fale connosco


2018-10-28

José Manuel Lamas - navarra - Braga

   Quis a necessidade e quis o destino

   e porque estudar não era barato

   para poder educar o seu menino

   que o pai o deixasse levar p´ro internato

 

   E assim o pai feliz e em paz

   ia vivendo os dias despreocupado

   sem saber que o seu bom rapaz

   indefeso estava sendo molestado

 

   Molestado por tipos de mente torta

   que lhe impingiam uma moral oca

   tipos que com hálito a produtos da horta

   o apalpavam e lhe davam beijos na boca

 

   Sendo muito velha esta história

   o desejo de vingança no tempo já se perde

   mas o menino ainda guarda na memória

   um bafiento cheiro a caldo verde

 

   No entanto é bom ter em atenção

   estes actos a muitos sítios são comuns

   não devemos condenar uma instituição

   pelos desmandos apenas e só de alguns

   

   

   

2018-10-26

GAUDÊNCIO - LISBOA

Certamente  que o Aventino vai continuar com a sua "peregrinação interior", procurando-se e buscando resposta para as suas inquietações. Mas, entretanto, enquanto ele prossegue nessa vilegiatura pelas suas vivências, permitiu-nos espreitar algumas das facetas da sua vida, expostas num texto, em estilo «anarco-literário», que é uma delícia. Gostei , Aventino.

Entretanto chegou também um  texto do Alexandre que, para não variar, mantém o seu registo sempre elevado quer no fundo quer na forma. Claro que gostei e apreciei as considerações feitas mas, sobre este tema, permitam-me uma pequena divagação

É recorrente  aparecerem aqui textos focando aspectos relacionados com pedofilia, afectos anti-natura, sofrimentos causados por assédio, animosidade contra os malfeitores que, usaram da sua posição dominante contra a tenra inocência das vítimas, a solidão e desamparo desses jovenzitos indefesos, arrancados muito cedo do calor familiar, e outras maldades que marcaram muitos dos nossos que passaram pela Quinta. 

Tudo isso eu sei, tudo isso é verdade e tudo isso eu respeito. Mas, às vezes, tenho que fazer algum esforço para me colocar na pele dos nossos colegas  que suportaram essas malfeitorias pois eu passei incólume por esse território.  

Depois de alguma análise ao porquê de isto ter acontecido a uns e não a mim cheguei a um entendimento que me parece responder à minha dúvida : Amigos meus, eu quando iniciei o meu 1º Ano, na Barrosa, no longínquo Ano da Graça de 1955, já havia completado 14 anos ( catorze ) e tinha, por isso, a carne já demasiado rija para certos abutres e também não devia ser muito bem apessoado para o gosto deles. 

Como se comprova nem tudo é mau na vida e a antiguidade é um posto!!!!!!!!!!

2018-10-26

alexandre gonçalves - palmela

 

 

OS SECRETOS  SILÊNCIOS   DE  VILA  NOVA



Meu caro Aventino

 

Demorei algum tempo a reagir. Li, reli, sublinhei, voltei atrás. Eu também te procurei no labirinto dessa infância, para onde as palavras regressam, à procura da luz. Mais, o teu texto abre uma fenda. Melhor, derruba um muro, nas imediações de Jerusalém, a cidade santa. De um lado, os judeus, comandados pelo santo rei Davide. Do outro, os infiéis, os palestinianos, os pagâos, os excluídos, os pobres. Nós, os chamados, temos todos onze anos. Javé, tal como o rei de Creta, precisa de carne fresca para se alimentar. Nesse obscuro tempo, todos os anos, entre agosto e setembro, o deus hebraico recrutava sete rapazes e sete raparigas, para apaziguar e perpectuar o domínio divino sobre o homem. Largávamos pai, mãe, irmãos, primos e primas, amigos e amigas. Tudo o que mexia, ficava fora. Nuinhos e frágeis, como crias que mal se tinham de pé, entrávamos por uma nesga de porta, aliás um portão do tamanho do inferno. Quando se fechava, lembrava a mandíbula de um dinossauro. Lá dentro, vamos ser santos, piedosos e divinos. Seremos futuros ministros do altíssimo. Como temos onze anos, nada pode chegar à consciência. Esta vais ser treinada para o remorso, para o medo, para ser cozinhada e oferecida às divindades locais. 

Se a palmeira falasse. Se o dormitório gravasse os gritos noturnos. Se os quartos e os gabinetes tivessem voz. Se as noites de natal e os domingos de páscoa pudessem dar testemunhos. Se os mortos regressassem um dia para nos dizerem a justiça que lhes foi feita. Se.....Então saberíamos o que é um beijo de hálito fermentado. O que é um olhar de serpente venenosa. O que é uma tangência de lâmina de barba, afagando uma pele desgraçada, onde nem rumor de afecto deixou sinais.

