, que brota do ventre cristalino da terra, ora cor de ouro como a luz, ora cor de púrpura como o sangue. Tudo o mais, é uma paisagem de homens, subindo e descendo a sua vida, num combate desigual mas gloriosamente vitorioso. Não precisamos de razões para este encontro. Embora as haja em abundância, quer na sua intensa diversidade quer na nobreza que as anima, não será por isso que faremos falta. Temos de vir, porque a PALMEIRA é nestes dias que se alimenta. E em setembro tudo está em harmonia: a mesa farta de frutos; o verão, em risco outonal, chamando ainda por companhia; o vinho sobrando nos generosos tonéis e uma sede que não acaba no secão das ausências. Tivemos medo de que ninguém chegasse ao palco e dissesse: amigos, vinde! O pão e o vinho estão na mesa. Um autocarro espera por vós à vossa porta. E ao longe uma casa da vossa infância aguarda a vossa chegada. Vinde! Não demoreis a vossa palavra. Falamos de amor. Inscrevei-vos, não no papel, mas na urgência colectiva. Todos nos precisamos. Temos uma biografia comum. Temos uma longa memória. E muito cuidado para prevenir dois dias de ouro, numa rota de oiro, numa gratuita amizade que é apenas ouro.

Tivemos medo mas já não temos. Alguém falou duma acelerada tendência para a inactividade. Felizmente, a bondade é discreta e trabalhou para que nada faltasse. Que não faltemos nós, os convidados da boda. Seria uma indolência deprimente ficarmos a lamentar a paisagem distante. Ou a alegar justificações que ninguém pede. Seria um pecado contra a luz. Contra o vinho. Contra os socalcos da nossa precária existência.   

P.S. 1.  Aproveito para agradecer a todos os que tiveram paciência para ler as minhas longas tiradas de prosa, em particular àqueles que tiveram a coragem de o confessarem publicamente, com estimulantes comentários. Escrever é expor-se, é despir-se. E convenhamos que a nudez não é seguramente o nosso melhor motivo de glória. Por isso, este sentimento que assim manifesto traduz a ideia de que são os leitores que justificam a escrita. Não é a escrita que inventa os leitores.

P.S. 2. Respondendo ao Gaudêncio, esclareço que um autocarro de 50 lugares partirá do Centro Sul, no dia 14 de setembro, às 5 da manhã, com uma brevíssima paragem em Sete Rios, para recolha dos restantes sulistas de Lisboa, com rumo a V.N. de Gaia. O resto está no programa divulgado.  

2013-08-25

ANTÓNIO GAUDÊNCIO - LISBOA

Parafraseando o Diamantino, eu também não sou ninguém ( qem és tu, romeiro ? Ninguém!!!!!! Ainda se lembram do Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett ? ) mas vou atrever-me a dizer umas tretas para apoiar o dito cujo ( Diamantino ).

Não sei em que pé estão as inscrições mas era bom que despertássemos e facilitássemos e compensássemos o trabalho e esforço dos organizadores do Encontro anual. Espero que ninguém fique em casa e, meus caros, os dias  para aderirmos vão sendo cada vez menos. E atenção a uma coisa muito importante : todos os anos a iniciativa da organização tem sido tarefa da Direcção, ou com ajuda dela,  mas este ano, por motivos que ignoro, isso não aconteceu e corremos o risco de, pela primeira vez, não termos ENCONTRO ANUAL.  Face a esta «ausência» da Direcção, apareceram dois voluntários generosos que deitaram mãos ao trabalho e puseram de pé o Encontro, organizaram a logística, assumiram compromissos e mal parecia que agora não déssemos valor ao esforço deles e não aderíssemos  à iniciativa. Bem hajam, Diamantino, Belmiro e Castro !

Mas alguma coisa ainda não está feita ou está e ainda não foi publicitada. Sei de um «recluso» que mora no sul e quer ir mas, como não sabe nada sobre a forma do transporte daqui para a Quinta, garante que, se não disserem nada muito rapidamente, ele desiste e ficará por cá. Não sei se haverá mais alguém a sentir esta insuficiência de informação mas seria importante clarificar depressa o assunto .

Para terminar não quero deixar de realçar três belos textos que, nos últimos tempos, apareceram aqui no sítio: O roteiro de viagem e gastronomia do Aventino, as Elegias do Alexandre e as recordações da vilegiatura do nosso M. Ribeiro por terras de S. Martinho.

Todavia, ao referir estes, de forma alguma quero dizer que não goste dos outros textos que por aqui aparecem. Gosto e tanto gosto que, normalmente, todos os dias vou « atisbar » ( quem é que se lembra de quem usava este termo? ) o síto do " Fale connosco " .

Termino desta vez não com o "voltarei" do Peinado mas com os "beijinhos" do Davide. 

2013-08-23

manuel vieira - esposende

O nosso amigo Padre Henri faz hoje 93 anos e para ele vai um abraço, não muito apertado, pois a delicadeza da idade pode trazer mazelas. Um velho resistente a viver em Fortaleza, que hoje atinge a idade final de Abée Pierre e que ainda colabora nas atividades organizadas pelo seu amigo Airton, o advogado de Pirambú.

Antes de ir definitivamente para o Brasil e na casa do Assis, numa fase em que se sentia muito em baixo, dizia-me que tinha chegado a sua hora e eu na brincadeira perguntava-lhe com que idade tinha partido o seu amigo Abée Pierre e ele respondia-me 93. Eu então, para o animar e porque acho que ele ainda tinha noventa respondia-lhe:ainda tens muito tempo para viver, descansa.

De facto, o padre Henri atingiu hoje os 93 e rio-me ao lembrar aquela conversa e fico claramente feliz e renovo-lhe o abraço brando de felicitações, com saudades deles e das nossas conversas. 

