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2017-03-25

antónio Manauel Rodrigues - Coimbra

Celebrámos o Natal, festejámos a chegada do Ano Novo, que desejamos bom para todos, e alguns de nós teremos recordado os nossos antigos Dias de Reis.

Os que mantêm a fé em que fomos educados já viveram a sua Quarta-Feira de Cinzas e todos nós de um modo ou de outro entrámos na Quaresma sofrida que, mais ou menos intensa, contínua ou intermitente, pontuará o nosso ciclo de vida.

Dito de outro modo: entrámos na ansiedade e expectativa próprias de um inevitável Advento que nos há-de levar ao Deus uno e universal.

Há frases simples e castiças que, lidas pela primeira vez, apenas despertam a nossa curiosidade. Mais tarde, num outro contexto, adquirem um valor ou significados inesperados e mais densos. Estou a referir-me ao “Ti José Pascoal”, personagem do livro Raiz Comovida, de Cristóvão de Aguiar, o qual, após cada refeição, na sua acção de graças incluía sempre: mais um e menos um.

Não olheis ao tom aparentemente mórbido ou pessimista desta citação. Prosaica, pura e simplesmente: é a vida.

Numa interpretação mais profunda e dedutiva, será o nosso contínuo desfiar, mesmo quando qualquer destes actos é o primeiro da nossa vida. Plagiando outros de uma maneira aproximada, deixemos que a vida calma e placidamente se cumpra.

O porquê desta litania? A entrar no clube dos setenta anos, um percurso já longo numa tão curta vida, nada como a escrita permite tão grata função catártica. No meio de tanto desengano e frustrações, ter estado algum tempo com todos e estar ainda com alguns de vós, assim como outras recordações, traz algum sossego e ponteada felicidade.

Sossegai! Não estou dando notícias inesperadas e trágicas, subitamente descobertas, não! Senti e manifesto apenas algumas saudades e, também, a necessidade de alguma fraternidade.

Se este texto for publicado e o leste, desculpa o incómodo ou aceita o meu agradecimento.

Saúde e vida longa para todos.

António Manuel Rodrigues - Coimbra

2017-03-10

alexandre gonçalves - palmela

A VERDE LITURGIA SAZONAL

 

Inevitáveis Companheiros de Navegação!

 

Chegaram finalmente as primeiras notícias certificadas de que a primavera já vem a caminho. O irascível inverno já está de partida. A primavera demitiu-o das funções que exercia. E mandou a lua a precedê-la, para anunciar os belos dias que estão para vir. O céu do sul, quando a tarde se inclina, exibe o corpo da lua, num halo de transparência e máximo esplendor. Aqui, neste "paradisíaco" Édem, já se multiplicam os sinais de mudança. Como se alguém preparasse a vinda de uma princesa lunar, herdeira de um trono de oiro e marfim. Os melros, as rolas e os grilos ensaiam os fins de tarde, com empenho e alegria. Os campos batem palmas e põem verdes laços nos rebentos recém-nascidos. Anda no ar um aroma descontrolado, onde o jasmim e o folhado da Arrábida espalham uma brancura súbita imaculada. Só pode ser ela, a princesa do tempo, non seu surpreendente retorno. Tudo envolvido num rumor de água e ondulação.

Entretanto, aqui ao lado, rente ao rio, uma tribo doutorada na indolência, com o cérebro recuado a tempos sem nome, usa a doce língua materna para nos ofender colectivamente. Temos uma janela que dá lá para dentro. Nós vemos, nós ouvimos e se quisermos até lemos. Num país que se reconciliou, que abrandou o ódio institucional, que tem este sol e este mar e este clima, esses doutores de leis perversas teimam em nos subtrair a alegria e a fala e a beleza da vida. A primavera é uma subversão das obscuras práticas políticas, que dão cobertura aos abutres, que voam baixo e às escuras sobre a frágil cidade.

Companheiros, a melhor resistência é erguer o nosso desprezo numa taça de cristal, libertando o coração dos discursos em vigor. Já não temos tempo para os ouvir. Nem sequer para os tolerar. Encarreguemo-nos da nossa idade. A tarefa não é pequena e é muito nobre. Para a geral, nós somos irrelevantes. Não merecemos qualquer notícia. Não preenchemos qualquer necessidade oficial. Já fomos substituídos, provavelmente antes de provarmos o esplendor do mundo. Mas vejamos! Temos uma primavera abundante. Temos lugares sagrados e discretos a norte, a sul, a leste e a oeste. Temos rios, montanhas, mesas envolventes e a doce amizade de origem greco-romana. Mais que tudo, ironicamente, sobra-nos tempo, nós a quem o tempo já está contado.

Tudo o que escrito foi foi-o para demonstrar que é urgente multiplicar as liturgias que a sucessão do tempo sugere. Há a sensação de que tem havido hiatos relacionais. As sensações são o que são, só isso, a nossa vontade retraída, as falsas ocupações, a descrença e o inútil pessimismo. E uma aposentação precoce dos órgãos internos e externos. Para não parecer que prego a salvação eterna, proponho que recomecemos. Assim, anuncio um convite geral para uma liturgia em Oliveira do Paraíso. Data estudada e negociada: 25 de Março. Nem longe nem demasiado perto, mas a uma distância sensata para mobilizar as almas disponíveis. Peço a todos para acreditarem na bondade deste encontro. Se o país é um jardim, quem é que já não tem forças para o atravessar?O programa será explicitado brevemente. Mas já há indicação de que ele inclui uma pequena caminhada ecológica (em regime de voluntariado), a preceder o almoço.

