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2014-01-09

alexandre gonçalves - palmela

VENTOS UIVANTES

 

Tenho lido com regularidade os ventos que sopram na Palmeira. É sempre louvável sacudir os espíritos, que tendencialmente adormecem no conforto das rotinas. É indiscutível o mérito do Aventino, ao confrontar-nos com a nossa vida contentinha, mais dada ao elogio que à reflexão. De resto, herdámos duma educação uniformizante e acrítica hábitos que perduram. Nós somos bons em "coisas de Nosso Senhor". Mas a vida passou-nos quase sempre ao lado. E a Palmeira é muitas vezes um espelho dessa ausência. Assim sendo, saúdo este vento oblíquo que provocou já longos arrazoados e testou a vitalidade que ainda se respira a bordo.

Vou rerferir-me apenas a dois pontos que julgo merecerem particular atenção. Até porque o debate já vai longo, revelando já algum cansaço e não poucas repetições.

1. O Corpo da Palmeira

Já me pronunciei a este respeito na última edição. O grupo coordenador talvez não faça perfeito mas faz. Há ali tempo acumulado, há ali conhecimentos técnicos, há ali um gosto, uma estética, um brio. Também não é pelo nome que alguma coisa vai mudar. Dificilmente se encontraria outro que suscitasse mais acordo do que este. Este "boletim" nasceu palmeira e pameira ficaria mesmo que outro nome lhe chamássemos. Quanto a cores e tamanho, ela exprime uma certa dimensão interior, que é o tamanho destes sócios e não outros. Está adequada à finalidade que a justificou. E cumpriu até agora as expectativas que lhe foram sendo atribuídas. Um "panfleto do EL Corte"? As palavras tentam mas nem sempre são justas. Ali não se vende nada, nem a cor comercial está ao alcance de quem apenas constrói uma ponte para todos, em querendo, podermos passar. Financiamento? Claro, o que resulta das quotas e da imaginação. Exclusivamente. Os AAARES podem mais e melhor. Podem? 

2. A Alma da Palmeira.

A Palmeira é um espelho quebrado. Em cada fragmento vê-se o rosto de quem escreve. A soma dos diversos fragmentos dará um  final feliz? Essa questão pode colocar-se em quaisquer publicações de grande impacto editorial. A Palmeira tem a qualidade espiritual dos seus colaboradores. Será apenas "suficiente"? Será elevada? "Tem um odor a padre, à Igreja, à religião"? Estou inclinado a dizer que sim e que isso é factor de separação. A alma da revista é bastante doente. Ela traz de volta um tempo e uma pedagogia que não formava homens livres. Convém não esquecer as três virtudes que marcavam o crescimento. Não eram as teologais, com certeza. Estas eram miragens distantes e abstratas. As que mordiam o corpo e alma, as que efectivamente atrapalharam as forças interiores daquela idade, eram a cega obediência (pedagogia dogmática), a obscura castidade e a humilhante pobreza. A instituição formava homens ou amestrava cavalos? Um dia todos temos de nos pôr em questão, de filtrar esse passado e ver o que dele realmente é aproveitável. A passividade é a nossa herança. A Palmeira revela muitas vezes resíduos clericais, tiques nervosos de uma vaga crença em entidades que decidem o nosso destino. A escrita, esta oportunidade de assumir as consequências, não do que dizemos, mas do que escrevemos, exige trabalho, generosidade, utopia. Se nos libertarmos das teias de aranha que povoaram o tempo da nossa formação, então a alma da Palmeira cumprirá o papel que lhe atribuímos: exprimir-nos criativamente. E a nossa diferença, aquela que trazemos na vontade e nos valores, na inteligência e na cultura, dará um rosto novo à revista, que não se confundirá com o lixo que entra pela caixa do correio. Não é preciso mais nada. Basta trabalhar. 

2014-01-08

José Manuel Lamas - Navarra - Braga

A nossa palmeira é bela

E pode vir a ser secular

Mas se não cuidarmos dela

Corre o perigo de secar.

Aquele abraço.