Todo o espaço da cidade santa estava infectado. E quando, por descargo de alguma culpa, abriam o mundo pecaminoso que lá fora respirava tranquilamente, nós tínhamos de fazer como o caracol. Carregávamos a instituição às costas. Javé iria vigiar os nossos actos, os nossos olhares, as nossas mãos inocentes. Tudo era proibido, o visível e o invisível, os corpos e as almas, o desejo e quaisquer maçãs no mais puro dos pomares. Perdeu-se a virilidade, perdeu-se o primeiro beijo, perdeu-se a doçura do amor. Os educadores não eram apenas medíocres. Eram também gulosos, selectivos e enrascados. Eram eles próprios vítimas exemplares de um sistema pedagógico arcaico, manhoso, em subtis contrabandos relacionais. Muitos dirão: nunca ali se viu nada disso. Pois não. Um menino só vê o que se vê pela janela por onde olha. Mas um dia ou outro, de uma forma ou outra, o oculto expõe-se bruscamente. " As forças da natureza / nunca ninguém as venceu" (Gedeâo).

Isto remete-nos inevitavelmente para o ódio institucional que a Igreja votou à mulher. O ser mais perfeito da criação foi acusado desde o Génesis de estar ao serviço do mafarrico. Não é a  carne que é fraca. Fraca é a inteligência, a autoridade que impôs aos mortais a perversão do celibato. Celibatários são homens e mulheres, obrigados a suportar as dores da existência terrena como se residissem entre amenas companhias celestiais. Esta aberração, se fosse verdadeiramente voluntária, teríamos de a tolerar. Sendo condição de santidade e grandeza moral, é forçoso repudiá-la como um subproduto cultural, uma forma de poder e domínio da consciência humana. A Igreja nunca amou. Como pode ela ditar as leis do amor geral, se é esse o grande território de expansão do coração dos homens?

Meu amigo, não esqueças nem caias na pieguice cristã do perdão. Escreve, escreve, escreve...... Junta a tua voz às vozes que denunciam estes contrabandos, sempre abafados por mantos de cor púrpura, subtraindo-se impunemente aos impostos da verdade e da justiça.

Um abraço solidário! Juro por esta rosa de outono que nunca mais comerei  caldo verde!!!!!!!!!!!!

 

2018-10-25

Assis - folgosa

Boa noite, meus amigos.

Antes de mais, votos de boa disposição e muita saúde.

Quero pedir desculpa àqueles que ainda escrevem na Palmeira por não lhes ter prestado a atenção que o seu esforço e dedicação à causa pública merecem.Tenho andado com o tempo um pouco apertado, é certo, mas não é razão suficiente para o meu silêncio e falta de consideração para com estes trabalhadores da caneta. Todavia, digo-vos que, de quando em quando, aqui venho pôr a leitura em dia. Mas desculpai um desabafo: a idade não perdoa e já vou sentindo algumas dificuldades em ler as letras miúdas. Fico-vos grato se, futuramente, usardes um tipo de letra mais avantajado. E, ao Aventino, que use mais uns pontos e vírgulas. Quem sabe, um dia poderá vir a ganhar o Nobel, mesmo com os pontos e as virgulas...O génio e o esforço não lhe faltam, todos nós o sabemos. Desde já lhes fico reconhecido.

- Quanto ao encontro proposto pelo Aventino para filosofar (?) e almoçar, claro que continuo disponível. Bastará programar e avisar com o tempo necessário para que outro encontro o não o possa anular. Só a morte, minha ou de um parente mais próximo, poderá impor-se à filosofia da vida, " a saúde do corpo e a saúde da mente ".

A todos o meu abraço fraterno, ou ... o meu aperto de mão, já que sou daqueles que como caldo verde logo pela manhã, mas com piripiri e azeitinho puro de Cedovim e sem tora...rrrrrrr...


2018-10-19

Aventino Pereira - Porto

À PROCURA DE AVENTINO:

 

abro a turbulência do sentir abro a solidão a  dor de meu pai a dor de minha mãe seminário mil novecentos e sessenta e quatro magricelas alto branquelas tristeinocente

 

corredor adiante sotaina padre voz doce terno o olhar o olhar o olhar e eu indefeso um mundo novo o DOURO Ah! O Douro (o Tejo) é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia (Alberto Caeiro)

o trolley 36 um portão palmeira sinos e sons o nadao silêncio e eu a caminhar agora pelo meu novo silêncio adentro como um mendigo perdido no seu palácio

 

e ele todo sorriso afaga-me o rosto onze anos de idade só o meu pai me tinha abraçado tantas vezes e ele abraça-me, beija-me, cheirava a caldo verde beija-me a boca que interesse há em beijar uma boca com onze anos de idade muitos anos mais tarde soube que havia uns filhos da puta pedófilhos que sabiam todos a caldo verde sabiam todos a palavras doces sabiam todos a uma voz doce à voz doce do encanto dosabraços de meus pais dos meus tios das minhas tias que nunca cheiravam a caldo verde e não souberam nem eu lhes disse essa palavra pedófilos