2013-08-23

Alves Diamantino - Terras da Maia

Quem sou eu, para vos dar uma  “SAPATADA” !!!!!

Sou, só  um melro  sem melodia, entre a ramagem deste espaço. Mas se desejais, sou

ainda,  um ex recluso da primeira hora, não renegando, ser antes de tudo, um

ex seminarista, onde na filosofia dos seus valores, permanece a amizade.

Sonharam os AAARs, aninhar-se um dia nos beirais do Douro Vinhateiro. Passado o

desvaneio, ultrapassamos o querer, resta-nos só o concretizar.

Então, onde está o insaciável apetite do Grande Encontro 2013 ?!

Assumiram-se compromissos verbais e pessoais, estimados AAARs. Existem prazos a cumprir. No momento o TGV sulista passou a vagonete silenciosa. A caravela do norte encalhou, não por falta de vento, mas pela falta humana em içar a vela. Em linguagem rodoviária, não existem AAARs para um mini bus, percorrer alguns dos trilhos de Torga. Como nós, pequenas andorinhas, compreendemos a diversidade dos estados de espírito. Uma vezes, é o ar irrespirável em voltar a sentir as raízes, outras…..outras, é o “ Deo Gratias”  habitual.

 

                            INSCREVE-TE JÁ,  ainda vais a tempo.

 

Deixa-nos recordar-te “Carpe Diem quam diem minimum credula postaro”.

Vem beber mais um saboroso trago da nossa água “AAARs”. Vem refrescar os teus sentidos com Torga, “água impoluta da nascente, é pura poesia / Que se dá de presente /às arestas da humana penedia / pela graça infantil da vossa mão”.

 

Estimados Amigos e companheiros, a DOIS de SETEMBRO  avaliaremos o número de inscritos. Perante os números tomar-se-ão decisões. Informamos que só se garantem as refeições, visitas e/ou dormidas, aos que para tal se inscreveram.

 

 

Em voo rasante, um cordial abraço das andorinhas Belmiro e Diamantino.

2013-08-19

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

      SÃO MARTINHO

     

 

             

      Rapaziada amiga: estou de novo aqui para vos informar de que já regressei ao meu quintal após uns dias de descontração que procurei encontrar na lindíssima aldeia S. Martinho do Porto, junto do mar.  

         Aos anos que eu já lá não ia!

     Noutros tempos, andava muito por aquelas paragens, quando os meus filhos eram pequenos e frequentava aquelas bonitas praias de S. Pedro de Muel, Nazaré, Vieira de Leiria e outras. Mesmo quando por ali calhava de passar entrava sempre nessa lindíssima povoação de S. Martinho do Porto que muito me impressionou então pela sua beleza.  Era quase um paraíso perdido, dos poucos que ainda sobram no nosso Portugal e dos quais já pouco resta. 

      S. Martinho do Porto chama a atenção pela sua baía, denominada poeticamente de concha de S. Martinho porque, na verdade, se assemelha mesmo a uma concha  cheia de águas calmas e lisas que mal rebentam na areia com o marulhar de um sussurro.  Na base dessa enseada, lá ao fundo e por onde o mar penetra, podem ver-se vagas alterosas com alvas cristas de espuma, como que expressando a sua cólera por lhes ser barrada a entrada na baía por via da estreiteza da garganta formada por dois promontórios escarpados. Ao longo da praia, de uma ponta a outra, uma grande avenida em forma de ferradura acompanha a curvatura das águas. Já lá dormi certa noite, aqui há uns anos, numa residencial que ainda lá está situada numa praceta  sem ruídos nem confusões e,  desta vez,  se exceptuarmos as novas vias de acesso  e bastantes obras de melhoramento na  zona urbana,  encontrei  quase tudo na mesma.  

Subi depois até à capelinha de Santo António, postada no cimo de uma arriba e lá me deixei ficar, absorto, a sorver haustos de ar puríssimo e a admirar o esplendor da paisagem, dum lado sobre a concha e do outro sobre o mar aberto e profundo.  Pena é que a febre das construções já tenha poluído, em parte,  tão singelo e genuíno santuário. Na frente da ermida e no lado esquerdo da fachada estão painéis de  azulejos com versos e com o relato de uma lenda. 


 

Os versos dizem assim:


             Santo António

 

Do nicho d'esta capella,

Que está em cima do Monte,

P'ra proteger todo o már, 

O Santo fica a rezár, 

Se vê sumir-se uma vela,

Na linha azul do horizonte!

 

E reza, reza... coitado, 

Porque, em terra ha mais d'uma,

Mais d'uma noiva, que o Santo, 

Não quer que tenha por manto,

Por alvo veo de noivado,

Uma murtalha d'espuma...

 

        Francisco P. de Magalhaẽs e Menezes

                       São Martinho   1896 

 

    Desta vez fui lá passar uns dias de descanso para fugir ás rotinas da vida. É claro que também não podia deixar de aproveitar os bons petiscos que se podem apreciar por aquelas paragens: um saboroso arroz de marisco na Nazaré, um cantaril grelhado escolhido a dedo em Peniche, um esquisito pão-de-ló de Alfeizerão, umas trouxas de ovos de Alcobaça, umas originais cavacas das Caldas (nada de confusões) e uma ginginha - com elas - em cálice de chocolate na histórica e vetusta praça de Óbidos. Ah!  E como se estava no reino do peixe, assim foi também pelo caminho: na ida, um gostoso ensopado de enguias na Gafanha da Nazaré e, no regresso, umas extravagantes e cheirosas sardinhas assadas nas dunas da Apúlia.

    Só foi pena não ter tido a acompanhar-me todos os meus amigos AARs.


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