Zé Lamas

2014-01-07

A. Martins Ribeiro - Terras de Valdevez

Anda por este sítio um chinfrim danado sobre a “PALMEIRA” mas eu fiz de conta que tal assunto não era nada comigo nem me dizia respeito. Claro, comigo podia não ser mas, pensando bem, respeito dizia-me … e muito. Confio sempre nas capacidades dos outros, dos meus amigos e companheiros e, por isso, aceito de bom grado e até com reconhecimento todo o trabalho que têm vindo a produzir. De qualquer forma, não vou deitar achas para a fogueira da estrutura da revista porque, para mim, feita duma maneira ou doutra, vestida de chita, de pano cru ou de seda, ela será sempre linda. É como uma mulher: quando ela é boazona não interessa o modo como se aproxima de nós. Era, pois, para não intervir neste assunto mas, depois de ler a última postagem do nosso Castro resolvi aparecer, até porque me senti um pouco encostado á parede no que toca ao financiamento da publicação. Eu sou daqueles que, ainda assim, posso muito bem pagar e não tenho intenção de seguir o conselho da conhecida canção - “… chamem a polícia que eu não pago”: pelo contrário, posso dizer, “eu pago, sim, e por isso não vale a pena chamar a polícia”. Infelizmente os tempos, como sabemos, estão maus e, mais que nunca, se torna necessário fazer uma boa gestão das nossas possibilidades o que eu, apesar de tudo, sempre fiz durante toda a vida, tendo acertado já o pagamento da PALMEIRA e de outros calotes (reconheço) com o Assis, digníssimo e muito abalizado tesoureiro da nossa “confraria”. Garanto-vos que não vai passar deste mês sem que tudo fique arrumado. Apenas peço respeitosamente ao amigo Samuel Beckett que espere um pouco pelo seu Godot. Só neste caso, pois no que toca a outras situações nunca esperei por Godot nenhum nem por ninguém, nem nunca quis saber de Godot para nada. O seu, a seu tempo! É inegável que todos devemos contribuir para o sustento dessa “Dama” e entendo que não ficaremos mais pobres com isso.

Estou absolutamente de acordo com o Castro na sua apreciação á passagem de todos nós pelo Seminário; é igualmente o meu conceito irremovível. Também comi o que pude e quando pude, muito ou pouco, com calma ou a correr mas, como aconteceu com Maria, fiquei, isso sim, com a “melhor parte” a qual nunca ninguém me tirou: a formação e os valores. Hoje, na verdade, a grande maioria da juventude que por aí vegeta não sabe mesmo o que é o amor, o sexo, a mulher; nem faz  sequer a mínima ideia da beleza e da epopeia que isso representa: ou representava nessa altura. Consistia em fabulosas aventuras que nos atraíam pelo seu mistério e pelo perfume que deixavam. Quer-me parecer até que o verdadeiro romantismo morreu com alguns de nós desse tempo.

Resumindo: acho que a nossa PALMEIRA deve aparecer duma forma ou doutra, com simplicidade ou erudição, com pintura ou sem pintura, com alguns erros ou sem erros. 

Mudando de assunto e aproveitando o ensejo quero pedir aos meus amigos, sobretudo àqueles que são ferrenhos nestas andanças, que comeceis a pensar na “segunda” de Monção para eu poder tratar dos respectivos prolegómenos. Aventou-se que a melhor ocasião seria o dia 18 deste mês (o Peinado que me desculpe e não me bata) mas estas coisas têm que ser programadas com alguma calma e entendi que, antes de mexer em nada, tinha que reunir dados concretos: porque quero saber com quem posso contar. Ide, pois, transmitindo a vossa disponibilidade. Fico á espera. 

Abraço!

2014-01-06

José de Castro - Penafiel

MAS EU NÃO FICO À ESPERA DE GODOT!

Ante de mais quero penitenciar-me pelo esforço a que obriguei os meus Amigos, em virtude do formato que escolhi para a página anterior que esvrevi.

Disse que voltaria e aqui estou. Não ficarei à espera de Godot.

Sobre o assunto que aqui me trouxe (continuação), "nem jus nem mus"... mas isso não é motivo pera esmurecer. Pelo contrário! A PALMEIRA está viva, assim como o que ela representa para nós e por isso há que chamar o tema à colação, mesmo que possa parecer incómodo ou de difícil abordagem. Antes de mais e sem peias, devo dizer que o Aventino atirou o assunto da PALMEIRA e em boa hora o fez. Fez críticas que como não poderia deixar de ser, foram muito bem recebidas e escalpelizadas com maestria pelo Arsénio. No essencial a resposta do Arsénio respondeu a tudo.