 

e agora escrevo para o fale connosco

 

passo quase todas as semanas nessa rua vou para o tribunal lá está o portão grande um outro portão pequeno a palmeira morreu e um dia destes paro falo vou falar falar falar falar falar falar falar falar e dizer-lhes como foram dias felizes menos o caldo verde e o tal que tal qual já não está sim inferno sim no centro do infernoquentinho gostas brasas mais para o teu coizinho e bota que bota o diabo acaricia-o o diabo ri-se o diabo crava-lhe a forquilha no coiso na coisa em toda a coisa que rime com ilha

 

feios porcos e maus ettor scola

 

e eu fui um dia espigadote já dezasseteanos de idade

o meu diploma por favor disse tímido

dá cá cinco contos para pagar o diploma

afinal andaste aqui a aprender os teus pais eram miseráveis ias ser trolha

cinco contos de réis se não tens volta cá quando tiveres

diz-me um que ainda cá está anatureza é assim não mata só aqueles que deveria matar gostava tanto de te enterrar por estes dias

 

e cuspo-lhe encosto-me à sua brilhantina cresço para o baixote passa ou não passa o diploma tem cinco minutos para o passar o trolley foi dar a volta  

 

odiploma está passado há muito tempo mas tens que pagar cinco contos como os outros

 

 

 

 

 

 

 

queixo-me de si

queixo-me dos panascas

ainda ontem estive numa reunião clandestina no jardim do carregal com o bispo bispo bispo senhor dom o regressado o que seráde nós perguntei-lhe e ele seremos sempre igreja

e eu isso são chavões inócuos

 

e ele

tem razão ser igreja é ser pessoa deixar passar à frente quem precisa de ir à frente e cuidarmos ser igreja é não sermos não existirmos

ser igreja é muito mais do quenão sermos uns filhos da

 

e lá volto eu ao meu caminho,

ficha na pide “jovem humilde ex-seminarista inteligente e promissor mas indomável, indomável” duas vezes assim escrito por um pide surpresa e nenhum cuidado o futuro estava em sermos presos resistentes castigados

como quem busca o seu próprio encantamento e então sim preso por umas horas futuro assegurado na política nos bancos e seguradoras um lugar em África

 

e eu vinte e cinco de abril de mil novecentos e setenta e quatro onze horas da manhã LargoSoares dos Reis Porto multidão em fúria o povo unido jamais será vencido pides pra cadeia pides pra cadeia pides pra cadeia pides pra cadeia pides pra cadeira pides pra cadeia avenida rodrigues de freitas praça da batalha  o silêncio da minha eterna solidão.

 

Agora continuo aventino continuo solidão dos amores que perdi um dia destes não resisto à ausência não há mal nenhum nisso será o teu dia aventino a minha casa tão grande tão cheia de mim já me disse tão cheia dos meus vazios tão cheia até do vazio dos meus vazios e eu aqui continuo só.

Nem os aar’s vêm às minhas provocações filosóficas.

Nem os aar´s vêm aos repastos para que os convido.

Nem o Vieira se cansa de me dizer que não vêm nem que eu os vás buscar ao colo.

 

Os filhos também já não vêm

e aminha vizinha espreita espreita espreita

ai senhor doutor não me diga isso não me faça isso eu sou uma mulher honrada amanhã hei de vir mais cedo ficamos ai senhor doutor estou tão perdida ai senhor doutor não sei como entrar em minha casa

e eu o seminário o padre o bofe do bofe do bofe dos dentes podres da sotaina o caldo verde dele na minha boca ainda continuo a cheirar a caldo verde sinto-me couve água batata a tora a navegar à superfície do caldo e até o fio de azeite rançoso teima em me martirizar

ea vizinha

amanhã venho logo a seguir ao almoço e lá me vem à memória mais uma vez o cheiro fétido da couve galega entrançada nos dentes do pedófilo e entrançada nos dentes da minha vizinha que ai senhor doutor hoje é que tinha calhado bem.

 

 

 

 

Desde há cinquenta anos não mais beijos nem abraços estendo a mão hirta longa para ganhar distância desde há cinquenta anos não mais um beijo de homem ou de mulher nem encostar-me o rosto besuntar-me o rosto colar-me o rosto creme base rímel protetor solar mulheriodá cá um beijinho aventino sinto o cheiro arrepio fujo passo para o outro passeio desculpe tenho que lhe estender a mão porque tenho febre estou constipado tenho gripe varicela sarampo febre amarela cor de rosa tifoide malária febre da carraça e da cachaçafebre da febre e de qualquer merda que nesse instante me vem à cabeça acreditam pois claro porque eu nunca fui capaz de lhes dizer que quando me tocam ainda me vem a panela do caldo verde de há tantas décadas vem-me toda inteira por cima todos os dentes podres de todas as bocas de todo o mundo a couve esfarripada a batata a tora e até o fio de azeite e o panelão enorme cai-me todo em cima no meu corpinho de criança.

 

E eu, aventino, sentado na soleira da porta onde o meu pai me abraçava, aqui continuo à procura do menino Aventino.

 

emoutubro de 2018 (dc) algures entre o vento e a sombra.

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