Acordai, companheiros! Repudiai as distracções e navegai para sul. Um dia não é grande cousa para a humanidade. Mas é um grande acontecimento para nós.

2017-03-07

Alexandre Gonçalves - Palmela

 

O MELANCÓLICO HUMOR DOS TROCOS

 

Uma das vantagens de haver algures um portátil, humilde e mudo, que eu coloco junto à lareira deste infinito inverno, era, até há pouco tempo, a esperança da última palavra de mais um dia a cair no calendário. Após o tardio jantar e algumas tarefas domésticas, que há vários dias aguardam a mão libertadora, vejo um pano preto no televisor. Lá fora o vento discute com os cães e com as casuarinas agitadas. O relógio já passou para os lados da uma e percebo então que mais um dia morreu no mar. E agora? Escrever, caminhar pela noite, pelos solavancos das sombras e gastar antecipadamente o dia seguinte? Um resto de prudência sugere alguma cautela. Resta-me folhear o computador, em leitura diagonal, ou atirar-me exausto para uma cama nupcial, onde as núpcias morreram antes de mim. A opção é evidente. Abro o toshiba, corro à pressa o g-mail e detenho-me no AAAR.

O primeiro dia foi surpresa. De vinte do um e um do dois, aquelas duas virgens do norte minhoto, destacadas militantes da salvação local, trocaram a nossa paciência por abruptas versalhadas, rindo-se em uníssono do silêncio colectivo. Que belos trocos nos deram! Nos seguintes dias, só já lia a palavra troco. Tinha que fugir, já sem riso, sem tolerância e, pior que isso, sem imaginação para entrar. Não porque não quisesse, mas por total incapacidade. Chamava por duas ou três palavras. Nem uma chegava a tempo. Aquele humor tem qualquer cousa de viral. E foi daí que virou melancolia. Uma página de ouro velho, aberta a cinquenta anos de caminhada, estava ali num desamparo absoluto, como se Deus desse nozes a quem apenas consome líquidos. Perguntei-me várias vezes: será que, depois do belíssimo número quarenta, já ninguém sente o que é um troco? Já ninguém se ofende? Não pelas referidas comerciantes, que entre si trocaram o que puderam. E aqueles que se dedicam ao ócio "intelectual", que devoram livros e se aborrecem mortalmente de já não terem obrigações? Como é que se deixa uma página daquelas, totalmente em branco? Quem se atreve a abandonar uma herança brasonada e não a protege contra os vandalismos e contra as lembranças vazias? E contra o frio que há nas noites que habitamos?

Se és médico, por que motivo não te curas? A pergunta só pode ser feita por quem abomina o trabalho e a leitura. E mesmo assim, sem mais justificações, cá estou eu a penitenciar-me com estes impropérios tempestivos. Não estive ausente. Não me entreguei aos doces prazeres do século. Pratico a vexante clausura mas não deixo por mãos alheias os meus cuidados.

Amigos e irmãos de viagem e destino! É suposto que a sabedoria ocorra com a idade. Estamos na linha da frente. Somos anciãos de direito, mas também somos gregos e latinos. É essa a nossa herança. Ninguém nos inventariou qualquer outra. Essa fortuna tem um território de expansão. É esta página em que vos lembro e vos digo que Oliveira do Paraíso pratica a esperança. E semeia aromas sazonais. E vos convida a virdes a este sul, onde corre mais vinho que mel, como convém à sabedoria. Talvez o mundo não seja habitável. Mas este sul não é mundo, não tem polícia, nem se ouvem tiros. É um lugar de erva, de sol, de água. e claro, do melhor vinho do mundo!!! 

2017-02-01

José Manuel Lamas - Navarra - Braga

             O troco não estava certo

 

      Para que se acabe ás direitas 

    Fique o amigo informado

    Que as contas foram mal feitas

    E o troco estava errado 

 

    Combustível a encher o tanque

    E motor novo sem avaria

    Não chegam para um bom arranque

    Se ao carro falta a bateria 

 

    Quando de cabelos ao vento 

    Vai à procura das suas damas

    Ó meu amigo do peito

    Que eu gosto de ter por perto

    Oiça o que lhe diz o Lamas 

    Se o pego bem a jeito 

    Eu devolvo - lhe o troco certo .

 

 

Aquele abraço 

 

                      Zé Lamas .

    

2017-01-20

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

TROCO

Ironizando os meus motes

Lamas, excelso poeta

Vem duvidar dos meus dotes

Apodando-me de velho;

É errada conclusão

E uma refinada treta

Porque velho posso estar

Mas ainda não sou relho; 

O Lamas é um brincalhão.

 

Repara bem meu amigo,

Assim como um carro antigo

Se o motor estiver bom

E for boa a gasolina

Mesmo que falhe a bobina

Vai de certeza pegar

Nem que seja de empurrão.

 

Segura-me aí, Zé Lamas

Não me tires o alento 

Nem me metas o travão,

Pois de cabelos ao vento

Vou á procura das damas

Cheio de muita animação.

 

Porque estás  aí parado 

Feito que nem um moleque

Podes  querer vir comigo

Mas tira daí a ideia

E ouve bem o que eu te digo;

Indo no meu calhambeque

E só para teu castigo

Nunca te dava boleia.

 

Ó grande Lamas amigo

Não faças jogo da onça,

Fica com este critério:

Afinado um carro antigo

Anda como fosse novo

E só ‘stará acabado

Quando ficar podre a lata

E a sua geringonça

Seja posta em cemitério

 De um monte de sucata.

 

Arcos, Janeiro 2017

 

 

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