Mas não há ainda respostas para aquele saldo negativo. O Peinado, homem de contas e delas à moda do Porto, de imediato levantou a lebre mas ela não parou de correr e nada mais foi dito. Claro que da tal Comissão não queria eu fazer parte... Já para conseguir algum tipo de apoio para quem dele verdadeiramente carece como seja matar a fome a um ser humano, ou tomamos a iniciativa e fazemos, ou se ficamos pelas boas intenções bem o desgraçado morre à espera de Godot, quanto mais se se trata de encontrar financiamento para uma publicação que em regra é dirigida a quem felizmente não tem fome.

QUEM PODE PAGAR, DEVE PAGAR!

Nós não sabemos quem pode pagar mas não será dificil presumir quem não pode pagar... Já é um passo. Esses são na minha maneira de ver, os primeiros destinatários da nossa PALMEIRA. Não que atraves dela se pretenda doutrinar quem quer que seja. Qualquer abordagem que tenha essa pretenção, pessalmente, estou sempre em desacordo, porque me parece mal pregar seja que doutrina for. Todos nós estamos doutrinados e se não estamos também será tarde para doutrinas. Mas, falar das nossas coisas, seja em português jornalístico como gosto eu, ou em escrita criativa como felizmente muitas vezes somos brindados por outros, é sempre tema que a todos cativa. É a matriz que todos trouxemos. Ex.:

Muitos de nós falam dos traumas que os marcaram à saída do seminário porque a mulher era diabolizada e tiveram sérias dificuldades em aproximar-se do sexo oposto. Pois meus Caros; A minha dificuldade foi ter ficado no sexto ano num colégio interno só para rapazes que ainda hoje se mantém em actividade, mas mesmo assim com dezasseis anos perdi a virgindade... Comi quanto pude mas as balizas eram muito pequenas. Não digo que o seminário não me tenha marcado porque me marcou para a vida. Ali me foram transmitidos princípios e valores pelos quais ainda hoje me norteio e que tento transmitir às novas gerações porque são cada vez mais raros. Dali aos dezoito anos saíam Homens. Hoje, com muita pena minha, aos dezoito anos e excluídas as matérias de sexo (porque já nascem ensinados), os nossos jovens ainda andam de babeiro para as questões sérias da vida. Se os pais os deixam sós, morrem de fome!

E tu? Como foi? Ficaste à espera de Godot?

2014-01-04

Assis - Folgosa

"...esse ser maravilhoso que se chama Orandino..."

Era ele, em 1954, o decano do seminário. O maior e o mais sério entre todos, mas sempre deixando escapar do rosto um leve sorriso. Todos os domingos, pela manhã, era o Orandino quem lia o regulamento do juvenista. "Água mole em pedra dura tanto dá até que fura"...foi esta a frase que mais martelou em meus ouvidos naquele tempo em que o "maravilhoso Orandino" se encontrou entre nós.Talvez a única que não mais me deixou... Mas, um dia, a notícia percorreu os corredores e as salas do seminário e chegou mesmo ao bosque "o Orandino foi-se embora, deixou o seminário". Quem podia acreditar? Para nós, os do 1º ano, era impossível que isso pudesse ter acontecido. Se ele foi, quem se poderia salvar? Creio ter visto lágrimas nos olhos de alguns amigos. Dos olhos do seu irmão Zeca, vi-as cair seguramente. O Orandino foi-se de vez, mas deixou-nos como herança um sorriso da paz que sempre o acompanhava... Ontem, soube pela boca do seu irmão Bernardino que o Orandino, que há meses foi sujeito a  uma intervenção cirúrgica ao coração, se encontra em franca recuperação.

Como o Orandino, outros colegas nossos foram intervenciona- dos, recauxutados, como algum disse. Um deles o Izildo Amaral, um aluno do nosso curso, associado da AAAR com quem esperamos encontrar-nos, ainda esta tarde, o Freitas Escaleira e eu próprio. - Quase todos nos encontramos já na fase da recauxutagem mas continuamos a ser "aqules seres maravilhosos que passámos pela Barrosa". Maravilhosos porque uma amizade desinteressada e sem fronteiras nos continuará a unir ao longo do corrente.

 

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